terça-feira, 4 de agosto de 2009

A 4ª IGREJA DO APOCALIPSE

A Carta que temos diante de nós fala de uma cidade que dista de Pérgamo cerca de 45kms. Tiatira é de longe a mais insignificante entre as 7 cidades. Plínio qualificou-a de “cidade medíocre”. No entanto, é ela que recebe o mais inflamado e o maior discurso. Poucos elogios (Ap. 2:19), uma evidente preocupação ressalta no texto que lhe é dirigido (Ap. 2:18-28):
18 Ao anjo da igreja em Tiatira escreve: Isto diz o Filho de Deus, que tem os olhos como chama de fogo, e os pés semelhantes a latão reluzente:
19 Conheço as tuas obras, e o teu amor, e a tua fé, e o teu serviço, e a tua perseverança, e sei que as tuas últimas obras são mais numerosas que as primeiras.
20 Mas tenho contra ti que toleras a mulher Jezabel, que se diz profetisa; ela ensina e seduz os meus servos a se prostituírem e a comerem das coisas sacrificadas a ídolos;
21 e dei-lhe tempo para que se arrependesse; e ela não quer arrepender-se da sua prostituição.
22 Eis que a lanço num leito de dores, e numa grande tribulação os que cometem adultério com ela, se não se arrependerem das obras dela;
23 e ferirei de morte a seus filhos, e todas as igrejas saberão que eu sou aquele que esquadrinha os rins e os corações; e darei a cada um de vós segundo as suas obras.
24 Digo-vos, porém, a vós os demais que estão em Tiatira, a todos quantos não têm esta doutrina, e não conhecem as chamadas profundezas de Satanás, que outra carga vos não porei;
25 mas o que tendes, retende-o até que eu venha.
26 Ao que vencer, e ao que guardar as minhas obras até o fim, eu lhe darei autoridade sobre as nações,
27 e com vara de ferro as regerá, quebrando-as do modo como são quebrados os vasos do oleiro, assim como eu recebi autoridade de meu Pai;
28 também lhe darei a estrela da manhã.

Enquanto as primeiras Igrejas tinham mantido ainda uma certa distância do mal, aqui – e já a começar em Pérgamo – uma tendência é evidenciada: o mal reside com tendência a piorar, toma o seu assento dentro da própria Igreja. Na Igreja de Pérgamo, a apostasia foi representada sob os traços do profeta apóstata, Balaão, cuja a influencia exercia-se a partir do exterior.
Em Tiatira, a apostasia reina. Os traços aqui realçados são comparados com a rainha Jezabel (Ap. 2:20), esposa do rei Acabe. Jezabel é de origem fenícia filha “de Etbaal, rei dos sidónios, e foi e serviu a Baal,” ((1ª Reis 16:31) que segundo a tradição, era sacerdote do culto de Baal e de Astarote (ver F.Josefo, VII, XIII.2.) A Bíblia traz à memória a má influência que ela exerceu sobre o rei de Israel e arrasta o povo ao culto pagão. À sua mesa sentavam-se quatrocentos e cinquenta profetas do deus cananeu. Ela distinguia-se pelo seu zelo contra Elias o profeta e contra todos os que ousassem permanecer fiéis a YHWH. A sua influência transborda para os reinos dos seus filhos e filha, a famosa Atalia (2ª Reis 8:18,26; 10:11).
O esboço que é apresentado de Jezabel revela o carácter da nova Igreja. Agora, a apostasia é oficial e tem assento no trono; confunde-se o poder do Estado com o poder da Igreja. É o tempo em que a Igreja se funda como instituição politica e exerce poder de carácter real (século VIº). Não é por acaso que a cidade de Tiatira é justamente reconhecida pela sua tinta de púrpura, cor da realeza (1 Macabeus 8:14; Homero, Ilíada, 4.141-145,) e sacerdotal (Êxodo 25:4; 28:5,6; 39:29; F.Josefo, Guerras, 5.5:4). Lembremo-nos de Lídia de Tiatira, que ganhava a sua vida no comércio da púrpura (Actos 16:14,15,40).
Mas Tiatira é também a cidade dedicada ao culto a Tyrimnos (deus do sol), que se tornou o deus do culto do Imperador romano. E para juntar a toda esta surpreendente amálgama o remetente da Carta a Tiatira apresenta-se como um personagem do qual flui majestade, os seus olhos “de fogo”, “os pés semelhantes a latão reluzente”, como a demonstrar que na Sua presença o deus sol de Tiatira é pálido, sem brilho.
É um aviso sério. Um aviso que toca a todos os crentes. “Todas as Igrejas” (Ap. 2.23) são interpeladas por esta Carta. Porque a tentação atinge todos. Frequentemente o que e chamado a ser testemunha de Deus esquece Deus e age como se fosse deus. É um risco para a religião assim como o foi para cada profeta. A Tradição, a Instituição tomam lugar de relevância para o qual não foram investidas. Toda a testemunha de Deus corre o risco de pretender o lugar que pertence unicamente a Deus. E cada vez que esse lugar é tomado, solda-se pela intolerância e os massacres. O regime de Jezabel é particularmente caracterizado pela perseguição e os massacres contra os fiéis de YHWH. É a viagem que faz Tiatira, a Igreja/Instituição da Idade Média, que se instala oficialmente em 538, quando a última ameaça ariana foi eliminada, e termina em 1563 com o Concílio de Trento.
A Inquisição, as Cruzadas, os carrascos: nunca na história da humanidade a intolerância religiosa terá sido tão feroz e tão longa. É compreensível a cólera de Deus e o anúncio de julgamento, “uma grande tribulação” (Ap. 2:22). A Igreja pagará caro a sua intolerância. A este assunto voltaremos.
Devemos realçar que não são os homens e mulheres de Tiatira na qualidade de pessoas que são visadas nesta Carta: é a Igreja que está no poder, a Igreja como instituição usurpadora de Deus. Dentro de Tiatira, há homens e mulheres que permanecem fiéis. Muitos “não conhecem as chamadas profundezas de Satanás” (Ap. 2:24). Trata-se de uma expressão idiomática que está decalcada sobre o seu contrário “as profundezas de Deus.” Tal como está exarado em 1ª Coríntios 2:10 para caracterizar aqueles que fundamentam a sua fidelidade no Espírito do Alto antes que sobre “a sabedoria dos homens” (1ª Cor. 2:5). Como no tempo de Jezabel, houve os que “não dobraram os joelhos a Baal,” (1ª Reis 19:18) e permaneceram fiéis ao Espírito de Deus.
A Carta reconhece estas excepções e exalta-as com profunda ternura. É no entanto uma Igreja paradoxal, ela é considerada a mais virtuosa. Quatro qualidades lhe são atribuídas: o amor, a fé, o fiel serviço e a perseverança (Ap. 2:19).
É a Igreja de são Francisco de Assis, de são Luís, foram eles entre tantos que fundaram escolas, os primeiros hospitais e as primeiras universidades. É também e sobretudo a época dos primeiros apelos à Reforma e ao arrependimento. É bom pensar em Pedro Valdo (1140-1217) na Itália, em John Wyclif (1320-1384) na Inglaterra, em João Hus (1369-1415) na Boémia. Temos que pensar em Lutero (1483-1546) na Alemanha. Todos estes homens e os seus movimentos foram contra a corrente plenos de coragem: “…mas o que tendes, retende-o até que eu venha.” (Ap. 2:25).
Porque, não é fácil de manter-se de pé no meio da multidão que empurra para diante. Não é fácil pensar e amar num tempo de obscurantismo e intolerância. A única consolação, nessas circunstâncias, é a esperança, a confiança que em breve as trevas se dissiparão. É esta a mensagem contida na promessa da “estrela da manhã” (Ap. 2:28), a última estrela da noite que assinala a iminência do amanhecer.
Comprometa-se com Deus, a vinda de Jesus para dar o galardão da eternidade é iminente. O Senhor Jesus o/a abençoe.

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