Cada confissão religiosa tem uma ou várias particularidades que a diferenciam das demais; a – Igreja Católica Apostólica Romana – não seria, de modo algum, excepção.
Mas, atenção! Uma coisa é inventar uma doutrina estranha e a ensinar ao mais comum dos mortais; outra é encontrar essa dita “doutrina” no Livro dos livros – as Escrituras!
Sob este título o autor, antes de refutar seu interlocutor, diz que: “os Adventistas do Sétimo Dia dão um valor especial ao Sábado (sétimo dia), uma vez que a Bíblia impõe o Sábado como dia sagrado instituído pelo próprio Deus. Para Ernesto Ferreira, seguindo sempre o seu historicismo fundamentalista (…)”. Por aqui se poderá adivinhar que qualquer diálogo de cariz ecuménico está, à partida, excluído!
O respeitoso prelado irá, de seguida, transcrever alguns textos apontados pelo interlocutor - Génesis 2:2,3 e outros – de onde este último conclui que:
1- “(…) O Sábado foi instituído cerca de dois mil anos antes de Abraão (…)”.
2- “Vemos, pois, que vinte séculos antes de haver Judeus já fora instituído o Sábado – para todos os homens”.
3- “E se o Sábado deve levar os pensamentos para o Criador, e se o Criador foi o próprio Cristo, concluímos que o Sábado é um dia eminentemente cristão”.
4- Portanto “a mudança do Sábado para o Domingo não foi operada por autoridade das Escrituras mas por iniciativa da Igreja de Roma”.
De seguida, para responder às conclusões do seu interlocutor, o nosso autor diz: “Interessa-nos fundamentar a mudança do Sábado para o Domingo à luz da Bíblia e também à luz da tradição mais primitiva, já expressa na própria Bíblia (…). E como Jesus Cristo não escreveu nada, não mandou escrever nada, mas apenas pregar, ensinar, baptizar, é a sua vida e o seu ensino que determina o futuro da Igreja e o seu processo histórico”.
Vejamos os textos que o autor cita para, tal como o afirma, para “fundamentar a mudança do Sábado para o Domingo à luz da Bíblia e também à luz da tradição mais primitiva, já expressa na própria Bíblia” assim como quanto a Jesus: “a sua vida e o seu ensino que determina o futuro da Igreja e o seu processo histórico”. Sigamos, portanto, o seu esclarecido raciocínio nestas duas vertentes:
a) Isaías 1:13
No propósito de desacreditar a sacralidade do Sábado, o autor chega ao extremo de apontar este texto de Isaías, para dizer que “já Isaías dava mais valor ao homem do que ao Sábado e às festas litúrgicas do templo” . Vejamos, em mais profundidade, a referência bíblica proposta que diz: “Não me ofereçais mais sacrifícios sem valor; o incenso é-me abominável; os Sábados, as reuniões de culto, as festas e solenidades são-me insuportáveis (…) estou cansado deles.” - Isaías 1:13 (sublinhado nosso).
Quanto a nós, e sempre dentro do ponto de vista do autor, tomaremos a liberdade de lhe dar uma ajuda para que se torne ainda mais hostil o clima contra a (aparente) observância do “Sábado”! Assim, já que o autor, para defender o seu ponto de vista cita o texto do profeta Isaías, nós tomaremos a liberdade de citar, dentro deste preciso contexto ritual, outros autores bíblicos. Como iremos ver, o formalismo tinha adquirido tal proeminência, que nada mais restava, ao professo povo de Deus, a não ser um culto formal e ritual, sem qualquer vida e significado, que prestavam ao Senhor! Vejamos:
• “O Senhor aboliu em Sião, festas e Sábados (…). “ - Lamentações 2:6
• “Aos seus divertimentos porei fim; às suas festas, às suas luas novas, aos seus Sábados e a todas as suas solenidades.” - Oseias 2:11,13 (sublinhado nosso)
Que extraordinário! Que a generalidade das confissões religiosas tente subverter os textos para dizer que o Sábado acabou, ainda o admitimos, pois não passam de pequenos desvios em defesa dos seus pontos de vista! Não num teólogo deste gabarito! Convenhamos que é muito forte! E porquê? Pela simples razão de que esperávamos, sinceramente, muito mais! Aguardávamos um raciocínio mais clarividente e totalmente incontestado, biblicamente falando…mas não, para desencanto nosso!
Repetimos: que por razões que nos ultrapassam se ponha em causa o Sábado no Novo Testamento, tal procedimento não nos parecerá lá muito estranho, visto que a maioria da cristandade diz que veio a este mundo, na pessoa de Jesus, um Deus diferente! Ou seja, veio proclamar um estilo de vida, ensinos e preceitos diferentes! Mas, para a ambiência do Antigo Testamento, convenhamos que é um bocado forte, a todos os níveis, até por que, mais que não fosse, o povo vivia sob uma teocracia, apesar dos seus constantes desvios, quer pela parte dos sucessivos monarcas, quer por algumas largas franjas do povo! Mas, mesmo assim, para lembrar estes constantes desvios, Deus irá falar através dos profetas para corrigir estes e outros devaneios religiosos.
Curiosamente, segundo o autor, ao citar o texto do profeta Isaías e outros, Deus coloca ponto final, não nos “desvios” à pureza religiosa, mas, na liturgia sabática! Será verdade? Será só aparência? O que é que, finalmente, se está a passar? Antes de avançarmos para a profundidade dos textos propostos, convinha não esquecer, desde já, que o profeta fala em - rituais e festividades judaicas! O culto prestado desta forma, não passava de uma mera formalidade exterior, em que o coração do devoto não estava lá! E este contexto era uma realidade, tal como o nosso autor o sabe! Por isso deveria tê-lo tido em conta, antes de avançar para conclusões precipitadas! Estamos a ser incorrectos e, até, exagerados? Pensamos que não!
Vejamos, pelo menos, um texto do mesmo profeta que reflecte este mesmo clima mental e perante o qual o profeta se insurge: “ O Senhor disse: Já que este povo se aproximou de mim só com palavras e me honra só com os lábios, enquanto o seu coração está longe de mim e o culto que me presta é apenas humano e rotineiro” – Isaías 29:13 (sublinhado nosso). Deus não quer uma adoração ”faz de conta”, como se costuma dizer! Mas esta era, infelizmente, a única que o povo estava continuamente a oferecer a Deus! Será que os textos por nós acrescentados, assim como os do autor, concorrem para a destituição da sacralidade do 7º dia da semana – o Sábado - como quer fazer crer? Cremos que não!
Estas palavras amargas do próprio Deus nada têm que ver com a dessacralização do Sábado – 7º dia da semana – mas, unicamente porque, tal como já o dissemos, em termos de adoração cultual, já nada tinha sentido - era uma religiosidade aparente, exterior - nada mais!
Saiba, prezado leitor, que não estamos sós neste raciocínio! Certos autores, ao comentarem esta vontade de Deus, através do profeta – expressa por palavras duras contra a forma cultual do povo – acrescentam o seguinte: “Estes textos não podem significar que os profetas tenham condenado os sacrifícios que se ofereciam (…). Os profetas se opõem ao formalismo dum culto exterior, ao qual não correspondem as disposições do coração.”
Assim sendo, de que tratam os textos acima referidos? De que Sábados? Do Sábado (7º dia da semana) ou de dias rituais de descanso (feriados), “que calhavam em qualquer dia de semana.”? Para já, não esqueçamos que a palavra – Sábado – tem, na língua hebraica, o sentido de “descanso, feriado”; repetimos, neste preciso contexto, nada tem que ver com o Sábado – 7º dia da semana – mas unicamente com os tais dias festivos que, eventualmente, poderiam calhar num 7º dia da semana – o Sábado! Esta pequena particularidade, se não for tida em conta, poderá levar a conclusões erradas acerca do quanto o profeta, emissário da vontade de Deus, quis transmitir! Neste caso presente, se insere a conclusão do autor em causa, quando cita o texto de Isaías para consolidar a sua crítica!
Se observarmos os textos até aqui analisados, de uma forma atenta, vemos que, quer no texto bíblico de Lamentações ou no de Oseias, “a palavra – mô’ed (festa) – encontra-se ao lado do Sábado ou da lua nova (Lamentações 2:6 e Oseias 2:11,13), como se, para distinguir, estivessem reservadas às festas anuais – cf. Levítico 23:37,38.” Assim, vejamos uma particularidade no livro do Levítico que, a nosso ver, confirma e reforça o que dissemos até aqui a este respeito, isto é, a diferenciação entre Sábados rituais e o Sábado – 7º dia da semana! Vejamos os textos:
1- “são estas as solenidades do Senhor que vós celebrareis como convocações santas, oferecendo sacrifícios ao Senhor, holocaustos e oblações, vítimas e libações, segundo o rito de cada dia.” – Levítico 23:37.
2- “Independentemente dos Sábados do Senhor, dos vossos dons e de todas as vossas ofertas votivas ou voluntárias com as quais prestareis homenagem ao Senhor.” – v. 38.
Se repararmos bem, as festividades são assinaladas independentemente do dia em que tenham lugar. Mas recordemos o interessante pormenor do v. 38. “Independentemente dos Sábados do Senhor (…)”. Porquê esta referência e precisão? Não será para que não haja qualquer confusão entre uma festa ritual e a sacralidade inerente ao Sábado – 7º dia da semana? Pensamos que sim.
Deus assim o definiu para marcar a diferença existente entre estas duas formas de cultuar a Deus, porque “(…) sublinham o carácter religioso do Sábado que é «para Jeová» - Levítico 23:3; o «Sábado de Jeová» - Levítico 23:38; o dia «consagrado a Jeová» - Êxodo 31:15; que Jeová, ele mesmo «consagrou» - Êxodo 20:11. Porque o Sábado é sagrado e que ele é um sinal da Aliança, a sua observância é um compromisso de salvação – Isaías 58:13,14”
Perguntamos: qual o fundamento da crítica avançada pelo autor, ao dizer, à luz do texto de Isaías, anteriormente citado, que “o profeta já dava mais valor ao homem do que ao Sábado”? Só temos uma resposta: Nenhum! Tal como pudemos ver, o texto apresentado unicamente está relacionado com a mentalidade e formas de actuar descritas, tal como o revela o seu contexto! Não tem, de modo algum, o sentido que, o autor em causa, quer que tenha! O que o autor pretendeu fazer, tirando o texto do seu contexto, não foi interpretar, mas sim mutilar o texto!
Sempre dentro deste mesmo clima mental, lutando contra a banalização da forma de adorar o Senhor, o profeta Joel faz coro com o quanto vimos do profeta Isaías, vejamos: - “Mas agora ainda, - diz o Senhor, convertei-vos a Mim de todo o vosso coração, com jejuns, com lágrimas e com gemidos. Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é bom e compassivo, clemente e misericordioso, Inclinado a arrepender-Se do castigo que inflige.” Joel 2:12,13
De tal maneira retratava o Seu povo que, mais tarde, o próprio Jesus irá citar o texto do profeta Isaías, para condenar a hipocrisia dos fariseus, aplicando-o ao Israel do Seu tempo, ao dizer: “Hipócritas! Muito bem profetizou Isaías a vosso respeito, ao dizer: (…)” – S. Mateus 15:7. Assim como no passado, Jesus denunciava a presente forma de cultuar a Deus, classificando-a de “culto farisaico, de lábios e teatral, mas não de coração”.
E nos nossos dias? Será que as coisas mudaram substancialmente? Ou será que se passará a mesma coisa? Seremos cristãos só por que os nossos antepassados abraçaram, aderiram esta ou aquela confissão religiosa cristã? E, já que deveremos aderir a uma, então, de preferência, que esta seja maioritária, para não parecer mal, nem termos problemas, a diversos níveis, por exemplo, socialmente falando! Por que não? Não é, ainda nos nossos dias, bastante cómodo, a todos os níveis, que declaremos pertencer à confissão religiosa da maioria?
Para não adorarmos somente de uma forma exterior, tal como o profeta o denuncia, então deveremos examinar a Palavra de Deus e não somente ouvir os homens, por muito doutos que sejam e por muito respeito que nos mereçam!
Seguir Jesus, prezado leitor… é isto mesmo! É colocar a Sua vontade em primeiro lugar na nossa vida. É “correr o risco de uma vida que é tão dolorosa como o caminho de um condenado à morte (…); seguir Jesus, é, para todos, estar pronto a seguir o caminho solitário e a sofrer o ódio da comunidade”. É Isto, prezado leitor, o que significa ser verdadeiramente cristão e não seguir esta ou aquela confissão religiosa sem qualquer sentido!
b) S. Mateus 12:1-3
O autor transcreve na totalidade este trecho bíblico para nos dar a conhecer, na qualidade de leitores, a forma como Jesus irá responder aos fariseus que acusavam os Seus discípulos de colherem e comerem algumas espigas, em dia de Sábado, por terem fome!
O autor cita, para reforçar a sua conclusão - S. João 5:1-18 e 9:14 - dizendo: “Assim sendo, Jesus destrói por completo a sacralidade do Templo e a do Sábado. E por que é que Jesus usava o Sábado para fazer os seus milagres, de tal modo que recebia as críticas mais acervas dos Judeus? Precisamente pelo mesmo motivo. (…) É por tudo isto e não por iniciativa da Igreja de Roma, que se passa do Sábado para o Domingo.”
Eis mais uma brilhante conclusão, entre as muitas do nosso autor! Se esta fosse feita por um qualquer colega nosso, historiador de mentalidades, ainda seria possível admiti-la, partindo do princípio de que esta não é a sua área específica do saber! Mas sendo a de um teólogo desta envergadura, um profissional de religião, confessamos que temos muita dificuldade em a aceitar! Por várias razões: em primeiro lugar, porque é muito ligeira e superficial; em segundo lugar, porque em nada corresponde à realidade dos factos!
Passaremos a explicar-nos. Eis o teor dos textos acima citados:
1- “Em certa ocasião, Jesus passava, num dia de Sábado,
através das searas. Os seus discípulos, que tinham
fome, começaram a arrancar as espigas e a comê-las.
Ao verem isto, os fariseus disseram-Lhe: Aí estão os teus
Discípulos a fazer o que não é permitido aos Sábados.
(…) E, se compreendêsseis o que significa: Prefiro
misericórdia ao sacrifício, não teríeis condenado os
que não têm culpa. O Filho do Homem até do Sábado
é Senhor.” – S. Mateus 12:1-8 (sublinhado nosso)
2- “Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu catre e anda.
No mesmo instante, o homem ficou são, tomou o
seu catre e começou a andar. Ora aquele dia era Sábado.
Por isso, os Judeus disseram ao que tinha sido curado:
Hoje é Sábado, não te é permitido levar o catre. (…)
Por isso, os Judeus perseguiram Jesus por Ele ter
feito tais coisas ao Sábado” – S. João 5:8-16 (sublinhado nosso)
3- “E era Sábado, quando Jesus fez o lodo e lhe abriu
os olhos. (…) Então, alguns dos fariseus diziam:
Este homem não é de Deus, pois não guarda o Sábado.” – S. João 9:14-16
Ora, o que é que estes textos revelam, prezado leitor? Pelo menos duas realidades, a saber: 1- Execução de várias tarefas; 2- Sempre no mesmo dia - no Sábado. E, curiosamente, em todas as tarefas e respectivos dias de ocorrência, Jesus é severamente criticado! É assim que os textos falam e nesta qualidade os aceitamos - nada mais!
Iremos ver, mais abaixo, o porquê das referidas acusações, para que compreendamos se está em causa o Sábado – 7º dia da semana – ou se tudo não passa, uma vez mais, de uma maneira de fazer jus a um puro formalismo ritual – tão somente isto!