sábado, 29 de maio de 2010

O REI GLORIFICA O NOME DO SENHOR

"12 Depois se foram à presença do rei e lhe perguntaram no tocante ao interdito real: Porventura não assinaste um interdito pelo qual todo homem que fizesse uma petição a qualquer deus, ou a qualquer homem por espaço de trinta dias, exceto a ti, ó rei, fosse lançado na cova dos leões? Respondeu o rei, e disse: Esta palavra é certa, conforme a lei dos medos e dos persas, que não se pode revogar.


13 Então responderam ao rei, dizendo-lhe Esse Daniel, que é dos exilados de Judá, e não tem feito caso de ti, ó rei, nem do interdito que assinaste; antes três vezes por dia faz a sua oração.

14 Ouvindo então o rei a notícia, ficou muito penalizado, e a favor de Daniel propôs dentro do seu coração livrá-lo; e até o pôr do sol trabalhou para o salvar.

15 Nisso aqueles homens foram juntos ao rei, e lhe disseram: Sabe, ó rei, que é lei dos medos e persas que nenhum interdito ou decreto que o rei estabelecer, se pode mudar.

16 Então o rei deu ordem, e trouxeram Daniel, e o lançaram na cova dos leões. Ora, disse o rei a Daniel: O teu Deus, a quem tu continuamente serves, ele te livrará.

17 E uma pedra foi trazida e posta sobre a boca da cova; e o rei a selou com o seu anel e com o anel dos seus grandes, para que no tocante a Daniel nada se mudasse:

18 Depois o rei se dirigiu para o seu palácio, e passou a noite em jejum; e não foram trazidos à sua presença instrumentos de música, e fugiu dele o sono.

19 Então o rei se levantou ao romper do dia, e foi com pressa à cova dos leões.

20 E, chegando-se à cova, chamou por Daniel com voz triste; e disse o rei a Daniel: Ó Daniel, servo do Deus vivo, dar-se-ia o caso que o teu Deus, a quem tu continuamente serves, tenha podido livrar-te dos leões?

21 Então Daniel falou ao rei: Ó rei, vive para sempre.

22 O meu Deus enviou o seu anjo, e fechou a boca dos leões, e eles não me fizeram mal algum; porque foi achada em mim inocência diante dele; e também diante de ti, ó rei, não tenho cometido delito algum." Daniel 6:12-22

De seguida, o rei glorifica o nome do Senhor, ordenando que O temam, visto que Ele é o Deus vivo, por oposição aos ídolos mortos; que Ele subsiste eternamente, enquanto que Dário o pseudo-deus, sabe muito bem que não passa de um simples mortal. O Senhor é também o Todo-Poderoso que liberta e salva mesmo dos leões, enquanto que, ele, o rei, foi impotente para libertar o seu amigo da lei que ele mesmo tinha feito.
Após este Livramento, o Deus de Israel irá ser proclamado por toda a parte como sendo o Deus vivo, o Todo-Poderoso. E diversas vezes o nome de Deus foi proclamado pelos monarcas de Babilónia sob forma de edital: 1º - emanado por Nabucodonozor contando a história da fornalha e o Livramento dos amigos de Daniel – Daniel 3.28,29; 2º - a descrição feita pelo mesmo monarca da sua demência, cura e restabelecimento no trono – Daniel 4.36,37; 3º - agora, o testemunho de Dario, ao atribuir ao Deus vivo a salvação de Daniel e atestando que o Seu reino é eterno – Daniel 6.26,27.
É tempo de sermos como Daniel, de mostrarmos o carácter de um verdadeiro cristão, aquele que, na realidade, um dia, nasceu de novo. É tempo de sermos o que dizemos ser e de nos mantermos no quanto experimentámos, um dia, na nossa vida – novo nascimento – cf. João 3.3.
Aflorámos acima que o comportamento de Daniel – v. 4,5 – era o reflexo do que, verdadeiramente, significa - nasceu de novo, em espírito e em verdade. Na realidade, que significado tem para cada um de nós, quando dizemos que somos cristãos? Na verdade, para o ser humano, poderá ter vários significados mais ou menos matizados. Mas, nas Sagradas Escrituras o significado da palavra cristão é um só, o ser, em Cristo - “uma nova criatura” - II Coríntios 5.17.
Assim, à luz do texto bíblico, todo aquele que está em Cristo é uma nova criatura e, nesta conformidade, tudo na sua vida foi renovado! É, de certa forma, um mundo novo no qual está inserido. O Espírito de Cristo tornou-se o princípio, a razão de ser da sua vida, visto que o ser humano do antigamente, sob as suas diferentes facetas da vida, desapareceu totalmente – Efésios 4.22-44. Sim, ser uma “nova criatura” encontra-se, imperiosamente, situada a dois níveis: 1- no tempo, isto é, agora; 2– no espaço, ou seja, aqui. Não como existe no subconsciente de muitos, ou seja, no indefinido, incerto e inexistente amanhã. Esta noção temporal utópica – o amanhã – repetimos, só existe na mente do ser humano, em mais lado nenhum! Tudo se decide no hoje e não no amanhã, porque o convite de Deus a todas as Suas criaturas é - Hoje, se ouvirdes a sua voz, não endureçais os vossos corações” – Hebreus 4.7
O apóstolo Paulo ao referir-se ao tema da “nova criatura”, acentua o condicional, ao escrever: - “Se alguém está em Cristo”! Tudo depende daquele que diz aceitar, não de Deus! Pois se este alguém está mesmo em Cristo, então é - aqui e agora - sim, na realidade e em plenitude, uma nova criatura; não poderá vir a sê-lo no amanhã – pois, como já vimos, esta noção temporal, simplesmente, não existe!
Daniel, como aderente sincero e verdadeiro conhecedor de Deus não poderia ter, em abono da verdade, outra atitude, outra postura; pois nesta fase de caminhada com Deus, já não se vive para nós mesmos, mas dá-se uma transformação, uma espécie de metamorfose em cada um de nós – o que S. Paulo expressa. Magistralmente, por estas palavras: - “já não vivo mais eu, mas Cristo vive em mim” – Gálatas 2.20. O que, dito por outras palavras: - ou se é ou não! Não existem meios cristãos!
Por esta razão o capítulo 6º de Daniel nos mostra três tipos de homens colocados na presença do Deus vivo: 1- o incrédulo – como os inimigos de Daniel, que não vive, senão para esta terra e que recebe o castigo que merece pela sua maldade; 2- o ignorante – tal como Dário, que é sensível à verdade e que acaba por dar glória a Deus; 3- o crente – como Daniel, submisso a uma severa prova mas que dela sai muito maior, mais forte e mais inabalável.
Sim, quem quer que nós sejamos, nós fazemos parte de uma destas três categorias. Todos corremos o risco de sermos lançados, como o profeta, numa cova de leões, represente esta o que representar. Tudo isto é necessário ao desenvolvimento e fortalecimento da nossa fé, no sentido que acima já referimos – Tiago 1.2-4; I Pedro 1.6,7.
Que assim seja.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

OS DIFERENTES ANIMAIS DA PROFECIA DE DANIEL

1 No primeiro ano de Belsazar, rei de Babilônia, teve Daniel, na sua cama, um sonho e visões da sua cabeça. Então escreveu o sonho, e relatou a suma das coisas.
2 Falou Daniel, e disse: Eu estava olhando, numa visão noturna, e eis que os quatro ventos do céu agitavam o Mar Grande.
3 E quatro grandes animais, diferentes uns dos outros, subiam do mar.
4 O primeiro era como leão, e tinha asas de águia; enquanto eu olhava, foram-lhe arrancadas as asas, e foi levantado da terra, e posto em dois pés como um homem; e foi-lhe dado um coração de homem.
5 Continuei olhando, e eis aqui o segundo animal, semelhante a um urso, o qual se levantou de um lado, tendo na boca três costelas entre os seus dentes; e foi-lhe dito assim: Levanta-te, devora muita carne.
6 Depois disto, continuei olhando, e eis aqui outro, semelhante a um leopardo, e tinha nas costas quatro asas de ave; tinha também este animal quatro cabeças; e foi-lhe dado domínio.
7 Depois disto, eu continuava olhando, em visões noturnas, e eis aqui o quarto animal, terrível e espantoso, e muito forte, o qual tinha grandes dentes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços, e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele, e tinha dez chifres.
8 Eu considerava os chifres, e eis que entre eles subiu outro chifre, pequeno, diante do qual três dos primeiros chifres foram arrancados; e eis que neste chifre havia olhos, como os de homem, e uma boca que falava grandes coisas." Daniel 7:1-8
O texto continua a fornecer alguns elementos que visam uma maior e melhor compreensão do que se seguirá, referindo que: - “quatro animais grandes, diferentes uns dos outros, subiam do mar” – v. 3. Mas, qual o significado destes “animais”, o que é que eles representam? O profeta revela-nos que “são quatro reis que se levantarão da terra” – v. 17.
Portanto, estes animais são “diferentes uns dos outros”, isto quer dizer que cada um tem um corpo próprio que o distingue dos demais. Na realidade histórica, cada monarquia universal tem o seu próprio território.

1) O leão (605 a. C. a 539 a. C.)
O primeiro animal do texto bíblico é caracterizado da seguinte maneira – “um leão que tinha asas de águia (…) que lhe foram arrancadas (…); foi levantado da terra e posto em pé como um homem e foi-lhe dado um coração de homem” – v. 4
A imagem do leão é símbolo de força, pois é o rei dos animais – Provérbios 30.30. A representação de Babilónia por este animal era familiar ao profeta Jeremias: - 49.19; 50.43,44. Este animal tinha asas de águia, a rainha das aves, a qual ilustra a rapidez das conquistas dos babilónios sob Nabucodonozor – Habacuque 1.6-8.
Depois, as asas foram arrancadas, denunciando que tanto a audácia como o espírito de conquista desapareceriam. Na realidade, a sucessão rápida dos soberanos em Babilónia muito contribuiu para o enfraquecimento e desaparecimento de tal esplendor.
Um outro pormenor é acrescentado “foi levantado da terra e posto em pé como um homem e foi-lhe dado um coração de homem”. Estes elementos trazem à recordação os acontecimentos descritos no capítulo 4.16,34-36. A posição vertical aqui anunciada ilustra a disponibilidade para receber a mensagem vinda de Deus – a dimensão religiosa do monarca. Todos estes elementos identificavam plenamente este primeiro animal como sendo Babilónia.

2) O urso (539 a. C. a 331 a. C.)
“o qual se levantou de um lado, tendo na sua boca três costelas entre os dentes” – v. 5. Este animal simboliza o império Medo-Persa. O crescimento do reino dos Medos foi interrompido pelas tribos Persas. Mais tarde sob a chefia de Ciro, o Persa, a Média é absorvida, fazendo parte do império dos Persas. O facto deste animal ter-se levantado de um lado, revela a preponderância da influência Persa sobre a Média, apesar de estarem ligados entre si. Para reforçar a atitude de poder da Pérsia sobre a Média, contrariando o que até recentemente acontecera, historicamente falando, no livro da rainha Ester encontramos uma alusão a esta mesma subordinação de poder, ou seja, Pérsia e Média e não o contrário – Ester 1.3!
Este animal é forte e brutal, representando a crueldade conhecida dos Persas. A alusão a estas costelas é uma referência às potências esmagadas pelo animal, a saber: Babilónia, Lídia e Egipto.

3) O leopardo (331 a. C. a 146 a. C)
“e tinha quatro asas de ave nas suas costas; tinha também quatro cabeças e foi-lhe dado domínio” – v. 6. A figura deste animal é utilizada para indicar rapidez – cf. Habacuque 1.8. Babilónia, para demonstrar esta mesma rapidez de conquista, o animal que a representava tinha, como vimos, asas (duas) de águia – v. 4. Neste símbolo, quatro asas, querem mostrar ao leitor a excepcional celeridade das conquistas efectuadas pelo símbolo deste animal – a Grécia – na pessoa de Alexandre Magno. Devido a esta particularidade, alguns historiadores apelidam Alexandre, o Grande, de “o raio de guerra”. Este grande conquistador irá morrer prematuramente. Para ilustrar esta curta e episódica existência desta excepcional máquina de guerra, é-nos dito que “a sua curta vida passara-se totalmente em campanhas”.
Como já vimos anteriormente, trata-se do mesmo poder, foi dito que “o terceiro reino terá domínio sobre toda a terra” – Daniel 2.32,39. Na realidade, o domínio é completo, universal, pois não se limitou, como os outros, ao aspecto meramente político-geográfico, mas também cultural; na realidade a Grécia marcou o panorama cultural da sua época, como influenciou as civilizações vindouras como se poderá apreciar nesta declaração: - “(…) as influências – na religião, na filosofia, no teatro e na historiografia – tornaram-se tão fortes que foram protestadas com veemência. A conquista gradual do mundo helenístico inundou Roma. (…) Em muitas áreas é impossível discutir as ideias romanas separadas dos seus modelos ou inspiração gregos”.
A alusão às “quatro cabeças” do animal indica a partilha do império grego entre os quatro generais de Alexandre, visto que, devido à morte prematura deste, não deixou sucessor. Assim ficou repartido o vasto império de Alexandre: 1- Cassandro, ficou com a Macedónia; 2- Ptolomeu, apoderou-se do Egipto; 3- Lisímaco, ficou com a Trácia; 4- Seleuco, com a Síria.

4) O estranho animal (de 146 a. C….)
“(…) terrível, espantoso e muito forte, o qual tinha dentes grandes de ferro; ele devorava e fazia em pedaços e pisava aos pés o que sobejava; era diferente de todos os animais que apareceram antes dele e tinha dez pontas (chifres)” – v. 7. O profeta Daniel mostra um particular interesse em saber: 1- “a verdade a respeito do quarto animal”; 2- acerca “das dez pontas (chifres) que tinha na cabeça”; 3- finalmente, “da outra (ponta, chifre) que subia, de diante da qual caíram três, e que tinha olhos e uma boca que falava grandiosamente (v. 8)” – v. 19,20. Vejamos cada uma destas vertentes que intrigam o profeta:
a) - Paralelamente ao que vimos no cap. 2, o mesmo metal encontra-se neste animal, pois tem dentes de ferro. Aqui, ao contrário da descrição da estátua – cap. 2 - esta mesma entidade – império romano - é apresentada com mais detalhe.
Este animal apresenta um conjunto de características que o tornam, segundo o texto, “diferente de todos os animais que apareceram antes dele”. Pois, quanto a nós, este animal apresenta, efectivamente, duas fases distintas, as quais o tornam diferente dos demais: 1- os diferentes animais que o precederam eram monarquias, enquanto que Roma era uma república. Estas diferenças incidiam na sua Constituição, leis, vida económica e política; 2- E, de tal forma assim é, que não foi possível encontrar em toda a fauna conhecida, um animal que o pudesse simbolicamente representar! Este pormenor sugere, efectivamente, algo de inesperado e incompreensível, mesmo para a mente humana mais brilhante. A não correspondência animal, manifesta, por si só, o quanto é misteriosa, incompreensível e estranha a sua existência. Dito isto por outras palavras: - além de ser um reino político, tem uma outra vertente que o torna diferente – a religiosa.
b) - Este animal, segundo o texto tem “dez pontas (chifres)”. Qual será o seu significado? O relato bíblico revela que estas pontas (chifres) representam: - “reis” – v. 24a. Assim, estes dez chifres (reis) ganham expressão no seio do império romano, ou seja, a ascensão dos povos bárbaros que conquistaram parte do território pertencente ao império romano, desmembrando-o. Estes povos que habitavam fora dos limites do império, destruíram as fronteiras e deram origem, por sua vez, a uma dezena de reinos, a saber: Visigodos, Ostrogodos, Hérulos, Francos, Borguinhões, Suevos, Alamanos, Vândalos, Anglo-Saxões, Lombardos.
c) – Este animal representa Roma sob três aspectos importantes, dos quais já abordámos o 1º e o 2º, a saber: 1- Roma pagã (imperadores); 2- Roma subdividida, visto dela saírem dez chifres; 3- A passagem da Roma pagã à Roma cristã.
Vejamos esta última: - a passagem está claramente identificada no texto bíblico, visto que uma “ponta (chifre) pequena” sairia de entre as dez pontas (chifres) já existentes – cf. v. 8,23,24.

domingo, 23 de maio de 2010

O CRESCIMENTO GRADUAL DO CHIFRE PEQUENO

Este, indiscutivelmente, apresenta algumas características que o torna único em relação aos demais: 1- A sua natureza: - é declarado que seria uma potência temporal – porque era uma ponta (chifre), tal como os demais; era também uma potência espiritual – porque era diferente das primeiras, visto ter “olhos e uma boca que falava grandiosamente”.
2- A sua situação geográfica – este chifre, como vimos, não representa um poder vindo do exterior ao grupo constituído pelos dez reinos resultantes do desmembramento do império romano do Ocidente e ao qual se tenha unido. Este é parte integrante destes.
3- O seu humilde começo – o texto bíblico refere que este surge de entre os dez chifres (v. 8). Socorramo-nos da História para percebermos o que se passou:
- No seu início, o chifre pequeno foi alvo da autoridade imperial e, ao longo da sua história, podemos ver algumas das suas fases:
a) do ano 90 a 140 – período dos Pais Apostólicos. Perseguições sob o imperador Trajano (98-117).
b) do ano 140 a 180 – período dos primeiros Apologetas (Justino e os Judeus gnósticos). Perseguição sob o imperador Marco Aurélio (161-180).
c) do ano 180 a 220 – período dos contra o gnosticismo. Reacção herética: Montanismo, Tertuliano. Reacção ortodoxa: Ireneu. Escola catequética. Clemente de Alexandria. Perseguições sob o imperador Septímio Severo (193-211).
d) do ano 220 a 270 – período de reforço da autoridade clerical. Hipólito, Orígenes, Cipriano. Controvérsia antitrinitária. Perseguições sob o imperador Décio (249-251).
e) do ano 270 a 300 – período de paz
f) do ano 300 a 313 – perseguição sob Diocleciano (284-305).
A passagem do I século foi de capital importância para a história cristã. Todos os apóstolos tinham desaparecido. Aqui e ali começava a surgir uma organização flexível e progressiva. No início do II século, a igreja primitiva parecia dividir-se em pequenos núcleos instáveis (ditas seitas) que, muitas vezes em luta uns contra os outros, estavam condenados a desaparecer.
O desenvolvimento do episcopado foi, de certa forma, uma resposta a esta ameaça. No entanto, na passagem “da organização colegial à responsabilidade episcopal, houve um tempo de flutuação, com hesitações e resistências. Certas comunidades como Jerusalém ou Alexandria possuem, desde o começo do cristianismo, o seu bispo” ; por outro lado “em Roma, a fusão entre os sucessores de Pedro e o conselho dos presbíteros da cidade, não parece que se tenha efectuado sem atritos. No tempo de Clemente, a igreja romana é dirigida ainda por um conselho presbiterial, com um presidente no topo”.
Recordemos que Clemente (88-97), segundo o cômputo da igreja romana, foi o 3º sucessor de Pedro na Sé de Roma. Este, no decorrer do seu pontificado, escreveu uma carta à comunidade cristã de Corinto, agitada por grave dissensão interna; e, acerca deste acto é dito que “ao fazê-lo, atesta a consciência do seu primado universal como sucessor de Pedro”. Mas, teria sido assim? Ao escrevê-la, em que termos, em nome de quem a escreveu? Ora, vejamo-la: - “A Igreja de Deus que peregrina em Roma, à Igreja de Deus que peregrina em Corinto (…)”. Clemente escreveu a esta igreja, não em seu nome pessoal mas em nome da igreja de Roma. Não existe aqui qualquer vislumbre da ideia de uma qualquer autoridade papal.
A discórdia entre o bispo de Roma e os cristãos da Ásia, radicados em Roma, acentua-se porque estes, fiéis à tradição da sua igreja original, continuam a celebrar a festa da Páscoa no dia 14 de Nisan, isto é, na noite de Sexta-feira para Sábado e não “na noite de Sábado para o Domingo, como os outros fiéis da cidade”. Este diferendo doutrinário aconteceu no tempo do Papa Victor I (189-199), o qual contribuirá para romper “com todas as Igrejas da Ásia menor, porque recusaram submeter-se à sua decisão quanto à contenda sobre a festa da Páscoa”.
Tudo apontava para que a igreja, situada no coração do império, gradualmente reivindicasse a primazia, em detrimento das restantes, sob a estranha nomenclatura – sucessor de Pedro! O bispo de Roma já não se sentia um com os demais colegas, um – par inter pares (par entre pares) - mas sim como um – primus inter pares (o primeiro entre pares); e, não muito tempo depois, o Papa Calisto I (218-223) irá invocar “pela primeira vez a autoridade de Pedro”.
A Igreja será atacada, pelo exterior, pela perseguição; pelo interior, por polémicas internas; no entanto, pelos seus mártires e apologetas ela sairá vencedora. É atacada, sacudida pelas heresias motivadas por este ou aquele ponto doutrinário. Mas, tal como nas perseguições, ela também sai vencedora de todos os ventos de doutrina contrários. A Igreja de Roma era a primeira e a mais populosa do império, sendo os cristãos de Roma “cerca de cinquenta mil”. A partir do imperador Constantino tudo irá ser diferente, visto este constituir um verdadeiro marco de viragem na história da Igreja de Roma.
Segundo a tradição, Constantino teria sido iluminado por uma visão na véspera da batalha da, da qual resultou a sua repentina conversão ao cristianismo. Sucede-se um período de tolerância para os cristãos, culminado pelo famoso Édito de Milão, em 313. Este Édito foi secundado pela promoção do evangelho a religião do Estado! Qual o resultado de tal amálgama? Aquele que a História da Igreja, tristemente, o demonstraria, pois “havia de vir a fundar, um dia, a ditadura do cristianismo e a teocracia papal”.
A gratidão da Igreja exaltou as virtudes e desculpou as fraquezas daquele que irá instalar o cristianismo no trono do mundo romano; a partir de agora “a salvação da gente comum era comprada por baixo preço; num só ano, doze mil homens receberam o baptismo em Roma, para além de um número correspondente de mulheres e crianças; uma veste branca, mais vinte moedas de ouro tinham sido prometidas pelo imperador a todos os convertidos”. O cristianismo, na grande cidade, estava a ganhar cada vez mais terreno Era mais do que tempo para se transitar da catacumba, da opressão e vexame públicos, para uma fase mais confortável e, de preferência, em consonância com o Poder instituído.
E os Bárbaros, o que fazer com eles? Seria necessário um programa de evangelização em larga escala ou, para que tal fosse possível, bastaria invocar o nome do imperador, um dos nossos, para que os resultados estivessem assegurados. Vejamos como a História retrata o que acabamos de referir: - “a guerra e o comércio tinham propagado o conhecimento do evangelho para lá das fronteiras das províncias romanas; e os bárbaros que tinham desdenhado uma seita humilde e proscrita, aprenderam rapidamente a estimar uma religião que fora tão recentemente adoptada pelo maior monarca e pela nação mais civilizada do globo”.
E aconteceu o milagre! A Igreja rudimentar, tida por seita, é promovida a religião oficial! O que é que guardou da pureza do seu passado, isto é, tudo o quanto estava de harmonia e de acordo com o imutável evangelho? Na união da Igreja com o Estado devido ao famoso Édito de Milão, resultaram ganhos e perdas para a Igreja:
a) Ganhos:
1- De minoria perseguida, a Igreja cristã tornou-se, subitamente, toda-poderosa.
2- O culto era mais político do que religioso.
3- Para assegurar a supremacia era necessário chamar a si as forças omnipotentes de que só o imperador era detentor – braço secular – ou seja, o uso da força para se fazer obedecer.
b) Perdas:
1- Apoiada pelo Estado, a Igreja tornar-se-á, com extrema rapidez, intolerante e fanática, iniciando, ela própria, uma série de perseguições.
2- O exílio já não bastava. Contra os dissidentes, mesmo cristãos, passar-se-á a usar a tortura e os suplícios. Sob o reinado de Honório (395-423), tanto a heresia como os casos de cisma eram assimilados ao crime.
3- A adesão ao Estado terá de ser paga pela Igreja. O preço a pagar será a sua total submissão a este.
4- A Igreja irá servir-se do – braço secular – para obter conversões.
5- Afim de aumentar o número dos seus adeptos, o cristianismo irá, a partir de agora, ganhar a confiança dos reis bárbaros e da sua corte; uma vez conseguida a adesão do chefe… o resto virá.
Assim, se o Estado romano fez um negócio algo duvidoso, também a Igreja! Ainda que arrecadando grandes lucros materiais, veio a sofrer terríveis perdas espirituais.
6- O seu crescimento gradual – Se os cristãos tinham conhecido um período favorável de 313 a 323, agora o imperador Constantino devia ao deus das vitórias uma prova inequívoca do seu reconhecimento. Este irá demonstrá-lo através de um acto histórico surpreendente. Este irá criar uma segunda Roma, isto é: a cidade de Constantinopla, no Oriente!
Será que queria formar uma nova cidade totalmente cristã, enquanto que a de Roma sofria de um incurável paganismo? Porquê uma segunda Roma? Para o historiador, “a fundação de Constantinopla é um mistério político”.
E, mercê desta reviravolta inesperada dos acontecimentos, Roma cessa de ser o bastião do paganismo, na pessoa do imperador, para se tornar no quartel-general do cristianismo! Devido a esta conjuntura, o bispo de Roma vê aumentar, dia após dia, a sua importância e ei-lo que, no Ocidente, toma o lugar do imperador quando o trono vem a ficar vazio. A “Igreja de romana veio a apoderar-se insidiosamente do lugar antes ocupado pelo Império Romano. Na realidade, este perpetuou-se nela. O papa – pontifex maximus (sumo pontífice) – veio a suceder ao César. O papa passa a ser imperador”.
Na realidade, na ausência do imperador, o bispo de Roma apodera-se do título pagão do imperador – sumo pontífice (fazedor de pontes) – estabelecendo, ligando, o céu à Terra. Se o bispo de Roma passa a ocupar o lugar do imperador, então o que acontecerá ao bispo de Constantinopla, a nova cidade e residência imperial? Se a Igreja irmã, a de Roma, cresceu à sombra da influência deste soberano, não irá acontecer a mesma coisa à Igreja e ao bispo de Constantinopla? Provavelmente que sim. Poderá, porventura, o bispo desta manter a mesma posição do passado recente, em relação a Roma, isto é, de subalternidade em relação a Roma? A resposta não se fez esperar! Assim, “o segundo concílio ecuménico de Constantinopla, em 381, decreta que o bispo desta cidade detém o primeiro lugar depois do de Roma, , Cânone 3”.
A polémica instala-se… pois quem gosta de perder posições adquiridas? Ninguém… nem a Igreja! O bispo de Roma irá fazer tudo para chamar a si a primazia de Pedro. A rivalidade entre Roma e Bizâncio, entre a velha e a nova Roma, fará com que “a partir do concílio de 381, em Constantinopla, o antagonismo resulta na elaboração de sucessivos cânones. O Cânone 3º declara que Constantinopla, na qualidade de segunda Roma terá direito às honras devidas à sua posição e que o bispo de Bizâncio terá autoridade sobre Antioquia e Jerusalém, imediatamente a seguir ao bispo de Roma”. (sublinhado nosso). Estas decisões aprovadas foram relativamente fáceis de tomar, visto que a este Concílio, “o bispo de Roma - Dâmaso I (366-384) -, não fora convidado”
O objectivo era claro, o de dar a Constantinopla uma posição inatacável, no Oriente. Mas nada ficaria por aqui, era necessário mais. Era necessário dar um passo mais à frente e a oportunidade para o fazer, finalmente, tinha chegado. Assim, no Concílio Ecuménico de Calcedónia, em 451, na sua 15ª sessão “por diligência do imperador, foi promulgado o Cânone 28 que concedia a Constantinopla, como uma nova Roma, todas as prerrogativas da antiga”. (sublinhado nosso). Como é que o bispo de Roma iria aceitar tal decisão?
Nesta altura, o bispo de Roma, era o papa Leão I, o Grande (440-461). Convém aqui recordar que este Papa foi o primeiro: 1- a tomar o velho título pagão de pontifex maximus, que os imperadores tinham abandonado; 2- a formular a ideia de o Papa ser representante de S. Pedro. É sob o seu pontificado, na tentativa de contornar tal revés, a favor do bispo de Constantinopla, que se irá falsificar “o 6º cânone de Niceia, ao adicionar as palavras: ”.
É acerca deste Papa que é dito as palavras que servem de mote para o que iremos abordar a seguir: - “É a ele, mais do que a qualquer outro, que se deve a concepção hierárquica segundo a qual . Deu ao papado o máximo de expansão teórica, mas este continuava a fazer parte da Igreja de Estado do Império, e faltava resolver a questão das relações ambíguas do bispo de Roma com o império romano”. (sublinhado nosso).
Que nos seja permitido aqui abrir um parêntesis acerca do que os historiadores disseram acerca da incompreensível escolha de Constantinopla para segunda Roma, dizendo, recorde-se, que era um mistério! Gostaríamos de apresentar uma mera sugestão de resolução, não só deste “mistério” como também para “a questão das relações ambíguas do bispo de Roma com o império romano”.
Quando S. Paulo escreveu aos crentes de Tessalónica acerca da 2ª vinda do Senhor Jesus e do quanto deveria de acontecer antes – um sinal precursor – ele escreveu estes versículos estranhos: - “Ninguém, de maneira alguma, vos engane; porque não será assim sem que antes venha a apostasia e se manifeste o homem do pecado, o filho da perdição. O qual se opõe e se levanta contra tudo o que se chama Deus, ou se adora; de sorte que se assentará, como Deus, no templo de Deus, querendo parecer Deus. (…). E agora vós sabeis o que o detém, para que a seu próprio tempo seja manifestado. Porque já o mistério da injustiça opera; somente há um que agora resiste, até que do meio seja tirado” – II Tessalonicenses 2. 3-7.
Destaquemos os aspectos mais relevantes desta estranha revelação:
a) O apóstolo revela que, antes deste glorioso acontecimento, acontecerá:
1. A apostasia
2. O Filho da perdição
3. O adversário de Deus
4. Se assentará como Deus
5. Querendo parecer Deus
b) Acrescentando depois:
1. Sabeis o que o detém
2. A seu próprio tempo se manifestará
3. Somente há um que agora resiste
4. Até que do meio seja tirado
Que personagens poderão preencher estes requisitos? A que tempo histórico se referirá? Fechemos o parêntesis, por agora, deixando o “suspense” no ar, para o retomarmos mais abaixo.
1- a sua consolidação – como acabámos de sublinhar, em traços gerais, o contexto do início do crescimento do “chifre pequeno”. No entanto, tal como ficou assinalado, ainda permanecem alguns obstáculos à expansão e consolidação do Poder.
A Bíblia afirma, peremptoriamente, que o estabelecimento definitivo do chifre pequeno será após os dez chifres anteriores – cf. v. 24. Na verdade, a queda do Império Romano do Ocidente propiciou o estabelecimento de uma dezena de estados bárbaro-latinos. A religião professada por estes, a ariana (negação da divindade de Cristo), causava um contínuo conflito e uma séria ameaça para a Igreja.
O texto bíblico refere que o chifre pequeno “tinha olhos e uma boca que falava grandiosamente”, e que para consolidação da sua posição e poder “diante da qual caíram três (chifres)” – v. 8,20,24.
Abramos, de novo, o parêntesis, para compreendermos o todo. Na realidade, o imperador devido à sua posição sempre interferiu nos Concílios da Igreja, visto que estes eram convocados por ele, ficando estes sob a sua protecção e patronato; estes Concílios, feitos à sua imagem, nos quais se debatiam questões transcendentes, das quais este nada percebia!
No contexto das relações entre o bispo de Roma e o imperador nem sempre foram as melhores e como tal as fricções iam aparecendo. A este respeito é feita uma interessante observação, ao referir que “o primeiro obstáculo ao desenvolvimento papal era a atitude do governo imperial para com a igreja, atitude que persistiu mesmo depois do imperador ter abandonado o título pagão de pontifex maximus, em 397. A teocracia imperial atingiu o seu apogeu com Justiniano (527-565). As suas medidas violentas são conhecidas: a brutal deposição de Silvério (536-537), que morreu numa colónia penitenciária; a prisão de Virgílio (537-555); a elevação forçada do indigno Pelágio I (556-561) ao trono pontifício”.
Ou ainda “desde o tempo de Pelágio I (556-561) e até 741, a dependência do papado em relação ao Estado exprime-se, na prática, pela comunicação ao imperador de Constantinopla, ou ao exarca de Ravena, seu representante na Itália, do nome do papa eleito, acompanhada de uma quantia considerável, equivalente a um tributo”. Na realidade a situação do bispo de Roma não era a melhor, na medida em que “Roma ainda tinha que suportar a rivalidade de Constantinopla e as pressões do governo imperial. Enquanto se mantivesse a administração imperial na Itália, remodelada por Justiniano, seria difícil a situação do bispo de Roma”. Será que, perante o exposto não encontramos matéria de facto para enquadrar o que acima destacámos, como sinais que deveriam ocorrer, referenciados pelo apóstolo S. Paulo? Eis a nossa proposta de enquadramento dos factos ao teor bíblico:
1- Sentar-se-á como Deus, parecendo ser Deus = O Bispo de Roma
2- O que o detém = O Imperador Romano
3- Um que agora resiste = O Imperador Romano
4- Até que do meio seja tirado = O Imperador Romano
Quanto a nós esta é a explicação mais plausível, e para reforçar este mesmo contexto, somos informados de que “os ataques do Islão afectaram profundamente a posição do governo imperial de Constantinopla, forçando-o a concentrar-se nos problemas relacionados com a fronteira oriental e limitando a sua capacidade de acção no Ocidente. As conquistas árabes, alastrando através da cristandade oriental, eliminaram os antigos rivais do bispo de Roma, os patriarcas de Alexandria, Antioquia e Jerusalém, bem como a Igreja de Cartago, que tinha sido o grande centro intelectual do Ocidente e eclipsara Roma”.
O imperador ao deixar Roma para ir para Constantinopla – a nova Roma - poderá ser, em termos políticos e afins, um “mistério” mas, em termos religiosos, não é mais do que um passo dado para o cumprimento das Escrituras.
6- As suas dimensões territoriais – seja na qualidade de potência temporal, como rei (chifre) ou príncipe coroado, este deveria de ser bastante mais pequeno que os outros. Enquanto potência política e temporal, efectivamente, é o mais pequeno dos soberanos.
Mas, para tal como um soberano, ter poder temporal e exercer a sua influência, era preciso, tal como qualquer outro soberano, ter Poder, possuir um domínio sobre terras, bens e pessoas. Mas, a ocasião não se fará esperar muito. Aqui também temos uma palavra a dizer:
- O século VIII é significativo para a sede apostólica. Neste período, na primeira parte deste século, o perigo vinha do rei Astolfo, rei dos Lombardos, ao pôr termo ao domínio Bizantino na Itália central, ao subjugar e tomar o Exarcado de Ravena, em 751.
O pontífice romano Zacarias (741-752), apercebe-se da impotente ajuda do imperador e, para fazer face a esta ameaça, apela a uma potência estrangeira em quem depositasse confiança. Assim, recorre ao filho de Carlos Martel, Pepino, o Breve, que se tornara o único prefeito do palácio. Como este procurava legitimidade para se apoderar do trono, enviou, em 750, uma embaixada a Zacarias.
Em 751, os Francos levam Pepino, o Breve, ao Poder. No mesmo ano, Bonifácio, o missionário da Germânia, consagrou o novo monarca. Estêvão II (752-757), sucessor de Zacarias, deslocou-se à Gália, a Saint-Denis, para renovar, em 754, a consagração de Pepino, o Breve. Este gesto nacional foi acompanhado de manobras diplomáticas e militares. Estabeleceu-se que o recém-eleito do Papa deveria vir em seu auxílio e restituir-lhe os territórios conquistados pelos Lombardos. O monarca interveio e em 756 forçou os invasores a levantar o cerco de Roma. No mesmo ano obrigou os vencidos a ceder à Igreja as terras conquistadas. No essencial, o ducado de Roma e o antigo Exarcado de Ravena onde se incluía os territórios de Ravena, Bolonha e Ferrara, assim como o ducado de Espoleta que vieram engrossar os territórios entregues ao pontífice
Agora a sua situação era diferente devido a Pepino, pois esta dádiva que fizera ao pontífice romano serviria “para remissão dos seus pecados e salvação da sua alma. A magnífica doação fora outorgada em plena e absoluta soberania e, aos olhos do mundo surgiu pela primeira vez um bispo cristão investido das prerrogativas de um príncipe temporal – a nomeação dos magistrados, o exercício da justiça, a cobrança de impostos e a riqueza do palácio de Ravena.”.
Perguntar-nos-emos o porquê desta generosidade do monarca Franco. Ela foi, uma espécie de “devolução” dos territórios ocupados pelos Lombardos ao seu anterior e legítimo proprietário – o bispo de Roma. Mas, o que é que a História nos diz acerca da veracidade deste título de propriedade do bispo de Roma? Ora vejamos:
- Existe um documento chamado e conhecido por “Doação de Constantino” – documento supostamente elaborado e entregue pelo imperador Constantino ao pontífice Silvestre I (314-335). Este documento foi levado pelo Papa Estêvão II ao soberano Franco para que este conhecesse o quanto tinha sido usurpado ao pontífice e que era necessário reaver. O documento tem o seguinte teor: - “(…). E para que a dignidade pontifícia não seja inferior, mas que tenha uma dignidade e glória maiores que as do império terreno, como possessões de direito da Santa Igreja Romana (…), a cidade de Roma e todas as províncias, distritos e cidades de Itália e do Ocidente”. Foi graças a este documento que o bispo de Roma pôde alcançar o seu propósito – competir e, se possível, superar qualquer monarca.
A data deste documento apócrifo não é conhecida mas, “investigações recentes sugerem ter sido elaborado, trecho a trecho, em diferentes passos, a partir de 754”. Portanto estamos em presença de um documento do século VIII e não do IV! Esta fraude foi descoberta graças ao desenvolvimento da disciplina da Diplomática, por “Lorenzo Valla (1407-1457), pai da famosa Declamatio, na qual ficou demonstrado que o imperador Constantino não é o autor do documento no qual se faz a doação ao papa de uma parte do seu império”. Não deixa de ser interessante o comentário feito por um sacerdote. Este, ao comentar alguns aspectos do pontificado de Estêvão II, assim como as doações do monarca Franco ao pontífice romano, acrescenta: - “não era ainda o poder temporal, mas os alicerces estavam lançados”. Na realidade “em 756 era criado um Estado Pontifical sob a protecção de Pepino. (…), nascia uma nova potência: a Roma pontifical”.
7- A sua linguagem e intolerância contra a Igreja – O chifre pequeno tinha uma boca “que falava grandiosamente (…) e que proferia palavras contra o Altíssimo” – v. 8b,11,20,21. De certa forma, este Poder intrigava o profeta, devido à sua linguagem contra os reis, contra Cristo, contra os santos e contra o próprio Deus. Vejamos alguns testemunhos históricos desta linguagem e intolerância.
a) - Gregório VII (1073-1085) - Na primeira metade do século XI a Igreja estava de certa forma corroída no seu interior. Esta precisava de um homem forte, de alguém que impusesse o que anteriormente se tinha perdido – a ordem. Onde estava esse homem? Dentro em breve iria sair do anonimato alguém “de pequena estatura, desajeitado de aparência, voz débil, mas zeloso defensor do absolutismo papal”. Em 1073 a sua eleição impõe-se com tal evidência que um movimento popular o eleva à dignidade pontifícia. Este homem, um monge de nome Hildebrando tomará o nome de Gregório VII (1073-1085). As suas primeiras acções revelam “o seu invencível desejo de unir os dois poderes – Espiritual e Temporal – para reformar a Igreja”. Gregório VII, para combater a imoralidade reinante no seio do clero, propõe algumas soluções: 1- imposição do celibato a todo o clero; 2- acabar com o escândalo da Simonia; 3- insurge-se contra o direito do imperador de nomear dignitários para a Igreja.
Tudo isto para que não existissem quaisquer dúvidas acerca de quem mandava na Igreja. Não poderia existir, portanto, para o corpo que é a cristandade, duas cabeças: o papa e o imperador!
Para que as águas ficassem, de uma vez por todas, separadas com toda a clareza, Gregório VII irá elaborar um documento no qual se poderá ver a expressão do seu pensamento a este respeito. O documento em causa, composto por 27 decretos e composto em 1075, chama-se: Dictatus Papae (instruções ditadas pelo Papa). Eis alguns destes:
Artº 02 – “Só o Pontífice romano merece ser chamado universal”
Artº 03 – “Só ele pode destituir ou absolver os bispos”
Artº 09 – “O papa é o único homem ao qual todos os príncipes beijam os pés”
Artº 12 – “É-lhe permitido destituir os imperadores”
Artº 16 – “Nenhum sínodo pode ser chamado geral sem a sua autoridade”
Artº 20 – “Ninguém pode condenar uma decisão da Sede Apostólica”
Artº 22 – “A Igreja romana nunca errou e, como atesta a Escritura, nunca poderá errar”
Artº 26 – “Aquele que não estiver com a Igreja romana não é considerado católico”
Artº 27 – “O Papa pode desfazer as matérias do juramento de fidelidade feito aos injustos”.
Para exemplificar a arrogância do sistema pontifical, recordaremos ainda um outro episódio. O Papa Gregório VII teve um diferendo com o imperador Henrique IV (1056-1106), da Alemanha, do qual sai vencedor o Papa. E, para reparar o mal causado, o imperador desloca-se ao encontro deste. Assim, no dia 27 de Janeiro de 1077, apresenta-se diante da ponte levadiça do castelo de Canossa, na Toscânia. Ali teve de esperar três dias, descalço e com vestes de penitente, até que Gregório VII consentisse levantar o castigo.
b) – Inocêncio III (1198-1216) – recordaremos aqui, a titulo de ilustração, da conduta e modo de actuação arrogante do sistema papal, isto é, a maneira como este lidou com a chamada: - heresia Cátara ou Albigense.
Abramos aqui um parêntesis para nos situarmos quando aplicamos certos termos, tais como, “heresia”. Mas sabemos nós a sua razão de ser, qual a sua verdadeira significação? Na verdade, o conjunto destas, leva ao que vulgarmente se conhece pelo nome pejorativo de seitas! Por vezes, este cuidado nos escapa, isto é, de utilizarmos as palavras sema devida atenção acerca das suas raízes e, por vezes, somos levados a tirar conclusões precipitadas.
Então, o que será uma heresia? Esta deriva de uma palavra grega – hairesis – que significa: opinião, escolha. Assim, quando o mundo se tingiu de cristianismo e o poder pontifício se tornou absoluto, esta palavra será utilizada pelas autoridades religiosas a fim de estigmatizar as correntes de pensamento que, de certa forma, constituíam uma ameaçam a doutrina oficial da Igreja. Assim, a heresia foi perseguida como um crime, sendo os heréticos condenados à fogueira.
E uma seita? Esta define-se como “caminho, seguir, ir atrás de; doutrina ou sistema que se afasta da crença geral; reunião de pessoas que professam uma religião diversa da geralmente seguida”. Ou ainda como sendo “uma perversão, uma distorção do cristianismo bíblico e/ou a rejeição dos ensinos históricos da Igreja cristã”. Curiosamente, Jesus, no seu tempo, foi apelidado de ser mentor de uma seita os Nazarenos, a qual Saulo de Tarso (mais tarde S. Paulo), perseguiu com fervor – cf. Actos 9.2; 19.9,23; 22.4. depois converte-se à mesma e, de perseguidor passa a perseguido: - Actos 24.5; 28.22.
Inacreditável! O Filho de Deus, Aquele que disse ser “o Caminho, a Verdade e a Vida” – João 14.6, fora tido como o mentor de uma seita! Mas, quem apelidou tal doutrina – o ensinamento do próprio Deus – de: seita? Simplesmente o Sinédrio – o centro da verdade religiosa da época! Mas, qual a base? A verdade emanada das Escrituras? Não! Mas sim o grande Sinédrio, o centro da religião oficial! Portanto, já desde esta altura, o critério, a norma, é uma religião não porque tenha ou siga a VERDADE mas, unicamente porque a MAIORIA a segue! Não foi assim, com estes mesmos argumentos que o consideraram como impostor? Ora vejamos: - “(…) também vós fostes enganados (por Jesus)? Creu nele, porventura, algum dos principais ou dos fariseus? – João 7.46-48. Fechando o parêntesis.
Portanto: - em termos de critérios, nos nossos dias, o que é que mudou? Absolutamente nada, visto que estes continuam a ser os mesmos: - a doutrina oficial da Igreja tradicional e maioritária e não as Sagradas Escrituras!
Retomando a heresia Cátara ou Albigense: - quem era este papa Inocêncio III? A História conhece-o e caracteriza-o como “o papa mais importante da Idade Média. (…) um indivíduo sedento de glória, astuto, autoritário, inflexível”.
Esta dita heresia estava radicada no sul de França. O papa para silenciar estas vozes discordantes fará apelo à Cruzada, a qual terá início em 1209. Esta não visava a libertação da Terra Santa, mas os inimigos da cadeira de S. Pedro. As forças arregimentaram-se e seguiram para erradicar as vozes discordantes. Quais os motivos destes para responderem afirmativamente ao apelo papal? Somos informados de que “os nobres do norte de França reuniram-se em grande número; eram atraídos, sobretudo, por um rico espólio de guerra”. Foi um verdadeiro massacre! O que nos relata a História acerca do que se passou? Vejamos um pouco: - um tal Simão, de Montfort l’Amaury tomou a direcção da expedição contra os Albigenses e, como resultado: - roubou-se, queimou-se, massacrou-se com entusiasmo.
No frenesim do combate, uma voz de comando foi ouvida: - “Matai-os a todos” gritava o legado do papa, pois “Deus saberá reconhecer os seus”! Finalmente, qual foi o resultado desta Cruzada? Um verdadeira e “(…) autêntica carnificina”. A História dá-nos a conhecer que “só em Béziers, calcula-se que os cruzados exterminaram cerca de 30.000 pessoas”.
Em termos económicos - todas as possessões do visconde de Béziers e de Carcassone voltaram às mãos do ambicioso Simão de Montfort. A questão Albigense resolveu-se politicamente pelo Tratado de Paris, em 1229. Na realidade, no Concílio de Latrão, em 1215, foram lançadas as bases da triste e vergonhosamente célebre – Inquisição – a qual será organizada pelo papa Gregório IX, em 1231.
8- A sua linguagem e intolerância contra Deus – “E proferirá palavras contra o Altíssimo (…) e cuidará em mudar os tempos e a lei” – v. 25 a.
a) “E proferirá palavras contra o Altíssimo” - a exemplo do documento “Dictatus Papae” de Gregório VII, recordaremos também outra documentação mais recente que reforça e estabelece a suprema autoridade papal, a - Decisão II de 08 de Novembro de 1557. Eis algum do seu conteúdo:
Artº 1 – “O papa é quase Deus na Terra (…)”
Artº 4, 16 – “Ninguém ouse desprezar o poder do papa, porque ele liga, não como homem, mas como Deus”
Artº 4, 24 – “Só ao Romano Pontífice é permitido modificar, declarar ou interpretar as leis divinas”
Artº 5, 3 – “O papa é chamado Senhor de todo o mundo, e não é de admirar, porquanto ele desempenha na Terra as vezes de Deus”
Artº 5, 6 – “O papa é Sumo Sacerdote e Rei”
Artº 5, 10 – “O papa pode tudo o que Deus pode; e ele está acima de todos”
Artº 5, 20 – “O papa é Vigário de Cristo, não só na medida em que Cristo está à frente da Igreja, mas também na medida em que Ele é o Senhor de toda a Terra”
Artº 5, 23 – “O poder do Sumo Pontífice não só se exerce sobre as coisas celestes, terrestres e infernais, mas também sobre os anjos, em relação aos quais ele é superior. Se fosse possível os anjos errarem na fé, o papa poderia puni-los e excomungá-los”
Artº 5, 31 – “Tudo o que o papa faz é considerado como procedendo da boca de Deus”
Artº 18, 20 – “O papa ocupa o lugar e desempenha as vezes de Deus (…)”
Artº 30, 1 – “O papa tem jurisdição sobre os hereges, dado que como Vigário de Cristo tem jurisdição sobre todos”
Artº 43, 9 – “Os reis têm como superior Deus e, consequentemente, a Igreja e o Romano Pontífice que está no lugar de Deus na Terra, para alívio dos oprimidos”
Artº 49 – “Todos os reis cristãos devem estar sujeitos ao papa como ao próprio Jesus Cristo nosso Senhor”
Artº 61 – “Vemos o Pontífice Romano triunfalmente coroado com uma tríplice coroa, como rei do Céu, da Terra e do mundo inferior”
Artº 61, 1 – “O Romano Pontífice está acima de todo o Principado e Potestade e, diante dele se curvam todos os joelhos no Céu e na Terra e debaixo da Terra”.
Mais recentemente, o papa João Paulo II publicou a Carta Apostólica Ad Tuendam Fidem (Para Defender a Fé), com o objectivo de acrescentar algumas normas ao Código de Direito Canónico e ao Código dos Cânones das Igrejas Orientais. Deste último vejamos a formulação final de dois parágrafos do Cânone 1436:
- Parágrafo 1 – “Aquele que nega uma verdade que por fé divina ou católica deve acreditar ou põe em dúvida, ou então repudia totalmente a fé cristã e, legitimamente avisado, não se retractar, seja punido como herege ou como apóstata com excomunhão maior (…).”
- Parágrafo 2 – “Fora destes casos, quem advoga uma doutrina definitivamente proposta ou condenada por errónea pelo Romano Pontífice ou pelo Colégio dos Bispos no exercício do magistério autêntico e, legitimamente admoestado, não se retractar, seja punido com uma pena adequada”.
Assim, em resumo: - o documento Dictatus Papae data de 1075; a Decisão II de 08 de Novembro de 1557; e, por fim, a Carta Apostólica Ad Tuendam Fidem data de 1998. Portanto, desde o pontificado de Gregório VII até ao actual, até este último documento de João Paulo II, decorreram vários séculos. Perguntamos: - qual foi a mudança que se operou no sistema papal? Nenhuma… visto que esta confissão religiosa continua como sempre foi… igual a si mesma!
b) – “(…) e cuidará em mudar os tempos e a lei” – reiterando o documento “Decisão II de 08 de Novembro de 1557”, visto acima, recorde-se uma das anotações nele existente:
Artº 4, 24 – “Só ao Romano Pontífice é permitido modificar, declarar ou interpretar as leis divinas”
Na realidade assim aconteceu. Vejamos alguns pormenores, aqui e ali, desta “modificação” da Lei de Deus – os 10 mandamentos. Esta fez-se sentir na eliminação do 2º, na substituição do teor do 4º mandamento e na divisão do 10º mandamento em dois, para que se mantivesse o mesmo número – 10!
* O 2º mandamento – Êxodo 20.4-6.
Se verificarmos no Catecismo, na transcrição dos 10 mandamentos bíblicos, o teor do 2º mandamento da Lei de Deus – “Não farás para ti imagem de escultura (…). Não te encurvarás a elas nem as servirás (…)” - pura e simplesmente é omitido, desaparece! Como resultado desta operação, os 10 mandamentos bíblicos perdem um mandamento!
* O 4º mandamento – Êxodo 20.8-11
Como é que o Catecismo apresenta, na transcrição que faz, o teor do 4º mandamento bíblico? Vejamos, por comparação, a transcrição de ambas as fontes:
Como compreender esta mudança? Qual o seu objectivo? O próprio Catecismo não nos deixa ficar na ignorância. E, acerca do dia do Domingo, a Igreja esclarece que: - “O mandamento da Igreja determina e precisa a lei do Senhor”. (sublinhado nosso). Depois, a Igreja revestida desta dita autoridade que a si mesma chama, esclarece: - “O sabbat, que representava o acabamento da primeira Criação é substituído pelo Domingo, que lembra a Criação nova, inaugurada na Ressurreição de Cristo”.
Perante o exposto, devemos perguntar: 1- Quem outorgou a esta confissão religiosa o poder de “determinar” e de “precisar” a Lei de Deus?; 2- Desde quando o Sábado, biblicamente falando, teria sido substituído pelo Domingo?; 3- Qual a relação que terá a dita “primeira Criação”, representada pelo “sabbat”, para que seja substituída a favor da “Criação nova”, representada, dizem, pelo Domingo?
Mas, para que não restem quaisquer dúvidas, a este propósito, transcreveremos um pequeno texto: - “(…) não é todo o cristão obrigado a santificar o Domingo e a abster-se, nesse dia, de trabalhos servis? A observância desta lei não ocupa, porventura, o lugar mais proeminente, na ordem dos nossos deveres sagrados? Mas vós podeis ler a Bíblia do Génesis ao Apocalipse (do primeiro ao último livro) e não encontrareis uma só linha que autorize a santificação do Domingo. As Escrituras ordenam a rigorosa observância do Sábado, dia que nós nunca santificamos. (…). Devemos, portanto, concluir que as Escrituras, só em si, não podem constituir um guia suficiente nem uma regra de fé (…)”.
Em resumo: - ao desaparecer, para já, o 2º mandamento e sendo o 4º modificado, então a Lei de Deus passaria a ter 9 mandamentos! Mas, para repor o mesmo número de mandamentos – 10 -, far-se-á uma operação de cosmética; assim, o 10 mandamento irá sofrer uma ligeira alteração sendo dividido em dois, ficando o 9º com o seguinte articulado: - “Guardar castidade nos pensamentos e desejos”.
Assim, de novo, a lei de Deus passa a ter 10 mandamentos! Esta operação não é mais do que a aplicação do teor do Artº 4, 24 da Decisão II de 08 de Novembro de 1557 na qual está atestado com força de lei que: - “Só ao Romano Pontífice é permitido modificar, declarar ou interpretar as leis divinas”. Mais directo e claro não se poderia ser!
9- A duração da sua supremacia – “(…) e eles serão entregues na sua mão por um tempo, e tempos e metade de um tempo” – v. 25b.
Um certo número de elementos indicam que a palavra “tempo”, aqui utilizada deverá corresponder a anos, o que significará um período de “três anos e meio”, ou seja, 1260 dias ou 42 meses:
a)- A expressão “um tempo, e tempos e metade de um tempo” encontramo-la mais à frente – Daniel 12.7.
b)- Encontramo-la também no último livro das Escrituras – Apocalipse 11.2,3; 12.6,14; 13.5 – onde o mesmo espaço temporal é expresso por 42 meses ou 1260 dias.
Na linguagem profética, um dia representa um ano. Este princípio – Dia / Ano - está claramente atestado nas Escrituras: Números 14.34; Ezequiel 4.6. O ano Judaico como o Babilónico seguem o calendário lunar; assim sendo, o ano tem 360 dias e o mês tem 30.
Recorde-se que o imperador Justiniano (527-565), num dos seus éditos, declarou que o bispo de Roma era a “cabeça de todas as outras Igrejas”. Não bastava que o bispo de Roma desfrutasse de direito desta autoridade; tornava-se necessário que a desfrutasse de facto. Mas, para que tal acontecesse era preciso ocorrer algo de importante, ou seja, - anular três obstáculos descritos na palavra profética – v. 24b, como acima o referimos. Assim, o primeiro obstáculo – os Hérulos – de religião ariana, foram vencidos pelos Ostrogodos em 493. O segundo obstáculo – os Vândalos – foram vencidos em 534 por Belisário, general ao serviço do imperador Justiniano. E este mesmo general, em 538 derrota o terceiro obstáculo – os Ostrogodos. Finalmente, o bispo de Roma fica completamente liberto do último bastião da religião ariana - os Ostrogodos.
Este pequeno chifre, como vimos, tem traços humanos pois tem “olhos e uma boca” – v. 8,20. Este pequeno chifre representa, pois, um poder ambíguo que irá agir, no plano político e religioso. É, portanto, sob o plano político deste poder, embora de natureza religiosa, que se manifestará numa primeira fase, pois, tal como o referimos “abaterá três reis” – v. 8,20,24. Desta forma, numa segunda fase, podendo mover-se livremente, o chifre pequeno actuará no plano religioso, visto que esta última vertente se apoiará na de cariz política.
Assim, a partir da data – 538 – a Roma papal irá consolidar o seu Poder absoluto “a sua supremacia”, a qual, segundo o profeta, se prolongaria por “um tempo, e tempos e metade de um tempo”, ou seja um período profético de 1260 anos; assim, este tempo de opressão religiosa terminaria em 1798 (538 + 1260). Esta data não sinaliza o fim do chifre pequeno, mas sim o final do período da perseguição dos santos. Efectivamente, neste ano de 1798, algo de extraordinário aconteceu; no contexto das guerras napoleónicas, o exército francês sob o comando do general L. A. Berthier, braço direito de Napoleão, entra em Roma, aprisiona e desterra o papa Pio VI. Deste modo, o sistema papal é ferido de morte, terminando ali o seu Poder absoluto

sexta-feira, 21 de maio de 2010

TEMPO DE JUÍZO

1- O juízo investigativo, no céu
a)- “Eu continuei olhando, (…) e um ancião de dias se assentou” – v. 9ª. A expressão é mais uma descrição do que um título, pois refere-se a Deus, o Pai. Este entra em cena e o julgamento começa.
b) – “(…) assentaram-se os juízes” – v. 10b. Estas palavras implicam, como facilmente se compreenderá, uma postura que visa a apreciação sobre um certo número de casos.
c)- “(…) e abriram-se os livros” – v. 10. Depois de ser descrito o tribunal, o juízo que se seguirá é, manifestamente, investigativo devido à alusão da abertura dos registos (livros) que se encontram no céu. A abertura destes livros é importante, na medida em que estes contêm informações que deverão ser examinadas.
A questão que importa esclarecer é: - quem é que será investigado? Neste inquérito preliminar “os únicos casos a serem considerados são os do povo de Deus” – cf. I Pedro 4.17. Deus é o supremo juiz, enquanto que o papel de Cristo é o de Advogado e, em simultâneo, de Mediador – I Timóteo 2.5; Hebreus 9.11-15,23-26; I João 2.1. Tal como o texto refere – Daniel 7.18,27 - devido ao prévio exame dos seus casos, os santos receberão o reino como herança, após o julgamento; e só assim se compreenderá tal gesto. Assim, devido a este facto, “todos quantos desejem que o seu nome seja conservado no livro da vida, devem, agora, nos poucos dias de graça que restam, afligir a alma diante de Deus, em tristeza pelo pecado e em arrependimento verdadeiro”.
O juízo investigativo que tem por objectivo recapitular a obra da Graça e de justificar o carácter de Deus, “deve efectuar-se antes do segundo advento do Senhor”, antes: 1- que recaia a sentença sobre o pecado e pecadores; 2- da instauração de um mundo novo. Por isso, o povo de Deus é admoestado a “ter agora os olhos fixos no santuário celeste, onde se está processar o ministério final do nosso grande Sumo Sacerdote na obra do juízo – e onde está a interceder pelo Seu povo”.
Assim, neste “juízo investigativo todos os casos serão examinados. Esta investigação não tem por objectivo informar Deus ou o Cristo, mas sim todo o universo, a fim de que Deus seja justificado ao aceitar uns e rejeitar outros. Satanás reivindica a humanidade como sua. Aqueles pelos quais Jesus intercede no juízo, Satanás os acusa diante de Deus, Jesus os defende tendo em conta a sua contrição e fé. O juízo investigativo permitirá indigitar quem será digno da eternidade e à ressurreição dos justos – Apocalipse 22.11,12; 20.6. Depois, “o julgamento dos ímpios constitui obra distinta e separada e ocorre em ocasião posterior”, ou seja, durante o Milénio, no qual os justos participarão – I Coríntios 6.2,3; Apocalipse 20.4. Depois do veredicto (Apocalipse 20.12), logo após o Milénio, os injustos ressuscitarão (Apocalipse 20.5a,13a) para receberem o respectivo castigo – Apocalipse 20.14,15.
Resultará do juízo um registo com os nomes dos cidadãos do vindouro reino de Cristo. Este livro contém os nomes de homens e de mulheres de todas as nações, tribos, línguas e povos. O apóstolo João fala dos salvos, na nova terra, como – Apocalipse 21.24”.
Foi dito que, no julgamento, os livros são abertos e o caso de cada um, morto ou vivo, é examinado – cf. Apocalipse 11.18. De que livros se trata? As Escrituras falam de 3 tipos de livros:
1- O livro da vida – onde são inscritos os nomes dos crentes: - Êxodo 32.32,33; Daniel 12.1; Lucas 10.20; Filipenses 4.3; Apocalipse 3.5; 17.8; 20.12,15.
2- O livro das memórias – onde se encontram inscritas todas as boas acções: - Malaquias 3.16
3- O livro da morte – onde estão inscritas todas as más acções: - Jeremias 2.22; 18.23; Oseias 13.12; Apocalipse 20.12.
Como acabámos de ver, existem livros pelos quais os mortos, em especial os injustos, serão julgados segundo as suas obras - Apocalipse 20.12 – retribuição esta que acontecerá, segundo a relato bíblico, no fim do Milénio. No entanto, convém recordar que o julgamento descrito em Daniel 7 é diferente em relação ao tempo em que ocorre, pois acontecerá antes do Milénio, na medida em que a sua sessão terá lugar enquanto ainda o chifre pequeno actua contra o povo de Deus.
d)- A entronização do Filho do homem – “(…) eis que vinha nas nuvens dos céus, um como o filho do homem (…)” – v. 13a. No Novo Testamento, Cristo falou de si próprio como sendo “filho do homem” e, como consequência, esta expressão ali vem narrada cerca de 82 vezes. Aqui, no profeta Daniel, encontramo-la pela primeira vez. Esta expressão é identificada com que personagem? Como resposta a encontramos a seguinte informação: - “A literatura rabínica também identifica o ser de Daniel 7.13 com o Messias”. Assim, esta expressão “serviu, na época de Jesus, para designar um Salvador escatológico”.
e)- O Filho do Homem recebe o reino das mãos do Pai - “e dirigiu-se ao ancião de dias e o fizeram chegar até ele. E foi-lhe dado o domínio, a honra e o reino para que todos os povos, nações e línguas o servissem (…)” – v. 13b e 14ª. Sendo Deus o “Ancião de Dias”, o Pai, será Ele a presidir a este juízo investigativo, tendo como testemunhas as miríades de anjos que assistem a este grande tribunal. Segundo a dinâmica do texto, o Filho do homem recebe o reino do Ancião de dias, no céu, na presença da multidão de anjos (e o fizeram chegar até ele – v. 13b). É após este julgamento que o reino lhe é atribuído. Por sua vez, os santos do Altíssimo recebem o reino, nesta terra, (v. 27a). Segundo o que o profeta viu em visão (v. 13) não existe nenhuma alusão directa à vinda do Filho do homem sobre a terra.
Acerca deste assunto, não deixa de ser interessante o comentário da serva do Senhor, ao referir que esta “não é a Sua segunda vinda à Terra. Ele vem ao Ancião de dias, no Céu, para receber o domínio, a honra e o reino, os quais Lhe serão dados no final da Sua obra de mediador. É esta vinda (ao Ancião de Dias) que foi predita na profecia como devendo ocorrer ao terminarem os 2300 dias, em 1844 (Daniel 8:14), e não o Seu segundo advento à Terra. Assistido por anjos celestiais, o nosso grande Sumo Sacerdote entra no Lugar Santíssimo”.
Por isso, “a estrutura da visão indica claramente que o julgamento situa-se, cronologicamente, antes da vinda e não durante ou depois. O verso 26 deixa mesmo entender que acontecerá logo após o período de 1.260 anos, ou seja, logo após 1798. Imediatamente após a menção deste período de tempo , o texto continua e diz: - ” - v. 26


3- O julgamento do pequeno chifre
a)- “Eles tirarão o seu domínio, para o destruir (…)” – v. 26. O mesmo fim já foi anunciado na visão da estátua – Daniel 2.34. O animal em conjunto com os seus chifres/reis perecerão.
Assim será julgado o Poder representado pelo 11º chifre – de início, o mais pequeno entre os restantes. A monarquia politico-religiosa que permaneceu muito mais tempo do que as outras monarquias terrestres, acabará por se afundar pelo quanto Deus tem reservado para castigar este mundo no final dos tempos.
Esta grande visão caótica do grande final do acerto de contas dos inimigos de Deus e nestes está incluído este sistema político-religioso, sob a forma de Babilónia mística – Apocalipse 16.19; 17.1,16-18; 18.10,21-24

4- O reino dos santos do Altíssimo
a)- “O reino, o domínio e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo dos santos do Altíssimo” - v. 27. O olhar do profeta visa a eternidade “(…) em que habita a justiça” – II Pedro 3.13.
Na realidade, nesta fase cumprir-se-ão muitas promessas expressas na Palavra de Deus em relação aos eleitos – “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra” – Mateus 5.5. Nesta teocracia perfeita e definitiva, todos os salvos estarão associados à realeza de Jesus Cristo, visto que é dito que “ao que vencer lhe concederei que se assente comigo no meu trono (…)” – Apocalipse 3.21.
Este reino, em contraste com os reinos terrestres do passado e do presente, será como sempre fora anunciado, ou seja, universal e eterno – Daniel 2.44; 7.14.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

OS DOIS ANIMAIS E O ATAQUE CONTRA O SANTUÁRIO

– (Daniel 8.1-27)
No livro do profeta Daniel, a História da Salvação é-nos apresentada em sob diversas janelas que, gradualmente se vão abrindo para que a possamos conhecer melhor. Assim, no capítulo 2, aquela grande estátua que simboliza a sucessão dos reinos do mundo, dará lugar não a um 5º império, mas a um reino que “esmiuçará “ tudo o quanto lhe foi anterior – v. 34 – e que “será estabelecido para sempre” – v. 44. Neste capítulo Cristo é representado como o nosso Rei.
No capítulo 7 encontramos a sucessão de vários animais e, de entre os quais, surge um sistema político-religioso que faria guerra contra o Altíssimo – cf. v. 25. – vindo, de seguida, o “juízo” – v. 26. Neste capítulo Cristo é representado como nosso juiz. Sim, “Cristo foi feito nosso juiz. (…) Aquele que se revestiu da humanidade e viveu neste mundo uma vida perfeita será quem nos há-de julgar (…). Cristo assumiu a humanidade para poder ser o nosso juiz”
Neste capítulo que iremos estudar apresenta uma visão em que aparecem animais, assim como o aparecimento de um sistema político-religioso com as mesmas características do apresentado no capítulo anterior. Só que, neste capítulo lhe é acrescentada uma nova faceta – a de uma progressiva usurpação das funções de Cristo no santuário celeste – v. 10-12. Mas anuncia também, não só a “purificação” do referido santuário – v. 13,14 – mas também, a exemplo do que fora anteriormente anunciado, ambos “sem mão serão quebrados” – Daniel 2.34,35; 8.25. Neste capítulo Cristo é representado como nosso Sumo Sacerdote que, não só morreu por cada um de nós, como também vive para nos salvar.

I- A visão
O conteúdo, assim como a compreensão da visão do capítulo 7 deixa o profeta bastante abalado, tal como podemos compreender pelo quanto é revelado no último versículo deste capítulo.
Como ponto histórico de referência, é-nos dito que a visão que nos ocupa teve lugar no 3º ano do rei Belsazar, isto é, em 551 a. C., ou seja, dois anos após a do capítulo anterior – Daniel 7.1 . Esta visão partilha um certo número de temas com a anterior, percorrendo o mesmo período histórico, muito embora apresente símbolos diferentes.
Nesta visão não existe qualquer menção de Babilónia pois estava a viver o período final da hegemonia babilónica. A visão, a exemplo da anterior, contempla o aparecimento de animais:

1- Carneiro
Este animal tinha duas pontas (chifres), sendo um maior do que o outro – v. 3 – cf. Daniel7.5 – “o urso que se levantou de um lado”. Numa primeira fase o chifre que representava a Média era maior do que o da Pérsia. Depois aconteceu o contrário e assim permaneceu. Não é preciso fazer grandes conjecturas acerca deste primeiro animal, pois o anjo Gabriel o revela, ao dar a conhecer que representa “os reis da Média e da Pérsia” – v. 20
Depois, é-nos dito que este animal, ávido de poder, “dava marradas para o ocidente, para o norte e para o meio-dia (sul)” – v. 4 – cf. Daniel 7.5 – o mesmo poder sob um símbolo diferente – um urso.

2- Bode
Em seguida, entra em cena um “bode” que vinha do ocidente, (…) sem tocar no chão (…) e tinha uma ponta (chifre) notável entre os olhos” – v. 5. A exemplo do 1º animal, o anjo dá a respectiva interpretação, revelando que o bode em causa representa “o rei da Grécia” – v. 21.
Este último dirige-se com extrema rapidez, tal como indica a expressão - “sem tocar no chão” - na direcção do carneiro. Este foi derribado. É dito que o bode, “estando na sua maior força, a ponta foi quebrada e subiram no seu lugar quatro também notáveis para os quatro ventos do céu” – v. 8. Esta imagem corresponde à do cap. 7.6 “0 leopardo”, caracterizado: 1- pela sua velocidade; 2- pelas suas quatro cabeças. Uma vez mais, o próprio texto nos revela que estes chifres representam “quatro reinos (…) mas não com a força do primeiro” – v. 22.
Assim, após a morte inesperada de Alexandre, o Grande, o seu império foi dividido pelos seus quatro generais que lhe sucederam: 1- Cassandro ficou com a Macedónia e a Grécia; 2- Ptolomeu, ficou com o Egipto, a Cirenaica e a Palestina; Lisímaco, com a Trácia e grande parte da Ásia Menor; 4- Seleuco, a Síria, Babilónia e a Pérsia – este último conhecido pelo Império Seleucida. Mas, acerca dos sucessores de Alexandre, o texto bíblico refere que não teriam: - “a mesma força” – v. 22.

sábado, 15 de maio de 2010

O PEQUENO CHIFRE

Iremos ver, passo a passo, algumas características deste poder para que possamos, minimamente conhecer quem, na realidade, representa.

a) A sua origem

Qual é, na verdade, a sua origem? O chifre pequeno sai de um dos quatro chifres sucessores da grande ponta (chifre) ou avança ele a partir de um dos pontos cardeais, isto é, um dos quatro ventos dos céus? A tradução clássica bíblica refere que, quando a ponta grande foi quebrada “subiram no seu lugar quatro (chifres) também notáveis, para os quatro ventos do céu. E de uma delas (chifres) saiu uma ponta (chifre)” – v. 8,9a (segundo versão tradicional).
A maior parte das traduções bíblicas, neste preciso trecho, tal como podemos ler, dá a entender que o chifre pequeno sai de um dos quatro chifres que sucederam à ponta grande que foi quebrada. No entanto, num exame mais atento à sua construção gramatical, este mostra algo de diferente, ou seja, indica que o chifre pequeno, ou o poder por ela representado, sai, não “das quatro pontas/chifres” que sucedem à “ponta grande”, mas sim de um dos “ventos do céu”!
Assim sendo, o chifre pequeno, contrariamente ao que a tradução tradicional dá a entender, surge de um dos quatro ventos, ou seja, oriundo da direcção de um dos pontos cardeais. Este pormenor é bastante importante para uma possível identificação deste poder que, desde sempre, tanta controvérsia tem gerado entre os intérpretes do texto bíblico que, vêem nele a personagem histórica, oriunda destes chifres – Antíoco Epifânio IV.

b) A sua natureza

Lendo o v. 9a com mais profundidade, é-nos revelado mais um pormenor que nos dá a conhecer que este poder, ao surgir, é “(…) mui pequeno”.
À luz do texto original, este poder tem um começo muito débil, pequeno; mas, apesar desta origem ele desenvolver-se-á em diversas direcções, adquirindo desta forma um considerável poder. Comparativamente, a linguagem aqui empregue é diferente da que se encontra no capítulo anterior – Daniel 7.8 – quando descreve o pequeno chifre saído de entre os chifres do 4º animal.

c) A sua expansão geográfica

O crescimento, em poderio, deste poder far-se-á conhecer e sentir através de uma expansão horizontal. O verbo que, na primeira parte do texto do v. 9a, é traduzido pelo verbo “cresceu”, deveria de ter sido vertido com o sentido de - deslocar, avançar – o que implica uma expansão geográfica horizontal e não como poderá fazer crer, um crescimento vertical. Nas Sagradas Escrituras encontramos alguns exemplos que reforçam este ponto de vista, em que o contexto é claramente – avançar com um fim militar, de conquista – cf. Deuteronómio 20.1; I Crónicas 5.18;20.1.
O texto continua a descrever a trajectória do chifre pequeno e revela que este – “cresceu muito”. A ideia subjacente é de um crescimento em estrutura dominante, ou seja, alargando os seus tentáculos. A direcção desta expansão vai no sentido de incrementar o prestígio do chifre pequeno. Este cresceria, expandir-se-ia para “o meio-dia (Sul - Egipto), o oriente (Este - Síria) e para a terra formosa (Norte - Palestina)” – cf. Ezequiel 20.6.

d) A sua actividade

- v. 10 – “se engrandeceu até ao exército do céu; e a alguns do exército e das estrelas, deitou por terra e as pisou”.

Ao longo das Sagradas Escrituras encontramos esta mesma expressão - “exército do céu” – algumas vezes; na sua grande maioria encontramo-la num contexto de culto aos astros: - Deuteronómio 4.19; 17.3; II Reis 17.16; 21.3, etc. Noutros contextos, a mesma expressão alude a seres celestes: - I Reis 22.19; Neemias 9.6; II Crónicas 18.18; Jeremias 33.22. Assim sendo, no primeiro caso, o chifre pequeno gradualmente se irá fortificando ao se identificar com o “exército do céu”, num culto idólatra. No segundo caso, é prestado culto a estes seres celestes para deles se obter poder.
Por outro lado, este “exércitos” poderá também significar o povo de Deus sobre a terra – cf. Êxodo 7.4. Assim sendo, claramente se percebe que o poder exercido pelo chifre pequeno se abaterá sobre este povo.
O teor da segunda parte do versículo “e a alguns do exército e das estrelas, deitou por terra e as pisou” – v. 10b – encontramo-lo claramente interpretada, mais à frente, como sendo a “destruição dos fortes e do povo santo” – v. 24. Inegavelmente, em causa está – o povo de Deus - cf. Daniel 7.27.

- v. 11 - “E se engrandeceu (o chifre pequeno) até ao príncipe do exército e por ele (o chifre pequeno) foi tirado o contínuo e o lugar do seu santuário foi lançado por terra”. Vejamos este verso em várias fases:

a) Primeira parte

– “E se engrandeceu (o chifre pequeno) até ao príncipe do exército”.
Como já o referimos, certos intérpretes identificam este - chifre pequeno “que se engrandeceu” - como sendo Antíoco Epifânio. De igual modo, - o “príncipe do exército” - é apontado por estes, como sendo “o sumo sacerdote Onias III, deposto em 175 a. C e assassinado a mando de Antíoco Epifânio”.

- O termo traduzido por “príncipe” por vezes é vertido por: chefe ou maioral; esta designação por vezes é aplicada ao Sumo Sacerdote, como se poderá ver em diversos textos bíblicos: I Crónicas 15.12; 24.5; Esdras 8.24. Mas a expressão “príncipe do exército” nunca designa um ser humano. A quem se referirá, pois, esta designação? Se compararmos outro texto onde é empregue a mesma palavra – Josué 5.13-15 – notamos que a linguagem desta personagem para com Josué é a mesma que no passado foi empregue com Moisés no episódio da sarça ardente – “tira os teus sapatos de teus pés, porque o lugar onde em que tu estás é terra santa” - Êxodo 3.5. No livro de Daniel, esta palavra refere-se habitualmente a um ser celeste: Daniel 8.25;10.13,21;12.1.
Ora, neste último texto – Daniel 12.1 – este “príncipe” chama-se Miguel. Assim, para uma maior consolidação de interpretação, se consultarmos alguns textos do Novo Testamento – Judas 9; I Tessalonicenses 4.16 - então, não existem quaisquer dúvidas de que se trata do Filho de Deus, Jesus – “o Príncipe dos Exércitos do Senhor”.
Abramos aqui um parêntesis para averiguarmos a autenticidade desta interpretação profética, a saber, se o sumo sacerdote Onias III, personifica o “príncipe do exército”.
Certos comentaristas fazem duas afirmações: 1- que este sumo sacerdote, Onias III, está relacionado com a profecia das 70 semanas, visto “personificar o “Príncipe, o Ungido” – v. 26 (cf. Daniel 9.24-27)”. 2- que este “foi deposto pelo rei Antíoco Epifânio IV no ano 175 a. C..” 3– que “o período das 70 semanas começam deverão ser contadas a partir do decreto do rei Ciro, da Pérsia, ou seja, em 538 a. C., e não o de Artaxerxes, em 457 a. C.” Vejamos tudo isto em várias etapas:

- Se tivermos presente o que revela a profecia, esta diz-nos, a propósito, que: - “depois das sessenta e duas semanas será tirado o Messias” – Daniel 9.26. Como já vimos, estas semanas são proféticas. Assim estamos perante um período longo de tempo. Assim, se cada semana tem 7 dias (profeticamente falando estes correspondem a anos – cf. Números 14.33,34; Ezequiel 4.6), então teremos 434 anos (62 semanas x 7 dias).

- De acordo com a profecia, o “Ungido” deveria de ser exterminado no final deste período – 434 anos. Se, tal como foi dito, as 70 semanas têm como ponto de partida o ano 538 a. C., então veremos que esta ocorrência deveria de acontecer no ano 104 a. C. (538 – 434 a. C.). Dão-nos a conhecer que este o sumo sacerdote Onias III foi deposto em 175 a. C. e morto em 171 a. C.. Então, que faremos do ano 104 a. C., visto este não corresponder, nem ao ano da deposição, nem ao da sua morte?

- Perante o exposto, ou: 1- a data do decreto do rei Ciro, o Persa, 538 a. C., tal como dizem, não está relacionado com o período da profecia das 70 semanas – o que é altamente provável. 2- o “Ungido” da profecia não tem qualquer relação com o sumo sacerdote Onias III – o que poderá muito bem acontecer.
Portanto, desde já, podemos ver que o sumo sacerdote Onias III, não corresponde, de modo algum, ao “príncipe do exército” – tal como veremos na próxima lição.


b) Segunda parte

- “foi tirado o contínuo (perpétuo)”.
Devemos dizer que a palavra “sacrifício” introduzida no texto das diferentes versões não existe no original, pois é um acrescento feito por alguns tradutores. Segundo o texto, este poder simbolizado pelo chifre pequeno irá atentar contra o “contínuo/perpétuo/diário”, tradução da palavra hebraica – tamid – a qual aparece 103 vezes no Antigo Testamento.
Para que saibamos do que estamos a falar, precisamos de saber o que este é e o que representa, segundo as Escrituras, este tamid? “Segundo - Êxodo 29.38-42 e Números 28.2-8 -, o serviço quotidiano compreendia o holocausto de um cordeiro de manhã e outro à tarde. (…). Este serviço quotidiano é o sacrifício perpétuo – tamid”.
À luz do contexto esta apropriação tem que ver com o serviço no santuário. Mas qual? Só existem dois santuários nas Sagradas Escrituras: 1- o terrestre – Êxodo 25.8,9; 2- o celestial – Hebreus 8.1-6.
O terrestre, o qual é mencionado no Antigo Testamento foi destruído no ano 70 d.C.. Assim, o único a funcionar como “Seu santuário”, no tempo do “chifre pequeno” é, efectivamente, um outro santuário, ou seja - o celestial. Como facilmente se compreenderá, o ataque deste poder - chifre pequeno – é de cariz religioso, significando a apropriação dos méritos do ministério de Cristo por serviços substitutivos de pendor humano que tornam ineficaz o serviço perpétuo (tamid) de Cristo em favor da humanidade.

c) Terceira parte

- “o lugar do seu santuário foi lançado por terra”.
Iremos analisar este versículo um pouco mais em detalhe:
1- A palavra – lugar (makon) - na maioria das vezes, no Antigo Testamento, designa: a morada, a habitação de Deus - seja ela no Céu – I Reis 8.39,43,49; II Crónicas 6.30,33,39; Isaías 18.4, etc - ou na Terra – I Reis 8.13; II Crónicas 6.2.
2- A expressão “lugar do seu santuário” aparece no Antigo Testamento unicamente aqui; esta palavra - santuário (miqdash) – pode, de igual modo, designar o templo de Deus na Terra como no do Céu – Salmo 68.35; 78.69; Jeremias 17.12.
3- Vejamos o resto da frase: - “foi lançado por terra”
Certos intérpretes deste versículo, na tentativa de o harmonizar com a personagem Antíoco Epifânio, vão ao ponto de o traduzir de maneira a dar a entender que foi este monarca seleucida que, devido a sua acção, “profanou” , “aboliu” o santuário.
Esta expressão - “foi lançado” (hushlak) – comporta em si a noção de: atirar, lançar. E, entre as cerca de 125 vezes que aparece no Antigo Testamento, não sugere ou insinua algo que tenha a ver com “profanação” ou algo de semelhante, mas tem o sentido de um acto de destruição. Assim, esta (destruição do santuário) visará o tornar ineficaz o quanto se passa, acontece no santuário, o qual se circunscreve, uma vez mais, numa dimensão celeste.
Aqui trata-se, como facilmente se compreenderá, de um contexto não terreno, humano, mas cósmico. Este poder – o chifre pequeno – desenvolverá as suas actividades e estas direccionadas contra Deus, de maneira que fará que o santuário celeste perca todo o seu significado, onde Cristo ministra a favor do Seu povo. Esta dimensão cósmica de “lançar por terra” o santuário, enfatiza, na realidade, a acção contra o ministério celeste de Cristo devido ao estabelecimento de um sistema rival de mediação. Isto dito por outras palavras – o chifre pequeno – tudo fará para afastar a atenção do ser humano da função de mediação, intercessão exercida pelo Sumo Sacerdote – Cristo e, como corolário desta acção, privará a humanidade das bênçãos resultantes do seu ministério celestial.
Este poder aqui representado que, como veremos mais à frente, não tem qualquer relação com o rei seleucida Antíoco IV Epifânio, mas sim com a continuação da Roma pagã, isto é, a Roma papal. Esta, ao colocar o sacerdote, o padre, como substituto da intercessão de Cristo no Santuário celestial, de certa forma derruba o quanto ali se faz a favor do crente. Vejamos, a este respeito o que nos informa o Catecismo: - “(…) a confissão dos pecados perante o sacerdote é elemento essencial deste sacramento (sacramento da Confissão) (…). É chamado sacramento do Perdão, porque, pela absolvição sacramental do sacerdote, Deus concede ao penitente – o perdão e a paz”. Ou ainda – “(…) com efeito, os bispos e os presbíteros é que têm, em virtude do sacramento da Ordem, o poder de perdoar todos os pecados “em nome do pai, do Filho e do Espírito Santo”.
No confessionário, o padre perdoa pecados usando esta fórmula. No sacrifício da missa o sacerdote católico romano torna-se um outro Cristo, na medida em que sacrifica no altar como Cristo, apresentando-se para salvação dos fiéis. O lugar que, por direito, pertence exclusivamente a Cristo, está ocupado por substitutos enganadores. Através da Missa e do Confessionário muitos são afastados do contínuo ministério de Cristo exercido actualmente no Santuário celeste. Através de cerimoniais elaborados, em nome de Cristo, o verdadeiro ministério de Cristo é obscurecido e posto completamente de lado.
O perdão total que Cristo deseja conceder a todos quantos confiam na Sua perfeita e gratuita justiça, tem e continua a ser usurpada por um sistema que toma o Seu lugar. Em lugar de confiar directamente em Cristo, no que fez e faz em nosso favor, o crente, desta forma, é ensinado a depender de uma igreja que, pela sua forma de actuar, dispensa tudo o que Cristo oferece!

- v. 12 - “(…) e lançou a verdade (emeth) por terra; fez isso e prosperou”- cf. 7.25
Note-se que a palavra – emeth (verdade), também pode significar: fidelidade /lei. Esta palavra, deriva, por sua vez, de uma outra – aman – da qual deriva a palavra – Amen – que por sua vez significa: obedecer, ser fiel. As Escrituras associam o conceito Verdade/fidelidade com o de lei – cf. Malaquias 2.6; Salmo 43.3; 119.7,43. Este – Ámen - é a palavra que proferimos no final de cada oração, traduzindo um verdadeiro e fiel: - assim seja.
Este texto de Daniel foi compreendido e traduzido por comentadores judeus, no sentido de que o chifre pequeno se moveria com o propósito de rejeitar a lei – “Ele, o pequeno chifre, anulará a Lei e a observância dos mandamentos”.
No livro de Daniel encontramos algumas vezes esta palavra “emeth” e, em certos casos ela designa a autêntica revelação oriunda de Deus – Daniel 8.26; 10.1,26; 11.2
Assim, Daniel 8.12 e 7.25 não só se interligam entre si como também contêm a mesma mensagem profética – atentar, não só contra a Lei como também contra o Seu autor – Deus.