quarta-feira, 10 de novembro de 2010

OS RUDIMENTOS DA IGREJA PAPAL

Imperador Trajano.
A Igreja conheceu a opressão da autoridade imperial e, como consequência, podemos, na sua História, diferenciar algumas das suas fases ao longo dos séculos II e III, a saber:
1- 90 a 140 d.C. – Período dos Pais Apostólicos. Perseguições sob o imperador Trajano (98-117).
2- 140 a 180 – Período dos primeiros Apologetas (Justino e os judeus gnósticos). Perseguição sob o imperador Marco Aurélio (161-180).
3- 180 a 220 – Período contra o gnosticismo. Reacção herética: Montanismo, Tertuliano. Reacção Ortodoxa: Ireneu. Escola catequética. Clemente de Alexandria. Perseguições sob o imperador Septímio Severo (193-211).
4- 220 a 270 – Período de reforço da autoridade clerical. Hipólito, Orígenes, Cipriano. Controvérsia antitrinitária. Perseguições sob o imperador Décio (249-251).
5- 270 a 300 – Período de paz
6- 300 a 313 – Perseguição sob Diocleciano (284-305).

A passagem do século I foi de capital importância para a história cristã. Todos os apóstolos tinham desaparecido. Aqui e ali começa a surgir uma organização flexível e progressiva. Em princípios do século II, a Igreja primitiva parecia já dividir-se em pequenos núcleos instáveis (seitas); estes, muitas vezes em luta uns contra os outros e, aparentemente, condenados a rapidamente desaparecer.
O desenvolvimento do episcopado foi, de certa forma, uma resposta a esta ameaça!
No entanto, na passagem “da organização colegial à responsabilidade episcopal, houve um tempo de flutuação, com hesitações e resistências. Certas comunidades como, Jerusalém ou Alexandria possuem, desde o começo do cristianismo, o seu bispo”. Ainda, no dizer do mesmo autor, “em Roma a fusão entre os sucessores de Pedro e o conselho dos presbíteros da cidade, não parece que se tenha efectuado sem atritos. No tempo de Clemente, a igreja romana é dirigida ainda por um conselho presbiterial, com um presidente no topo”.
É evidente que este autor, na qualidade de sacerdote, irá usar este argumento para qualificar a situação da igreja de Roma em relação às demais, ao referir que não tem um bispo, como as demais, mas sim um - “presidente”- portanto, um bispo dos bispos, ou algo parecido!
Mas, repare o leitor que este Clemente, segundo o cômputo da Igreja, foi o terceiro sucessor de Simão Barjonas, na Sé de Roma de 88 a 97. Este escreveu uma carta à Igreja de Corinto, e perante a qual certos autores afirmam que: “ao fazê-lo (Clemente) atesta a consciência do seu primado universal como sucessor de Pedro”. Mas, vejamos bem o conteúdo da dita carta para que não tiremos conclusões tão apressadas! Ao escrevê-la, em que termos o fez? Em que nome escreveu? Vejamos: “ A Igreja de Deus que peregrina em Roma, à Igreja de Deus que peregrina em Corinto (…). Clemente escreveu realmente à Igreja de Corinto, mas não em seu nome pessoal, mas em nome da Igreja de Roma! Não deixa transparecer nenhuma ideia da autoridade papal que, mais tarde, o papado reivindica e assume para si!
A discórdia entre o bispo de Roma e os cristãos da Ásia radicados em Roma, acentua-se porque estes, fiéis à tradição da sua igreja original, continuavam a celebrar a festa da Páscoa no dia próprio para o efeito – 14 de Nisan – isto é, sempre na noite de Sexta-feira para Sábado e não “na noite de sábado para o domingo, como os outros fiéis da cidade”. Este diferendo doutrinário aconteceu no tempo do Papa Victor I (189-199), o qual contribuirá para romper “com todas as Igrejas da Ásia menor, porque recusavam submeter-se à sua decisão quanto à contenda sobre a festa da Páscoa”.
Tudo apontava para que igreja situada no coração do império, gradualmente, reivindicasse para si a primazia de entre o resto da cristandade, sob a estranha nomenclatura de: sucessor de Pedro! O bispo de Roma já não se sentia um com os demais, como um par inter pares (par entre pares), mas agora como um primus inter pares (o primeiro entre pares); não muito tempo depois, o Papa Calisto I (218-223) irá invocar “pela primeira vez a autoridade de Pedro”.
A Igreja será alvo de ataques vindos do exterior pela perseguição, como também pela polémica interna. Mas, pelos seus mártires e apologetas ela sai vencedora. É atacada, sacudida pelas heresias motivadas por este ou aquele ponto doutrinário. Mas, tal como nas perseguições, ela também sai vencedora de todos os ventos de doutrina contrários.
A Igreja de Roma era a mais importante e populosa do império, pois segundo uma estimativa “os cristãos de Roma eram cerca de cinquenta mil”. A partir de Constantino tudo irá ser diferente, este imperador constituirá um verdadeiro marco de viragem na História da Igreja de Roma.
Batalha de Maxêncio contra
Constantino.
Na véspera da batalha, contra Maxêncio, na Ponte Milvio, Constantino teve uma visão. Viu uma cruz, a qual, por sua vez, era acompanhada de uma ordem: “Serás vencedor por este sinal”, mandou gravar o símbolo – Ièsous Christòs (Jesus Cristo) – no escudo dos seus soldados. Depois, seguiu-se um período de tolerância para os cristãos, culminado pelo famoso Édito de Milão, em 313. Este édito foi seguido da promoção do Evangelho a Religião do Estado! Nem mais nem menos! E com que resultado? Aquele que a História da Igreja, tristemente, o demonstrará “havia de vir a fundar, um dia, a ditadura do cristianismo e a teocracia papal”.
A gratidão da Igreja exaltou as virtudes e desculpou as fraquezas daquele que irá, tal como o referimos, instalar o cristianismo no trono do mundo romano; a partir de agora, “a salvação da gente comum era comprada por baixo preço; a ser verdade que, num só ano, doze mil homens receberam o baptismo em Roma, para além de um número correspondente de mulheres e crianças; uma veste branca, mais vinte moedas de ouro, haviam sido prometidas pelo imperador a todos os convertidos”.
O cristianismo, na grande cidade, estava a ganhar cada vez mais terreno. Era mais do que tempo para se transitar da catacumba, da opressão e vexame públicos, para uma fase mais confortável e, de preferência, em consonância com o Poder instituído. Quem diria?!
Como fazer para alcançar os bárbaros? Seria necessário uma grande evangelização em larga escala ou, para que tal fosse possível, bastaria invocar o nome do imperador, enfim, um dos nossos, para que os resultados estivessem assegurados,!
Eis como a História o refere: “A guerra e o comércio tinham propagado o conhecimento do Evangelho para lá das fronteiras das províncias romanas; e os bárbaros, que haviam desdenhado uma seita humilde e proscrita, aprenderam rapidamente a estimar uma religião que fora tão recentemente adoptada pelo maior monarca e pela nação mais civilizada do globo”. Atardemo-nos um pouquinho nesta expressão - seita! Assim era visto e chamado, este embrião de Igreja, por ser, segundo parece, diferente da religião oficial - paganismo - com todo o seu cortejo idolátrico! Este, se queria singrar na sua nova posição teria, obviamente, que ser diferente de si mesmo, do que foi até então, caso contrário continuava oposição! Gradualmente vai voltando as costas ao que sempre foi, aos princípios que o regeram, para começar a assimilar tudo e todos, para que este “tudo” e “todos” se sentissem bem no seu seio! Não é o exterior, aqueles que chegam, que mudam, que aprendem a conhecer um novo caminho, uma nova directiva para as suas vidas! Mas, por estranho que possa parecer, quem muda é o interior - a Igreja em si mesma!
Um milagre inesperado acontece: a Igreja rudimentar, tida por Seita, passa a religião oficial! E o que é que guardou da pureza do passado, isto é, tudo o quanto estava de harmonia e de acordo com o imutável evangelho? Quanto a nós: muito pouco! Diremos que nela encontramos uma doutrina para cada gosto uma verdadeira sopa de cristianismo e paganismo; não se sabendo onde termina um e começa o outro! Mais abaixo tentaremos responder a esta questão.
Nesta união, devido ao famoso édito de Milão, resultaram ganhos e perdas para a Igreja. Vejamos alguns aspectos de ambos os lados:

• Ganhos:
1- De minoria perseguida, a Igreja cristã tornou-se, subitamente, toda-poderosa.
2- O culto, era mais político do que religioso.
3- Para assegurar a supremacia era necessário chamar a si as forças omnipotentes de que só o imperador era detentor - braço secular - uso da força para fazer-se obedecer.

• Perdas:
1- Apoiada pelo Estado, a Igreja tornar-se-á, com extrema rapidez, intolerante e fanática, iniciando uma série de perseguições, imagine-se!
2- O exílio já não bastava; contra os dissidentes, mesmo cristãos, passar-se-á a usar a tortura e os suplícios. Sob o reinado de Honório (395-423), tanto a heresia como os casos de cisma eram assimilados ao crime.
3- A adesão do Estado terá de ser paga pela Igreja; o preço a pagar será a sua total submissão a este.
4- A Igreja vai-se acostumando a servir-se do - braço secular - para obter conversões!
5- Afim de aumentar o número dos seus adeptos, o cristianismo irá, a partir de agora, ganhar a confiança dos reis bárbaros e da sua corte; uma vez conseguida a adesão do chefe… o resto virá!

Portanto, se o Estado romano faz um negócio algo duvidoso, também a Igreja! Ainda que arrecadando grandes lucros materiais, veio a sofrer terríveis perdas espirituais.
Inútil será dizer que os piedosos e humildes presbíteros dos primeiros tempos, não só não podiam possuir, como teriam, provavelmente, recusado o poder e a pompa que rodeava a tiara do pontífice romano! E porquê? A resposta já acima a demos! Caso haja qualquer dúvida, bastará recordar, uma vez mais, o diálogo entre Jesus e Pilatos, pouco antes da Sua crucifixão!
Abramos um parêntesis: Em resposta a Pilatos, Jesus lhe diz a certa altura: “«O meu reino não é deste mundo». Disse-Lhe Pilatos: «Logo, tu és rei?» Jesus retorquiu: «Tu o dizes! Eu sou Rei! Para isso nasci e para isto vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade ouve a minha voz».” – S. João 18:36-37
Por outras palavras, Jesus diz a Pilatos que é rei, visto possuir um reino! Mas, diz-lhe que: “o seu reino não é daqui debaixo, não tem a mesma origem que os reinos deste mundo”! Enfim, não era da mesma qualidade que o dele - terreno e efémero! O de Jesus estava assente noutros valores; este era composto por outro tipo de cidadãos! Sabe quais, prezado leitor? Os que ouvem a Sua voz, os que são da Verdade! Não os que seguem posições honoríficas e que criam desigualdades entre o seu semelhante.
Perante este contexto, repetimos, como é que a Sua Igreja, aquela que diz ser a Sua continuidade e composta por aqueles que a seguem e que afirmam ser Seus verdadeiros seguidores o fariam? No entanto, ainda hoje fazem, curiosamente, em Seu nome! Pactuar com este mundo, com o Poder que lhe é inerente, em detrimento da Verdade! Como compreender tal postura? Nada encaixa com nada, não é verdade?
Será que ainda não estamos convencidos? Por que não recordar as tentações do Senhor Jesus no deserto, o exemplo dos exemplos?

As Tentações de Jesus:
O que é que aqui estava em causa? Nada mais do que um teste! Saber até que ponto o 2º Adão – Cristo Jesus – resistiria! Seria ele mais forte? Seria igual ou mais fraco do que o 1º Adão?! Três tentações para O testar de vez! Tentar ver o quanto Este enviado do céu vale! Assim, surge a primeira questão: Ele veio como homem ou como Deus a esta terra? Não como Deus, certamente! Porquê? Segundo, uma vez mais, o método infalível de conhecer a Bíblia, para responder a esta questão, iremos - consultá-la e compará-la!
O Novo Testamento nos diz que: “Ninguém diga, quando for tentado: «É Deus que me tenta». Deus não pode ser tentado pelo mal e não tenta ninguém” – Tiago 1:13. Ou ainda “(…) Ele mesmo foi provado em tudo, à nossa semelhança, excepto no pecado” – Hebreus 4:15.
Como primeira conclusão, “se Deus não pode ser tentado” e “Ele em tudo foi provado”, isto quer dizer que, embora sendo Deus, (cf. Filipenses 2:6-8) veio a este mundo como um simples mortal, “(…) em carne semelhante à do pecado e para expiação do pecado condenou na carne o pecado” – Romanos 8:3.
Em segundo lugar, se assim não fosse, como é que Ele poderia ser, verdadeiramente, o meu e o seu representante, prezado leitor? Se estivesse imune, como nos iria compreender? Iremos realçar, muito sumariamente, neste contexto, alguns breves aspectos da teologia Lucaniana, sob influência Paulina, para melhor destacarmos as desvantagens de Jesus (2º Adão), em relação ao primeiro homem à face da terra, o (1º Adão).

• contexto: Segundo o esquema apresentado por este evangelho, no baptismo de Jesus, Deus reitera a Sua filiação, ao dizer: “Tu és o Meu Filho muito amado (…)” – S. Lucas 3:22. Na genealogia que apresenta refere que: 1- “Jesus (…) sendo filho, como se supunha, de José (…)” – v. 23; 2- Ao descrever esta mesma genealogia, por ordem decrescente, chega ao tal “princípio”, e acrescenta: “(…) Enós é filho de Set; Sete filho de Adão; e Adão de Deus” – v. 38.

Portanto, S. Lucas coloca-nos perante dois Adãos! Quanto ao primeiro, segundo o v. 38, veio directamente imaculado das mãos do seu Criador “e Adão de Deus”; Quanto ao segundo: por adopção, era “ como se supunha filho de José”! Portanto, com contactos humanos, sob influência humana – placenta de Maria - o que não foi o caso do 1º Adão! Sendo assim, estamos aptos para recordarmos que, à partida, este 2º Adão tem algumas desvantagens em relação ao 1º Adão – influência humana, como já o dissemos, e vivência pecadora – “(…) não há nenhum justo, nem um sequer” – Romanos 3:10; ou ainda “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus” – Romanos 3.23.
Portanto, não vemos razão, à luz das Escrituras para isentar Maria, apesar de nos merecer todo o respeito, visto que – “todos pecaram (…)”, diz o texto bíblico! Mas, mais abaixo abordaremos esta problemática.

1ª Tentação: Esta articula-se a dois níveis. 1 - Para realçar a humanidade de Jesus, o texto refere que o Filho de Deus teve - fome! 2- Para recordar, por outro lado, que ali estava alguém divino: a tentação passa-se ao nível de Deus, não do homem! “Se és Filho de Deus, diz a estas pedras que se transformem em pão” 4:3.
Este “Se”! Qual a razão para assim começar a tentação? Não esqueçamos que, nos versículos anteriores à tentação, como vimos, S. Lucas refere o baptismo de Jesus, portanto, antes do relato da tentação!
Se até ali satanás tinha qualquer dúvida acerca de quem era Jesus, ali, no baptismo, esta tinha sido esclarecida pela afirmação incontestável “Tu és o Meu Filho muito amado (…)” – S. Lucas 3:22. Assim, como podemos ver, não era a dúvida que o movia! A tentação articulava-se na tentativa de O fazer sair da condição de Deus para homem e vice-versa!
Por um lado, o Homem fazer apelo ao que existia de divino em Si mesmo – “transformar pedras em pão”; por outro, ao Divino – duvidando se Ele era realmente quem tinha sido proclamado! Eis a ocasião suprema para o demonstrar! Caso cedesse, não era Deus, mas uma marioneta que cedia aos caprichos desta entidade!
Com nenhum de nós Satanás perde o seu tempo com este tipo de tentações, não é verdade?! E porquê? Porque ele sabe, que não existe em nós, NADA, nesta área para o qual este possa apelar – qualquer poder, seja para o que for! Portanto, esta 1ª tentação é para que Jesus escape do humano para o divino “lhe sugerindo milagres estranhos à sua missão específica de Filho”. Por outro lado faz apelo ao “deus ventre” e ao “orgulho” - precisamente onde Adão e Eva caíram (cf. Génesis 3:3-7)!
Portanto, esta 1ª tentação é o inverso da de Adão e Eva. Estes foram tentados através do apetite, para saírem da condição de seres criados, logo, dependentes, e quererem ser deuses! Enquanto que a de Jesus, ao “existir na condição de Deus” – Filipenses 2:6 – visava espicaçá-lo ao uso do Seu poder, recordando-Lhe, por outras palavras: “Para quê sofreres a fome, se nada Te é vedado? Prova-me quem Tu és”!
Que faríamos nós, se tivéssemos tal poder em nós? Por exemplo: Quando somos cinturão negro em artes marciais, e, sem saberem na rua à noite, somos assaltados ou que nos interceptam, gozando connosco. Como faremos? Consentimos que gozem connosco ou, de imediato, usaremos os nossos “poderes”?
Embora noutro contexto, mas a ideia é a mesma! Convenhamos que teríamos muita dificuldade em resistir a este golpe montado só para ver se, na qualidade de mestres em artes marciais, manteríamos a calma, na adversidade! Por aqui poderemos, palidamente, compreender o que estava em causa, em Jesus! Se o escutasse, Jesus passaria da condição de Divina à humana, muito embora, paradoxalmente, a tenha consigo desde Maria! Ser sem ser – que prova, que drama!

2ª Tentação: “O diabo mostrou-Lhe, num instante todos os reinos do universo e disse-Lhe: «Dar-Te-ei todo este poderio e a sua glória» (…)” - 4:5,6. Mas, não é, precisamente, a este domínio, a esta glória que Jesus está destinado? Claro! Mas “Satanás as propõe segundo a condição que Ele consinta recebê-las de um outro deus diferente de Deus! Deus O conduz à glória pela cruz; Satanás Lha promete sem a cruz, assim como sem Deus”.
Esta 2ª tentação ataca-O no plano social e político. Não temos nós esta mesma vertente? Queremos cada vez mais, apesar de tudo isto, espiritualmente, a nada nos levar nem elevar!

3ª Tentação: “Conduziu-O a Jerusalém, colocou-O sobre o pináculo do Templo e disse-Lhe: « se és o Filho de Deus, atira-Te daqui abaixo” – v.9. Que tentação. No Templo! Onde todos O poderiam ver! Seria, finalmente, entronizado como o grande líder! Alguém que desafiava as leis da gravidade. Na hora do culto, descer do céu sustido pelos anjos, quem iria duvidar de que Ele, afinal era o Messias aguardado? Esta 3ª tentação “desenrola-se sob o plano espiritual”. Líderes, Gurus – enfim, tudo o que seja Poder! Tudo o que faça ao homem possuir o que sempre desejou – a divindade! Mas como ser, sem estar plenamente n’Aquele que disse ser o SER?

Portanto, Cristo, na Sua globalidade humana, foi tentado em todas as vertentes:
1- Escape do humano para o divino;
2- No plano social e político;
3- No plano espiritual.

Quanto a nós, esperamos ter resistido à tentação de não ter enveredado por complicadas lucubrações teológicas. O que desejámos realçar, ao fazer esta incursão no evangelho, é que em Cristo nunca existiu o menor desvio à vontade do Pai. Sempre se manteve igual a Si mesmo, à Sua solene missão – Resgatar o ser humano!
E o que foi que aconteceu com à confissão religiosa - dita Sua continuidade? Esta sempre quis o céu nesta terra! A glória e a ostentação terrenas - um soberano entre soberanos e, por vezes, muito superior! E quanto aos valores espirituais? E a Verdade, da qual ficou, diz, depositária fiel? Onde está? Nas brumas da memória, entregue ao esquecimento e ao sabor da vontade humana, para muita pena nossa! Fechemos o parêntesis.

Bibliografia:Edward Gibbon, op. cit., Vol. II, p. 503
Ibidem
Idem, p. 504
Ibidem
Ibidem
A. Hamman, op. cit., p.131
Idem, p.134
Cirilo Folch Gomes,OSB, op. cit., p.17
Clemente de Roma, 1ª Epístola aos Coríntios 1
A. Hamman, op. cit., p. 134
Geoffrey Barraclough, op. cit., p. 19
Ibidem
Cf. J. M. Nicole, op. cit., pp. 40,41
Edward Gibbon, op. cit., Vol. I, p. 210
J. M. Nicole, op. cit., p. 44; Cf. Ferdinand Lot, Fim do Mundo Antigo e o Princípio da Idade Média, Lisboa, Ed.70, 1968, p. 41
Jean Louis Schonberg, op. cit., p. 22
Edward Gibbon, op. cit., Vol. I, p. 323
Ibidem
Idem, p. 363, nota 1- “ A palavra grega – Pêgê – significava uma fonte; e os vizinhos rurais que visitavam a mesma fonte recebiam daí a designação comum de pagus e pagani. Assim, pagão e rural tornaram-se, as palavras, praticamente sinónimos. O extraordinário aumento da ordem militar trouxe a necessidade de um termo correlativo; e todas as pessoas que não se encontravam alistadas ao serviço do príncipe foram estigmatizadas com o desdenhoso epíteto de pagãos. Os cristãos eram os soldados de Cristo; os seus adversários, que recusavam o sacramento ou o juramento militar do baptismo, podiam merecer a designação metafórica de pagãos. Esta censura popular foi introduzida a partir do reinado de Valentiniano (365 d.C.), nas leis imperiais e nos escritos teológicos. O cristianismo difundiu-se, gradualmente, pelas cidades do império: a velha religião retirava-se e definhava nas aldeias obscuras; o título de pagãos foi aplicado a todos os idólatras e politeístas do velho e do novo mundo. Os cristãos latinos atribuíram-no, sem escrúpulos, aos seus inimigos mortais, os maometanos” – Cf. João J. Alves Dias e A.H. de Oliveira Marques, Do Pagus ao Paio (Notas sobre a Administração Romana em Portugal, Braga, Separata da Revista Bracara Augusta, Vol. XXXIV, Fasc. 78(91), Julho-Dezembro de 1980, pp. 3-6
Idem, pp. 53-57
André Trocmé, Jesus Cristo e a Revolução não-Violenta, Petrópolis, Editorial Vozes, 1973, p. 200, nota 8
Oscar Culmann, op. cit., p. 240
Hebert Roux, L’Evangile du Royaume, 2ª ed. Genève, Ed. Labor & Fides, 1956, p. 40
Georges Stéveny, op. cit., p. 95

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

ROMA VERSUS CONSTANTINOPLA

Conatantinopla actual Istambul
Se os cristãos tinham sido favorecidos entre 313 a 323, agora, Constantino devia ao deus das vitórias uma prova inequívoca do seu reconhecimento. Este irá demonstrá-lo através de um acto histórico, muito estranho! Irá criar uma segunda Roma, a saber: Constantinopla, no oriente!
O que levou o imperador a proceder assim? Será que queria formar uma nova cidade totalmente cristã, enquanto que a de Roma sofria de um incurável paganismo? Para o historiador “a fundação de Constantinopla é um mistério político”. Mais abaixo abordaremos alguns aspectos que esclarecem, a nosso ver, este acto incompreensível para a mente humana, enfim, um verdadeiro mistério! Mas não para a profecia bíblica!
César Augusto
Poncius Maximus
Para já, continuemos a seguir a trajectória do bispo de Roma. Assim, mercê desta reviravolta inesperada, Roma cessa de ser o bastião do paganismo, na pessoa do imperador, para se tornar, quem diria, o quartel-general do cristianismo! Como a História o revela claramente, o bispo de Roma aumenta, dia após dia, a sua importância e tomará, progressivamente, o lugar que o imperador ocupara! A “Igreja de Roma veio a apoderar-se insidiosamente do lugar antes ocupado pelo Império Romano. Na realidade, esta perpetuou-se nela. O Papa – Pontifex Maximus – veio a suceder ao César. O Papa passa a ser imperador”. Na ausência do imperador, o bispo de Roma, apodera-se também do título pagão que outrora pertenceu ao monarca romano – Sumo Pontífice, o fazedor de pontes), ligando a terra ao céu!
Se o bispo de Roma passa a ocupar o lugar do imperador, o que acontecerá, a partir desta mudança imperial, ao seu congénere de Constantinopla, cidade da nova residência do imperador? O raciocínio é elementar e, por isso, fácil! Se a Igreja irmã, a de Roma, cresceu à sombra da influência do soberano, então, agora em relação a esta segunda opção do imperador, então, certamente que acontecerá a mesma coisa! Falando clara e objectivamente, qual será, a partir de agora, a posição, entre o clero, nomeadamente, a do bispo de Constantinopla, cidade na qual vive agora o imperador? Poderá, porventura, o bispo desta manter a mesma dignidade do passado recente, ou seja, inferior ao seu colega de Roma? A resposta não se fez esperar! Assim, “O segundo concílio ecuménico de Constantinopla, em 381, decreta que o bispo desta cidade detém o primeiro lugar depois do de Roma, «porque Constantinopla é a Nova Roma», Cânone 3”.
A polémica começa a instalar-se; quem gosta de perder posição? Nem a Igreja! O bispo de Roma tudo irá fazer para chamar a si a primazia de Pedro. A rivalidade entre Roma e Bizâncio, entre a velha e a nova Roma, como acima já o referimos, fará com que “a partir do concílio de 381 em Constantinopla, o antagonismo resulta em Cânones sucessivos. O Cânone terceiro declara que Constantinopla, na qualidade de segunda Roma terá direito às honras devidas à sua posição e que o bispo de Bizâncio terá autoridade sobre Antioquia e Jerusalém, imediatamente a seguir ao bispo de Roma”. O objectivo, repetimos, era bastante claro, isto é, dar a Constantinopla uma posição inatacável, no Oriente. Depois, dá-se um passo em frente, até que, no concílio ecuménico de Calcedónia, em 451, na sua 15ª sessão, é dito que: “por diligência do imperador, foi promulgado o Cânone 28 que concedia a Constantinopla, como uma nova Roma, todas as prerrogativas da antiga”. Nesta altura o Papa era Leão I, o Grande (440-461) e, de modo algum, aceitou esta decisão Conciliar, como facilmente se compreenderá, não é verdade? Este, bispo de Roma, para contornar esta perda de poderes em favor do seu congénere, bispo de Constantinopla, irá falsificar “o 6º Cânone de Niceia ao adicionar as palavras: «Roma sempre teve a primazia»”. Apesar de tudo isto, os ventos da História iriam soprar e fazer balançar os pratos da balança a favor de Roma, ao dar-se a derrocada do império do oriente.

A Visão do Profeta
Mas, dissemos nós acima, que a escolha de Constantinopla para – segunda Roma – era, segundo os historiadores - um mistério político! Quanto a nós, gostaríamos de apresentar uma mera sugestão de resolução do problema, que se encontra, segundo cremos, nas Escrituras e na História, vejamos:
Quando S. Paulo escreve aos crentes de Tessalónica acerca da segunda vinda do Senhor Jesus e do quanto deverá acontecer antes de tal acontecimento - sinal precursor - ele escreveu, acerca do assunto, estes versículos estranhos: “ Que ninguém, de modo algum, vos engane, antes, há-de vir a apostasia e há-de manifestar-se o homem da iniquidade, o filho da perdição, o adversário, aquele que se levanta contra tudo, o que leva o nome de Deus ou o que se adora, a ponto de tomar lugar no templo de Deus e de se apresentar como se fosse Deus. (…). Agora, vós sabeis perfeitamente o que o detém, de modo que Ele só se manifestará a seu tempo (…) esperando apenas o desaparecimento daquele que o impede” – II Tessalonicenses 2:3-7.
Colocaremos em destaque, quanto a nós, os pontos mais relevantes destas estranhas revelações:
1- O apóstolo fala que, antes deste glorioso acontecimento, virá:
a) A apostasia;
b) O Filho da perdição;
c) O Adversário;
d) Leva o nome de Deus;
e) Toma o lugar no templo de Deus;
f) Apresenta-se como Deus;

2- De seguida, acrescenta:
a) Sabeis o que o detém;
b) Se manifestará a seu tempo;
c) Há um que agora resiste
d) Até que do meio seja tirado.

Que personagem ou personagens poderão preencher estes requisitos? De que tempo histórico? Do passado, do presente ou do futuro? A personagem em questão não é, pensamos, a figura histórica de Antíoco IV Epifânio, como acima o demonstrámos. No entanto, o nosso autor diz: “o conjunto só pode ter a ver com a figura de Antíoco Epifânio que derrotou exércitos humanos (…). Revoltou-se contra o próprio Príncipe dos exércitos, isto é, contra o próprio Deus. Nem devemos esquecer que se autoproclamou de Epifânes ou Epifânio, que significa aparição de Deus. Ele mesmo se autodivinizou”.
É verdade que o contexto a que pertence a citação supra, é diferente, mas o conteúdo e sentido espiritual é exactamente o mesmo! Como identificar este personagem com a segunda parte dos pontos mais relevantes acima separados, a saber: 1- Manifestar-se-á a seu tempo; 2- Espera apenas o desaparecimento daquele que o detém, que o impede? Nem com muito, mas mesmo muito boa vontade o poderemos identificar com esta personagem histórica, da qual tanto gosta o nosso autor!

A História
Mais adiante falaremos acerca das vicissitudes pelas quais passou a Igreja, ao longo da História, sob a égide do Dragão – Apocalipse 12. Por agora, limitemo-nos a abordar a relação entre o bispo de Roma e o imperador, numa determinada fase.
Como já o referimos, a Igreja de Roma não estava preparada para a brusca mudança de atitude do governo imperial, que passara da perseguição à tolerância e, mesmo até, a uma certa generosidade. O imperador pela sua posição privilegiada, sempre interferiu nos Concílios da Igreja; estes eram convocados sob a sua protecção e patronado; enfim, estas reuniões para debater certos assuntos, e dos quais nada compreendia, eram feitas à sua imagem!
É interessante analisarmos o desenrolar da História dos Concílios para nos podermos, minimamente, aperceber e compreender o desenvolvimento e apogeu do bispo de Roma. No contexto destas relações entre este último e o imperador, podemos ler o seguinte comentário: “o primeiro obstáculo ao desenvolvimento papal, dadas as novas condições administrativas era, pois, a atitude do governo imperial para com a Igreja, atitude que persistiu mesmo depois de o imperador haver abandonado o título pagão de Pontifex Maximus, em 397. A teocracia imperial atingiu o seu apogeu com Justiniano (527-565). As medidas violentas são conhecidas: a brutal deposição de Silvério (536-537), que morreu numa colónia penitenciária; a prisão de Virgílo (537-555); a elevação forçada do indigno Pelágio I (556-561) ao trono pontifício”. Ou ainda: “o tempo de Pelágio I e até 741, a dependência do papado em relação ao Estado exprime-se pela comunicação ao imperador de Constantinopla, do nome do Papa eleito, acompanhada de uma quantia considerável, equivalente a um tributo”. Será, perante o exposto que não encontramos matéria de facto para enquadrar os acontecimentos nas alíneas destacadas? Vejamos se as personagens encaixam no que acima realçámos do texto de S. Paulo. Recordemo-lo:
a) Um poder que detém e impede = Imperador Romano
b) O detido, impedido de = O bispo de Roma
c) Quando o que detém desaparecer = O poder e influência de Constantinopla devido à ruína “da cristandade oriental e à eliminação dos rivais do bispo de Roma, os patriarcas de Alexandria, Antioquia, Jerusalém e a Igreja de Cartago que eclipsara Roma”.

Moeda com o nome de Constantino - rara.
Assim, perante o exposto, pensamos que, afinal, o abandono de Roma para Constantinopla pelo imperador, poderá ser, em termos políticos e afins, um verdadeiro “mistério”, mas em termos religiosos, como nos pudemos aperceber, tudo parece bastante claro e evidente! Tudo constituiu uma espécie de porta que se abriu para que, tal como o revelam as Escrituras, quando “desaparecer aquele que o detém”, então o que “toma o lugar no templo de Deus (Igreja) e se apresenta como se fosse Deus” possa, finalmente, surgir em toda a sua força e esplendor, até certa altura, isto é, - “ao tempo da segunda vinda de Jesus” - acontecimento para o qual aponta a continuação do texto bíblico em questão!
Estaremos a ser, prezado amigo, biblistas-fundamentalistas? Estaremos a fazer um uso excessivo e abusivo dos textos, manipulando-os a nosso contento para que estes digam o que queremos? Continuamos a pensar que não! Muito embora, certamente que o nosso autor, se nos ler, dirá que sim!
Ferdinand Lot, op. cit., p. 44

Bibliografia:
Idem, p. 58
Idem, p. 268
Jean Louis Schonberg, op. cit., p. 44
Idem, p. 66
J. M. Nicole, op. cit., pp. 63,64
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit, p. 132
Geoffrey Barraclough, Os Papas na Idade Média, Lisboa, Ed. Verbo, 1972, p. 25
Idem, p. 34
Idem, p. 35

domingo, 31 de outubro de 2010

A DOAÇÃO DE CONSTANTINO À IGREJA ROMANA

Carlos Martel vencendo os árabes em Poitiers
Na época de Carlos Martelo e de Pepino, o rei Lombardo ameaçava a liberdade de Roma. Nesta altura, o papado não possuía nenhuma terra, nenhum território além do palácio episcopal de Latrão.
Querendo ter poder temporal e exercer a sua influência, para tal era necessário equiparar-se a um monarca temporal! Embora embrionário, o sistema papal, sempre desejou ter este mesmo protagonismo temporal. Querendo satisfazer esta ambição e ter um papel no campo da política, era necessário, tal como qualquer soberano – Poder! Enfim possuir um domínio sobre terras, bens e pessoas!
A ocasião não se fará tardar! Astolfo, novo rei Lombardo põe termo ao domínio Bizantino na Itália central ao subjugar e tomar o Exarcado de Ravena, em 751. O pontífice romano ao aperceber-se da impotente ajuda do imperador, ausente em Constantinopla, e para fazer face a esta ameaça, volta-se para os Francos – França.
Nesta altura, exercia o seu pontificado em Roma o Papa Estêvão II (752-757). Este dirige-se a França e ali, acolhido favoravelmente no “Mosteiro de S. Dinis, colocou o diadema na cabeça do seu benfeitor.” Em troca, o rei dos Francos – Pepino, o Breve – promete ajudá-lo contra a ameaça Lombarda. A aliança entre o Papa e a dinastia Franca fora assim concluída. Devido a duas campanhas militares, em 754 e 756, Pepino obrigou Astolfo a abandonar o Exarcado de Ravena e restituí-lo ao papa.
Neste Exarcado estavam incluídos os territórios de Ravena, Bolonha e Ferrara; quando o reino Lombardo foi dissolvido, o ducado de Espoleta veio engrossar os territórios entregues ao pontífice. Esta superfície territorial compõe a área dos Estados da Igreja.
Agora, a situação do pontífice romano era totalmente diferente, pois “a magnífica doação fora outorgada em plena e absoluta soberania; aos olhos do mundo surgiu, pela primeira vez um bispo cristão investido das prerrogativas de um príncipe temporal: nomeação de magistrados, o exercício da justiça, a cobrança de impostos e a riqueza do palácio de Ravena”.
O leitor certamente se perguntará por que é que o rei de França doou tudo isto ao bispo de Roma, não é verdade? Será só por que o monarca assim o quis ou poderá ter sido por outra razão? Parece que a unção do rei teve a ver com algumas contrapartidas e cedências da parte do monarca Franco. A coroação e o reconhecimento da monarquia Franca, passava pela ajuda a conceder ao bispo de Roma e a consequente “devolução” dos territórios usurpados pelos Lombardos!
Assinalamos aqui a existência de um documento chamado – Doação de Constantino - documento, supostamente elaborado e entregue pelo imperador Constantino (311-324), ao pontífice Silvestre I (314-335). Este documento foi levado pelo Papa Estêvão II ao soberano Franco para que este conhecesse o quanto tinha sido usurpado ao pontífice e que era necessário reaver! O documento tem o seguinte teor: “(…) E para que a dignidade pontifícia não seja inferior, mas que tenha uma dignidade e glória maiores que as do Império terreno, como possessões de direito da Santa Igreja Romana (…), a cidade de Roma e todas as províncias, distritos e cidades de Itália e do Ocidente”. Foi graças a este documento que o bispo de Roma pôde alcançar o seu propósito - competir e, dentro do possível, superar qualquer monarca!
Quanto a este documento, não se conhece a data da sua elaboração; em todo o caso “investigações recentes sugerem ter sido elaborado, trecho a trecho, em diferentes passos a partir de 754”.
Portanto temos um documento do século VIII e não do IV, como fizeram crer! Esta fraude foi descoberta, devido ao desenvolvimento da disciplina da Diplomática, por “Lorenzo Valla (1407-1457), pai da famosa Declamatio, na qual ficou demonstrado que o imperador Constantino não é o autor do documento no qual se faz doação ao Papa de uma parte do seu império”. Não deixa de ser interessante o comentário feito por um sacerdote acerca deste preciso contexto de doações. Ao comentar alguns aspectos do pontificado de Estêvão II, assim como as doações do monarca Franco ao pontífice romano, acrescenta: “Não era ainda o poder temporal, mas os alicerces estavam lançados”.
Nunca, na anterior História do papado, fora posta a questão do bispo de Roma assumir o poder temporal e governar como um rei territorial! É, no mínimo, de ficar pasmado! Cristo, como acima já o referimos, sempre pautou pela simplicidade, enquanto que os que sucessivamente encabeçam a Sua “continuidade”, estes procedem, ao invés, do exemplo do Seu Senhor!
Que dizer de Simão Barjonas, aquele que, asseguram, está na origem da sucessão pontifícia? Mais adiante teremos oportunidade de falar nisto em detalhe. Como é possível comparar o simples e humilde apóstolo com esta confissão religiosa que se diz sua sucessora? Nada tem de comparável! A exemplo do Mestre, ele pôde dizer a quem dele precisava: “Não tenho ouro nem prata, mas vou dar-te o que tenho: Em nome de Jesus Cristo Nazareno, levanta-te e anda” - Actos 3:6. Apesar destes exemplos tremendamente esclarecedores, o que é que se tem passado ao longo do tempo? Quanto a nós, das duas uma: 1- Ou os, pretensos, sucessores se perverteram totalmente, e a história que o diga! 2- Ou o apóstolo nunca imaginou que iria, um dia, ter sucessores e, ainda por cima, mais poderosos do que qualquer monarca temporal!
Quanto a nós, à luz das Escrituras, não encontramos qualquer explicação nem justificação para a existência de tal sistema religioso, como para a opulência e ostentação em que sempre viveu! À luz da História, estes ditos sucessores do pobre Simão Barjonas, têm um percurso nada recomendável e, na sua grande maioria, nada tiveram de representantes de Deus! O prezado leitor ainda tem dúvidas? Se acha que estamos a ser exagerados, então tenha a bondade e a curiosidade de consultar qualquer livro de História da Igreja e verá quão triste, confuso e tenebroso tem sido o percurso desta confissão religiosa que, paradoxalmente, se considera a mãe da cristandade e que muitos dizem, porque não conhecem bem, ter orgulho a ela pertencer!

Bibliografia:Edward Gibbon, op. cit., Vol. II, p. 221
Cf. Jacques Ellul, Histoire des Institutions – Le Moyen Age, 9ª ed., Paris, Presses Universitaires de France, 1982, Vol. 3, p. 95
Edward Gibbon, op. cit., vol. II, p. 223
José A. G. Cortazar e Ruiz de Aguirre, Historia General de la Alta Edad Media, Madrid, Ed. Mayfe, 1970, p. 177
Geoffrey Barraclough, op. cit., p. 46
Charles- Olivier Carbonell, Historiografia, Lisboa, Ed. Teorema, 1987, pp. 82,83
Heitor Morais da Silva, S.J., op. cit., p. 107

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

AS RAÍZES DO PODER

Ao longo do século X e da primeira metade do século XI intensificou-se a intervenção do poder laico nos assuntos eclesiásticos. No panorama europeu de meados do século XI, a imagem do imperador brilhava com um brilho sem igual. Quanto à Igreja, esta precisava de um homem forte, de alguém que impusesse o que anteriormente se tinha perdido – a ordem!
Onde estava esse homem? Brevemente iria sair do anonimato alguém “de pequena estatura, desajeitado de aparência, voz débil, mas zeloso defensor do absolutismo papal”. Em 1073 a sua eleição impõe-se com tal evidência que um movimento popular o eleva à dignidade pontifícia. Este homem, o monge Hildebrando, ao ser elevado à dignidade papal, toma o nome de Gregório VII (1073-1085). As suas primeiras acções revelam “o seu invencível desejo de unir os dois poderes - Espiritual e Temporal - para reformar a Igreja”.
Gregório VII, para combater a imoralidade reinante no seio do clero, propõe algumas soluções: 1- Imposição do celibato a todo o clero; 2- Acabar com o escândalo da simonia; 3- Insurge-se contra o direito do imperador de nomear dignitários para a Igreja. Tudo isto para que não existissem quaisquer dúvidas acerca de quem mandava na Igreja! Não poderia haver, portanto, para o corpo, que é a cristandade, duas cabeças: o Papa e o imperador!
Para que as águas pudessem ficar separadas com toda a clareza, Gregório VII irá elaborar, como acima já o referimos e nunca é demais repeti-lo, tal é a sua importância, um documento no qual se poderá ver a expressão do seu pensamento a este respeito. O documento chama-se Dictactus Papae.
Certa vez, Gregório VII teve, um diferendo com o imperador Henrique IV da Alemanha (1056-1106). Do conflito o pontífice sai vencedor. E, para reparar o mal causado, o imperador desloca-se ao encontro do papa, a Canossa, na Toscânia! Ali implora, durante três dias, descalço e com vestes de penitente, o perdão papal!
Quão longe estão os tempos da Igreja simples, humilde, perseguida e oprimida. Tudo isto leva-nos a formular uma simples pergunta: o que é que, já nesta altura, restava da Igreja pura assim como da fonte dos ensinos?
Se ainda quisermos clarificar mais o que pretendemos transmitir, bastará recordar a Decisão II de 8 de Novembro de 1557 que realça, sem qualquer margem para dúvidas, a autoridade inquestionável do papa! Esta decisão é acompanhada, por sua vez, com anotações precedidas por um sumário, do qual destacamos:
Artº 1- “O Papa é quase Deus na Terra (…)”.
Artº 4,16- “Ninguém ouse desprezar o poder do papa, porque ele liga, não como homem, mas como Deus”.
Artº 18,20- O Papa ocupa o lugar e desempenha as vezes de Deus (…)”.
Artº 43,9- “Os reis têm como superior Deus, e consequentemente a Igreja e o Romano Pontífice, que está no lugar de Deus na Terra (…)”.
Artº 61,1- “O Romano Pontífice está acima de todo o Principado e Potestade, e diante dele se curvam todos os joelhos no Céu, na Terra e debaixo da Terra”.
O teor desta última referência recorda-nos dois textos: 1- Aplicado a Deus Pai; 2- Aplicado a Deus Filho. Quanto à primeira, encontramo-la no profeta Isaías: “(…) Todo o joelho se dobrará diante de mim (…)” – Isaías 45:23. A segunda, é uma aplicação feita por S. Paulo ao próprio Jesus Cristo, quando assim escreveu aos crentes de Filipos: “Para que ao nome de Jesus, todo o joelho se dobre, nos Céus, na Terra e nos infernos (debaixo da terra)” – Filipenses 2:10.
Como poderá um pobre e triste mortal ousar pensar, quanto mais decretar, que é “igual a Deus”? Prezado leitor, esta pretensão, segundo as Escrituras, nasceu no coração de um anjo – Lúcifer – ser pleno de glória e de luz. Ele disse: “(…) Sentar-me-ei sobre o Monte da assembleia (…) e serei semelhante ao Altíssimo” - Isaías 14:,13,14. Esta mesma reivindicação orgulhosa do ser criado foi passada para o ser humano, no Jardim do Éden, quando disse a Adão e Eva: “(…) e sereis como Deus” – Génesis 3:5.
Da Dictactus Papae à Decisão II, de 8 de Novembro de 1557, passaram-se cerca de cinco séculos e, qual foi a mudança que se operou na sua atitude? Nenhuma! Esta confissão religiosa continuou igual a si mesma, infelizmente!
Para terminarmos, conviria definir os termos que, impropriamente são utilizados pela maioria! Muitos, com orgulho, incompreensivelmente, afirmam pertencer a esta confissão religiosa que, quanto a nós, repetimos, está ao mesmo nível de qualquer outra congénere!
Por que é que esta confissão religiosa se chama Igreja Católica? Qual o porquê deste nome? Somos esclarecidos que a “Igreja era chamada assim no tempo em que só a cidade de Roma possuía uma comunidade cristã”. E qual é o significado da palavra: Católico? Se consultarmos um dicionário veremos que esta palavra quer dizer: universal. Por outras palavras, não existia outra diferente, relacionada com Cristo, além do judaísmo, para a época!
Numa primeira conclusão: nos dias de hoje não tem qualquer sentido ou razão de ser dizer-se, como alguns o fazem, com certo orgulho: Eu sou Católico! Pois, tal como apontámos, nos dias de hoje, tal expressão não significa nada, visto que esta confissão religiosa não é, de modo algum, uma religião universal, única!
Quanto ao termo - Apostólico - no dicionário encontramos a definição de: “o que diz respeito aos apóstolos”. Quanto à palavra - Romana - tal como ela indica, tem a sua origem e fundação em Roma, nada mais!
Portanto: 1- o termo Católico, repetimos não tem qualquer razão de ser, pois não é uma Igreja Universal; 2- Apostólica! Afinal, que doutrina é que segue? Se é para fazer jus ao seu nome, então, de que apóstolos se trata? Os que existiram, pertencem à história, ao passado, além de não vermos em que é que, no presente, estes sejam imitados! 3- Romana, de Roma. Perguntamos: O que é que, em abono da verdade, tem esta a ver com o cristianismo, na sua essência? Esta cidade está relacionada, isso sim, essencialmente, com morte e perseguição! Nada mais do que sangue e morte! Se ainda fosse uma Igreja situada em Jerusalém, ainda compreenderíamos, pois sempre foi ali que tudo começou, não é verdade? Mas, vendo bem, até a escolha do nome – Romana - é infeliz!
À luz do que vimos esta Igreja é como qualquer outra que queira ter um nome parecido, a saber: Igreja Católica Apostólica (Portuguesa), (Italiana), etc. É só tirar a palavra final – Romana – e acrescentar um nome qualquer de uma cidade ou vila, nada mais! Como mudar o status quo adquirido ao longo do tempo? Quem quer abdicar do Poder? Ninguém! E muito menos uma confissão devidamente instalada e, ultimamente, muito consultada, mesmo até por Movimentos religiosos que, no passado recente, nunca ousaríamos cogitar!
No passado, esta confissão religiosa, curiosamente, recorreu às Escrituras, em particular, ao livro do Génesis para dali tirar uma imagem que muito lhe interessava - a dos dois luminares - Génesis 1:16. Estes representavam: “para a Igreja, o luminar maior, o Sol, é o papa; o luminar menor, a lua, o imperador ou o rei. A lua não tem brilho próprio, ela não tem senão o brilho que o sol lhe
dá. Luminar inferior, o imperador é, portanto, o chefe do mundo nocturno face ao diurno governado e simbolizado pelo papa”.
Quando as Escrituras têm algo que possa servir para determinado fim, mesmo desprovido de qualquer contexto, elas são excelentes! Quanto ao resto, é o que a sua triste história nos mostra em páginas manchadas de sangue e de muitas coisas impróprias para uma Igreja! Enfim, um cortejo de misérias!
Que diria o simples e humilde Apóstolo Simão Barjonas se ressuscitasse nos nossos dias? Seria, certamente, inimaginável a sua reacção! Com que estranheza tomaria conhecimento de que tinha legado um império, sem nunca ter dado por isso?! Partiu-se dos ensinos de raiz bíblica – infalíveis - para os de formato meramente humano – falíveis -! Da extrema pobreza para o fausto, o luxo, a licenciosidade! Tão estranho acontecimento! E logo a Igreja, aquela que diz ser a sucessora de Cristo! Quem diria!

Bibliografia:Henri H. Halley,op. cit., pp. 686,687
Geoffrey Barraclough, op. cit., p. 94
Esta ordem é contrária à vontade de Deus, desde a Criação do homem “Não é conveniente que o homem esteja só;” – Génesis 2:18; “Proíbem o casamento (…)” – I Timóteo 4:3. Qual o porquê da vontade de Deus? A razão é, pensamos, “Somente o homem e a mulher juntos é que representam, verdadeiramente, o homem completo”; ou ainda “O celibato passa por ser uma desonra, porque o ser humano jamais poderá realizar, em si mesmo, uma vida completa” - Hans Walter Wolff, op. cit., pp. 120,153
Simonia – compra de um cargo eclesiástico por dinheiro. Recordando o episódio entre S. Pedro e Simão que queria comprar o dom do Espírito Santo, do qual retira o nome – Cf. Actos 8:18-22.
Cf. Geoffrey Barraclough, op. cit., p. 100
Sacrae Rotae Romanae Decisionum Recentiorum a Prospero Farinaccio J. C. Romano Selectarum, Pars Tercia, Venetiis, 1716, fols. 3-8
A. Hamman, op. cit., pp. 146,147
J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo, op. cit., p. 122
Jacques Le Goff, La Civilisation de l’Occident Médieval, Paris, Ed. Flammarion, 1982, p. 253

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

AS ESCRITURAS, VERSUS TRADIÇÃO E MAGISTÉRIO

O crente moderno vê-se confrontado com uma Igreja secular em que, supostamente já nasceu nela e, nesta qualidade, em que o peso mental por ela exercido é bastante grande, como facilmente se compreenderá. Enfim, numa palavra, por nascimento, pertencemos a uma Igreja - já nascemos cristãos! Que maravilha! Só que, para desgosto nosso, ninguém nasce cristão, este faz-se!
Assim, pertencer a uma confissão religiosa, qualquer que ela seja, tem alguma correspondência com o ser-se cristão? Acabámos de ver, de uma forma sintética, como tudo começou e, no quanto se tornou até chegar aos nossos dias! Ficámos a conhecer, sem segundas intenções, o que é que somos quando dizemos que pertencemos à confissão religiosa conhecida por - Igreja Católica Apostólica Romana.
Já vimos esta Igreja como instituição, agora, pensamos já estar em condições de averiguar as diferentes doutrinas por ela engendradas. Uma vez mais, cada uma delas terá que ter, repetimos, para ser verdadeira, o apoio do Cânone - as Sagradas Escrituras! Caso contrário, por muito sublimes e eruditas que estas possam ser, não passam, embora lamentemos dizê-lo - de postulados humanos!
Nesta qualidade, caso as suas doutrinas se afastem da Verdade, ela própria, como entidade religiosa, afinal, cairá na sua própria armadilha, isto é, será igualmente catalogada de – SEITA! Se assim cataloga as demais, sem que para tal tenha sido mandatada, e se os seus ensinos não estão em conformidade com as Escrituras, então, por que não o é ela própria, caso mereça esta designação? Porventura estará isenta desta qualificação, caso as suas doutrinas não tenham base bíblica, escriturística? Pensamos que, por uma questão de coerência e de bom senso, seria ilegítima tal isenção! Vejamos as suas doutrinas, para que possamos tirar as nossas conclusões.

1- A Transmissão da Revelação
Para a confissão religiosa - Igreja Católica Apostólica Romana – a revelação da vontade de Deus aos homens, manifesta-se de diversas maneiras, a saber: 1- As Escrituras; 2- A Tradição; 3- O Magistério da Igreja. Isto quer dizer que, para conhecer, indicar e interpretar a vontade de Deus, esta confissão religiosa tem estes três métodos!
Vejamos como esta define cada um destes métodos interpretativos das Escrituras, para que o crente melhor possa conhecer Deus. A este respeito conheçamos o que preconiza o Catecismo, órgão oficial desta confissão:
a) As Escrituras
“A Sagrada Escritura é a Palavra de Deus enquanto foi escrita por inspiração do espírito Santo”. Até parece que existe alguma outra Sagrada Escritura que o não seja!

b) A Tradição
“A Sagrada Tradição, por sua vez, transmite integralmente aos sucessores dos Apóstolos a Palavra de Deus, confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos Apóstolos, para que eles, com a luz do Espírito da verdade, a conservem, a exponham e a difundam fielmente na sua pregação”.  Infelizmente, não é o caso!

c) O Magistério da Igreja
“O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo, isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma”. Com que base escriturística se poderá fazer tão grave e solene afirmação?

Acerca deste último recurso desta confissão religiosa para a correcta interpretação da Palavra de Deus, acrescentaremos um interessante pormenor: “Todavia este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido (…)”. O que é que isto quererá dizer? Para já, com tanta regra de interpretação e mesmo assim, não vá a Igreja enganar-se, foi necessário decretar, no século XI, a sentença nº 27 na Didactus Papae que diz, recordamo-lo: “A Igreja Romana nunca errou nem errará (…)!
Muito se tem e continua a fazer para que os cristãos não vivam mais separados - católicos, protestantes, ortodoxos, etc. Agora é moda eclesiástica falar-se da aproximação do Grande Jubileu! Este seria, pensam, o grande momento, a suprema oportunidade para que se possa esquecer diferendos e olhar mais para os pontos de união. Só que, à partida, existe, por enquanto, um grande obstáculo - a primazia de Roma! Quem dirige quem? Quem ordena? Vejamos, brevemente, algumas das vertentes inerentes a uma hipotética união.

2- As Escrituras
O Papa João Paulo II, ao ser questionado em relação a esta “unidade perdida”, a certa altura disse: “É, de facto, necessário saber qual destas Igrejas ou comunidades é a de Cristo, pois Ele só fundou uma Igreja, a única que pode falar em Seu nome. (…). Não é possível imaginar que esta Igreja, instituída por Cristo sobre o fundamento dos apóstolos e de Pedro, não seja una”. Entrevistado, o Papa recordou um encontro ecuménico dos representantes das comunidades protestantes, nos Camarões. E, ao seu interlocutor disse uma frase ali dita: “sabemos que estamos divididos, mas não sabemos porquê?”
E quanto a nós, será que conhecemos a razão? Apontemos uma, possível, primeira causa para esta divisão: Cremos que este actual papa, assim como muitos outros que o antecederam, uma vez mais, se esqueceram das suas raízes! Recordamos aqui o Papa Gregório I, (590-604), mais conhecido por S. Gregório Magno. Para este grande papa, assim como para a antiguidade cristã, tendo em conta que ainda estamos relativamente perto da fonte – a Igreja primitiva - o Livro por excelência é a Bíblia. Vejamos como esta personagem se expressou:

a) Em relação à Bíblia, ela é: “1- A carta que Deus escreve aos homens para manifestar os seus próprios segredos; 2- O espelho que permite conhecermo-nos a nós mesmos; 3- O campo de trigo que alimenta a alma; 4- O tesouro inesgotável”.

b) Em relação à sua leitura: “1- Uma visão antecipada da glória divina; 2- Não abandonarmos a sua leitura sejam quais forem as nossas ocupações e tribulações; 3- Procurar livros espirituais e comentários da Escritura; 4- Entregarmo-nos à leitura com esforço, perseverança e fidelidade; 5- Para podermos chegar à compunção pelas faltas passadas e à contemplação das realidades eternas.”
Com efeito, as Sagrada Escrituras continuam a ser, tal como no passado distante, no tempo deste Papa e no do actual, a fonte da doutrina cristã! Que outra poderia consistir? Mas, infelizmente, com o rodar do tempo, tudo foi mudando; o próprio tempo e as vontades, como disse o poeta, não é verdade?! Assim, como corolário desta situação apontemos uma segunda causa: será que as Escrituras têm a resposta a esta e a outras questões? Uma delas, pensamos encontrá-la já no Antigo Testamento, a saber: “Porventura andarão dois homens juntos, sem que estejam de acordo?” - Amós 3:3.
No Novo Testamento, Jesus ao falar da metáfora do - pastor e das ovelhas - a certa altura disse que haverá: “(…) um só rebanho e um só Pastor” - S. João 10:16. A imagem é deveras esclarecedora: Um só Deus, uma só doutrina, uma só Igreja! O apóstolo S. Paulo, à luz desta metáfora, de raciocínio elementar, declara enfaticamente aos crentes de Éfeso que: “existe um só Senhor, uma só fé, um só baptismo” – Efésios 4:5. Ora, isto é mesmo assim. O Papa também o sabe; só que, por vezes se esquece! Se assim é, qual a razão pela qual a cristandade insiste em estar dividida?!
Será assim tão difícil saber o porquê? Cremos, e esperamos não estar a ser orgulhosos ao pensarmos que não! O mesmo apóstolo dá mais algumas pistas para a compreensão desta, aparente, incompreensível questão. Vejamos: “(…) Que união pode haver entre a justiça e a iniquidade? Ou que há de comum entre a luz e as trevas? Que acordo há entre Cristo e Belial (confusão)? Ou que parte tem o fiel com o infiel? E que conciliação há entre o templo de Deus e os ídolos? (…).” – II Coríntios 6:14-16
Portanto, S. Paulo apresenta aqui, a este efeito, pensamos, uma série de questões. Em raciocínio linear, quando duas ou mais entidades estão divididas é porque aconteceu, das duas uma: 1- Ou estão ambas erradas; 2- Ou uma delas é verdadeira. Iremos tecer alguns comentários para que possamos ver um pouco mais claro e, ao mesmo tempo, fazer compreender os nossos pontos de vista:
• protestantismo, em geral, pensa a Igreja a partir das Escrituras, enquanto que o catolicismo raciocina exactamente ao contrário, isto é, pensa a Escritura a partir da Igreja!
• exegeta protestante - tem a plena convicção de que quando explica um texto, ele não tem outra garantia, para a verdade da sua fé, o texto, nada mais! Porque o risco que corre é o da fé, visto que a interpretação das Escrituras não repousa a não ser nelas mesmas!
• exegeta católico - como é que faz? A interpretação de determinado texto, forçosamente, terá que estar em conformidade, em primeiro lugar, com os dogmas da Igreja! É por isso que nem sempre se encontram nas Escrituras, como veremos mais abaixo, apoio escriturístico para muitas das suas doutrinas! A Escritura é, contrariamente ao que pensa esta confissão religiosa, o princípio que regulamenta a Igreja! Não é o inverso! E porquê? Repetimos: porque esta última lhe é posterior!

Qual deverá ser, pois, o dever mais elementar e, ao mesmo tempo, o mais sagrado do intérprete? Como resposta, subscrevemos totalmente estas palavras: “Não conhecemos outro método a respeito do texto do que uma inteira disponibilidade de escutar honestamente o texto, mesmo se o que ele nos diz é estranho ou contradiz certas das nossas concepções mais queridas. Para compreender e explicar o texto, faremos, portanto, abstracção das nossas opiniões filosóficas e teológicas pessoais (…)”.
Logo, prezado leitor, será que, à luz do exposto, se poderá encontrar uma resposta para a grande preocupação expressa; aquela que o Papa ouviu naquele encontro ecuménico, a saber: “sabemos que estamos divididos, mas não sabemos porquê” ? Mas, pelo quanto foi dito até aqui, já não temos qualquer dificuldade em saber o porquê da separação entre os cristãos, não é verdade?

3- A Tradição
Gostaríamos de inserir aqui a adaptação do excelente poema de Sam Walter Foss, o qual ilustra magistralmente o papel e o peso que a Tradição tem tido ao longo dos séculos. Leiamo-lo devagar e com muita atenção:

A Gesta do Bezerro

I
Havia um certo bezerro
que ao voltar ao seu curral
cometeu um grande erro
para ele natural

II
Em vez de directamente
seguir do pasto à porteira
decidiu, indiferente
fazer à sua maneira

III
Inventou um trilho novo
ao passar pela floresta
Deu mil voltas, o andarilho
para ele, isto era festa

IV
Veio atrás, um cão perdido
que foi seguindo o bezerro
repetindo, sem sentido
cada curva, cada erro

V
À frente do seu rebanho
uma ovelhinha faceira
sem pensar no seu tamanho
repetiu a mesma asneira

VI
Um a um, a carneirada
seguiu nesse mesmo trilho
que passou a ser estrada
para qualquer andarilho

VII
Nessa estrada de curvas, numa carroça
veio, um dia, um fazendeiro
queria voltar para a roça
e perdeu o dia inteiro

VIII
Surgiu daí um caminho
com voltas e curvas mais
que passou a ser seguido
por homens e animais

IX
E muitos anos já faz
que este erro continua
muita gente, ainda faz
as voltas mil, dessa rua

X
Hoje, ao subir a montanha
pode-se ver, lá do alto
essa estrada estranha
um zigue-zague d’asfalto

XI
Ninguém corrige o erro
ninguém faz novos planos
seguem atrás de um bezerro
morto há tantos anos

Então, prezado leitor, que acha? Não tem sido assim? Não continua ainda a sê-lo? Não será que a resposta também poderá estar nesta reflexão: “(…) A antiguidade de um erro não faz dele uma verdade”! (sublinhado nosso)
Numa outra Carta Encíclica, o Papa afirma algo que não podia estar mais de acordo com as Escrituras, visto que as cita (cf. Actos 5:29), ao dizer que: “Os cristãos têm por honra própria obedecer a Deus antes que aos homens”. Mas, porventura poderia ser de outra forma? Estaria o homem em primeiro lugar na nossa vida e não Deus? Se realmente somos o que dizemos ser - cristãos - então, escrituristicamente falando, é impossível que a obediência ao homem venha antes da que devemos ao nosso Criador!
Já que Jesus, no Seu tempo tinha chamado à atenção os professos adoradores de Deus, ao dizer: “(…) E assim anulastes a palavra de Deus em nome da vossa tradição” – S. Mateus 15:6. Temos, de igual modo a este respeito, o testemunho de S. Paulo quando advertiu os crentes ao dizer: “Vede que ninguém vos engane com falsas e vãs filosofias, fundadas nas tradições humanas, nos elementos do mundo e não em Cristo” – Colossenses 2:8. E, para fechar o ciclo das Escrituras, citaremos o grande conselho daquele que esta confissão religiosa afirma ter sido o primeiro papa, (mais abaixo veremos esta problemática), quando disse: “Sabei que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição dos vossos pais (…)” – I Pedro 1:18.
Dá que pensar, não dá prezado amigo, as palavras de Simão Barjonas ao dizer: “fostes resgatados da vossa vã maneira de viver, recebida por tradição (…)”! Portanto, perguntamos: em que é que a nossa maneira de viver era vã? Não quererá dizer que esta não tinha qualquer objectivo, sentido ou verdade? Claro! Isto é, – os ensinos recebidos pela tradição dos nossos pais! Pensamos que sim! Também esta poderá conter ensinos meramente humanos e não escriturísticos! Por isso, é, segundo o apóstolo – “vã”! Compete-nos examinar para que possamos detectar a Verdade dos factos e vivências nos quais escoramos a nossa fé! Esta deverá estar alicerçada nas Escrituras, aquela que é a Norma, tal como vimos acima, não na Tradição!
Como veremos mais abaixo em relação às doutrinas desta confissão religiosa, alguns dizem que, certas doutrinas, apareceram na Igreja, tendo como único apoio a Tradição resultante da Igreja primitiva. Mas esta pretensão terá algum fundamento? O que encontramos nos escritos dos Pais apostólicos e da Igreja, quanto a uma Tradição escrita, revelam-nos exactamente o contrário, visto que para esta, as Escrituras, sempre foram a Norma! Vejamos alguns exemplos, entre outros:

a) Ireneu (125-202)
Este declara: “Não conhecemos o plano da nossa salvação senão por aqueles que nos trouxeram o Evangelho. Este, eles o pregaram primeiro. Depois, pela vontade de Deus, eles o transmitiram nas Escrituras para que o evangelho se torne a base e coluna da nossa fé”.

b) Atanásio (298-373)
Afirma que: “Estas (Escrituras) são a fonte da salvação; é só por elas que podemos aprender a disciplina da piedade. Que ninguém lhe adicione nada; que ninguém nada lhe retire. Foi por causa disto que o Senhor envergonhou os saduceus, ao dizer: «Estais enganados, porque desconheceis as Escrituras (…)» – S. Mateus 22:29”.

c) Cirilo de Jerusalém (315-386)
Este disse: ”No que diz respeito aos santos mistérios da fé, nada se deve dizer sem a autoridade das sagradas Escrituras. (…) Mas mesmo em relação a mim, não creiam no que vos digo sem terem visto os meus ensinos demonstrados nas Escrituras Divinas. A salvação em que cremos depende, não de engenhoso artifício de raciocínio, mas na demonstração das Sagradas Escrituras”.

d) João Crisóstomo (347-407)
Este afirmou: “(…) quando se trata de coisas divinas, não seria uma loucura permanecermos sob as opiniões dos outros, nós que temos uma regra pela qual podemos examinar todas as coisas (…)?. É por isso que vos exorto, a que não permaneçais, de modo algum, no que os outros pensam, mas que consulteis as Escrituras acerca disso”.

Pelo quanto pudemos expor, se existe um assunto acerca do qual a Tradição dos Pais está de acordo é, insofismavelmente, no reconhecimento da autoridade das Escrituras em matéria de fé, não da Tradição!
Será possível o tal entendimento de que acima falávamos? Mas como se poderá dialogar seriamente se não se consegue chegar a um acordo, desde o início, acerca da base da autoridade que é: 1- Para o protestante são as Escrituras a base e fundamento da Igreja; 2- Para o católico, é a Igreja que regulamenta as Escrituras e respectivos ensinos escriturísticos? Como haver consenso? Das três vertentes só existe uma autoridade : Ou as Escrituras, ou a Tradição, ou Magistério!

Bibliografia:
Catecismo, p. 35, nº 81
Idem, p. 36, nº 81
Idem, p. 36, nº 85
Idem, p. 36, nº 86
João Paulo II, Atravessar o Limiar da Esperança, pp. 136-139
“Gregório I” in Nova Enciclopédia Larousse, Vol. 11, p. 3430
José Mattoso, Religião e Cultura na Idade Média Portuguesa, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1982, p. 326
Idem, pp. 326,327
Epístola Festal 39:6
Leituras Catequéticas, leitura 4:17
Segunda Epístola aos Coríntios, Homilia 13, cap. 7:1

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O MAGISTÉRIO DA IGREJA

Após ter definido o conceito de - Magistério da Igreja - o Catecismo ainda acrescenta: “Todavia, este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido (…).
Recordando a sua definição, esclarece que tem o ”encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição”. Se bem compreendemos a definição, portanto, o Magistério da Igreja, a sua análise do texto bíblico tem como objectivo primeiro, torná-lo mais compreensivo e não contraditório. Vejamos, a este propósito, alguns pormenores:

Consciência e Verdade
Dissertando acerca desta vertente, o Papa João Paulo II afirmou: “Uma grande ajuda para a formação da consciência têm-na os cristãos na Igreja e no seu Magistério, como afirma o Concílio “(…) Pois por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo”.
Esta afirmação é muito feliz e grandemente reveladora! Ainda bem que o leitor, assim como nós próprios, ficamos esclarecidos de uma coisa tremendamente importante e significativa: que não foram as Escrituras, mas sim o Concílio que disse que “(…) Pois por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo”! Só aqui encontramos uma diferença de peso! Só resta saber o que é que se entende por “mestra da verdade”?!
Se a Igreja tem, realmente, o solene encargo de ensinar a Verdade / Cristo, então quer dizer que o seu ensino encontra-se baseado unicamente nas Escrituras, visto que a Verdade é, em simultâneo: 1- Cristo (S. João 14:6); 2- a Bíblia (S. João 17:17)! Mas, perguntamos, como ensinar a tal Verdade, desdobrada em Cristo e nas Escrituras, se a maioria dos fiéis desta confissão religiosa, infelizmente, não conhece, nunca leu - as Escrituras - aquelas que afirmam, sem quaisquer equívocos, ser Ele a Verdade (S. João 17:17)?
Se realmente é ensinado algo, como saber se o que é dito está conforme o texto Sagrado, tal como o preconizam os Pais da Igreja, como vimos, se não o cunsultamos? Ouvir a leitura de um texto, quando se assiste à missa, convenhamos que já é bom! Mas se examinarmos o seu ensino e o confrontarmos com a Palavra de Deus, certamente será ainda muito melhor, por duas razões: 1- As Escrituras foram dadas ao homem para que este pudesse conhecer o Plano da Salvação, exactamente como o Senhor deu o exemplo: “E começando por Moisés (os cinco primeiros livros da Bíblia) e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia respeito” - S. Lucas 24:27; 2- Para que o crente se certifique que o ensino que lhe está a ser ministrado possa ter como base as Escrituras.
A este propósito, assim se expressa o apóstolo S. Paulo, quando escreveu: “Estes tinham sentimentos mais nobres do que os de Tessalónica e acolheram a palavra com maior interesse. Examinavam diariamente as Escrituras para verificarem se tudo era, de facto, assim.” - Actos 17:11.
Portanto, uma primeira conclusão se impõe: a “mestra da verdade” não é, de modo algum, esta confissão religiosa, mas a Igreja como entidade abstracta que se identifica e vive em harmonia com um veemente: “Assim diz o Senhor” e não com um “Assim afirma o Concílio”! Logo, “a consciência dos cristãos”, contrariamente ao que afirma o papa, não está na confissão religiosa que representa, assim como não está no Magistério, mas unicamente na Palavra de Deus!

Palavras humanas
O papa, como vimos atrás, ao falar de religiões alternativas ao cristianismo, falou de uma recente formação espiritual cujo nome é New Age – Nova Era. Ele definiu-a assim: “É apenas um novo modo de praticar a gnose, isto é, aquela disposição de espírito que, em nome de um profundo conhecimento de Deus, acaba por interpretar mal a Sua Palavra, substituindo-Lhe palavras que são apenas humanas”.
Qual, perguntamos nós, foi o critério que este usou para fazer tal afirmação? Convenhamos que, quando adicionamos as nossas palavras à Palavra de Deus, nada sairá certo! Deduzimos, portanto, das suas palavras que o critério da avaliação terá sido, neste caso específico, as Escrituras! E, visto que julga e cataloga os outros, qual é o princípio, pelo qual são regidos os ensinos da confissão religiosa a que preside? É a que resulta dos Concílios ou das Escrituras? Ou o princípio por ele enunciado, só serve para as outras confissões religiosas?
Quanto a nós, não temos qualquer dúvida, como mais abaixo pensamos demonstrar, que o critério sempre foi, por estranho que possa parecer, os ditames dos Concilios! Pois se fossem os Escriturísticos, como tudo teria sido tão diferente! Dizemos tudo isto só por que não concordamos com os métodos desta confissão religiosa? Claro que não! Como homens do documento, preferimos fazer ponto de honra, o documento divino, a Magna Carta de Deus ao homem - as Sagradas Escrituras!
Aplicando-se a muitas problemáticas, abordaremos, a este propósito, as palavras de Jesus, ao citar o que no passado, o profeta Isaías tinha dito ao professo povo de Deus: “É vão o culto que Me prestam, ensinando doutrinas que são preceitos humanos” – S. Mateus 15:9. Será que estas palavras não encontram eco nos nossos dias e, em particular, nesta confissão religiosa? Bem gostaríamos que não encontrasse e quão tudo seria diferente! Se o dito Magistério ensina doutrinas que não estão consignadas no Cânone, então é ou não é o Magistério, contrariamente ao que é afirmado, “superior às Escrituras”? Claro que é, sem qualquer dúvida!
Assim, quer a Tradição, quer o Magistério também não estão, de modo algum, em consonância com as Escrituras. Somente estas são a base do Plano da Salvação e não a Tradição e, muito menos, o Magistério! Visto que este último, em vez de clarificar a Palavra e Deus, torna-a contraditória, no seu todo, inserindo “doutrinas que são preceitos dos homens”! Nem mais nem menos! A mesma coisa que disse o Papa para o sistema espiritual - New Age - também se aplica, integralmente, infelizmente, na confissão religiosa que representa; que, vendo bem, é ele próprio! Perguntamos: Se tem solução para os outros, por que não experimenta esta mesma solução no seu próprio edifício espiritual?

Bibliografia:
Catecismo, p. 36, n.º 86
João Paulo II, O Esplendor da Verdade, p. 110
João Paulo II, Atravessar o Limiar da Esperança, p. 86

domingo, 3 de outubro de 2010

INFALIBILIDADE PAPAL

Como é que a palavra do homem pode suplantar a de Deus? É espantoso que um simples ser humano, pobre criatura mortal ouse dizer que é infalível! Mas, infalível em quê? Saberá dizer-nos, prezado leitor, em quê? Quanto a nós, com toda a humildade, reconhecemos, nesta matéria, a nossa total incapacidade!

1- O Dogma
Vejamos como o Catecismo interpreta a infalibilidade papal: “Para manter a Igreja na pureza da fé transmitida pelos apóstolos, Cristo quis conferir à Sua Igreja uma participação na Sua própria infalibilidade”. (sublinhado nosso). Ou “(…). A infalibilidade prometida à Igreja reside também no Colégio episcopal quando exerce o seu Magistério (…)”. (sublinhado nosso)
Que ainda nos seja permitido abrir um parêntesis, para perguntarmos: 1- Onde é que, nas Escrituras, nos é revelado, tal como o declara o Catecismo, que: “(…) Cristo quis conferir à Sua Igreja uma participação na Sua própria infalibilidade (…)”?; 2- Se, quanto a nós, as Escrituras são omissas na resposta à primeira pergunta, questionamos: quem tem o direito e a autoridade para afirmar o que o mesmo Catecismo refere tão categoricamente, a saber: “(…) A infalibilidade prometida à Igreja reside também no Colégio episcopal (…)” ?
Ora, se não são as Escrituras, então, por exclusão de partes, então são os homens! A ser verdade - visto assim o dizerem - que falam investidos de “autoridade”, a qual vai ao ponto de contradizer o que Deus anteriormente afirmou, por exemplo:1- “(…) para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito” – I Coríntios 4:6; 2- Ou ainda: “De facto, não somos como tantos outros que mercadejam com a palavra de Deus” – II Coríntios 2:17; 3- Ou “(…) não procedemos com astúcia, nem adulteramos a palavra de Deus” – II Coríntios 4:2 – perguntamos: O que terá, prezado amigo, acontecido ao apóstolo S. Paulo? Será que:
1- S. Paulo estava enganado?
2- Será, por isso, um relato não inspirado?
3- Será que Deus se enganou, visto o ter inspirado?
4- Será que Deus está contra Ele mesmo, dando, posteriormente, a esta confissão religiosa, Sua dita continuidade, doutrinas contraditórias?

Só a Escritura Sagrada é a infalível Palavra
de Deus
O prezado leitor saberá responder, biblicamente falando? Uma vez mais, reconhecemos a nossa total incapacidade! De uma coisa temos a firme certeza: é de que Deus não está enganado, mas sim o homem! Pois este último quer anular a Palavra da Verdade, pela palavra dos Concílios e afins, apesar de dizer, para justificar tais actos, que tudo é feito sob a assistência do Espírito! Pergunta o leitor se temos provas de que Deus não se engana, mas sim o homem? Como simples humanos, não teríamos qualquer problema em o afirmar peremptoriamente! Mas que não sejamos nós a fazê-lo, mas as Escrituras! Vejamo-lo:
1- Quanto a Deus - Como a Palavra de Deus se explica a ela mesma, encontramos, noutro livro canónico, um reforço a esta mesma grande verdade, a saber: “na esperança da vida eterna prometida desde os mais antigos tempos pelo Deus que não pode mentir” – Tito1:2.
2- Quanto ao homem - Abramos as Escrituras e leiamos o esclarecimento que aqui se encontra: “Que importa se alguns deles não creram? Acaso a sua incredulidade destruirá a fidelidade de Deus? De modo algum. Deus é verdadeiro e todo o homem é mentiroso (…)” – Romanos 3:3,4.
3- Quanto à Palavra inspirada por Deus - Esta assim se expressa com toda a clareza: “Na verdade não há outro Evangelho (…). Mas ainda que alguém – nós mesmos ou um anjo do céu – vos anuncie outro evangelho, além do que vos tenho anunciado, esse seja anátema (excomungado)” – Gálatas 1:7-9.

Já reparou, prezado leitor, nas palavras veementes do apóstolo quando condena a frouxidão destes crentes? S. Paulo esclarece que, mesmo que fosse alguém de outra dimensão cósmica - um anjo – mesmo este, se tiver um outro evangelho que vá contra aquele que ele prega, então - o tal anjo - que seja excomungado, isto é, que não receba qualquer crédito no seio da Igreja! Perguntamos: Se no passado as coisas do espírito eram aferidas desta maneira, será que as normas, de lá para cá, já baixaram? E quanto à vontade de Deus? Será que esta está mais frouxa ou até, contraditória? Continuamos firmemente a pensar e a afirmar que não!
O Magistério da Igreja não se engana, claro que não, mas só quando explica e explicita a Palavra de Deus pela própria Palavra, porque se for através da palavra de homens falhos e “(…) pervertidos na sua fé” – II Timóteo 3:8, então nada condirá com nada e, infelizmente, é o que podemos constatar nas diferentes confissões religiosas quando comparamos os seus ensinos com o das Escrituras!
Perante tudo isto, cremos ser legítimo perguntar: Em matéria de fé, com quem ficar? Com a Tradição, com o Magistério, com a Infalibilidade papal ou com as Escrituras? Quanto a nós, tal como o temos afirmado, desde sempre, sem qualquer dúvida, permaneceremos ao lado da imutável Palavra de Deus, essa sim, infalível!
Vejamos, ainda dentro deste dito “poder” da infalibilidade papal, mais um dogma desta confissão religiosa! Desta vez, sobre a pessoa de Maria, que muito respeitamos – a mãe do nosso Salvador Jesus.

2- Maria e os Decretos Papais
Na Igreja de Roma, a figura de Maria ocupa um lugar de destaque, dando lugar ao culto mariano. Este culto irá passar por várias etapas, até ser alvo da ratificação papal.
Para que não houvesse qualquer dúvida, não só inerentemente à autoridade papal, como também à legitimidade do culto mariano, o Papa Pio IX (1846-1878), através da bula dogmática - Ineffabilis Deus - proclamou, em 1854, o dogma da Imaculada Conceição, do qual se transcreve um excerto: “A bem-aventurada Virgem Maria foi, no primeiro instante da sua conceição, por uma graça e favor singular de Deus omnipotente, em previsão dos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, preservada intacta de toda a mancha do pecado original”.
Este Papa não fez mais do que continuar a política seguida até ali. Para que o leitor possa ter uma ideia da forte personalidade e consequente autoridade pessoal deste pontífice, em 1866, assim se expressou: “só eu sou o sucessor dos apóstolos, o Vicário de Jesus Cristo; só eu tenho a missão de conduzir e de dirigir a barca de S. Pedro; eu sou o caminho, a verdade e a vida. Aqueles que estão comigo, estão com a Igreja, aqueles que não estão comigo estão fora da Igreja, estão fora do caminho, da verdade e da vida”. (sublinhado nosso). Tanto quanto saibamos, só Jesus disse estas palavras acerca de si mesmo, nunca inerentes ao próprio homem, como facilmente se compreenderá: “Disse-lhe Jesus: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida»” – S. João 14:6. Que ilações tirar desta pretensão pontifícia, como qualificá-la?
Recorde-se que, no Concílio de Trento (1545-1563) as - sine scripto tradiciones (tradições sem base escriturística) - foram elevadas ao mesmo nível das Escrituras! Este Concílio foi produzido para calar as vozes discordantes da Reforma, visto que os livros Apócrifos faziam com que estas se levantassem contra Roma. Assim e uma vez por todas, ficaria decretado, finalmente, que todos os escritos - Inspirados e Apócrifos - constituiriam uma só Escritura! Pasme-se o céu!
A 20 de Junho de 1868, pela bula Aeterni Patris é convocado um outro Concílio – o Vaticano I – que funcionou de 8 de Dezembro de 1869 a 20 de Outubro de 1870).
Este Concílio, o da supremacia da autoridade papal sobre os bispos, irá culminar na afirmação de que, ao Papa pertence a última interpretação da Tradição e das Escrituras! Este pode, portanto, proclamar com toda a legitimidade um dogma na qualidade de – Vicarius Christi (Vigário de Cristo) – nesta terra! O papa, ciente do seu poder, irá aprovar o polémico decreto que consagra a famosa – Infalibilidade – do Sumo Pontífice Romano, a sua própria!
Finalmente, mas sem unanimidade, este último dogma é aprovado como sendo oriundo de Deus! Eis o seu articulado: “Apresentamos e definimos como dogma divinamente revelado: Que quando o Pontífice Romano falar - ex cathedra - isto é, quando, exercendo o seu cargo de Pastor e de Doutor de todos os cristãos, ele defina, em virtude da sua suprema autoridade apostólica, se uma doutrina sobre a fé ou sobre os costumes deve ser seguida pela Igreja Universal, está dotado, pela assistência divina prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, desta infalibilidade de que o divino Redentor quis que a Sua Igreja fosse provida, definindo uma doutrina sobre a fé ou sobre os costumes; e, por consequência, que tais definições do Pontífice Romano são irreformáveis por si próprias e não em virtude do consentimento da Igreja” (sublinhado nosso). Pobre Simão Barjonas se soubesse o que se tem passado e feito em seu nome!
Dentro deste contexto, em relação a Maria, só faltava dar um segundo passo. Agora, faltava a outra fase, isto é, para que as orações feitas à mãe do Salvador pudessem ter sentido e efeito! Pois, como e para quê fazer preces intercessórias a alguém, se ainda não subiu ao céu? Convenhamos que é de elementar raciocínio!
Assim, em 1950, quase um século depois, (mais vale tarde do que nunca), pela bula - Munificentíssimus Deus - o Papa Pio XII (1939-1958) proclama o dogma da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria. A ideia-força da bula está expressa nestas palavras: “Finalmente, (…) terminado o curso da vida terrena, foi elevada ao céu em corpo e alma e exaltada por Deus como rainha (…)”. (sublinhado nosso). Perguntamos: por que é que só um século depois é que esta confissão religiosa soube, pela pessoa do sei líder, que a mãe do Salvador tinha ido para o céu? E quem o revelou?! O leitor não sabe? Nós, desde já, de igual modo, confessamos a nossa total ignorância sobre tal fonte de tão estranha revelação!

Bibliografia:
Catecismo, p. 206, nº 889
Idem, p. 207, nº 891
Jose M. Bover, S.I., Teologia de San Pablo, 4ª ed. Madrid, Ed. Biblioteca de Autores Cristianos, 1967, p. 419
Catecismo, p. 120, nº 491
Alfredo Kuen, Je Bâtirai Mon Eglise, Vevey, Ed. Emmaus, 1967, p. 37, nota 33
Jean Louis Schonberg, op. cit., pp. 243-255
Idem, p. 261, nota 134
Charles Brutsch, La Clarté de l’Apocalypse, 10ª ed., Genève. Ed. Labor et Fides, 1966, p. 202
Catecismo, p. 219, nº 966

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

MARIA E AS ESCRITURAS

Iremos, de seguida, examinar as Escrituras para nos apercebermos do ênfase que estas dão à mãe do Senhor Jesus. Vejamos:

a) S. Mateus 1 e 2 - O relato bíblico mostra-nos:

1- O sonho de José, quando este cogitava no seu coração em abandonar Maria, visto que estava grávida, mas não dele! - 1:18-25;
2- O relato da adoração dos Magos e entrega de presentes – 2:1-12;
3- O relato da fuga de José e Maria para o Egipto por causa da matança dos inocentes, por Herodes – 2:13-18;
4- Finalmente, regresso definitivo a Nazaré – 2:19-23.

b) S. Lucas 1:26-38,46-56 - Aqui encontramos:

1- Anúncio do anjo a Maria – 1:26-38;
2- A visita de Maria a Isabel – v. 39-45;
3- O cântico de Maria – v. 46-56.

c) S. Lucas 2:1- 52 - Aqui encontramos:

1- O nascimento de Jesus – v. 1-7;
2- Os pastores de Belém – v. 8-15;
3- A circuncisão de Jesus no 8º dia do Seu nascimento – v. 21
4- Apresentação do bebé no templo – v. 22-24;
5- Jesus no templo com os doutores da lei – v. 39-51.

No relato de S. Lucas existe um grande silêncio sobre a família de Jesus. Agora, com cerca de 12 anos, e segundo o costume, Jesus e os Seus pais adoptivos vem ao Templo. Interessante é o relato bíblico que descreve quando Maria encontra Jesus, no Templo; este, por lapso, ficou “perdido” em Jerusalém!
Maria e José, aflitos, procuram-no e vão encontrá-Lo no seio dos doutores. A reacção de Maria para com Jesus foi a de uma mãe, como outra qualquer, dizendo: “Filho, porque nos fizeste isto? Olha que Teu pai e eu andávamos à Tua procura” – S. Lucas 2:48. Jesus respondeu-lhes: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar na casa de Meu Pai?” – v. 49. Note-se a dinâmica do texto: “Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse” – v. 50. (sublinhado nosso)
Perguntamos: será abusivo da nossa parte pensar que Maria se esquecera de que não fora mais do que um simples vaso escolhido para que a humanidade de Jesus fosse, em tudo, igual ao mais comum dos mortais? Este era, em suma, o único vínculo entre Jesus e Maria! Eis a necessidade, portanto, de Jesus repor a situação e demarcar, com muito amor e ternura, a fronteira que, naturalmente, os separava!

d) S. João 2:1-5,12 - Aqui encontramos:
Convidados para um casamento - Maria, Jesus e discípulos – nas bodas de Caná. Agora, Jesus tem cerca de 30 anos (cf. S. Lucas 3:23). A certa altura o vinho falta! Uma lacuna imperdoável!
Maria vai ter com Jesus e avisa-o da ocorrência. Maria pensava, se é que não estamos a exagerar, ter um certo ascendente sobre o seu filho Jesus. Este, por Sua vez, lhe diz: “Que temos nós com isso, mulher? A Minha hora ainda não chegou” – v.4. De novo, Jesus repõe as distâncias, realçando a condição humana de Maria. Esta , em função das palavras de Jesus, limita-se a dizer aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos disser” – v. 5.

e) S. João 19:25-27 - Maria aos pés da cruz.
Lá do alto da cruz, Jesus exclama e ordena: “Mulher, eis aí o teu filho” – v. 26. Jesus não fez mais do que recordar e salvaguardar a precária situação social de uma viúva, entre as demais em Israel; entrega-a aos cuidados de João, visto que o filho, Jesus, já não a poderia ter a seu cargo.
O que encontrámos até aqui, como referências à mãe de Jesus, como pudemos ver, são tremendamente escassas! A partir daqui, o silêncio é total! Será este silêncio revelador de qualquer coisa, isto é, de nos mostrar qual o lugar e papel ocupado por esta piedosa mulher! Portanto, biblicamente falando, nada mais há de interesse a acrescentar acerca dela.
Quanto ao mais que dissermos, seguramente que estaremos a inventar ou a especular! Sem uma base documental sólida, que valor terão tais afirmações, ainda que extremamente piedosas?

Decretos Papais versus Escrituras
Agora, passaremos a tecer breves considerações, como resultantes da comparação entre o que realmente as Escrituras dizem e o que os decretos papais nos querem fazer crer e… aceitar como norma de fé!
Sabe-se, que o último livro da Bíblia – o Apocalipse – foi escrito quase no final do século I. Cremos, se é que não estamos a especular, que Maria já teria morrido e, por isso, caso fosse importante, se a sua Assunção tivesse ocorrido, certamente que a cristandade deveria ter sido contemplada com, pelo menos, um verso bíblico, a contar o facto, ainda que ao de leve se tratasse! Mas, não! O silêncio é total!
Dizemos isto porque, nas Escrituras, encontramos o relato de várias ressurreições e, se estas mereceram ser relatadas, será que a Assunção da mãe do Salvador deveria ser passada em silêncio? Esta terá menos mérito? Nunca!
Há, no entanto, alguns pormenores que gostaríamos de realçar quando comparamos as duas bulas papais, nas quais se estabeleceram os dois dogmas já referidos: 1- O da Imaculada Conceição de Maria, proclamado em 1854; 2- O da Assunção de Maria, em 1950. Perante tal, perguntamos:

1- Se não sabiam que Maria, a mãe do Salvador, era Imaculada; então os fiéis, até 1854, oraram a que santa? A Maria? Não certamente! Porque desconhecia-se, por completo, que sempre fora Imaculada!

2- Quase um século depois do 1º dogma, isto é, em 1950, é que esta confissão religiosa foi informada que Maria tinha sido, após “ter terminado o curso de vida terreno” elevada ao céu? Quem é que a elucidou? O Espírito Santo? Se for verdade, porquê só dezanove séculos depois da sua morte? Sem querermos ser do contra, convenhamos que é muito estranha a postura deste Espírito Inspirador!

3- Se só a partir de 1950 é que o 2º dogma foi oficialmente proclamado, então Maria intercedeu por quem, visto que, até então, era desconhecido o seu papel e função de mediadora, intercessora dos fiéis?!
Se os crentes só souberam, em 1950, de uma realidade anterior - a Assunção de Maria - então como conciliar este conhecimento tardio da - sua presença no céu - com o teor, por exemplo, das rezas que lhe foram, anteriormente, dirigidas, como por exemplo: o Terço e a Salvé Rainha? A quem estas foram dirigidas? Quem intercedia a favor de quem?

Graças damos ao Pai das Luzes, o Todo-Poderoso, o Deus Eterno, pela luz que podemos receber, caso aceitemos o quanto se encontra escrito nas Escrituras. Maria, os demais apóstolos e toda uma incontável multidão, repousam no pó da terra até que o Senhor Jesus venha, finalmente, em Honra e Glória, buscar todos os Santos (cf. I Tessalonicenses 4:15,16) e, com estes, Maria. A mãe do Salvador, repetimos, é digna de todo o nosso carinho e respeito; mas não podemos dizer ou ensinar, sobre o que, por muito piedoso que possa ser, as Escrituras fazem o maior silêncio! Por que se o fizermos, no mínimo estaremos a MENTIR – “ (…) para que em nós (Paulo e Apolo) aprendais a não ir além do que está escrito (…)” – I Coríntios 4:6.
Como se tudo isto não bastasse, veja-se o que diz o Catecismo acerca de Maria:

1- “Pela graça de Deus, Maria manteve-se pura de todo o pecado pessoal ao longo de toda a sua vida”;

2- “(…) Levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria, mesmo no parto do Filho de Deus feito homem”. (sublinhado nosso).

Que dizer destas declarações, de pobres seres humanos, quando as comparamos com a infalível Palavra de Deus? Vejamos como a Bíblia responde a estas afirmações fantasiosas:

* Como acima dissemos, encontrámos Maria e José no Templo para cumprirem uma lei ritual mosaica, para oferecerem “(…) um par de rolas ou duas pombinhas” – S. Lucas 2:22-24. Ora para que servia esta exigência ritual? Vejamos o teor da lei em causa: “Se não tiver meios para oferecer um cordeiro, tomará duas rolas ou duas pombas ainda novas; uma para o holocausto; outra para o sacrifício expiatório (…)” – Levítico 12:6-8.
Sendo assim perguntamos: O sacrifício expiatório era para ficar limpa do seu fluxo de sangue (pós parto). E o holocausto, para que servia? Um ser imaculado, será que não estaria isento destes dois sacrifícios. Se Maria assim procede é porque desconhecia a sua condição de IMACULADA!
Cremos ser muito triste, como no caso de Maria, a ser verdade, que, sejamos uma coisa e que, ao longo de toda a nossa existência, nunca o tenhamos sabido! E quanto à postura de divina? Repetimos, a ser verdade tais postulados, que Deus, afinal é este?

* A Igreja declara que Maria se manteve pura! Leiamos o testemunho da própria quando declarou: “A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador” – S. Lucas 1:47. (sublinhado nosso). Se reconhece a necessidade de um – Salvador – é porque é pecadora! (Ao fazermos esta afirmação, queremos dizer aquilo que Maria, ela mesma reconhece – isto é, que não é pura).
E ao reconhecê-lo, assim está em harmonia com a Palavra de Deus! Nesta encontramos a seguinte informação: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus” – Romanos 3:23 (sublinhado nosso); I Reis 8.46; Prov. 20.9; Ecl. 7.20; I João 1.8-10.

* A Igreja diz que a sua virgindade é “real e perpétua”! No entanto a Bíblia declara exactamente o contrário! Vejamos o texto bíblico que refere: “Mas não a conheceu (até) ao dia em que ela deu à luz (…)” – S. Mateus 1:25. (sublinhado nosso)

Que dizer deste último texto? Como é que se entenderá o que está escrito nas Sagradas Escrituras? Com todo o respeito que nos merece o texto, este refere que José, até ao dia do parto, respeitou-a. Mas, depois do parto, segundo o texto, manteve uma relação matrimonial como qualquer casal normal!
Como conciliar a norma divina com as declarações e doutrinas de homens? Quem terá razão? Uma vez mais, quanto a nós, reafirmamos, preferimos manter-nos ao lado das Escrituras – a Palavra de Deus.

Bibliografia:
É, pensamos, de toda a conveniência definir e precisar os termos. Assim, Ascensão – acto de subir pelos seus próprios meios; Assunção – elevação ao céu , mas não pelos seus próprios meios. Portanto, transportada pelos anjos.
Catecismo, p. 120, nº 493
Idem, p. 122, nº 499
Aqui o verbo conhecer é usado no sentido sexual. Cf. Fritz Rieneker e Cleon Rogers, Chave Linguística do Novo Testamento Grego, S. Paulo, Ed. Vida Nova, 1985, p. 2
Aqui a tradução dos Capuchinhos, por nós seguida, afasta-se, do original, ao traduzir: “E, sem que a tivesse conhecido, […] ela deu à luz um filho, ao qual pôs o nome de Jesus”. Portanto, foi omitida da tradução a partícula – eôs (até). Compreendemos a intenção: não contrariar o ensino oficial desta confissão religiosa! Teremos o direito de alterar o texto só porque este não diz o que gostaríamos que dissesse?