sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

A BÍBLIA E O SÁBADO

Cada confissão religiosa tem uma ou várias particularidades que a diferenciam das demais; a – Igreja Católica Apostólica Romana – não seria, de modo algum, excepção.
Mas, atenção! Uma coisa é inventar uma doutrina estranha e a ensinar ao mais comum dos mortais; outra é encontrar essa dita “doutrina” no Livro dos livros – as Escrituras!
Sob este título o autor, antes de refutar seu interlocutor, diz que: “os Adventistas do Sétimo Dia dão um valor especial ao Sábado (sétimo dia), uma vez que a Bíblia impõe o Sábado como dia sagrado instituído pelo próprio Deus. Para Ernesto Ferreira, seguindo sempre o seu historicismo fundamentalista (…)”. Por aqui se poderá adivinhar que qualquer diálogo de cariz ecuménico está, à partida, excluído!
O respeitoso prelado irá, de seguida, transcrever alguns textos apontados pelo interlocutor - Génesis 2:2,3 e outros – de onde este último conclui que:

1- “(…) O Sábado foi instituído cerca de dois mil anos antes de Abraão (…)”.

2- “Vemos, pois, que vinte séculos antes de haver Judeus já fora instituído o Sábado – para todos os homens”.

3- “E se o Sábado deve levar os pensamentos para o Criador, e se o Criador foi o próprio Cristo, concluímos que o Sábado é um dia eminentemente cristão”.

4- Portanto “a mudança do Sábado para o Domingo não foi operada por autoridade das Escrituras mas por iniciativa da Igreja de Roma”.

De seguida, para responder às conclusões do seu interlocutor, o nosso autor diz: “Interessa-nos fundamentar a mudança do Sábado para o Domingo à luz da Bíblia e também à luz da tradição mais primitiva, já expressa na própria Bíblia (…). E como Jesus Cristo não escreveu nada, não mandou escrever nada, mas apenas pregar, ensinar, baptizar, é a sua vida e o seu ensino que determina o futuro da Igreja e o seu processo histórico”.
Vejamos os textos que o autor cita para, tal como o afirma, para “fundamentar a mudança do Sábado para o Domingo à luz da Bíblia e também à luz da tradição mais primitiva, já expressa na própria Bíblia” assim como quanto a Jesus: “a sua vida e o seu ensino que determina o futuro da Igreja e o seu processo histórico”. Sigamos, portanto, o seu esclarecido raciocínio nestas duas vertentes:
a) Isaías 1:13
No propósito de desacreditar a sacralidade do Sábado, o autor chega ao extremo de apontar este texto de Isaías, para dizer que “já Isaías dava mais valor ao homem do que ao Sábado e às festas litúrgicas do templo” . Vejamos, em mais profundidade, a referência bíblica proposta que diz: “Não me ofereçais mais sacrifícios sem valor; o incenso é-me abominável; os Sábados, as reuniões de culto, as festas e solenidades são-me insuportáveis (…) estou cansado deles.” - Isaías 1:13 (sublinhado nosso).
Quanto a nós, e sempre dentro do ponto de vista do autor, tomaremos a liberdade de lhe dar uma ajuda para que se torne ainda mais hostil o clima contra a (aparente) observância do “Sábado”! Assim, já que o autor, para defender o seu ponto de vista cita o texto do profeta Isaías, nós tomaremos a liberdade de citar, dentro deste preciso contexto ritual, outros autores bíblicos. Como iremos ver, o formalismo tinha adquirido tal proeminência, que nada mais restava, ao professo povo de Deus, a não ser um culto formal e ritual, sem qualquer vida e significado, que prestavam ao Senhor! Vejamos:


• “O Senhor aboliu em Sião, festas e Sábados (…). “ - Lamentações 2:6
• “Aos seus divertimentos porei fim; às suas festas, às suas luas novas, aos seus Sábados e a todas as suas solenidades.” - Oseias 2:11,13 (sublinhado nosso)

Que extraordinário! Que a generalidade das confissões religiosas tente subverter os textos para dizer que o Sábado acabou, ainda o admitimos, pois não passam de pequenos desvios em defesa dos seus pontos de vista! Não num teólogo deste gabarito! Convenhamos que é muito forte! E porquê? Pela simples razão de que esperávamos, sinceramente, muito mais! Aguardávamos um raciocínio mais clarividente e totalmente incontestado, biblicamente falando…mas não, para desencanto nosso!
Repetimos: que por razões que nos ultrapassam se ponha em causa o Sábado no Novo Testamento, tal procedimento não nos parecerá lá muito estranho, visto que a maioria da cristandade diz que veio a este mundo, na pessoa de Jesus, um Deus diferente! Ou seja, veio proclamar um estilo de vida, ensinos e preceitos diferentes! Mas, para a ambiência do Antigo Testamento, convenhamos que é um bocado forte, a todos os níveis, até por que, mais que não fosse, o povo vivia sob uma teocracia, apesar dos seus constantes desvios, quer pela parte dos sucessivos monarcas, quer por algumas largas franjas do povo! Mas, mesmo assim, para lembrar estes constantes desvios, Deus irá falar através dos profetas para corrigir estes e outros devaneios religiosos.
Curiosamente, segundo o autor, ao citar o texto do profeta Isaías e outros, Deus coloca ponto final, não nos “desvios” à pureza religiosa, mas, na liturgia sabática! Será verdade? Será só aparência? O que é que, finalmente, se está a passar? Antes de avançarmos para a profundidade dos textos propostos, convinha não esquecer, desde já, que o profeta fala em - rituais e festividades judaicas! O culto prestado desta forma, não passava de uma mera formalidade exterior, em que o coração do devoto não estava lá! E este contexto era uma realidade, tal como o nosso autor o sabe! Por isso deveria tê-lo tido em conta, antes de avançar para conclusões precipitadas! Estamos a ser incorrectos e, até, exagerados? Pensamos que não!
Vejamos, pelo menos, um texto do mesmo profeta que reflecte este mesmo clima mental e perante o qual o profeta se insurge: “ O Senhor disse: Já que este povo se aproximou de mim só com palavras e me honra só com os lábios, enquanto o seu coração está longe de mim e o culto que me presta é apenas humano e rotineiro” – Isaías 29:13 (sublinhado nosso). Deus não quer uma adoração ”faz de conta”, como se costuma dizer! Mas esta era, infelizmente, a única que o povo estava continuamente a oferecer a Deus! Será que os textos por nós acrescentados, assim como os do autor, concorrem para a destituição da sacralidade do 7º dia da semana – o Sábado - como quer fazer crer? Cremos que não!
Estas palavras amargas do próprio Deus nada têm que ver com a dessacralização do Sábado – 7º dia da semana – mas, unicamente porque, tal como já o dissemos, em termos de adoração cultual, já nada tinha sentido - era uma religiosidade aparente, exterior - nada mais!
Saiba, prezado leitor, que não estamos sós neste raciocínio! Certos autores, ao comentarem esta vontade de Deus, através do profeta – expressa por palavras duras contra a forma cultual do povo – acrescentam o seguinte: “Estes textos não podem significar que os profetas tenham condenado os sacrifícios que se ofereciam (…). Os profetas se opõem ao formalismo dum culto exterior, ao qual não correspondem as disposições do coração.”
Assim sendo, de que tratam os textos acima referidos? De que Sábados? Do Sábado (7º dia da semana) ou de dias rituais de descanso (feriados), “que calhavam em qualquer dia de semana.”? Para já, não esqueçamos que a palavra – Sábado – tem, na língua hebraica, o sentido de “descanso, feriado”; repetimos, neste preciso contexto, nada tem que ver com o Sábado – 7º dia da semana – mas unicamente com os tais dias festivos que, eventualmente, poderiam calhar num 7º dia da semana – o Sábado! Esta pequena particularidade, se não for tida em conta, poderá levar a conclusões erradas acerca do quanto o profeta, emissário da vontade de Deus, quis transmitir! Neste caso presente, se insere a conclusão do autor em causa, quando cita o texto de Isaías para consolidar a sua crítica!
Se observarmos os textos até aqui analisados, de uma forma atenta, vemos que, quer no texto bíblico de Lamentações ou no de Oseias, “a palavra – mô’ed (festa) – encontra-se ao lado do Sábado ou da lua nova (Lamentações 2:6 e Oseias 2:11,13), como se, para distinguir, estivessem reservadas às festas anuais – cf. Levítico 23:37,38.” Assim, vejamos uma particularidade no livro do Levítico que, a nosso ver, confirma e reforça o que dissemos até aqui a este respeito, isto é, a diferenciação entre Sábados rituais e o Sábado – 7º dia da semana! Vejamos os textos:
1- “são estas as solenidades do Senhor que vós celebrareis como convocações santas, oferecendo sacrifícios ao Senhor, holocaustos e oblações, vítimas e libações, segundo o rito de cada dia.” – Levítico 23:37.
2- “Independentemente dos Sábados do Senhor, dos vossos dons e de todas as vossas ofertas votivas ou voluntárias com as quais prestareis homenagem ao Senhor.” – v. 38.
Se repararmos bem, as festividades são assinaladas independentemente do dia em que tenham lugar. Mas recordemos o interessante pormenor do v. 38. “Independentemente dos Sábados do Senhor (…)”. Porquê esta referência e precisão? Não será para que não haja qualquer confusão entre uma festa ritual e a sacralidade inerente ao Sábado – 7º dia da semana? Pensamos que sim.
Deus assim o definiu para marcar a diferença existente entre estas duas formas de cultuar a Deus, porque “(…) sublinham o carácter religioso do Sábado que é «para Jeová» - Levítico 23:3; o «Sábado de Jeová» - Levítico 23:38; o dia «consagrado a Jeová» - Êxodo 31:15; que Jeová, ele mesmo «consagrou» - Êxodo 20:11. Porque o Sábado é sagrado e que ele é um sinal da Aliança, a sua observância é um compromisso de salvação – Isaías 58:13,14”
Perguntamos: qual o fundamento da crítica avançada pelo autor, ao dizer, à luz do texto de Isaías, anteriormente citado, que “o profeta já dava mais valor ao homem do que ao Sábado”? Só temos uma resposta: Nenhum! Tal como pudemos ver, o texto apresentado unicamente está relacionado com a mentalidade e formas de actuar descritas, tal como o revela o seu contexto! Não tem, de modo algum, o sentido que, o autor em causa, quer que tenha! O que o autor pretendeu fazer, tirando o texto do seu contexto, não foi interpretar, mas sim mutilar o texto!
Sempre dentro deste mesmo clima mental, lutando contra a banalização da forma de adorar o Senhor, o profeta Joel faz coro com o quanto vimos do profeta Isaías, vejamos: - “Mas agora ainda, - diz o Senhor, convertei-vos a Mim de todo o vosso coração, com jejuns, com lágrimas e com gemidos. Rasgai os vossos corações e não as vossas vestes. Convertei-vos ao Senhor, vosso Deus, porque Ele é bom e compassivo, clemente e misericordioso, Inclinado a arrepender-Se do castigo que inflige.” Joel 2:12,13
De tal maneira retratava o Seu povo que, mais tarde, o próprio Jesus irá citar o texto do profeta Isaías, para condenar a hipocrisia dos fariseus, aplicando-o ao Israel do Seu tempo, ao dizer: “Hipócritas! Muito bem profetizou Isaías a vosso respeito, ao dizer: (…)” – S. Mateus 15:7. Assim como no passado, Jesus denunciava a presente forma de cultuar a Deus, classificando-a de “culto farisaico, de lábios e teatral, mas não de coração”.
E nos nossos dias? Será que as coisas mudaram substancialmente? Ou será que se passará a mesma coisa? Seremos cristãos só por que os nossos antepassados abraçaram, aderiram esta ou aquela confissão religiosa cristã? E, já que deveremos aderir a uma, então, de preferência, que esta seja maioritária, para não parecer mal, nem termos problemas, a diversos níveis, por exemplo, socialmente falando! Por que não? Não é, ainda nos nossos dias, bastante cómodo, a todos os níveis, que declaremos pertencer à confissão religiosa da maioria?
Para não adorarmos somente de uma forma exterior, tal como o profeta o denuncia, então deveremos examinar a Palavra de Deus e não somente ouvir os homens, por muito doutos que sejam e por muito respeito que nos mereçam!
Seguir Jesus, prezado leitor… é isto mesmo! É colocar a Sua vontade em primeiro lugar na nossa vida. É “correr o risco de uma vida que é tão dolorosa como o caminho de um condenado à morte (…); seguir Jesus, é, para todos, estar pronto a seguir o caminho solitário e a sofrer o ódio da comunidade”. É Isto, prezado leitor, o que significa ser verdadeiramente cristão e não seguir esta ou aquela confissão religiosa sem qualquer sentido!
b) S. Mateus 12:1-3
O autor transcreve na totalidade este trecho bíblico para nos dar a conhecer, na qualidade de leitores, a forma como Jesus irá responder aos fariseus que acusavam os Seus discípulos de colherem e comerem algumas espigas, em dia de Sábado, por terem fome!
O autor cita, para reforçar a sua conclusão - S. João 5:1-18 e 9:14 - dizendo: “Assim sendo, Jesus destrói por completo a sacralidade do Templo e a do Sábado. E por que é que Jesus usava o Sábado para fazer os seus milagres, de tal modo que recebia as críticas mais acervas dos Judeus? Precisamente pelo mesmo motivo. (…) É por tudo isto e não por iniciativa da Igreja de Roma, que se passa do Sábado para o Domingo.”
Eis mais uma brilhante conclusão, entre as muitas do nosso autor! Se esta fosse feita por um qualquer colega nosso, historiador de mentalidades, ainda seria possível admiti-la, partindo do princípio de que esta não é a sua área específica do saber! Mas sendo a de um teólogo desta envergadura, um profissional de religião, confessamos que temos muita dificuldade em a aceitar! Por várias razões: em primeiro lugar, porque é muito ligeira e superficial; em segundo lugar, porque em nada corresponde à realidade dos factos!
Passaremos a explicar-nos. Eis o teor dos textos acima citados:

1- “Em certa ocasião, Jesus passava, num dia de Sábado,
através das searas. Os seus discípulos, que tinham
fome, começaram a arrancar as espigas e a comê-las.
Ao verem isto, os fariseus disseram-Lhe: Aí estão os teus
Discípulos a fazer o que não é permitido aos Sábados.
(…) E, se compreendêsseis o que significa: Prefiro
misericórdia ao sacrifício, não teríeis condenado os
que não têm culpa. O Filho do Homem até do Sábado
é Senhor.” – S. Mateus 12:1-8 (sublinhado nosso)

2- “Jesus disse-lhe: Levanta-te, toma o teu catre e anda.
No mesmo instante, o homem ficou são, tomou o
seu catre e começou a andar. Ora aquele dia era Sábado.
Por isso, os Judeus disseram ao que tinha sido curado:
Hoje é Sábado, não te é permitido levar o catre. (…)
Por isso, os Judeus perseguiram Jesus por Ele ter
feito tais coisas ao Sábado” – S. João 5:8-16 (sublinhado nosso)

3- “E era Sábado, quando Jesus fez o lodo e lhe abriu
os olhos. (…) Então, alguns dos fariseus diziam:
Este homem não é de Deus, pois não guarda o Sábado.” – S. João 9:14-16
Ora, o que é que estes textos revelam, prezado leitor? Pelo menos duas realidades, a saber: 1- Execução de várias tarefas; 2- Sempre no mesmo dia - no Sábado. E, curiosamente, em todas as tarefas e respectivos dias de ocorrência, Jesus é severamente criticado! É assim que os textos falam e nesta qualidade os aceitamos - nada mais!
Iremos ver, mais abaixo, o porquê das referidas acusações, para que compreendamos se está em causa o Sábado – 7º dia da semana – ou se tudo não passa, uma vez mais, de uma maneira de fazer jus a um puro formalismo ritual – tão somente isto!

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

OS VISIONÁRIOS A LONGA DISTÂNCIA

O livro do profeta Daniel não é, tal como acima vimos, contrariamente ao que quer fazer crer o autor, um livro escrito no século II a.C.! Abordámos também algumas afirmações e conclusões deste acerca de certos detalhes do referido livro e, tal como vimos, estes não correspondem às diferentes conclusões avançadas! Vejamos ainda outras conclusões:

• Daniel / Moisés
Voltando ainda ao comentário que faz acerca do livro do profeta Daniel e das diferentes conclusões ali tiradas e, como não há duas sem três, o autor tira um par de conclusões e, convenhamos, de peso, aliás, como já vem sendo seu hábito! Vejamos:
a) “Mas penso que ficou claro que as profecias de Daniel nada têm “a ver com a verdadeira figura de Jesus Cristo (Messias)”;
b) “Aliás, os profetas, a começar por Moisés, quando pregavam faziam-no de modo que o seu auditório entendesse. Não pregavam profeticamente e apocalipticamente para séculos posteriores.”
• Quanto à primeira conclusão, pensamos ter demonstrado, acima, exactamente o contrário, quando abordámos a problemática de Daniel!
• Quanto à última conclusão, esta é uma daquelas que, tal como já o dissemos, se não a lêssemos e vinda de quem vem, não acreditaríamos! Mas já que foi expressa, por escrito, rendemo-nos a tal evidência!
A afirmação do autor, segundo a qual “Moisés nada escreveu nem deixou escrito”. Caso esta fosse verdadeira, não compreenderíamos lá muito bem o 5º livro das Escrituras – o Deuteronómio!
Se, realmente - como pensamos ter demonstrado - Moisés é o autor do Pentateuco (os 5 primeiros livros da Bíblia), ou, pelo menos, lhe é atribuída a paternidade - a conclusão do autor não tem qualquer fundamento: nem bíblico nem histórico. Se este nada escreveu, de novo, o escriba anónimo excedeu-se e escreveu o que não devia! Pois se assim é, este escritor é, no mínimo, mentiroso!
Vejamos, a título de curiosidade, um excerto do livro do Deuteronómio que diz: “O Senhor teu Deus, suscitará em teu favor um profeta saído das tuas fileiras, um dos teus irmãos, como eu: é a ele que escutarás” – Deuteronómio 18:15. A ser verdade este texto, perguntamos:
1- Quem é este “eu” que fala na 1ª pessoa? Era, sim ou não, profeta? Se sim, era ou não Moisés?
2- No discurso de Estevão, o qual se encontra relatado no livro dos Actos dos Apóstolos, acerca deste Moisés, refere: “Foi ele, Moisés, quem disse aos filhos de Israel: «Deus fará surgir um profeta como eu entre os vossos irmãos” – Actos 7:37; 3:22. Portanto, para já, quem é que está a mentir? O escriba anónimo (dizem), na qualidade de autor do Deuteronómio? Estevão? Ou, por extensão, o próprio Deus que os inspirou? Ou o eminente teólogo que nos ocupa?
Já ficámos a saber, pelo menos, que foi Moisés quem as disse. E agora, como saber quem é este “profeta” que surgiria mais tarde? Foram tantos os que lhe sucederam! Mas, entre tantos, qual? Para quê, prezado leitor, colocarmo-nos a adivinhar? Estaremos a queimar os nossos neurónios e ainda com o risco acrescido de não acertarmos naquele a quem a profecia diz respeito! Se o autor tem razão na afirmação que fez, isto é, “Moisés não pregava profeticamente (…) para séculos posteriores”, convenhamos que nada ficaremos a saber, claro está!
Graças a Deus que, para nós, o que conta é o que está escrito na Palavra de Deus e, por isso, ao contrário do autor, não temos qualquer dúvida acerca deste “profeta” que viria séculos depois! Vejamos o que nos revelam as Escrituras a este propósito: “Vendo aqueles homens o milagre que Ele fizera, disseram: «Este é, na verdade o Profeta que está para vir ao mundo».” – S. João 6:14. Não é uma inequívoca referência à profecia de Moisés? Claro que sim!
O contexto fala da multiplicação dos pães e dos peixes operada por Jesus! Ninguém tem qualquer dúvida a este respeito, pois não somos só nós que concordamos com as Escrituras; outros também dizem que “a esperança judaica espera a volta escatológica de um profeta preciso. (…) Não se trata de uma volta de Moisés, mas da aparição, no final dos tempos de um profeta que lhe seja parecido. O texto dos Actos dos Apóstolos aplica-se a Jesus.” Portanto que mais acrescentar?
Mas, tal como o autor afirma, a Bíblia tem “contradições” , ou ainda “erros históricos”! A ser verdade, então, talvez o nosso interlocutor tenha razão, pois nada tem valor e nada condiz com coisa alguma! Não queremos nem devemos usar o argumento-força da “maioria”, como o autor o faz em diversas das suas conclusões, mas unicamente pela coerência e força dos textos, nada mais! Uma vez mais, as Escrituras referem o grande perigo que é a – MAIORIA – pois nem sempre esta tem razão! Eis como a Bíblia nos aconselha: “Não sigas a opinião da maioria para praticar o mal. Não deponhas num julgamento, colocando-te ao lado da maioria, de modo a desviar a justiça da sua rectidão” – Êxodo 23:2. Em que é que as Escrituras estão desajustadas? Só na fértil imaginação de alguns, nada mais!

Se realmente “os profetas não pregavam profeticamente (…) para séculos futuros”, podemos ainda perguntar: para que servirá, a profecia? Nada se cumprirá no futuro, mas no presente! O profeta, aquele que fala por uma terceira entidade, limita-se unicamente a falar, segundo dizem, para o presente. A ser este postulado verdadeiro, que diremos? Que pensar das profecias Messiânicas, por exemplo?
Dentro desta problemática, recordaremos dois textos, entre outros, que apontavam para o futuro, para um tempo posterior ao profeta – o cerco e destruição de Jerusalém no ano 70 da nossa era. Vejamos:

domingo, 16 de janeiro de 2011

CÂNONE - SER OU NÃO SER

Perguntamos: Quando se abre a Bíblia, quando se lê qualquer livro do Antigo ou do Novo Testamento, o que ali encontramos foi realmente escrito por aquele, cujo nome encontramos escrito na parte superior de cada página? E, quanto ao seu conteúdo, será digno de confiança e de fé?
Assim, para podermos avançar, iremos tentar dar uma panorâmica do quanto constitui o Cânone. Só este é que tem o poder, só este é a Norma para definir quem é quem, quem é o quê! Enfim, aferir se toda e qualquer confissão religiosa se pauta pelo quanto aqui se encontra escrito. Caso contrário, não é verdadeira!

A Bíblia
A palavra Bíblia afirma, ao mesmo tempo, a sua unidade e autoridade. Para a definirmos empregamos o singular - livro - e não o plural – livros. A Bíblia é um livro e, em certo sentido, é o único livro. A propriedade do termo “Bíblia” é indiscutível. A unidade que ressalta através das suas partes, unidade na diversidade, tem sido aceite pela consciência cristã e tem exercido ao longo da sua existência uma grande e sublime influência.
Nenhum livro influenciou, tanto como a Bíblia, o ser humano! Escritores, poetas e artistas, todas a ela foram beber. Ela inspirou e inspira movimentos culturais e, como veremos mais adiante, irá também estar na base dos movimentos messiânicos e milenaristas, quer do passado, quer da actualidade.
Para já, a palavra Bíblia de onde vem? Bíblia é o mesmo nome que se dá às Escrituras em latim – Bíblia. A palavra portuguesa – Bíblia – é igual à latina. O termo latino também está no singular, mas é a forma latina da palavra grega – Biblia – que não é singular, mas o plural de – Biblion – (livro).
Pelo uso que se fez do papiro ( planta de terras inundadas, de que os antigos egípcios faziam finas folhas para escrever.) é que – Biblos – começou a adquirir o significado de livro, e o termo de - Biblion - passou a designar: um livro pequeno. No Novo Testamento, os termos – Biblios e Biblion – aplicam-se a um só livro do Antigo Testamento, ou a um grupo deles, tal como, por exemplo: o Pentateuco. É assim que o encontramos nas Escrituras: “(…) Não lestes no livro de Moisés (…)” – S. Marcos 12:26. No Antigo Testamento encontramos o plural usado com referência aos profetas, “Não escutámos os Vossos servos, os profetas (…)” – Daniel 9:6.
O plural assim empregue passou para a Igreja cristã e, sensivelmente, desde meados do século II, as Escrituras são conhecidas pelas designações: os livros, os livros divinos, os livros canónicos.
Uma vez que o plural grego - Bíblia - foi adoptado em latim, negligenciou-se o valor da primitiva significação. Bíblia, em latim, na sua forma gramatical, tanto pode ser um plural neutro, como um singular feminino. Como as Escrituras são um todo harmonioso, faz com que o plural - Bíblia - se tornasse singular e passasse a designar – o Livro.
Não deixa de ser maravilhoso que, das diversas palavras de Deus reveladas ao homem, estas formassem uma só – a Palavra de Deus. Apesar de nela encontrarmos diferentes escritores, nota-se uma unidade perfeita nesta diversidade de livros que formam o todo - a Bíblia. O termo Testamento não está em conformidade com o texto que lhe serve de suporte. A palavra mais apropriada é, sem dúvida alguma – Aliança – aquela que Deus estabeleceu com o antigo Israel e renovada em Cristo Jesus.
Quando abrimos a Bíblia saibamos que ela não tem uma apresentação cronológica, (isto é, que os livros foram escritos na ordem em que são apresentados), mas lógica! O Antigo Testamento contém livros históricos; no entanto, não se trata de uma História científica, mas de Salvação. Revela-se-nos a História de um povo escolhido para um fim específico, por Deus. A Bíblia sendo o Livro dos livros contém, como veremos a seguir, sessenta e seis livros, escritos por cerca de quarenta e cinco autores; esta contém 1189 capítulos, 929 no Antigo testamento e 260 no Novo Testamento e 31.173 versículos. O seu capítulo mais longo é o Salmo 119 e o mais curto é o Salmo 117. A Bíblia foi escrita ao longo de 1.600 anos.


Papiro 46 contendo 2 Coríntios 11:33-12:9
O Cânone Não se pode falar acerca da Inspiração, assim como da autoridade da Bíblia sem termos em conta, ainda que brevemente, das seguintes questões: 1- Como é que os livros individuais da Escritura, inspirados por Deus, foram reunidos?; 2- Por que é que alguns foram escolhidos, enquanto que outros foram, pura e simplesmente rejeitados e postos de lado?: 3- Em que época e em que circunstâncias é que foi elaborada a actual lista de livros inspirados, a qual se passou a chamar de – Cânone?
A palavra Cânone é de origem grega – Kanon – e significa literalmente: regra, pedaço de madeira comprido, régua de carpinteiro, regra. A ideia essencial da palavra é a de uma linha recta ou direita. O termo Cânone empregue em sentido metafórico, significa, não aquilo que mede mas o que é ou está conforme à regra ou medida. Com resquício desta nomenclatura temos, por exemplo, a palavra cónego (canonicus) da confissão religiosa Igreja Católica Apostólica Romana (é chamado assim, não porque os seus inferiores se devam moldar a si pelo seu exemplo, mas porque os cónegos eram, originalmente, membros de uma comunidade na qual todos os seus membros se deviam conformar com uma certa regra de fé e conduta; a palavra transferiu-se da regra para o homem que a ela estava sujeito).
No sentido metafórico de “regra de fé”, aparece a palavra Cânone no Novo Testamento “E a todos quantos seguirem esta regra (…)” – Gálatas 6:16. Parece, portanto, ter sido neste sentido que “desde o tempo dos Pais da Igreja (metade do século IV d.C.), a palavra cânon significa uma lista de escritos – inalteráveis em seu volume, forma e conteúdo – que são normativos para a vida e para a fé”.

Bibliografia:
 Klaus Homburg, Introdução ao Antigo Testamento, 3ª ed. S. Leopoldo, Ed. Sinodal, 1979, p. 190
Isidro Pereira, S.J., Dicionário Grego-Português e Português-Grego, 5ª ed. Porto, Ed. Apostolado da Imprensa, 1976, p. 295

domingo, 9 de janeiro de 2011

OS APÓCRIFOS NO NOVO TESTAMENTO

As traduções católicas romanas
possuiem 7 livros apócrifos.
Literalmente, a palavra – Apocrufos – significa: oculto, secreto. As adições ao texto sagrado, que ficaram catalogadas com este nome procedem do Cânone Alexandrino – versão da Septuaginta (LXX). Estes escritos também são conhecidos por deuterocanónicos, isto é, livros cuja inspiração é duvidosa. Na realidade, talvez se designassem com mais propriedade de – pseudocanónicos – isto é, os que se fazem passar por aquilo que não são, ou seja: canónicos e inspirados!
Alguns dos livros com estas características: Tobias, Judite, Sabedoria, Eclesiástico, Baruque, I e II de Macabeus; há ainda a considerar os fragmentos gregos incorporados no texto hebraico do Antigo Testamento, a saber: o Cântico dos 3 hebreus (66 versículos intercalados entre os versículos 23 e 24 do capítulo 3 do livro do profeta Daniel); Bel e o Dragão (Daniel capítulo 14) e 7 capítulos no fim do livro de Ester.
A Vulgata Latina, a Bíblia da Igreja Romana contém estas adições, as quais concorrem para que esta última tenha, não 66 livros, mas 72, assim distribuídos: Antigo Testamento = 45; Novo testamento = 27. Qualquer outra Bíblia contém unicamente 66 livros, em conformidade com o Cânone Palestino.
Estas adições - os Apócrifos - contidos na Vulgata Latina, a Bíblia da Igreja Romana, apesar de não canónicos e, portanto, sem autoridade em matéria de fé, alguns deles são de alto valor literário, histórico e moral.
Ao referir a existência desta problemática e realçando o seu valor, o nosso autor declara que “foi a Igreja do Antigo Testamento e a Igreja do Novo Testamento quem determinou os livros que são canónicos e os que não são”. Em certo sentido esta afirmação está correcta! Tem-se dito que a Bíblia dos Apóstolos – as Escrituras - que habitualmente é citada é a Septuaginta (LXX), versão que contém estas mesmas adições! O conhecimento da Septuaginta – Cânone Alexandrino - é indubitável, visto que o autor da Carta aos Hebreus, por exemplo, faz uso, entre outras fontes, do conteúdo de descrições existentes no 1º e do 2º livro dos Macabeus:

1- Carta aos Hebreus 11:35 (…) uns foram torturados, não aceitando o seu livramento, para alcançarem uma melhor ressurreição” (sublinhado nosso) – cf. II Macabeus 6:21,26; 7:1,9-11

2- Carta aos Hebreus 11:36 “(…) escárneos, açoites, cadeias e prisões” (sublinhado nosso – cf. I Macabeus 7:34-38;9:26.

3- Carta aos Hebreus 11:38 “(…) errantes pelos desertos e montes e pelas covas e cavernas da terra” (sublinhado nosso) – cf. I Macabeus 2:28-30; II Macabeus 5:27; 6:11; 10:6
Apócrifo; diz-se dos livros da Bíblia cuja
autenticidade não foi suficientemente
estabelecida e que são rejeitados
pelas Igrejas cristãs.
Poderão estes escritos ser admitidos como pertencendo à Bíblia divinamente inspirada; ou deverão, pelo contrário, ser considerados com elaborações humanas indevidamente acrescentadas ao Sagrado Livro?
A divergência, somente ocorre sobre os livros do Antigo Testamento. Estes circulavam no tempo de Jesus; já que esta existe, então proporemos um critério muito simples e coerente, a saber: Como Jesus se serviu das Escrituras (Antigo Testamento) usadas pelos judeus da Palestina no Seu tempo, por que não, desde já, formularmos a pergunta: eram os escritos, em questão, aceites pelos Judeus da Palestina, no século I da era cristã? Se eram, devemos aceitar como inspirados os livros que Jesus, ele mesmo, aceitou? Caso contrário devemos rejeitá-los. É interessante notar que “todo o Novo Testamento não contém nenhuma citação explicita dos Apócrifos do Antigo Testamento”.
Na verdade, se existe uma Bíblia é porque, de igual modo, existe um Cânone que a engendrou e regulamenta. O autor que nos ocupa, para realçar a ideia de que o Cânone não apareceu de maneira divina e, muito menos, de uma forma mágica, faz alusão a alguns Cânones que circulavam, nomeadamente: “o Palestiniano, o Alexandrino e o de Flávio Josefo”.
É verdade que o Cânone não caiu do céu tal qual! Mas também não é menos verdade que a dita “autoridade da Igreja” é usada, muitas vezes, de forma enganosa e tendenciosa! Por outras palavras, as Escrituras – Antigo e Novo Testamento – deram testemunho por si mesmas da sua própria autoridade! A Igreja não fez mais do que se inclinar perante a mesma e oficializar o que “naturalmente não correspondia à verdade inspirada”, os escritos espúrios – os Apócrifos! E tanto foi assim que nenhum Concílio Geral, desde os tempos mais remotos, procurasse definir o Cânone, a não ser, curiosamente, só no século XVI! E porquê? Para fazer face às investidas inconvenientes dos ventos da Reforma, como mais abaixo o veremos!
O Cânone de Flávio Josefo, e o Palestiniano contêm 22 livros. Façamos aqui uma breve nota explicativa acerca deste Flávio Josefo. Ele era um historiador judeu (37-100). Na guerra contra Roma foi encarregado pelo Sinédrio do comando da província da Galileia, ao norte da Palestina, cuja defesa organizou. Depois, convicto da inutilidade desta guerra, capitulou. Assiste, ao lado do general romano Tito, à conquista de Jerusalém no ano 70 d.C. Depois, instala-se em Roma e ali redige, em grego, a obra que o imortalizou: A Guerra dos Judeus, as Antiguidades Judaicas e Contra Apio.
Flávio Josefo menciona um Cânone com apenas 22 livros, ao escrever: “não existe entre nós miríades de livros discordantes e contraditórios? Mas temos unicamente vinte e dois livros que contêm a memória dos tempos passados e que são tidos por divinos.” Depois, a certa altura acrescenta um interessante pormenor: ”desde Artaxerxes, a nossa História foi escrita, mas estes livros não foram dignos de crédito como os que os precederam porque a sucessão dos profetas, desde esse tempo, não era correcta.” Note-se que o autor revela:
a) Um limite de vinte e dois livros canónicos;
b) Não se escreveram escritos canónicos desde o reinado de Artaxerxes (465-424 a. C.) filho de Xerxes (486-465 a.C.)
c) Nada foi incorporado aos anteriores 22 livros canónicos a partir deste período, isto é, do último profeta do Antigo Testamento – Malaquias. Portanto, como compreender, naturalmente, a inserção no Cânone os livros Apócrifos escritos posteriormente? Com que autoridade? A não ser pela conveniência; para silenciar as vozes discordantes para com certos ensinos. Caso contrário, como se explicará tal inclusão abusiva?
Bibliografia:Isidro Pereira, S.J., op. cit., p. 72
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit, p. 11
Klaus Homburg, op. cit., p. 194
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit, p. 12
Cf. H. Strathmann, L’Épître aux Hebreux, Genève, Ed. Labor & Fides, 1971, p. 119
René Pache, op. cit., p. 90
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit, p. 24
“Flávio Josefo” in Nova Enciclopédia Larousse, Lisboa, Ed. Círculo de Leitores, 1997, Vol. I0, p. 3048
Flávio Josefo, Contra Apio,1.8, citado por Gleason L. Archer, op. cit., p. 69 nota 8
John Bright, op. cit., pp. 508,509
Daniel-Rops, A Vida Quotidiana na Palestina no Tempo de Jesus, Lisboa, Ed. Livros do Brasil, s.d., p. 151

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

A BÍBLIA JUDAICA NO TEMPO DE JESUS

Os judeus consideram os 39 livros que compõem o Antigo Testamento como canónicos. A Igreja primitiva e as Igrejas ditas “Protestantes”, desde a Reforma, os aceitaram. Estes 39 livros aparecem repartidos, apesar de serem os mesmos, e agrupados de diferentes maneiras, a saber: 22, 24 ou 39 livros. Eis a ordem do texto Massorético, estando dividido em 3 grupos contém 24 livros:

I - Lei (Torah)

1- Génesis
2- Êxodo
3- Levítico
4- Números
5- Deuteronómio

II – Profetas (Nebhi’im)

a) Os primeiros:

6- Josué
7- Juízes
8- Samuel (I e II)
9- Reis (I e II)


b) Os últimos:

10- Isaías
11- Jeremias
12- Ezequiel
13- Os 12 profetas (profetas menores)


III – Escritos (Kethubhim)

a) Poesia e sabedoria:

14- Salmos
15- Provérbios
16- Job

b) Os cinco rolos (megilloth):

17- Cântico dos cânticos
18- Rute
19- Lamentações
20- Eclesiastes
21- Ester

IV- Livros Históricos (escritos posteriores)

22- Daniel
23- Esdras / Neemias
24- Crónicas (I e II) (1)

Tal como dissemos, o Cânone de Flávio Josefo apresenta 22 livros. Ei-los assim distribuídos:(2)

I - Lei (Torah)

1- Génesis
2- Êxodo
3- Levítico
4- Números
5- Deuteronómio

II – Profetas (Nebhi’im)

a) Os primeiros:

6- Josué
7- Juízes / Rute
8- Samuel (I e II)
9- Reis (I e II)

b) Os últimos:

10- Isaías
11- Jeremias / Lamentações
12- Ezequiel
13- Os 12 profetas (profetas menores)

III – Escritos (Kethubhim)

14- Salmos
15- Provérbios
16- Job
17- Cântico dos cânticos
18- Eclesiastes
19- Ester
20- Daniel
21- Esdras / Neemias
22- Crónicas (I e II)

Agora apresentamos a listagem dos 39 livros do Antigo Testamento, que é a mesma das outras, se as desdobrarmos. Assim, teremos:

I - Lei (Torah)

1- Génesis
2- Êxodo
3- Levítico
4- Números
5- Deuteronómio

II – Profetas (Nebhi’im)

a) Os primeiros:

6- Josué
7- Juízes
8- Rute
9- I Samuel
10- II Samuel
11- I Reis
12- II Reis

b) Os últimos:

13- Isaías
14- Jeremias
15- Lamentações
16- Ezequiel
28-12 profetas (profetas menores)

III – Escritos (Kethubhim)

29- Salmos
30- Provérbios
31- Job
32- Cântico dos cânticos
33- Eclesiastes
34- Ester
35- Daniel
36- Esdras
37- Neemias
38- I Crónicas
39- II Crónicas

Segundo esta disposição, verificamos que, em qualquer Cânone, o primeiro livro da Bíblia hebraica é o livro do Génesis, e o último é I e II de Crónicas. No texto massorético, como no de Flávio Josefo estão excluídos os deuterocanónicos – Apócrifos - atrás referidos.
Reforçando esta ordem do Cânone, recordaremos as palavras de Jesus quando censurou a hipocrisia dos escribas e dos fariseus ao dizer: “Afim de que sobre vós caia todo o sangue inocente que tem sido derramado sobre a terra, desde o sangue do justo Abel ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar” – Mateus 23:35. (sublinhado nosso). Por este episódio nos podemos aperceber da amplitude do Cânone do Seu tempo. O episódio - sangue de Abel - encontra-se referido em Génesis 4:8,9 – primeiro livro do Cânone. No que respeita ao - sangue de Zacarias – este encontra-se em II Crónicas 24:20-22 – o último livro do Cânone!
Através deste simples episódio citado, compreendemos duas solenes verdades:
1- Que o Cânone, repetimos, começava em Génesis e terminava no livro de Crónicas;
2- Jesus, assim como os apóstolos, nunca citaram qualquer livro pseudocanónico contido da Septuaginta (LXX), apesar de terem feito livre uso desta versão.

Bibliografia:1. Gleason L. Archer, op. cit., pp. 68,69. Aqui estão 24 porque: I e II Samuel são considerados como um só livro; o mesmo para com I e II Reis e I e II Crónicas; igualmente, o bloco dos 12 profetas, também é contado como um só livro; assim como uma só unidade Esdras e Neemias. Desdobrados dará, portanto, 15. Se somados com os 24 dará um total de 39.
2. F. Josefo apresenta 22 livros, visto que apresenta o livro de Rute incluído no de Juízes; o de Lamentações incluído no de Jeremias; o de Neemias incluído no de Esdras. I e II Samuel são considerados como um só livro; o mesmo para com I e II Reis e I e II Crónicas; igualmente, o bloco dos 12 profetas, também é contado como um só livro; desdobrados dão 17. Se somados aos 22 dará um total de 39! – cf. Ibidem

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

CANONICIDADE DOS APÓCRIFOS DO ANTIGO TESTAMENTO

A confissão religiosa – Igreja Católica Apostólica Romana – mantém a canonicidade dos sete livros Apócrifos, assim como a das adições que, como já foi mencionado, não fazem parte do Cânone hebraico. Em defesa de tal posição avançam com algumas afirmações:

 Que as primeiras versões continham os Apócrifos. Se a Septuaginta (LXX) contém os Apócrifos, será assim tão certo, só por este facto, de que os judeus de Alexandria a tenham considerado integralmente canónico o conteúdo deste Cânone? Filão de Alexandria, nos seus escritos, nunca os cita!

 É dito também que os Pais da Igreja os citam. E como tal é reconhecida a autoridade destes escritos! Nos quadros comparativos, mais abaixo, demonstramos exactamente o contrário!

Seria de estranhar que, através dos séculos, se reconhecesse como inspirado um Antigo Testamento diferente daquele que Jesus reconheceu como tal, visto que os Apócrifos são adições posteriores ao profeta Malaquias, o qual, “na tradição judaica é considerado como o último, o selo, dos profetas”! Os grandes escritores da Igreja, desde o início até ao século XVI nunca aceitaram os pseudocanónicos como inspirados.
Citaremos alguns Pais da Igreja, pois estes têm uma característica que lhes é comum – todos confirmam que o Cânone contém 22 livros! Vejamos: Eusébio de Cesareia (340); Atanásio (373); Cirilo de Jerusalém (386); Gregório Nanzianzeno (329-390); Gregório, bispo de Nissa (394); João Damasceno (657-749).
Não deixa de ser bastante interessante e revelador conhecermos o que S. Jerónimo (347-420) refere acerca dos acrescentos ao Cânone hebraico. Ele diz que: “acerca da História de Susana, os três jovens, Bel e o Dragão, tinha ouvido de certo judeu ensinar que não passavam de ficção de alguns gregos”.
Perante o exposto, retomaremos a citação do autor, quando afirma que “foi a Igreja do Antigo Testamento e a Igreja do Novo Testamento quem determinou os livros que são canónicos e os que não são”. Acerca disto, como primeiro comentário dissemos que, até certo ponto esta afirmação está correcta! Vejamos o porquê:

a) Quanto à Igreja do Antigo testamento: - O que é que determinou? Tal como pudemos ver até aqui, não fez mais do que, tal como já o dissemos, confirmar o que o tempo e o uso se encarregou de demonstrar – manter os 22 livros como única regra de fé e norma a seguir!

b) Quanto à Igreja do Novo Testamento: - O que é que ela homologou? À luz da História factos são factos, independentemente de qualquer opinião pessoal; esta revela, ao prezado leitor e a nós próprios, que a Igreja não elaborou o Cânone do Novo Testamento mas que, apenas e só, expressou o que já era sentimento unânime das Igrejas em geral! Assim, no ano 397 d.C. teve lugar o Concílio de Cartago onde foram ratificados os 27 livros que constituem o Novo Testamento!

Como já vimos, tanto os judeus como os cristãos primitivos não aceitavam como inspirados os Apócrifos. Uma das razões apresentadas para a sua rejeição é o facto de terem sido escritos quando não havia profetas. Mas, o próprio exame destes livros mostra que não são inspirados. Vejamos alguns pormenores com a atenção que nos merecem:

 Nenhum escritor inspirado poderia ter escrito o que se encontra na seguinte declaração do autor do 2º livro de Macabeus: “E o que Jasão de Cirene narra em cinco livros que nós vamos resumir num só (…) para obter gratidão de muitos (…) nós esforçamo-nos para expô-los em forma resumida”. – II Macabeus 2:23-28 (sublinhado nosso)

 Ou ainda: “(…) terminarei, também, com isto a minha narração. Se ela está, felizmente, concebida e ordenada, como convém a uma História, era este o meu desejo; mas se está imperfeita e medíocre, releve-se-me a falta” – II Macabeus 15:38,39
Nestes livros pseudocanónicos encontram-se:

a) Inexactidões históricas:

 No livro de Judite, supõe-se que Nabucodonosor é rei dos assírios e vive em Ninive – cf. Judite 1:5,10. Niníve foi tomada em 612 a. C. por uma coligação de forças: Babilónia, Medos e Citas. O grande senhor era, não Nabucodonosor, mas o seu pai Nabopolassar (625-605). Quando o filho Nabucodonosor reina (605-562); portanto, Ninive, já muito antes do seu reinado, tinha sido destruída!

 No capítulo pseudocanónico do profeta Daniel lemos que este passou 6 dias na cova dos leões – Daniel 14:31. No respectivo capítulo canónico, a este respeito, afirma que o profeta passou unicamente uma noite! – Daniel 6:19,20,24 (sublinhado nosso).

 No livro de Macabeus lê-se que Alexandre Magno repartiu o império entre os três generais “ainda em vida” – I Macabeus 1:7. Esta afirmação contraria a História, visto que esta revela que Alexandre morreu subitamente em Junho de 323 a.C. e “sem ter podido designar sucessor”! (sublinhado nosso).

 A morte de Antíoco IV Epifânio é apresentada de três maneiras diferentes! 1- “(…) agora, morro de tristeza (…)” – I Macabeus 6:13; 2- “Esmagado por uma chuva de pedras.” II Macabeus 1:16; 3- (…) prostrado pela doença (…) enfim, ferido mortalmente (…)” – II Macabeus 9:21,28.

b) Baixas normas de conduta

 A mentira é sancionada. No livro de Tobias, o anjo Rafael, a princípio, apresenta-se: 1- como sendo “dos filhos de Israel” – Tobias 5:5; 2- como “Azarias, filho do grande Ananias” – Tobias 5:13; 3- diz que é “da tribo de Naftali” – Tobias 7:3; 4- finalmente, acaba por confessar que é “Rafael, um dos sete anjos que assistem diante do Senhor” – Tobias 12:14,15.

 Suicídio é louvado – II Macabeus 14:41-45
c) Doutrinas pagãs greco-romanas
• A pré-existência da alma e a incarnação – “Eu era um menino de bom natural, que recebeu em sorte uma alma excelente. Ou antes, como era bom, entrei num corpo intacto” – Sabedoria 8:19,20
• Sacrifícios e orações pelos mortos – “Judas (…) mandou fazer uma colecta, recolhendo cerca de dez mil dracmas que enviou a Jerusalém para que se oferecesse um sacrifício pelo pecado (…) porque se não esperasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles (…). Era este um pensamento santo e piedoso (…) para que os mortos fossem livres das suas faltas” – II Macabeus 12:39,42-46; Baruc 3.4
• Justificação pelas obras – “Em verdade, a esmola liberta a alma da morte e não permite que a alma desça para as trevas” – Tobias 4:10; “(…) pois a esmola livra da morte e limpa todo o pecado” – Tobias 12.9.
• Intercessão dos anjos - Tobias 12:12.
Como conciliar e justificar a asserção das referidas adições? Como fazer face às questões pertinentes e embaraçosas, feitas mais tarde, por aqueles que começavam a ler os textos sagrados e a fazer comparações entre os textos, e entre o ensinado e o vivido? A confissão religiosa, que se diz a continuidade da - Igreja do Antigo Testamento - para impor a sua escolha às demais igrejas teve que esperar muitos séculos para que tal pudesse acontecer!
No Concílio de Trento em 1546, na 4ª sessão, esta confissão religiosa formalmente promulgou finalmente, como artigo de fé, a canonicidade dos acima referidos escritos Apócrifos; desta feita, corta assim, como mais adiante veremos, com séculos de ambiguidades que conduziram a aberta contestação pela Igreja da Reforma, diremos nós, pela Igreja constituída pelos novos leitores das Escrituras.
Cada um dos livros canónicos possui uma qualidade que determinou a sua aceitação. Um livro, contrariamente ao que refere o nosso autor, não é elevado à dignidade e autoridade de Escritura somente por que a Igreja o aceitou, mas porque esta última, na verdade, se apercebeu ser ele de origem divina! Eis aqui toda a diferença entre estes e os “outros”, ditos, inspirados!
Resumindo, podemos concluir que os escritos pseudocanónicos, não reconhecidos pelos judeus nem pela Igreja dos primeiros séculos, foram inseridos no Cânone, apesar de serem desprovidos de inspiração divina, para que algumas doutrinas, como veremos mais abaixo, pudessem circular como sendo a autêntica expressão da vontade de Deus! Para nos apercebermos da utilização dos livros Apócrifos pelos Pais da Igreja – Oriente /

Bibliografica:René Pache, op. cit., p. 156
D. Deden “Malaquias” in Dicionário Enciclopédico da Bíblia, col. 926
História Eclesiástica, livro 6.25
Carta 39.4,7
Primeiras leituras catequéticas, leitura 4.33
Cânone 11
Cânone 8
Livro 4:17
Comentário de Daniel
Henri H. Halley, Manual Bíblico, S. Paulo, Ed. Vida Nova, s.d., Vol. II, p. 659
André Parrot, Ninive et l’Ancien Testament, Neuchatel, Ed. Delachaux & Niestlé, 1953, pp. 58,70
André Parrot, Babylone et l’Ancient Testament, Neuchatel, 1956, pp. 66,87
Jean Hatzfeld, História da Grécia Antiga, 2ª ed., Lisboa, Ed. Europa-América, 1977, pp. 263,264
Cf. Análise detalhada sobre a questão apócrifa: Gleason L. Archer, op. cit., pp. 67-83
Tony André, Les Apocryphes de l’Ancien Testament, Paris, 1903, pp. 22-32

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

SEITAS: O QUE É SER?

Seitas: O que é ser?
Pelo quanto pudemos analisar até ao presente momento, já temos um conceito acerca das Escrituras, quer pelo seu valor como documento, quer como Norma. É ela, portanto, que é a única Regra que aferirá tudo o quanto estiver ligado ao nome de Deus.
Vimos o que se entende por Cânone. Agora estamos habilitados para definir toda a confissão religiosa, dita cristã! Se a sua vivência e doutrina estiver de acordo com ele, Cânone, só assim é que esta, seja ela qual for, tenha ela a idade e prestígio que tiver, é que se poderá considerar verdadeira: – “Não sigas a opinião da maioria (…) de modo a desviar a justiça da sua rectidão.” – Êxodo 23:2, “Não procederemos com astúcia, nem adulteramos a palavra de Deus (…) – II Coríntios 4:2 . Eis a regra, eis quem define - o Cânone – e não a Igreja ou o homem, seja ele quem for!
Vejamos, antes de mais, através de uma pequena ilustração, a grande verdade que queremos mostrar. Trata-se da parábola do Sinaleiro da Passagem de Nível do comboio.

Hoje, com o grande desenvolvimento da via férrea já quase que não existem os guardas das passagens de nível! Mas a nossa história leva-nos a um deles.
Certa vez, um desses guardas encontrava-se no seu posto de trabalho. De dia, cada vez que o apito do comboio anunciava a sua aproximação, o guarda devia erguer um sinal vermelho de metal, vedando a passagem aos carros e transeuntes enquanto o comboio passava.
À noite, tinha a responsabilidade adicional de carregar uma lanterna acesa, fazendo-a oscilar num ângulo de 180º, chamando assim a atenção dos motoristas e transeuntes para a aproximação do comboio. Esta era a sua rotina durante o dia e a noite!
Certa noite muito escura, o vento uivava e a chuva caía torrencialmente. Soou o apito do comboio e ele correu com o seu sinal para o seu posto de trabalho para balançar vigorosamente a lanterna, à medida que este passava.
De repente, apareceu um automóvel a grande velocidade. Apesar dos sinais do sinaleiro, o motorista continuou à mesma velocidade até que foi contra o comboio.
O resultado do acidente foi a morte imediata dos ocupantes do automóvel.
Instauraram um inquérito. Os Caminhos de Ferro acusaram o guarda de negligência e, após dois anos de litígio chegou o julgamento:
O Promotor de Justiça levantou-se e fez uma série de perguntas:
- O senhor estava no seu posto no dia do acidente?
- Que horas eram?
- O senhor estava alerta para ouvir o apito do comboio?
- Deixou imediatamente a cabina quando ouviu o apito?
- Levou o sinal vermelho?
- Tinha consigo a sua lanterna?
E assim continuou, considerando cada detalhe em que pudesse basear a acusação por negligência. A todas as perguntas o guarda respondeu afirmativamente, declarando ter cumprido o seu dever. Mas, à medida que o interrogatório continuava o guarda revelava um certo cansaço e nervosismo. O julgamento foi interrompido.
Um dos amigos, aproximou-se para o confortar e disse:
- Por que estás tão abalado? Defendeste-te bem e serás absolvido!
- É possível, disse o guarda, mas eu estou muito assustado!
- Mas por que razão? Perguntou o seu amigo?
- É que eu tinha medo que ele me fizesse uma só pergunta, disse!
- Uma pergunta? Exclamou o amigo! Mas que pergunta?
Trémulo, o guarda respondeu:
- Sim, ele fez muitas perguntas, é verdade; Só que se esqueceu da pergunta mais importante, e para a qual eu não teria qualquer resposta!
Qual? Perguntou o amigo, cheio de curiosidade?!
- Se eu tinha a lanterna acesa, disse o guarda!

É verdade, prezado leitor, o guarda estava no seu posto de trabalho, efectivamente. Mas, apesar de se encontrar ali no cumprimento do seu dever, só o executou parcialmente, e quão terríveis foram os resultados! Terá esta história algo a ver com a missão desta confissão religiosa, dita continuidade de Cristo? Como é que está a nossa candeia da verdade? Acesa ou desvirtuada por ensinos meramente humanos? E no entanto, continua no seu posto! Só com meia verdade – isto é, estar no serviço, mas desempenhá-lo parcialmente! Em termos espirituais, ou se é ou não é! Não existe meio termo, nem meios cristãos!

1- Antigo Testamento - A Palavra
O salmista declara enfaticamente a dupla função da Palavra de Deus: “Farol para os meus passos e uma luz para meus caminhos” – Salmo 119 (118):105. Não é algo inoperante, mas um instrumento que serve para o fim que foi criado: dar luz, elucidar sobre o Deus criador, sobre a História de Israel, o Plano da Salvação em Cristo Jesus. Assim, o v. 105 revela o tipo de luz e de caminho que Deus quis transmitir, pelo profeta, ao povo do passado e ao do presente; aqui, “não se trata de orientação conveniente para a carreira da pessoa, mas de verdades para escolhas morais”.
A Palavra de Deus não poderia ter outro objectivo para o homem, a não ser o da - Santidade – tantas vezes reiterada pelo próprio Deus. O Seu povo deveria de ser um povo diferente dos demais, sob duas vertentes: 1- Porque vive em plena conformidade com Deus; 2- E porque em defesa da sua fé, esta deverá estar assente num firme: - “Assim diz o Senhor” ou “Está escrito”.
Como atingir esta “Santidade” ou norma de vida se não houver uma vontade expressa daquele que ordena? É, pensamos, para prevenir eventuais desvios que existe a Norma ou regra!
O sábio Salomão expõe, duplamente, a razão de ser das Escrituras:

1- “Toda a palavra de Deus é provada ao fogo, é um escudo para aqueles que confiam n’Ele. Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” – Provérbios 30:5,6;

2- “Reconheci que tudo o que Deus fez subsistirá sempre, sem que se possa acrescentar ou tirar nada. Deus procede desta maneira para ser temido” – Eclesiastes 3:14. Poderia, sinceramente, ser de outra maneira? Seria digno do título de Deus um Ser que, ora diz e logo a seguir desdiz? Esta é a norma pela qual Deus Se revelou no Antigo Testamento ao Seu povo – a Sua Palavra.

2- Novo Testamento – A Palavra
Jesus, o expoente máximo, a emanação do próprio Deus ao homem, de igual modo se identificou com o carácter absoluto e normativo desta mesma Palavra.
A certa altura, quando ensinava disse: “Se permanecerdes na Minha palavra, sereis verdadeiramente Meus discípulos. Conhecereis a verdade e a verdade libertar-vos-á” – S. João 8:31,32. A que verdade se referirá Jesus? A um qualquer novo ensino por Si inovado? Jesus orou ao Pai pela unidade dos que O seguiam; a determinado passo disse: “Santifica-os na verdade. A Tua palavra é a verdade” – S. João 17:17
Como tudo é claro! Que dúvidas poderá ter o leitor acerca desta mesma Verdade? Certa vez, no Seu julgamento, perante Pilatos, este fez-Lhe uma solene pergunta: “(…) Que é a verdade? Dito isto tornou a ir ter com os judeus (…)” – S. João 18:38. Perguntou, mas não esperou pela resposta! Jesus nos revela não somente a Verdade como também a sua verdadeira função; 1- A Palavra de Deus; 2- Libertação; 3- Santificação.
Quando falamos em libertar, falamos de quê? Será de alguma prisão ou de alguma situação incómoda? Se permanecermos somente no plano espiritual, então de que é que o crente sincero será liberto? Será, por oposição, da – não Verdade – por conseguinte, do erro!
Certa vez, Jesus foi interrogado! Não que o seu interlocutor quisesse ser esclarecido, mas só para O tentar apanhar e confundir! Os Saduceus apresentaram-lhe um problema relacionado com a ressurreição, visto que estes não acreditavam nela! (cf. S. Mateus 22:23). Lembraram-se de uma lei israelita – a Lei do Levirato. Esta ordenava que, caso a cunhada não tivesse tido descendência, o irmão do falecido deveria casar com ela para que tivesse filhos. Aproveitando o que esta lei comportava, disseram-lhe ainda que esta mulher, ao abrigo desta mesma lei tinha desposado sete irmãos; por fim, a mulher morreu!
Como responder a tal pergunta, caso haja ressurreição? Que homem normal poderia responder a tão subtil estratagema? A pergunta não se fez esperar: “Na ressurreição, de qual dos sete será esta mulher visto ter sido de todos?” – S. Mateus 23:28. Qual foi a resposta de Jesus? Para nosso espanto e dos Saduceus também, esta foi demasiadamente simples e, por isso, desconcertante! Não esqueçamos que eles estavam ali, não para aprender de Jesus, mas para o encurralar no Seu raciocínio, testando-O!
A resposta de Jesus, tal como a encontramos nas Escrituras é simples, directa e objectiva, ei-la: “(…) Estais enganados, porque desconheceis as Escrituras e o poder de Deus” – v. 29. Como tudo é simples quando não é o homem a responder, mas sim a Palavra de Deus! Quantas contradições e conflitos e guerras de religião se teriam evitado ao longo da triste história humana!
“Estais enganados, porque desconheceis as Escrituras (…)”! E como poderia ser de outra maneira? Como poderemos responder a qualquer pergunta do foro espiritual a não ser através das Escrituras? E nós, que conhecimento temos destas para responder a quem nos perguntar qualquer coisa dentro das realidades espirituais, se, infelizmente não as lemos nem, se calhar, nunca as tivemos - as Escrituras! Se esta continua a ser a nossa triste realidade, infelizmente, então quando é que estaremos à altura para corresponder ao que Simão Barjonas nos propõe, a saber: “(…) estai sempre prontos a responder, para vossa defesa, com doçura e respeito, a todo aquele que vos perguntar a razão da vossa esperança” – I Pedro 3:15!
A este propósito recordo uma experiência que vivi, certa vez, na Madeira, na cidade do Funchal. Celebrava-se, naquele ano, uma semana ecuménica entre as diferentes confissões religiosas ali representadas. Cada dia dessa semana, a liturgia era celebrada em cada igreja ali representada. A semana foi decorrendo, até que na Sexta-feira à noite, a cerimónia foi feita na Igreja anfitriã - Igreja do Largo do Colégio.
Junto do altar estavam dispostas as cadeiras para os representantes das diferentes confissões religiosas. Momentos antes de ocuparmos os lugares, o senhor bispo do Funchal - D. Teodoro Faria - chamou-nos à sacristia para dar os últimos retoques no protocolo. A certa altura disse-nos:
- Os prezados amigos têm cinco minutos para falar à congregação aqui presente.
Que desafio, que responsabilidade! Em silêncio, elevei os meus pensamentos e fiz uma curta prece ao Senhor, pedindo a assistência do Seu Espírito; que me inspirasse naqueles cinco minutos tão importantes e cruciais!
Ali à frente, ladeado pelos restantes representantes e pelo senhor bispo anfitrião, aguardei a minha vez. Quando esta chegou, levantei-me, abri as Escrituras e comecei a ler o grande conselho do Senhor Jesus, cujo conteúdo é: ”Esquadrinhais as Escrituras, julgando ter nelas a vida eterna; são elas que dão testemunho de Mim” – S. João 5:39
Teci uns breves comentários ao texto em lide e, tal como se fosse hoje, ainda me lembro do quanto ali disse, nestes termos:
- Meus irmãos em Cristo. Estamos no final de uma Semana Ecuménica que tem por objectivo o fortalecer a unidade entre todos os irmãos, cada um de vós. Mas, como poderá haver unidade se não conhecemos o Senhor, que todos, aqui nesta igreja, dizemos amar?
Jesus disse que devemos pesquisar, ler as Escrituras para alcançar duas grandes metas: 1- Ter nelas a vida eterna; 2- São elas que d’Ele dão testemunho. Ora, meus irmãos, como é que isto se poderá cumprir na vida de todos nós, se a grande maioria nunca viu uma Bíblia! Outros nunca a folhearam! Outros ainda, nunca a leram ou examinaram!
Que tipo de cristãos somos nós? Como queremos sê-lo se nunca lemos uma Bíblia, o único Livro credenciado para nos falar d’Ele e para conhecermos a Sua vontade?! Fechei a Bíblia, fiz uma curta pausa e sentei-me. Depois, despedimo-nos com uma saudação ecuménica.
Perguntará o leitor: E qual o resultado? Qual o impacto naqueles que me ouviram? Quanto a este último, só Deus o sabe! Mas no que respeita à atitude da confissão religiosa anfitriã, dessa eu conheço o resultado muito bem! Não será difícil adivinhar, não é verdade? Pois bem, ainda ali estive por mais dois anos e o resultado foi o de nunca mais ter sido convidado, individual ou colectivamente! Prezado leitor, o que é que fizemos de errado? Que incorrecção praticámos? Proselitismo ou unicamente nos limitámos a chamar a atenção para as Escrituras?

Vejamos como o apóstolo S. Paulo enfatiza o conhecimento das Escrituras: Certa vez, no decurso da sua 2ª viagem missionária passou por duas cidades: Bereia e Tessalónica. Duas metrópoles, duas mentalidades diferentes! Leiamos o que o relato bíblico diz acerca dos habitantes destas cidades, quanto ao interesse e adesão à Palavra de Deus: ”Estes (de Bereia) tinham sentimentos mais nobres do que os de Tessalónica, e acolheram a palavra com maior interesse. Examinavam diariamente as Escrituras para verificarem se tudo era, de facto, assim” – Actos 17:11
Que maravilhosas palavras! Os crentes de Bereia não se limitavam somente a ouvir a exposição da Palavra, tal como os de Tessalónica, mas “examinavam diariamente” se, o que tinham ouvido, estava, não só escrito, como em conformidade com as Escrituras! Naquele tempo, como nos nossos dias, não era nem ainda é suficiente somente ouvir a Palavra! Como saber se a pregação da Palavra está correcta e em conformidade com a vontade de Deus? Só havia um caminho, tal como hoje – examinar as Escrituras - e este foi seguido fielmente! Por isso chegou até nós este extraordinário elogio.
Naquela época era assim, tal como vimos; será que nos nossos dias bastará confiarmos no sacerdote, por muito respeito que este nos mereça? Ela é que é a regra, não ele, por muito eloquente que possa ser!
Outra vez, escrevendo aos crentes de Corinto, o apóstolo S. Paulo proclamou uma solene advertência a qual se aplica aos que ensinam a Palavra de Deus: “(…) para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito (…)” – I Coríntios 4:6. Pois quando se acrescenta ou retira algo desta Palavra, estamos a “(…) adulterar a palavra de Deus (…)” – II Coríntios 4:2
É, de igual modo, precioso o conselho dado pelo veterano apóstolo na carta pastoral enviada a Timóteo, seu filho espiritual em Cristo Jesus. Nos diversos conselhos encontrados, lemos um que, para nós, é o clímax da questão. Tomámos a liberdade de o traduzir livremente: “Tu, entrega-te a Deus como trabalhador zeloso, genuíno, que não tem que se envergonhar, que se orienta por uma estrada recta, a Palavra de Deus” – II Timóteo 2:15. Por outras palavras, “ a palavra da verdade deverá estar conforme o padrão correcto, isto é, o evangelho”.
Poderíamos ainda acrescentar múltiplos exemplos que apontam, sem excepção para as Escrituras como única norma de fé e de conduta para o cristão. Citaremos ainda um outro exemplo bíblico. Na epístola de S. Tiago, encontramos vários conselhos sobre o uso da nossa língua. Esta serve para muitas coisas: para abençoar e, infelizmente, também para amaldiçoar o nosso semelhante. O que o apóstolo aplica à língua, será que se está a “adulterar”, ou a forçar a Palavra de Deus se aplicarmos, estes mesmos conselhos, para definirmos a clareza da Palavra de Deus, em termos doutrinários ou de verdades bíblicas?
Reiteramos o conselho que S. Tiago nos revela: “De uma mesma boca procedem a bênção e a maldição. Não convém meus irmãos, que isto seja assim. Porventura uma fonte lança pela mesma bica água doce e água amarga? Porventura, meus irmãos, pode a figueira produzir azeitonas ou a videira dar figos? Do mesmo modo, a fonte de água salgada não pode dar água doce” – S. Tiago 3:10-12. E não é isto verdade? Não se passará o mesmo com a Palavra de Deus? Como é que, por exemplo, havendo uma só Bíblia existem tantas confissões religiosas a reclamarem, para si, a Verdade, quando esta, na realidade é uma só?
S. Paulo se expressa neste sentido, ao escrever: “Há um único Senhor, uma única fé, um único baptismo, um só Deus (…)” – Efésios 4:5,6. Perante tal revelação, como é possível espartilhar assim tanto a Verdade? Será que em todas existe parte desta mesma verdade? Será a Bíblia tão estranha que consiga, ela mesma, em simultâneo, dizer, sob o mesmo texto, um sem número de doutrinas? Continuamos a pensar, com toda a sinceridade, que não!

3- Os Dissidentes
Até aqui, de uma forma muito sumária temos vindo a ver a veracidade das Escrituras. Ligado com esta característica da Palavra, o cristão é convidado a examinar a Bíblia para se certificar de todas as coisas que possam dizer acerca da divindade. Esta é, quanto a nós, a regra áurea!
Seitas! quanto se tem falado e escrito sobre tão fascinante tema! Está mais do que na ordem do dia e, muitas vezes, nas primeiras páginas da imprensa nacional e internacional.
Passemos a definir os termos para que saibamos do que estamos a tratar. Assim, se consultarmos um dicionário encontramos uma definição de Seita, a saber: “doutrina ou sistema que se afasta da crença geral; facção; reunião de pessoas que professam uma religião diversa da geralmente seguida”
Uma seita não é mais do que um grupo, maior ou menor, de pessoas que se polarizou à volta de alguma interpretação particular da Bíblia. Esta interpretação ou interpretações caracterizam-se, geralmente, por grandes desvios do cristianismo ortodoxo no que respeita às doutrinas basilares que norteiam a fé cristã. Poderíamos tentar uma outra definição de seita que é: “uma perversão, uma distorção do cristianismo bíblico ou a rejeição dos ensinos históricos da Igreja Cristã”.
Será que ao examinarmos a Bíblia podemos sentir, de igual modo esta problemática? Pensamos que sim e, curiosamente, prezado leitor, o Movimento iniciado em Cristo Jesus foi tido, aos olhos da grande Sinagoga, exactamente como qualquer confissão religiosa, nos dias de hoje o é, só por ser diferente da confissão maioritária - uma SEITA!
Jesus disse ser “O Caminho, a Verdade e a Vida” – S. João 14:6. Ao fazê-lo afirmou o Seu carácter divino e “toda outra verdade é relativa, isto é, que não tem valor a não ser na relação com Cristo, que é a verdade. Uma doutrina que se diz absolutamente verdadeira, independentemente de toda a relação com Cristo, não é senão mentira”.
Dito isto, os seguidores de Jesus, deste obscuro pregador da Galileia, foram conhecidos como sendo seguidores do “Caminho, Via” – Actos 19:9. Mais tarde, Saulo de Tarso, o grande inimigo de todos aqueles que se diziam aderentes ou afectos ao obscuro galileu, também reconhece que perseguiu os do “Caminho, os da Via” - Actos 22:4; em Antioquia, os discípulos começaram a ser chamados, finalmente, de “Cristãos” - Actos 11:26
Jesus foi, por sua vez, levado à presença de Pilatos sob a acusação, entre outras de “sublevar o povo” – S. Lucas 23:2. Em que é que Jesus pervertia, sublevava ou, se quisermos, incentivava o povo à revolta contra a opressora Roma? Seria por que ensinava o que era incorrecto e, por conseguinte, ilegal? Ou seria por que ensinava aquilo que os “grandes” e “instalados” na sociedade religiosa do Seu tempo não gostavam de ouvir? Numa breve análise aos textos, estes declaram-nos o que Jesus dizia acerca destes: “(…) mas odeia-Me a Mim, porque faço ver que as suas obras são más” S. João 7:7; ou ainda “Que faremos, uma vez que este homem realiza tantos milagres? Se O deixarmos assim, todos crerão n’Ele e virão os romanos e destruir-nos-ão o Templo e a Nação. (…) A partir, pois, desse dia, resolveram matá-Lo” – S. João 11:47,48,53
Saulo de Tarso, embuído do espírito de que - quem não é por mim é contra mim - resolve colocar-se ao serviço da grande Sinagoga e perseguir os cristão até à exaustão! De caminho para Damasco, tem uma visão e converte-se. Todo este drama está contado no livro dos Actos 9:1-18. Agora, de perseguidor e opressor, passa a perseguido, oprimido!
Paulo tinha agora que defender a sua nova fé. Como primeira consequência é preso e levado a tribunal; ali ouve o libelo acusatório que lhe foi dirigido nestes termos:” Nós verificámos que este homem é uma peste: Fomenta discórdias entre todos os judeus do mundo inteiro e é cabecilha da seita dos Nazarenos” – Actos 24:5 (sublinhado nosso). Até ali, porque estava ao serviço do campo contrário, dos grandes interesses, dos instalados, ele era um homem altamente qualificado e, acima de tudo, promissor! Agora, tal como o texto o revela, não passa de “uma peste (…) e é cabecilha da seita dos Nazarenos”!
S. Paulo vai construir a sua defesa, mas como? Nem mais nem menos, recorrendo ao velho e único processo, o método ensinado pelo Cristo - as Escrituras! Assim, ele diz em sua defesa: “Sirvo o Deus dos nossos pais como ensina a «Via», a que eles chamam partido (seita). Acredito em tudo quanto há na Lei e em tudo o que está escrito nos Profetas” – Actos 24:14. Isto dito por outras palavras: - creio em tudo o que está escrito no Antigo Testamento, (visto não existir ainda o Novo testamento)! Então, onde está o crime? Afinal, cria em tudo, tal como os demais? O crime, era, como facilmente se compreenderá, ser diferente da maioria! Não estava em causa possuir ou não a Verdade, ou um maior ou menor conhecimento desta, mas só porque os homens daquela confissão religiosa – a judaica - acharam que S. Paulo, como os demais aderentes, não tinham o direito à diferença, só isto!
Depois, em prisão domiciliária, S. Paulo recebe a visita de alguns judeus que lhe falam da extraordinária divulgação daquela nova doutrina da qual ele era o principal divulgador. Estes, ao visitá-lo, assim se expressaram: “Desejamos, porém ouvir da tua boca o que pensas, pois quanto à seita a que pertences, sabemos todos que, por toda a parte, encontra oposição” – Actos 28:22 (sublinhado nosso). Quando alguém é castigado, não será porque prevaricou a diversos níveis? Ora, se todos dizem conhecer e seguir o mesmo livro, como é que poderá existir oposição ao mesmo ensino dele emanado? À luz deste mesmo texto – Antigo Testamento da época – qual foi a heresia Paulina para que passasse a ser odiado?
No 1º processo contra S. Paulo, foi-nos dito que ele era uma “peste”. Os cristãos, no século I, eram considerados uma “peste”, pois circulava acerca deles que: “todo o homem incapaz de se integrar na sociedade num sentimento de respeito mútuo e de submissão às leis, é uma peste social e merece ser condenado à morte”.
Ao examinarmos esta vertente, ela dá-nos a conhecer que, na maior parte das vezes o dito “herético” não é tanto aquele que é rotulado como tal, por que se afasta da “doutrina ou crença geral”, mas porque a dita confissão religiosa que deveria ter a tal “lanterna acesa”, como vimos na ilustração mais acima, unicamente se limita a estar estaticamente no seu lugar, nada mais! Assim, obriga o outro, mesmo sem querer, a sair da raiz comum - a sua Igreja – que tanto ama! Vê-se coagido a fazê-lo, porque esta, comparativamente ao ensino exarado e decorrente dos textos, nada tem e não passa de um simulacro da Verdade, nada mais! Está no lugar? Sim! No cumprimento do dever? Sim! Mas, infelizmente, com a lanterna apagada!
Olhemos para os judeus. Qual era o seu conceito de VERDADE? Será o que estava escrito pela vontade de Deus? Se o era, então Cristo deveria estar sempre de acordo com esta Verdade – as Escrituras? O que é que trouxe de novo com a Sua vinda? Sim, o quê? Pois bem “trouxe toda a novidade vindo ele mesmo pessoalmente, ele que tinha sido anunciado” Porque sabiam que tinham sido escolhidos, que eram o “Povo Eleito” e, para eles era o quanto bastava! Eles eram o “Sistema” e a “Maioria” confortavelmente instalada! Representavam estes dois valores; 1- O único; 2- O mais velho! Neles militavam os “grandes” da época! Talvez pense ou diga: Afinal será tanto assim? Ora vejamos se estamos a exagerar:
Certa vez pensaram prendê-Lo; aquela voz incómoda - Jesus! Enviaram para o efeito uma força policial, diremos nós, em linguagem moderna, para o interceptar, prender e trazer à presença das autoridades religiosas do Templo. Eles voltaram, é verdade, mas sozinhos! Em face da realidade nua e crua, cheios de admiração pelo que viam, os líderes lhes disseram: - “Também vos deixastes seduzir? Porventura creu n’Ele algum dos chefes ou dos fariseus?” – S. João 7:47,48.
Eis aqui, prezado amigo leitor, bem expresso o - Conceito de Verdade - para a confissão religiosa maioritária e oficial da época! Afinal, qual era este conceito? O próprio texto o declara com toda a simplicidade: 1- Os chefes; 2- Os fariseus.
O conceito de – VERDADE – para os da sinagoga: a Maioria, os Grandes deste mundo a diversos níveis! Poderíamos parafrasear as palavras destes altos dirigentes aos seus servos, de uma forma mais simples e reveladora, como por exemplo: - Reparem bem, meus amigos: 1- Quem é ele? 2- Quem é que com ele anda? Vejam bem, sejam razoáveis! Onde estão os magistrados? Os altos dirigentes? Os intelectuais da nação? Vá, sede sensatos, não caiam no ridículo! Todos estes estão connosco, não com eles! Vejam bem, não percam a razão! Se olharem à vossa volta o que é que vêem? Só gente simples e humilde, a escumalha e ralé do povo - nada mais! Que Verdade é que tinha este obscuro e incomodativo Galileu?
Estamos a exagerar, imaginando coisas, dirá! Mas, já reparou qual era a opinião destes chefes religiosos em relação ao povo humilde? Ora veja: “Quanto a esta gente que desconhece a Lei (a Torah, o Antigo Testamento da época) é MALDITA!” – S. João 7:49 (sublinhado nosso).
Ninguém ousou rebater os Seus ensinos e trazê-Lo sob prisão, porquê? Porque não era arruaceiro? Só porque era pacífico? Porque falava coisas bonitas ao ouvido, coisas de embalar? As Escrituras não nos deixam ao acaso, prezado leitor! Vejamos o testemunho destes servos, aos seus líderes, quando regressaram, de mãos vazias: - “Homem algum falou como esse homem” - v. 46. Mas o que é que Jesus falou para que o testemunho fosse este? O que é que cativou e tornou impotentes estes homens duros? Somente uma coisa, prezado leitor - a Sua autoridade! Sim, a autoridade que é corolário do quanto está escrito! Viver e ensinar conforme, e não ser como os fariseus, hipócritas, dizendo uma coisa e fazendo outra! É assim que Jesus retrata os condutores religiosos do Seu tempo: “(…) não emiteis as suas obras, pois eles dizem e não fazem” – S. Mateus 23:2 (sublinhado nosso). Eis aqui toda a diferença, e esta é de peso, não é verdade!
Repetimos, portanto, os critérios para que, à luz dos quais, se considere que uma terceira confissão religiosa seja uma seita ou movimento herético: 1- A exemplo de Jesus, a Sua presença e ensino eram uma pedra de tropeço para os Seus contemporâneos; 2- Porque fazem jus à definição de seita, isto é, que se afasta da “crença geral” ou da “religião geralmente seguida”. Note-se que não se menciona a Verdade, isto é, define-se Seita como um conjunto de pessoas que, pelo seu modo de pensar, se desviam da Verdade. Portanto, o que conta, parece, é uma religião que é norma, não por que tenha ou siga a VERDADE, mas porque a MAIORIA a segue! Que estranho, não acha?!
Numa primeira conclusão diremos que só se poderá apontar, catalogar e identificar uma terceira confissão religiosa ou pessoa com o pomposo epíteto de “herético”, com algo que seja a – NORMA – e que, ela mesma seja a “crença geral” ou a matriz da “religião geralmente seguida”. Se quisermos ser honestos, pois não queremos ser outra coisa, então diremos abertamente que estes – atributos – não repousam sobre nenhum ser humano, sistema religioso ou confissão religiosa, mas unicamente sobre a – Palavra de Deus! Só ela foi, é e será a Norma! Porquê? Pela simples razão de que ela é o Cânone e, tanto quanto saibamos, nunca abdicou desta função, delegando-a no próprio homem ou instituição!
Para uma melhor compreensão do que acabamos de dizer, será bom, que citemos, de novo, o autor em causa. Quando este se propõe abordar a problemática das “seitas”, diz que: “ o que vamos tratar é precisamente da questão bíblica. Interessa-nos saber o que é a Bíblia e como compreendê-la: são os novos Movimentos religiosos (seitas) que têm razão ou é a igreja católica romana e as igrejas ortodoxa e protestantes históricas (de raiz luterana e anglicana) que têm razão?”
Como resolver esta questão? Mais abaixo abordaremos este tema! Mas para já, pensemos somente em quem poderá realmente dizer que esta ou aquela igreja tem razão? Esta dita “razão” a que o autor se refere, e tal como a expressa em muitas vertentes, ela está muito condicionada à pessoa da instituição que representa!
Mas, dizíamos: esta “razão” deverá apoiar-se unicamente nas Escrituras, num veemente: “Assim diz o Senhor” e não como o nosso autor o deseja que esta se apoie na - “antiguidade” ou na “historicidade” - desta ou daquela confissão religiosa, nomeadamente na que ele representa! É aqui, meus amigos, que reside toda a diferença e única dificuldade do problema! Perguntamos: Será a Igreja de Roma, uma confissão religiosa como outra qualquer, só que mais antiga, a verdadeira descendente da Igreja Primitiva? A sê-lo, como pretendem, será que manteve e mantém a pureza e a força que advém de um firme: “Está escrito”? Ou será só como, na ilustração - do guarda da passagem de nível - que, embora inabalável no seu posto, mas, infelizmente, com a candeia da VERDADE que conduz à SALVAÇÃO apagada?! Para que servirá estar no lugar e até ter a lanterna na mão se não dá qualquer luz ? As trevas permanecerão e o vigilante torna-se, por esta negligência, totalmente desnecessária, não é verdade? No campo espiritual, será que poderemos ter uma opinião diferente? Cremos firmemente que não!
Como dissemos, mais adiante teremos oportunidade de abordar tais temáticas. Iremos por partes para que o leitor, gradualmente, se aperceba da realidade histórica e bíblica e assim poder julgar com equidade. Sim, você, prezado amigo que ama e deseja conhecer, não a palavra de homens, de um homem ou de um sistema religioso qualquer que ele seja, mas a única, pura e excelsa - a Palavra de Deus!
E não será assim? A este propósito, recordaremos um episódio passado com o rei Herodes. Quis ocupar o lugar que não devia; quis ser uma espécie de “arauto da verdade”, só que… à sua maneira! E quanto ao povo, os potenciais auditores da professa mensagem que este tinha para dizer, qual a sua reacção? Com toda a clareza este exclamou indignado: “É a voz de Deus e não de um homem” – Actos 12:22
Tal como foi na antiguidade, assim continua a ser nos nossos dias! Queremos ouvir a voz de Deus, através da Sua Palavra e não a de homens, unicamente apoiados na palavra humana, a qual não está ancorada num firme: “Está escrito”! Assim, para que servirá um tal ensino? Qual a sua base, autoridade e força? Esta foi sempre o que serviu de base e consolidação da Verdade - a voz de Deus através da Sua Palavra – as Escrituras!
Dito isto, citaremos ainda o autor quando refere: “(…) não se trata de julgar pessoas, mas simplesmente de julgar os processos seguidos para compreender e interpretar a Bíblia, uma vez que a Bíblia está na origem das doutrinas e sistemas destes novos Movimentos religiosos (seitas). Que nos seja permitido lançar algumas questões para a fogueira da discussão: Por que razão é que “estes” serão tidos por seitas? Será só porque são de origem recente na praça religiosa? Será por que são minoria? Será por que as suas doutrinas contêm erros bíblicos? Será que a norma que as regem, no dizer de alguns, são “biblistas fundamentalistas”? Quem julga quem? À luz de que Verdade?
Continuemos. Mas, prezado leitor, que processo utilizar para o efeito? Não será a própria Palavra de Deus? Não é assim que Simão Barjonas - Petros, o 1º papa, dizem, aconselha a toda a cristandade ao dizer: “Mas sabei, antes de tudo, que nenhuma profecia da Escritura é de interpretação particular, porque jamais uma profecia foi proferida pela vontade dos homens. Inspirados pelo Espírito Santo é que os homens santos falaram em nome de Deus” – II Pedro 1:20,21 (sublinhado nosso). Ora se nada foi produzido pela autoria e vontade humana, mas por que foram inspirados por Deus, cremos, sem grandes rasgos de inteligência da nossa parte, reconhecer que esta ESCRITURA só Deus é que tem autoridade para a explicar! Sendo assim, não se explicará a Bíblia, Deus através dela, no essencial: doutrina, normas de conduta para todo aquele que se diz crente?
É exactamente tal como o refere o nosso autor, quando diz a este respeito: “(…) toda a interpretação privada da Escritura é banida”. Nem poderia ser de outra forma! Se é inspirada por Deus, repetimos, logo terá que ser unicamente Deus a explicá-la! É, pensamos, por esta razão, que não existe qualquer doutrina baseada num só versículo, porque a palavra de Deus é um todo coerente; toda ela tem que dizer, acerca do mesmo assunto, exactamente a mesma coisa! Por isso esta é “inspirada e não de particular interpretação”!
É, portanto, na pureza bíblica que encontramos a História e o caminho da Salvação em Cristo Jesus e não noutro lugar qualquer! É por esta razão que nenhuma confissão religiosa pode ou tem o direito de, a contento de razões internas, interpretar as Escrituras para que estas “aparentemente” digam o que esta gosta de ouvir, quando essa doutrina contradiz, frontalmente, o restante ensino das mesmas Escrituras! Para demonstração do que acabamos de dizer, eis a razão de ser do livro que comentamos! Vejamos a este propósito, como o autor procede com a confissão religiosa Testemunhas de Jeová, ao tentar repor a verdade dos textos:

Testemunhas de Jeová
S. João 1:1 - “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com o Deus, e a Palavra era (um) deus”
Tradução do Autor
S. João 1:1 - “No princípio era a Palavra, e a Palavra estava com Deus, e Deus era a Palavra”


E não é este o meio, e desde já o felicitamos por isso, pelo qual o nosso autor repõe a Verdade? Claro! Já, ao nível do texto, em relação às distorções e agressões ao mesmo, apresentadas por esta confissão religiosa? Claro que sim! Vejamos as duas versões:
quando as comparamos, vemos que o que está sublinhado e com cor mais viva (na tradução dos Testemunhas de Jeová) é: 1- O que foi acrescentado (o, um); 2- O que está, abusivamente, traduzido com letra minúscula (deus)!
Perante o exposto, perguntamos: Como é que o autor repôs a Verdade? Inventando? Será só por que este ensino é diferente do da sua confissão religiosa? Claro que não! Analisou o texto no original, o que lhe permitiu corrigir o texto e acrescentar: “Uma vez mais o que as Testemunhas querem negar é a divindade de Jesus Cristo servindo-se, para tanto, de manipulação gramatical ao texto original”.
Ora, ao proceder assim, repetimos, o felicitamos! Mas, então, por que é que não usa, exactamente, o mesmo processo para análise das doutrinas da confissão que representa? Haverá dois pesos e duas medidas? Se assim é, não deveria ser!
Mas, infelizmente, esta confissão religiosa, a certa altura da sua história, pensou que a Salvação não está em Cristo, entenda-se, mas na forma como “nós” compreendemos e ensinamos ao crente este mesmo caminho que conduz a Cristo – a Salvação (S. Lucas 19:9)! O resultado? A História humana que a conte! As Escrituras, prezado leitor, não podem ser utilizadas só quando convém desta ou daquela maneira, MAS SEMPRE pelo que elas contêm! Estas não têm cor religiosa e, muito menos, pertencem a esta ou àquela confissão religiosa em particular, graças a Deus por isso! Porque sendo a Palavra de Deus neutra a qualquer sistema religioso, o autor, neste caso específico, não chamou a si a pretensa AUTORIDADE da confissão religiosa que serve, mas sim a das Escrituras! E porquê? Porque estas não são “de particular interpretação”!
O que é a “Igreja” a não ser uma assembleia e reunião de pessoas! A palavra “Ecclesia” significa comunidade, ajuntamento que resulta de um apelo. (…) A comunidade é o ajuntamento daqueles que pertencem a Jesus Cristo pelo Espírito Santo” . A acção é um chamar de fora para dentro! Mas para dentro de quê? De que confissão religiosa, de que Igreja? Esta, a existir, qual é? No mínimo, não será aquela que lê, ensina, vive e pratica o que está escrito no Livro que contém, só ele, a expressa vontade de Deus? Já reparou que Deus não deixou uma Igreja, entenda-se, com nome! Mas um ajuntamento de homens e mulheres de boa vontade que querem seguir a Sua vontade e, à luz da mesma, viver! Esta não tem nome ou rosto! E se tiver qualquer uma destas vertentes, então saibamos que, estes e estas identificar-se-ão unicamente, não com o que esta ou aquela confissão religiosa possa dizer ou ensinar, mas unicamente com o que revela e ensina a Palavra da Vida – As Escrituras!
Que nos seja permitido abrir um parêntesis: - mergulhar, para já, um pouco na Idade Média, no dito tempo “obscuro” da História humana, por extensão, no da confissão religiosa, a saber, Igreja Católica Apostólica Romana. Esta pensava e ainda pensa ser o garante da Verdade! Tudo sabia e sabe acerca de tudo, visto dizer possuir, para este efeito, todos os mecanismos! Portanto, alcançou uma posição invejável - estar acima de tudo e de todos - eis , sem dúvida, a melhor posição para julgar tudo e todos! Atitude que sempre lhe foi particular e peculiar, apesar das aparências e retoques cosméticos!
Como vimos acima, o herético, de certa forma, ao afastar-se da “crença geral”, empreende uma escolha. Devido a esta opção decide cortar, segundo o seu próprio julgamento, com tal ou tais elementos discordantes em causa. Os teólogos ocidentais ao reflectirem, no século XII e XIII, acerca do que era, segundo estes, a fé, em condições e valores consentidos, recorreram lucidamente a este sentido etimológico da palavra heresia, que quer dizer: uma escolha!
O herético, isto é, aquele que escolhe, comete, por força da sua opção, as seguintes faltas:

1- Uma impenitência em relação a Deus, do qual ele pretende ouvir a Palavra;

2- Um afastamento, brevemente uma ruptura, em relação à comunidade.

O crente, portanto, segundo o raciocínio da Igreja não tem direito à heresia, isto é, à tal escolha! As heresias da Idade Média, mesmo na verdade das suas proposições, têm um ponto de partida e de chegada comuns, a saber: a atitude de polémica e de luta que todos tomaram contra a Igreja de Roma e a hierarquia, desejando a criação de uma nova Igreja que, acreditava-se, seria mais fiel aos ensinamentos do evangelho do que a tradicional, carregada de vícios!
As causas são, infelizmente, muitas! Para já, a faustosidade em que a Igreja vivia, assim como os seus mais altos dignitários. Leiamos um testemunho do século VI, quando descreve a residência do bispo Nicetius de Trier, natural da Aquitânia. Vejamos como, em breves pinceladas, esta é descrita: “Uma cerca flanqueada por trinta torres rodeia a montanha; um edifício ergue-se num local coberto, ainda há pouco, por floresta; a muralha estende as suas alas e desce até ao fundo do vale; No topo do alto foi construído um magnífico palácio com uma segunda colina encimando a primeira. As suas paredes rodeiam uma área enorme e a própria casa constitui uma verdadeira fortaleza. Colunas de mármore sustentam a estrutura imponente; a torre, dominando o caminho até ao portão, contém uma capela dedicada aos santos, além das armas para o uso dos guerreiros (…).
E nos nossos dias, será diferente? Para não irmos muito mais alto, na hierarquia, já reparou na residência episcopal? Para quê tanta grandiosidade para um único homem, solteiro e sem família? Dir-me-á que o que está em causa é o seu estatuto eclesiástico e não social, não é verdade? Mas mesmo este, está inspirado em quem e em que postulado? Bíblico não é certamente!