quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O MAGISTÉRIO DA IGREJA

Após ter definido o conceito de - Magistério da Igreja - o Catecismo ainda acrescenta: “Todavia, este Magistério não está acima da Palavra de Deus, mas sim ao seu serviço, ensinando apenas o que foi transmitido (…).
Recordando a sua definição, esclarece que tem o ”encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus, escrita ou contida na Tradição”. Se bem compreendemos a definição, portanto, o Magistério da Igreja, a sua análise do texto bíblico tem como objectivo primeiro, torná-lo mais compreensivo e não contraditório. Vejamos, a este propósito, alguns pormenores:

Consciência e Verdade
Dissertando acerca desta vertente, o Papa João Paulo II afirmou: “Uma grande ajuda para a formação da consciência têm-na os cristãos na Igreja e no seu Magistério, como afirma o Concílio “(…) Pois por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo”.
Esta afirmação é muito feliz e grandemente reveladora! Ainda bem que o leitor, assim como nós próprios, ficamos esclarecidos de uma coisa tremendamente importante e significativa: que não foram as Escrituras, mas sim o Concílio que disse que “(…) Pois por vontade de Cristo, a Igreja Católica é mestra da verdade e tem por encargo dar a conhecer e ensinar autenticamente a Verdade que é Cristo”! Só aqui encontramos uma diferença de peso! Só resta saber o que é que se entende por “mestra da verdade”?!
Se a Igreja tem, realmente, o solene encargo de ensinar a Verdade / Cristo, então quer dizer que o seu ensino encontra-se baseado unicamente nas Escrituras, visto que a Verdade é, em simultâneo: 1- Cristo (S. João 14:6); 2- a Bíblia (S. João 17:17)! Mas, perguntamos, como ensinar a tal Verdade, desdobrada em Cristo e nas Escrituras, se a maioria dos fiéis desta confissão religiosa, infelizmente, não conhece, nunca leu - as Escrituras - aquelas que afirmam, sem quaisquer equívocos, ser Ele a Verdade (S. João 17:17)?
Se realmente é ensinado algo, como saber se o que é dito está conforme o texto Sagrado, tal como o preconizam os Pais da Igreja, como vimos, se não o cunsultamos? Ouvir a leitura de um texto, quando se assiste à missa, convenhamos que já é bom! Mas se examinarmos o seu ensino e o confrontarmos com a Palavra de Deus, certamente será ainda muito melhor, por duas razões: 1- As Escrituras foram dadas ao homem para que este pudesse conhecer o Plano da Salvação, exactamente como o Senhor deu o exemplo: “E começando por Moisés (os cinco primeiros livros da Bíblia) e seguindo por todos os profetas, explicou-lhes, em todas as Escrituras, tudo o que Lhe dizia respeito” - S. Lucas 24:27; 2- Para que o crente se certifique que o ensino que lhe está a ser ministrado possa ter como base as Escrituras.
A este propósito, assim se expressa o apóstolo S. Paulo, quando escreveu: “Estes tinham sentimentos mais nobres do que os de Tessalónica e acolheram a palavra com maior interesse. Examinavam diariamente as Escrituras para verificarem se tudo era, de facto, assim.” - Actos 17:11.
Portanto, uma primeira conclusão se impõe: a “mestra da verdade” não é, de modo algum, esta confissão religiosa, mas a Igreja como entidade abstracta que se identifica e vive em harmonia com um veemente: “Assim diz o Senhor” e não com um “Assim afirma o Concílio”! Logo, “a consciência dos cristãos”, contrariamente ao que afirma o papa, não está na confissão religiosa que representa, assim como não está no Magistério, mas unicamente na Palavra de Deus!

Palavras humanas
O papa, como vimos atrás, ao falar de religiões alternativas ao cristianismo, falou de uma recente formação espiritual cujo nome é New Age – Nova Era. Ele definiu-a assim: “É apenas um novo modo de praticar a gnose, isto é, aquela disposição de espírito que, em nome de um profundo conhecimento de Deus, acaba por interpretar mal a Sua Palavra, substituindo-Lhe palavras que são apenas humanas”.
Qual, perguntamos nós, foi o critério que este usou para fazer tal afirmação? Convenhamos que, quando adicionamos as nossas palavras à Palavra de Deus, nada sairá certo! Deduzimos, portanto, das suas palavras que o critério da avaliação terá sido, neste caso específico, as Escrituras! E, visto que julga e cataloga os outros, qual é o princípio, pelo qual são regidos os ensinos da confissão religiosa a que preside? É a que resulta dos Concílios ou das Escrituras? Ou o princípio por ele enunciado, só serve para as outras confissões religiosas?
Quanto a nós, não temos qualquer dúvida, como mais abaixo pensamos demonstrar, que o critério sempre foi, por estranho que possa parecer, os ditames dos Concilios! Pois se fossem os Escriturísticos, como tudo teria sido tão diferente! Dizemos tudo isto só por que não concordamos com os métodos desta confissão religiosa? Claro que não! Como homens do documento, preferimos fazer ponto de honra, o documento divino, a Magna Carta de Deus ao homem - as Sagradas Escrituras!
Aplicando-se a muitas problemáticas, abordaremos, a este propósito, as palavras de Jesus, ao citar o que no passado, o profeta Isaías tinha dito ao professo povo de Deus: “É vão o culto que Me prestam, ensinando doutrinas que são preceitos humanos” – S. Mateus 15:9. Será que estas palavras não encontram eco nos nossos dias e, em particular, nesta confissão religiosa? Bem gostaríamos que não encontrasse e quão tudo seria diferente! Se o dito Magistério ensina doutrinas que não estão consignadas no Cânone, então é ou não é o Magistério, contrariamente ao que é afirmado, “superior às Escrituras”? Claro que é, sem qualquer dúvida!
Assim, quer a Tradição, quer o Magistério também não estão, de modo algum, em consonância com as Escrituras. Somente estas são a base do Plano da Salvação e não a Tradição e, muito menos, o Magistério! Visto que este último, em vez de clarificar a Palavra e Deus, torna-a contraditória, no seu todo, inserindo “doutrinas que são preceitos dos homens”! Nem mais nem menos! A mesma coisa que disse o Papa para o sistema espiritual - New Age - também se aplica, integralmente, infelizmente, na confissão religiosa que representa; que, vendo bem, é ele próprio! Perguntamos: Se tem solução para os outros, por que não experimenta esta mesma solução no seu próprio edifício espiritual?

Bibliografia:
Catecismo, p. 36, n.º 86
João Paulo II, O Esplendor da Verdade, p. 110
João Paulo II, Atravessar o Limiar da Esperança, p. 86

domingo, 3 de outubro de 2010

INFALIBILIDADE PAPAL

Como é que a palavra do homem pode suplantar a de Deus? É espantoso que um simples ser humano, pobre criatura mortal ouse dizer que é infalível! Mas, infalível em quê? Saberá dizer-nos, prezado leitor, em quê? Quanto a nós, com toda a humildade, reconhecemos, nesta matéria, a nossa total incapacidade!

1- O Dogma
Vejamos como o Catecismo interpreta a infalibilidade papal: “Para manter a Igreja na pureza da fé transmitida pelos apóstolos, Cristo quis conferir à Sua Igreja uma participação na Sua própria infalibilidade”. (sublinhado nosso). Ou “(…). A infalibilidade prometida à Igreja reside também no Colégio episcopal quando exerce o seu Magistério (…)”. (sublinhado nosso)
Que ainda nos seja permitido abrir um parêntesis, para perguntarmos: 1- Onde é que, nas Escrituras, nos é revelado, tal como o declara o Catecismo, que: “(…) Cristo quis conferir à Sua Igreja uma participação na Sua própria infalibilidade (…)”?; 2- Se, quanto a nós, as Escrituras são omissas na resposta à primeira pergunta, questionamos: quem tem o direito e a autoridade para afirmar o que o mesmo Catecismo refere tão categoricamente, a saber: “(…) A infalibilidade prometida à Igreja reside também no Colégio episcopal (…)” ?
Ora, se não são as Escrituras, então, por exclusão de partes, então são os homens! A ser verdade - visto assim o dizerem - que falam investidos de “autoridade”, a qual vai ao ponto de contradizer o que Deus anteriormente afirmou, por exemplo:1- “(…) para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito” – I Coríntios 4:6; 2- Ou ainda: “De facto, não somos como tantos outros que mercadejam com a palavra de Deus” – II Coríntios 2:17; 3- Ou “(…) não procedemos com astúcia, nem adulteramos a palavra de Deus” – II Coríntios 4:2 – perguntamos: O que terá, prezado amigo, acontecido ao apóstolo S. Paulo? Será que:
1- S. Paulo estava enganado?
2- Será, por isso, um relato não inspirado?
3- Será que Deus se enganou, visto o ter inspirado?
4- Será que Deus está contra Ele mesmo, dando, posteriormente, a esta confissão religiosa, Sua dita continuidade, doutrinas contraditórias?

Só a Escritura Sagrada é a infalível Palavra
de Deus
O prezado leitor saberá responder, biblicamente falando? Uma vez mais, reconhecemos a nossa total incapacidade! De uma coisa temos a firme certeza: é de que Deus não está enganado, mas sim o homem! Pois este último quer anular a Palavra da Verdade, pela palavra dos Concílios e afins, apesar de dizer, para justificar tais actos, que tudo é feito sob a assistência do Espírito! Pergunta o leitor se temos provas de que Deus não se engana, mas sim o homem? Como simples humanos, não teríamos qualquer problema em o afirmar peremptoriamente! Mas que não sejamos nós a fazê-lo, mas as Escrituras! Vejamo-lo:
1- Quanto a Deus - Como a Palavra de Deus se explica a ela mesma, encontramos, noutro livro canónico, um reforço a esta mesma grande verdade, a saber: “na esperança da vida eterna prometida desde os mais antigos tempos pelo Deus que não pode mentir” – Tito1:2.
2- Quanto ao homem - Abramos as Escrituras e leiamos o esclarecimento que aqui se encontra: “Que importa se alguns deles não creram? Acaso a sua incredulidade destruirá a fidelidade de Deus? De modo algum. Deus é verdadeiro e todo o homem é mentiroso (…)” – Romanos 3:3,4.
3- Quanto à Palavra inspirada por Deus - Esta assim se expressa com toda a clareza: “Na verdade não há outro Evangelho (…). Mas ainda que alguém – nós mesmos ou um anjo do céu – vos anuncie outro evangelho, além do que vos tenho anunciado, esse seja anátema (excomungado)” – Gálatas 1:7-9.

Já reparou, prezado leitor, nas palavras veementes do apóstolo quando condena a frouxidão destes crentes? S. Paulo esclarece que, mesmo que fosse alguém de outra dimensão cósmica - um anjo – mesmo este, se tiver um outro evangelho que vá contra aquele que ele prega, então - o tal anjo - que seja excomungado, isto é, que não receba qualquer crédito no seio da Igreja! Perguntamos: Se no passado as coisas do espírito eram aferidas desta maneira, será que as normas, de lá para cá, já baixaram? E quanto à vontade de Deus? Será que esta está mais frouxa ou até, contraditória? Continuamos firmemente a pensar e a afirmar que não!
O Magistério da Igreja não se engana, claro que não, mas só quando explica e explicita a Palavra de Deus pela própria Palavra, porque se for através da palavra de homens falhos e “(…) pervertidos na sua fé” – II Timóteo 3:8, então nada condirá com nada e, infelizmente, é o que podemos constatar nas diferentes confissões religiosas quando comparamos os seus ensinos com o das Escrituras!
Perante tudo isto, cremos ser legítimo perguntar: Em matéria de fé, com quem ficar? Com a Tradição, com o Magistério, com a Infalibilidade papal ou com as Escrituras? Quanto a nós, tal como o temos afirmado, desde sempre, sem qualquer dúvida, permaneceremos ao lado da imutável Palavra de Deus, essa sim, infalível!
Vejamos, ainda dentro deste dito “poder” da infalibilidade papal, mais um dogma desta confissão religiosa! Desta vez, sobre a pessoa de Maria, que muito respeitamos – a mãe do nosso Salvador Jesus.

2- Maria e os Decretos Papais
Na Igreja de Roma, a figura de Maria ocupa um lugar de destaque, dando lugar ao culto mariano. Este culto irá passar por várias etapas, até ser alvo da ratificação papal.
Para que não houvesse qualquer dúvida, não só inerentemente à autoridade papal, como também à legitimidade do culto mariano, o Papa Pio IX (1846-1878), através da bula dogmática - Ineffabilis Deus - proclamou, em 1854, o dogma da Imaculada Conceição, do qual se transcreve um excerto: “A bem-aventurada Virgem Maria foi, no primeiro instante da sua conceição, por uma graça e favor singular de Deus omnipotente, em previsão dos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, preservada intacta de toda a mancha do pecado original”.
Este Papa não fez mais do que continuar a política seguida até ali. Para que o leitor possa ter uma ideia da forte personalidade e consequente autoridade pessoal deste pontífice, em 1866, assim se expressou: “só eu sou o sucessor dos apóstolos, o Vicário de Jesus Cristo; só eu tenho a missão de conduzir e de dirigir a barca de S. Pedro; eu sou o caminho, a verdade e a vida. Aqueles que estão comigo, estão com a Igreja, aqueles que não estão comigo estão fora da Igreja, estão fora do caminho, da verdade e da vida”. (sublinhado nosso). Tanto quanto saibamos, só Jesus disse estas palavras acerca de si mesmo, nunca inerentes ao próprio homem, como facilmente se compreenderá: “Disse-lhe Jesus: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida»” – S. João 14:6. Que ilações tirar desta pretensão pontifícia, como qualificá-la?
Recorde-se que, no Concílio de Trento (1545-1563) as - sine scripto tradiciones (tradições sem base escriturística) - foram elevadas ao mesmo nível das Escrituras! Este Concílio foi produzido para calar as vozes discordantes da Reforma, visto que os livros Apócrifos faziam com que estas se levantassem contra Roma. Assim e uma vez por todas, ficaria decretado, finalmente, que todos os escritos - Inspirados e Apócrifos - constituiriam uma só Escritura! Pasme-se o céu!
A 20 de Junho de 1868, pela bula Aeterni Patris é convocado um outro Concílio – o Vaticano I – que funcionou de 8 de Dezembro de 1869 a 20 de Outubro de 1870).
Este Concílio, o da supremacia da autoridade papal sobre os bispos, irá culminar na afirmação de que, ao Papa pertence a última interpretação da Tradição e das Escrituras! Este pode, portanto, proclamar com toda a legitimidade um dogma na qualidade de – Vicarius Christi (Vigário de Cristo) – nesta terra! O papa, ciente do seu poder, irá aprovar o polémico decreto que consagra a famosa – Infalibilidade – do Sumo Pontífice Romano, a sua própria!
Finalmente, mas sem unanimidade, este último dogma é aprovado como sendo oriundo de Deus! Eis o seu articulado: “Apresentamos e definimos como dogma divinamente revelado: Que quando o Pontífice Romano falar - ex cathedra - isto é, quando, exercendo o seu cargo de Pastor e de Doutor de todos os cristãos, ele defina, em virtude da sua suprema autoridade apostólica, se uma doutrina sobre a fé ou sobre os costumes deve ser seguida pela Igreja Universal, está dotado, pela assistência divina prometida na pessoa do bem-aventurado Pedro, desta infalibilidade de que o divino Redentor quis que a Sua Igreja fosse provida, definindo uma doutrina sobre a fé ou sobre os costumes; e, por consequência, que tais definições do Pontífice Romano são irreformáveis por si próprias e não em virtude do consentimento da Igreja” (sublinhado nosso). Pobre Simão Barjonas se soubesse o que se tem passado e feito em seu nome!
Dentro deste contexto, em relação a Maria, só faltava dar um segundo passo. Agora, faltava a outra fase, isto é, para que as orações feitas à mãe do Salvador pudessem ter sentido e efeito! Pois, como e para quê fazer preces intercessórias a alguém, se ainda não subiu ao céu? Convenhamos que é de elementar raciocínio!
Assim, em 1950, quase um século depois, (mais vale tarde do que nunca), pela bula - Munificentíssimus Deus - o Papa Pio XII (1939-1958) proclama o dogma da Assunção da Bem-aventurada Virgem Maria. A ideia-força da bula está expressa nestas palavras: “Finalmente, (…) terminado o curso da vida terrena, foi elevada ao céu em corpo e alma e exaltada por Deus como rainha (…)”. (sublinhado nosso). Perguntamos: por que é que só um século depois é que esta confissão religiosa soube, pela pessoa do sei líder, que a mãe do Salvador tinha ido para o céu? E quem o revelou?! O leitor não sabe? Nós, desde já, de igual modo, confessamos a nossa total ignorância sobre tal fonte de tão estranha revelação!

Bibliografia:
Catecismo, p. 206, nº 889
Idem, p. 207, nº 891
Jose M. Bover, S.I., Teologia de San Pablo, 4ª ed. Madrid, Ed. Biblioteca de Autores Cristianos, 1967, p. 419
Catecismo, p. 120, nº 491
Alfredo Kuen, Je Bâtirai Mon Eglise, Vevey, Ed. Emmaus, 1967, p. 37, nota 33
Jean Louis Schonberg, op. cit., pp. 243-255
Idem, p. 261, nota 134
Charles Brutsch, La Clarté de l’Apocalypse, 10ª ed., Genève. Ed. Labor et Fides, 1966, p. 202
Catecismo, p. 219, nº 966

segunda-feira, 27 de setembro de 2010

MARIA E AS ESCRITURAS

Iremos, de seguida, examinar as Escrituras para nos apercebermos do ênfase que estas dão à mãe do Senhor Jesus. Vejamos:

a) S. Mateus 1 e 2 - O relato bíblico mostra-nos:

1- O sonho de José, quando este cogitava no seu coração em abandonar Maria, visto que estava grávida, mas não dele! - 1:18-25;
2- O relato da adoração dos Magos e entrega de presentes – 2:1-12;
3- O relato da fuga de José e Maria para o Egipto por causa da matança dos inocentes, por Herodes – 2:13-18;
4- Finalmente, regresso definitivo a Nazaré – 2:19-23.

b) S. Lucas 1:26-38,46-56 - Aqui encontramos:

1- Anúncio do anjo a Maria – 1:26-38;
2- A visita de Maria a Isabel – v. 39-45;
3- O cântico de Maria – v. 46-56.

c) S. Lucas 2:1- 52 - Aqui encontramos:

1- O nascimento de Jesus – v. 1-7;
2- Os pastores de Belém – v. 8-15;
3- A circuncisão de Jesus no 8º dia do Seu nascimento – v. 21
4- Apresentação do bebé no templo – v. 22-24;
5- Jesus no templo com os doutores da lei – v. 39-51.

No relato de S. Lucas existe um grande silêncio sobre a família de Jesus. Agora, com cerca de 12 anos, e segundo o costume, Jesus e os Seus pais adoptivos vem ao Templo. Interessante é o relato bíblico que descreve quando Maria encontra Jesus, no Templo; este, por lapso, ficou “perdido” em Jerusalém!
Maria e José, aflitos, procuram-no e vão encontrá-Lo no seio dos doutores. A reacção de Maria para com Jesus foi a de uma mãe, como outra qualquer, dizendo: “Filho, porque nos fizeste isto? Olha que Teu pai e eu andávamos à Tua procura” – S. Lucas 2:48. Jesus respondeu-lhes: “Porque me procuráveis? Não sabíeis que devia estar na casa de Meu Pai?” – v. 49. Note-se a dinâmica do texto: “Mas eles não compreenderam as palavras que lhes disse” – v. 50. (sublinhado nosso)
Perguntamos: será abusivo da nossa parte pensar que Maria se esquecera de que não fora mais do que um simples vaso escolhido para que a humanidade de Jesus fosse, em tudo, igual ao mais comum dos mortais? Este era, em suma, o único vínculo entre Jesus e Maria! Eis a necessidade, portanto, de Jesus repor a situação e demarcar, com muito amor e ternura, a fronteira que, naturalmente, os separava!

d) S. João 2:1-5,12 - Aqui encontramos:
Convidados para um casamento - Maria, Jesus e discípulos – nas bodas de Caná. Agora, Jesus tem cerca de 30 anos (cf. S. Lucas 3:23). A certa altura o vinho falta! Uma lacuna imperdoável!
Maria vai ter com Jesus e avisa-o da ocorrência. Maria pensava, se é que não estamos a exagerar, ter um certo ascendente sobre o seu filho Jesus. Este, por Sua vez, lhe diz: “Que temos nós com isso, mulher? A Minha hora ainda não chegou” – v.4. De novo, Jesus repõe as distâncias, realçando a condição humana de Maria. Esta , em função das palavras de Jesus, limita-se a dizer aos servos: “Fazei tudo o que Ele vos disser” – v. 5.

e) S. João 19:25-27 - Maria aos pés da cruz.
Lá do alto da cruz, Jesus exclama e ordena: “Mulher, eis aí o teu filho” – v. 26. Jesus não fez mais do que recordar e salvaguardar a precária situação social de uma viúva, entre as demais em Israel; entrega-a aos cuidados de João, visto que o filho, Jesus, já não a poderia ter a seu cargo.
O que encontrámos até aqui, como referências à mãe de Jesus, como pudemos ver, são tremendamente escassas! A partir daqui, o silêncio é total! Será este silêncio revelador de qualquer coisa, isto é, de nos mostrar qual o lugar e papel ocupado por esta piedosa mulher! Portanto, biblicamente falando, nada mais há de interesse a acrescentar acerca dela.
Quanto ao mais que dissermos, seguramente que estaremos a inventar ou a especular! Sem uma base documental sólida, que valor terão tais afirmações, ainda que extremamente piedosas?

Decretos Papais versus Escrituras
Agora, passaremos a tecer breves considerações, como resultantes da comparação entre o que realmente as Escrituras dizem e o que os decretos papais nos querem fazer crer e… aceitar como norma de fé!
Sabe-se, que o último livro da Bíblia – o Apocalipse – foi escrito quase no final do século I. Cremos, se é que não estamos a especular, que Maria já teria morrido e, por isso, caso fosse importante, se a sua Assunção tivesse ocorrido, certamente que a cristandade deveria ter sido contemplada com, pelo menos, um verso bíblico, a contar o facto, ainda que ao de leve se tratasse! Mas, não! O silêncio é total!
Dizemos isto porque, nas Escrituras, encontramos o relato de várias ressurreições e, se estas mereceram ser relatadas, será que a Assunção da mãe do Salvador deveria ser passada em silêncio? Esta terá menos mérito? Nunca!
Há, no entanto, alguns pormenores que gostaríamos de realçar quando comparamos as duas bulas papais, nas quais se estabeleceram os dois dogmas já referidos: 1- O da Imaculada Conceição de Maria, proclamado em 1854; 2- O da Assunção de Maria, em 1950. Perante tal, perguntamos:

1- Se não sabiam que Maria, a mãe do Salvador, era Imaculada; então os fiéis, até 1854, oraram a que santa? A Maria? Não certamente! Porque desconhecia-se, por completo, que sempre fora Imaculada!

2- Quase um século depois do 1º dogma, isto é, em 1950, é que esta confissão religiosa foi informada que Maria tinha sido, após “ter terminado o curso de vida terreno” elevada ao céu? Quem é que a elucidou? O Espírito Santo? Se for verdade, porquê só dezanove séculos depois da sua morte? Sem querermos ser do contra, convenhamos que é muito estranha a postura deste Espírito Inspirador!

3- Se só a partir de 1950 é que o 2º dogma foi oficialmente proclamado, então Maria intercedeu por quem, visto que, até então, era desconhecido o seu papel e função de mediadora, intercessora dos fiéis?!
Se os crentes só souberam, em 1950, de uma realidade anterior - a Assunção de Maria - então como conciliar este conhecimento tardio da - sua presença no céu - com o teor, por exemplo, das rezas que lhe foram, anteriormente, dirigidas, como por exemplo: o Terço e a Salvé Rainha? A quem estas foram dirigidas? Quem intercedia a favor de quem?

Graças damos ao Pai das Luzes, o Todo-Poderoso, o Deus Eterno, pela luz que podemos receber, caso aceitemos o quanto se encontra escrito nas Escrituras. Maria, os demais apóstolos e toda uma incontável multidão, repousam no pó da terra até que o Senhor Jesus venha, finalmente, em Honra e Glória, buscar todos os Santos (cf. I Tessalonicenses 4:15,16) e, com estes, Maria. A mãe do Salvador, repetimos, é digna de todo o nosso carinho e respeito; mas não podemos dizer ou ensinar, sobre o que, por muito piedoso que possa ser, as Escrituras fazem o maior silêncio! Por que se o fizermos, no mínimo estaremos a MENTIR – “ (…) para que em nós (Paulo e Apolo) aprendais a não ir além do que está escrito (…)” – I Coríntios 4:6.
Como se tudo isto não bastasse, veja-se o que diz o Catecismo acerca de Maria:

1- “Pela graça de Deus, Maria manteve-se pura de todo o pecado pessoal ao longo de toda a sua vida”;

2- “(…) Levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria, mesmo no parto do Filho de Deus feito homem”. (sublinhado nosso).

Que dizer destas declarações, de pobres seres humanos, quando as comparamos com a infalível Palavra de Deus? Vejamos como a Bíblia responde a estas afirmações fantasiosas:

* Como acima dissemos, encontrámos Maria e José no Templo para cumprirem uma lei ritual mosaica, para oferecerem “(…) um par de rolas ou duas pombinhas” – S. Lucas 2:22-24. Ora para que servia esta exigência ritual? Vejamos o teor da lei em causa: “Se não tiver meios para oferecer um cordeiro, tomará duas rolas ou duas pombas ainda novas; uma para o holocausto; outra para o sacrifício expiatório (…)” – Levítico 12:6-8.
Sendo assim perguntamos: O sacrifício expiatório era para ficar limpa do seu fluxo de sangue (pós parto). E o holocausto, para que servia? Um ser imaculado, será que não estaria isento destes dois sacrifícios. Se Maria assim procede é porque desconhecia a sua condição de IMACULADA!
Cremos ser muito triste, como no caso de Maria, a ser verdade, que, sejamos uma coisa e que, ao longo de toda a nossa existência, nunca o tenhamos sabido! E quanto à postura de divina? Repetimos, a ser verdade tais postulados, que Deus, afinal é este?

* A Igreja declara que Maria se manteve pura! Leiamos o testemunho da própria quando declarou: “A minha alma glorifica ao Senhor e o meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador” – S. Lucas 1:47. (sublinhado nosso). Se reconhece a necessidade de um – Salvador – é porque é pecadora! (Ao fazermos esta afirmação, queremos dizer aquilo que Maria, ela mesma reconhece – isto é, que não é pura).
E ao reconhecê-lo, assim está em harmonia com a Palavra de Deus! Nesta encontramos a seguinte informação: “Todos pecaram e estão privados da glória de Deus” – Romanos 3:23 (sublinhado nosso); I Reis 8.46; Prov. 20.9; Ecl. 7.20; I João 1.8-10.

* A Igreja diz que a sua virgindade é “real e perpétua”! No entanto a Bíblia declara exactamente o contrário! Vejamos o texto bíblico que refere: “Mas não a conheceu (até) ao dia em que ela deu à luz (…)” – S. Mateus 1:25. (sublinhado nosso)

Que dizer deste último texto? Como é que se entenderá o que está escrito nas Sagradas Escrituras? Com todo o respeito que nos merece o texto, este refere que José, até ao dia do parto, respeitou-a. Mas, depois do parto, segundo o texto, manteve uma relação matrimonial como qualquer casal normal!
Como conciliar a norma divina com as declarações e doutrinas de homens? Quem terá razão? Uma vez mais, quanto a nós, reafirmamos, preferimos manter-nos ao lado das Escrituras – a Palavra de Deus.

Bibliografia:
É, pensamos, de toda a conveniência definir e precisar os termos. Assim, Ascensão – acto de subir pelos seus próprios meios; Assunção – elevação ao céu , mas não pelos seus próprios meios. Portanto, transportada pelos anjos.
Catecismo, p. 120, nº 493
Idem, p. 122, nº 499
Aqui o verbo conhecer é usado no sentido sexual. Cf. Fritz Rieneker e Cleon Rogers, Chave Linguística do Novo Testamento Grego, S. Paulo, Ed. Vida Nova, 1985, p. 2
Aqui a tradução dos Capuchinhos, por nós seguida, afasta-se, do original, ao traduzir: “E, sem que a tivesse conhecido, […] ela deu à luz um filho, ao qual pôs o nome de Jesus”. Portanto, foi omitida da tradução a partícula – eôs (até). Compreendemos a intenção: não contrariar o ensino oficial desta confissão religiosa! Teremos o direito de alterar o texto só porque este não diz o que gostaríamos que dissesse?

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A ACTUALIDADE: FÁTIMA

A lei ritual mosaica preconizava vários tipos de oferta, após a maternidade, segundo a bolsa do ofertante: “Se não tiver meios para oferecer um cordeiro, tomará duas rolas ou duas pombas ainda novas; uma para o holocausto; outra para o sacrifício expiatório; e o sacerdote fará a expiação por ela e será purificada” - Levítico 12:8 tendo em conta a sua humilde oferta – “um par de rolas ou duas pombinhas” - S. Lucas 2:23,24. Pela oferta dada ficamos a conhecer que Maria e José eram um casal de muito baixos rendimentos. Portanto, significa que tiveram uma existência muito difícil! Se tivermos em conta as imagens de escultura existentes e a maneira como esta é retratada, perguntamos: que tem a ver a figura apresentada, nos nossos dias, com a realidade física da personagem?
Se é verdade o que alguns autores nos divulgam acerca da idade de Maria, esta “quando deu à luz, devia ser uma jovem de quatorze anos”; então convidaríamos o leitor a ter a amabilidade de fazer uma simples conta de somar; junte a estes anos, os de Jesus quando morreu (33 anos). Portanto, Maria, à morte de Jesus teria cerca de 47 a 50 anos, o que para a época, e para uma simples e pobre cidadã, deveria ser uma idade muito razoável!
Maria, uma mulher popular, extremamente pobre, que aspecto poderia ter? Certamente que nunca teria o aspecto igual ou parecido àquele que é apresentado através da estatuária! Como seres humanos e sociáveis, facilmente compreendemos que não seriam traços a representar uma mulher de grande simplicidade! Assim, o que os olhos do fiel contemplam, não só nada tem a ver com a realidade projectada, no que respeita a – juventude e beleza – como também em nada corresponde ao original, pela simples razão de não existir qualquer testemunha ocular!
Depois, como é que esta imagem aparece aos devotos? É interessante ler o que a este propósito nos é dado a conhecer! Comecemos pela descrição da imagem: “esta mede 1,10 metros e é feita de madeira de cedro do Brasil. As mulheres portuguesas agradecendo à Virgem de Fátima o não envolvimento directo de Portugal na II guerra. Em campanha nacional para a recolha de ofertas para a confecção de uma coroa, angariaram-se 8 kg de ouro e inúmeras pedras preciosas. A virgem de Fátima tem incrustada no seu interior, uma das balas do atentado ao Papa João Paulo II, no Vaticano, em 13 de Maio de 1981. De um valor incalculável, nesta coroa trabalharam, gratuitamente, doze especialistas durante três meses. Exemplar único, pesa 1200 gramas e tem 313 pérolas e 2679 pedras preciosas (…)”.
Recordaremos aqui uma pequena frase integrada no dogma da Assunção de Maria; esta é “A Virgem Imaculada (…) exaltada por Deus como rainha”; ou ainda o que disse o autor que nos ocupa, quando falava acerca de Maria, acrescentando: “se eu olho para uma pintura da Mãe do Senhor Jesus, lhe ofereço flores, incenso, cânticos, procissões (…). Lembramo-nos de um paralelo bíblico, quando o povo se desviou do culto a Deus e se voltou para os ídolos – imagens de escultura (quer humanas ou de animais). O texto bíblico diz: “Não aceitaremos o que nos dizes em nome do Senhor. Antes, cumpriremos todas as promessas que fizemos de queimar incenso à rainha do céu e de lhe oferecer libações (…)” – Jeremias 44:16-19.
Qual é a posição do profeta em função da idolatria, pela parte do povo? A este efeito lê-se: “ A apostasia, o cinismo e a idolatria do povo provocaram uma violenta reprovação do profeta”. E quem era esta rainha dos céus? Ela era a deusa Astarote – Istar.
Não conseguimos compreender por que razão a estátua, imagem de Maria, não é um ídolo!? Qual a diferença entre esta e as imagens de escultura denunciadas quer no Antigo quer no Novo Testamento? O texto dos 10 mandamentos é bastante claro a este respeito: “Não farás para ti imagens esculpidas, nem qualquer imagem do que existe no alto dos céus (…); não te prostrarás diante delas e não lhes prestarás culto (…)” – Êxodo 20:4-6. Em quê esta imagem de escultura está isenta desta proibição? Quanto a nós? Em nada!
A Virgem é, como sabemos, “invocada na Igreja com os títulos de advogada, auxiliadora, socorro e medianeira”. Mas, como poderia ser “mediadora” se, como já vimos - nem sempre se teve conhecimento que o era!? E como conciliar esta afirmação, doutrina e crença com o texto bíblico que ensina que: “há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Jesus Cristo Homem” – I Timóteo 2:5 (sublinhado nosso). Perguntamos: então, quantos mediadores existem? Em quem confiar? Na palavra humana ou na divina? Uma vez mais, preferimos ficar ao lado da imutável Palavra de Deus.
Pelo menos seguimos, quanto a nós, o magno conselho daquele que esta confissão religiosa diz ter sido o primeiro Papa – Simão Barjonas. Após ter sido ameaçado pelos altos dignitários eclesiásticos da época, para que não falassem mais do nome incómodo de Jesus, ele mesmo disse: “(…) importa mais obedecer a Deus do que aos homens” – Actos 5:29.
Portanto, para que não haja quaisquer equívocos, reiteramos o nosso mais profundo respeito pela pessoa de Maria – a mãe do nosso Salvador. Vamos ilustrar de uma forma ainda mais simples e compreensível, o que Maria representa para nós: Deus quis mandar-nos a Salvação. Fê-lo através de uma carta e de um envelope; exactamente, como qualquer um de nós faz ao escrever a alguém, não é verdade? Assim, ao recebermos esta “carta” de grande valor enviada por Deus, abrimos o “envelope” e cuidadosamente lemos e nos apropriamos do seu conteúdo, não é verdade? Até aqui tudo bem, dirá o prezado leitor! E depois?
Depois? Pois bem: Quanto ao conteúdo – o Escrito, a Salvação – Cristo ( cf. S. Lucas 19:9) – nós guardamo-Lo; mas, o que é que fazemos com o envelope - Maria? 1- Uns, amarrotam-no e o lançam fora! 2- Outros, por ter contido uma grande notícia, ainda o guardarão religiosamente! 3- Outros ainda, farão o mesmo até que, ao serem devidamente informados, esclarecidos, apesar deste ter tido um grande valor representativo, para nada serve e não o guardarão mais! É esta, prezado leitor a posição:

1- Do incrédulo – (Aquele que o amarrota e, descuidadamente o lança fora).

2- Do religioso - mas que não consulta as Escrituras; (Aquele que o mantém, pelo seu valor simbólico).

3- Do religioso - que se vai iluminando devido à consulta da Palavra de Deus e que agem em conformidade com os ensinos ali ministrados. (Não o guardarão, apesar do respeito e carinho que nos merece, pois preferimos o conteúdo – o Salvador. Pensamos ser o caso de todo o verdadeiro cristão).

Estamos a ser desrespeitosos ao ilustrarmos assim a posição dos diversos tipos de pessoas às quais o Evangelho é dirigido? Não é esse o nosso propósito. Todos estes grupos merecem todo o nosso respeito, apreço e carinho. Mas outra coisa é concordarmos com os seus métodos de actuação. O erro poderá ser muito aliciante, mas em plena consciência, quem poderá resistir à Verdade?
A este propósito, eis o que diz S. Paulo: “Nada podemos contra a verdade, mas só a favor da verdade” – II Coríntios 13:8. Ainda recentemente saiu um livro adverso ao culto Mariano, escrito por Mário de Oliveira que está suspenso das suas funções. O título da obra é – Fátima, nunca mais (CLICAR). Quanto a nós não passa de uma tentativa para repor a Verdade… tão maltratada por este sistema religioso.

Bibliografia:
Daniel-Rops, op. cit., p. 133
Manuel Vilas-Boas et all, Fátima, os Lugares da Profecia, Lisboa, Ed. Círculo de Leitores, 1993, pp. 118,119
Catecismo, p. 219, nº 966
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 127
Jean Steinmann, Le Prophète Jéremie, Paris, Ed. Du Cerf, 1952, p. 269
Idem, p. 268
Catecismo, p. 220, nº 969

sexta-feira, 17 de setembro de 2010

A IGREJA DE ROMA E O SEGUNDO MANDAMENTO DA LEI DE DEUS

Já aflorámos, ao de leve, este 2º mandamento da Lei de Deus. Os 10 mandamentos foram dados ao homem para que este soubesse como proceder numa dupla relação: 1- Com Deus; 2- Com o próximo.
É interessante que no Catecismo, na transcrição dos 10 Mandamentos de Deus,

omite o 2º, incluindo-o no 1º! Depois, um pouco mais adiante, justiça seja feita, aborda uma única frase deste 2º mandamento, a saber: “Não farás para ti qualquer imagem de escultura”. De seguida, refere que “no sétimo Concílio Ecuménico de Niceia, em 787, justificou o culto dos ícones: de Cristo e também de Maria mãe de Deus, dos anjos, e de todos os santos. Encarnando o Filho de Deus inaugurou uma nova economia das imagens”.
Sem entrarmos nos pormenores que intervieram para que tal pudesse ser aprovado, este nos informa que: “(…) O Concílio Ecuménico de Niceia, em 787, justificou (…)”. Perguntamos: E quanto a Deus? Será que a Sua Palavra o autoriza ou passou a justificar? Uma vez mais, os preceitos e vontades dos humanos prevalecem sobre as Escrituras! Será mesmo teimosia ou falta de conhecimento? Qual será a verdadeira razão?
Numa tentativa para demonstrar que Deus - ordenou e permitiu - a instituição de imagens, o Catecismo cita dois exemplos bíblicos: 1- A serpente de bronze; 2- A Arca da Aliança com os querubins. Gostaríamos de tecer um breve comentário acerca destas hipotéticas razões para apoiar a adoração e culto prestado às imagens de escultura.

a) Arca da Aliança
O texto bíblico, acerca do assunto diz: “Ali Me encontrarei contigo; é do alto do propiciatório (tampa da arca), entre os dois querubins dispostos sobre a arca do testemunho que te comunicarei todas as Minhas ordens para os filhos de Israel” – Êxodo 25:22. Eis o texto tal qual é! Onde, perguntamos nós, é que no texto se vê o israelita adorar ou prestar culto, venerar os querubins ali existentes? Em lado nenhum… pelo menos que nós o saibamos!

b) A serpente de bronze
Vejamos, para o efeito, o texto bíblico que a ela se refere: “ O Senhor disse a Moisés: faz uma serpente ardente e coloca-a sobre um poste. Todo aquele que for mordido, olhando para ela, viverá” – Números 21:8. Qual o contexto? Bastará lê-lo para verificar que, devido à transgressão e constante rebeldia do povo, Deus castiga-o enviando serpentes ardentes ao seu encontro! Assim, ao serem mordidos, eram convidados a exercer fé, isto é - olhar- não para a imagem do mal – serpente – pois ela não tinha qualquer virtude curativa, mas, repetimos, deveriam ter fé e olhar para que - olhando - se curassem! Quem se demorasse em tentar compreender o como e o porquê, morreria! Aqui, uma vez mais, onde existe o acto de adoração? Continuamos a afirmar: em lado NENHUM!
Mais tarde, nas Escrituras, voltamos a encontrar uma referência a esta serpente de metal, assim como da sua respectiva destruição! Leiamos o que as Escrituras nos dão a conhecer a propósito: “O rei Ezequias destruiu os lugares altos, quebrou as estrelas e cortou os bosques sagrados. Despedaçou a serpente de bronze que Moisés tinha feito, porque, até então, os israelitas queimavam incenso diante dela” – II Reis 18:4.
Ora, o que é que o texto revela? Unicamente que houve uma reforma religiosa levada a efeito pelo rei Ezequias! E qual foi o resultado? Não é preciso adivinhar, pois o texto apresentado é claríssimo acerca do assunto! E porquê? Porque a adoravam, lhe prestavam culto e lhe queimavam incenso devido às “suas mentes obscurecidas pela apostasia”.
Portanto, prezado leitor, contrariamente ao que o Catecismo refere Deus nunca “ordenou ou permitiu a instituição de imagens (…)”! , Poderia Deus instituir o que sempre proibiu? Como compreender tal paradoxo? Se tal adoração ou veneração ainda subsiste em certas confissões religiosas é porque o ser humano quer, obstinadamente, continuar a contornar a vontade expressa de Deus! E quando assim acontece, inevitavelmente, as contradições são visíveis, como facilmente se entenderá!
Prezado leitor, a escolha está perante cada um de nós. Quanto aos mentores do Catecismo dizem: “o culto cristão das imagens não é contrário ao mandamento que proíbe os ídolos”! Que poderemos fazer se persistem teimosamente a querer tapar o sol com uma peneira com malhas muito largas?
Gostaríamos aqui de reiterar que, tudo quanto dissemos acerca deste assunto, nada, mas mesmo nada, tem que ver com qualquer falta de respeito ou consideração pela mãe do Salvador! O que dissemos até aqui só tem um único propósito: repor a verdade bíblica e corrigir algo que nunca passou pela cabeça de Maria – ser adorada como se de uma deusa se tratasse! Certamente que, caso acontecesse nos nossos dias a sua ressurreição, a exemplo de Simão Barjonas, esta ficaria muito triste com o que têm feito e fazem em seu nome!

Bibliografia:
Êxodo 20:1-17
Catecismo, pp. 441,442
Idem, p. 441
Idem, p. 460, cap. IV
Ibidem, nº 2131
Ibidem
John H. Taylor, Jr., O Comentário Bíblico, I e II Reis e II Crónicas, Lisboa, Ed. Jupec, 1984, p. 107
Catecismo, p. 460, nº 2130
Ibidem, nº 2132

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

A VOZ DE ROMA

Vejamos, para nos apercebermos da força e arrogância desta confissão religiosa que, a todo o custo, sem que compreendamos, em nome de quem o faz, chama a si toda a autoridade que só reside, integralmente, em Deus ou na Sua Palavra!
Recentemente, o Papa João Paulo II publicou a Carta Apostólica Ad Tuendam Fidem, com o objectivo de acrescentar algumas normas no Código de Direito Canónico e no Código dos Cânones das Igrejas Orientais.
Citaremos, para não sermos longos, um ou outro dos acrescentos apontados pela Carta Apostólica referida: “No Cânone 1436 do Código dos Cânones das Igrejas Orientais acrescente-se o parágrafo 2 do Cânone 594, de tal forma que fique com a seguinte formulação:

Cânone 1436
a) Parágrafo 1:
Contém o seguinte articulado: “Aquele que nega uma verdade que por fé divina ou católica deve acreditar ou põe em dúvida, ou então repudia totalmente a fé cristã e, legitimamente avisado, não se retractar, seja punido como herege ou como apóstata com excomunhão maior (…)”. (sublinhado nosso).
No limiar do século XXI, o que será que esta ameaça quererá significar?

b) Parágrafo 2
“Fora estes casos, quem advogar uma doutrina definitivamente proposta ou condenada por errónea pelo Romano Pontífice ou pelo Colégio dos Bispos no exercício do magistério autêntico e, legitimamente admoestado, não se retractar seja punido com uma pena adequada”. (sublinhado nosso).
(No limiar do século XXI, o que será que esta ameaça quererá significar? Que o céu se pasme? Como se poderá ousar punir alguém que tenha um pendor espiritual qualquer? Será, perguntamos, lícito, punir o simples acto de respirar? Não estarão ao mesmo nível? Que incomoda se A ou B segue este ou aquele credo, desde que se comporte nos parâmetros da cidadania? O que dirá a área do Direito a este respeito? Seria interessante saber)!
“Estabelecemos que seja válido e ratificado tudo quanto Nós, com a presente carta apostólica escrita de moto próprio, decretámos e prescrevemos que seja inserido na legislação universal da Igreja Católica (…) não obstante tudo quanto haja em contrário”.
Perante o que acabamos de transcrever, isto é: “se não se retractar seja punido com uma pena adequada”? Perguntamos: o que será esta pena adequada? Quanto a nós, será um grande poço sem fundo, de grande abrangência, no campo das mentalidades! O mesmo será dizer, que se aplicará a qualquer circunstância, de não importa sob que clima mental! Nem mais nem menos, esta confissão religiosa continua igual ao que sempre foi, sempre acima de tudo e de todos, tal como no triste passado que a sua história, igualmente triste, não se cansa de proclamar!
O cristianismo oprimido da Igreja primitiva tornou-se numa força opressora e tudo em nome de Deus - quem diria? Para terminarmos, eis como se poderia definir o poder papal: “É só o Papa que recebe o Espírito santo, a inspiração normativa: da sua inspiração, da sua verbalização que ex cathedra proclama infalível, dependem todas as coisas deste soberbo edifício da instituição do sagrado direito canónico”.
Que terá em comum esta confissão religiosa com o cristianismo ou com o seu mentor - Jesus Cristo? São, efectivamente, duas faces da mesma moeda! Só que… feitas de metais diferentes!
Enfim, numa palavra de síntese: se fizéssemos tábua-rasa da data das afirmações acima transcritas, diríamos que recuámos no tempo, que entrámos na máquina do tempo e caímos numa época de trevas e de obscurantismo espiritual, ou seja, para melhor nos situarmos - em plena Idade Média – onde esta confissão religiosa comandou tudo e todos! Só porque ela era a única detentora do saber. A única que tinha acesso às escrituras! A única que ameaçava com o Inferno quem não obedecesse! E que faria aquele, mesmo o poderoso, nesta terra, contra tal ameaça – porque a tinha como verdadeira?
E tanto é assim, como já vimos, com o exemplo de Canossa, com o imperador Henrique IV da Alemanha (1056-1106)! Onde se veria hoje, devido ao conhecimento das Escrituras – graças a Deus por isso – um rei deslocar-se ao encontro do Papa. Este, no seu castelo, no bem-estar da lareira, e o monarca, cá fora, descalço na neve, a implorar, durante três dias, com vestes de penitente, o perdão papal! Se não fosse um facto histórico diríamos que tal ocorrência nunca teve lugar na história dos homens!
Dr. Ilídio Carvalho

Bibliografia:
Neste momento é a fonte que: “Vaticano saiu em defesa da fé Católica” in Jornal de Notícias, Lisboa, 08 de Julho de 1998, p. 22
Emil Brunner, La Doctrine Chrétienne de l’Église de la Foi et de l’Achèvement, Genève, Ed. Labor & Fides, 1967, Dogmática Vol. III, p. 96
John H. Taylor, Jr., O Comentário Bíblico, I e II Reis e II Crónicas, Lisboa, Ed. Jupec, 1984, p. 107
Catecismo, p. 460, nº 2130
Ibidem, nº 2132

domingo, 5 de setembro de 2010

O BAPTISMO INFANTIL

Abramos este interessante tema para que possamos reflectir um pouco sobre este assunto. A exemplo do quanto temos vindo a analisar, iremos ver se esta doutrina e prática tem fundamento nas Escrituras.

1- A Palavra e o gesto
O Catecismo define a palavra baptismo da seguinte forma: “baptizar significa, em grego: mergulhar, imergir. O mergulho simboliza a sepultura do catecúmeno na morte de Cristo, de onde sai ressuscitado com Ele como nova criatura”. (sublinhado nosso). Ainda sobre o mesmo tema, acrescenta: “o baptismo aparece sempre ligado à fé”. E mais adiante, refere que: “(…) as crianças também têm necessidade do novo nascimento pelo Baptismo (…)”.
Apreciemos mais de perto esta exposição doutrinária, para que, uma vez mais, possamos ver, não somente se ela é coerente, como também se está, obviamente, de acordo com as Escrituras. Vejamos o que esta já nos mostrou, quando diz:

a) Baptizar, significa mergulhar
b) Baptismo ligado à fé
c) Crianças com necessidade de um novo nascimento

Analisemos cada situação para que possamos sentir a que ponto estas afirmações não passam de postulados meramente humanos, sem qualquer sentido!

a) Baptizar, significa mergulhar
Tanto quanto saibamos, existem duas formas de proceder, quanto a nós, antagónicas, para com o ritual do baptismo, a saber: Imersão e Aspersão! A primeira, como claramente diz o Catecismo, significa: mergulho, isto é, quando a água cobre totalmente o crente. A segunda significa, tal como o nome o indica: aspergir, borrifar água sobre a cabeça do catecúmeno, tenha ele a idade que tiver!
Para já, ao nível da significação das palavras, encontramo-nos perante uma contradição! Como poderá alguém ser baptizado por – Aspersão – se este modo de proceder é, simplesmente, borrifar com água?! Tal como esta confissão religiosa muito bem o define, a palavra - baptizar - implica mergulho, ficar submerso pelas águas. Só assim a acção simboliza a “sepultura do catecúmeno na morte de Cristo”?!
Como conciliar estas duas expressões? Temos que escolher - ou uma ou outra! Só o termo - Imersão - é que está de acordo com as Escrituras! Portanto, para a restante, esta não indica qualquer baptismo mas, unicamente, a acção de aspergir! Ou se é baptizado, ou se é aspergido, não temos outra escolha, porque estas duas palavras, repetimos, correspondem a acções diferentes!
Para melhor mostrarmos o quanto queremos dizer, apresentamos uma simples ilustração que reflecte, perfeitamente bem, o quanto queremos transmitir:

Certa vez, um jovem perguntou ao pai:
- Por que é que a Bíblia diz que somos sepultados no baptismo? Tenho visto bebés a serem baptizados e eles não são sepultados.
O pai respondeu-lhe:
- Meu filho, é tudo a mesma coisa! Não faz diferença se a pessoa é imersa ou aspergida.
O tempo passou. Certo dia morreu um bezerro na sua quinta.
O pai, como tinha muito que fazer naquela altura disse ao filho:
- Filho, agora estou muito ocupado. O bezerro precisa de ser sepultado. Não te importas de fazer o trabalho por mim?
O jovem prontamente respondeu:
- Fique descansado, que eu vou fazer o serviço.
O rapaz saiu e, passados 10 minutos estava de volta! Assim que o pai o viu, admirado, perguntou:
- Meu filho, já sepultaste o animal?
A resposta não se fez esperar:
- Sim pai, já o fiz!
O pai retorquiu:
- Mas, como conseguiste fazê-lo tão depressa?
O pai, sem se deixar convencer pelas explicações do filho, disse:
- Deixa-me ver. Leva-me até ao local onde o fizeste.
O pai seguiu o rapaz até à sepultura do animal. Ali estava o bezerro esticado no chão unicamente com um bocado de terra na cabeça!
O pai disse:
- Meu filho, tu não enterraste o animal! Ele não foi sepultado!
Disse o filho:
- Mas o pai disse que era a mesma coisa!

Pensamos, prezado leitor, que esta simples ilustração nos mostra claramente a incoerência do processo que, repetimos, não tem qualquer apoio nas Escrituras! Porque são duas acções diferentes, tal como as palavras que as definem!

b) Baptismo ligado à fé
Eis uma afirmação verdadeira, finalmente! Jesus assim o disse: “Quem acreditar e for baptizado será salvo, mas quem não acreditar será condenado” – S. Marcos 16:16. Segundo Jesus, a Salvação repousa, curiosamente, não no baptismo, mas na crença, fé! Jesus não o poderia ter dito de outra forma! A razão, prezado leitor é muito simples! Sabe porquê? Porque o baptismo é o resultado de uma crença. Primeiro cremos na doutrina e, só depois, publicamente, a manifestamos através do acto do baptismo, não ao contrário!
Para que haja uma cerimónia baptismal terá que previamente existir no catecúmeno, naquele que deseja aderir a qualquer confissão religiosa, um reconhecimento e noção do seu estado de pecador. Será válido um baptismo se não for precedido por um “acreditar”? Vemo-lo só nos registos internos da dita confissão religiosa! Para Deus esta acção de – aspergir - não tem qualquer validade à luz do que nos foi deixado escrito, como vimos.
Vejamos um exemplo relatado nas Escrituras, passado, segundo dizem, com o primeiro Papa - Simão Barajonas. Sob o efeito do Pentecostes, isto é, da descida do Espírito Santo, este dirigiu-se à multidão e falou-lhes acerca de Jesus, por eles crucificado. O discurso foi tão grandioso nos seus efeitos que os seus ouvintes lhe perguntaram: “(…) Que havemos de fazer, irmãos? Pedro respondeu-lhes: Convertei-vos e peça cada um o Baptismo em nome de Jesus Cristo, para a remissão dos seus pecados (…).” – Actos 2:37,38; 3:19.
O apóstolo não fez mais do que repetir, fielmente, o preconizado pelo Mestre, ou seja: 1- Conversão, Arrependimento pelo que se fez no passado recente; 2- Baptismo em nome de Jesus, para limpeza do estado espiritual anterior e reconhecimento público da sua fé. Se, biblicamente falando, estes são os passos a seguir até chegar ao baptismo, como é que o enquadraremos nas crianças de um, dois, três ou mais meses? Terão estas qualquer consciência dos seus actos para tomarem alguma decisão? Se sim! Quais?
Desde logo, quer devido à sua tenra idade, quer pela significação da palavra – consciência – o catecúmeno nada tem de que possa e deva ser limpo! Por outro lado, qual será a fé a exercer por este, tendo em conta o seu estado espiritual anterior? Nós respondemos abertamente: Nenhuma!

1- Pecado Original - Já muitas vezes temos ouvido esta expressão! Mas qual será a sua origem e, consequentemente, o seu significado? Uma vez mais, leiamos a explicação que o Manual Oficial desta confissão religiosa dá. Vejamos: “(…) «Pela desobediência de um só homem, muitos (quer dizer, a totalidade dos homens) se tornaram pecadores» - Romanos 5:19. “(…) assim também, pela obra de justiça de um só (de Cristo), virá para todos a justificação que dá a vida” - Romanos 5:18 . “(…) A partir desta certeza de fé, a Igreja confessa o Baptismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal”. “(…) E é por isso que o pecado original se chama «pecado» por analogia: é um pecado «contraído» e não «cometido»; um estado, não um acto”. Passaremos a tecer alguns comentários acerca destes excertos:
a) Através dos méritos de Cristo “virá para todos a justificação que dá a vida”, nem poderia ser de outra maneira! Como corolário deste ensinamento bíblico, o Catecismo conclui que “a partir desta certeza de fé, a Igreja confessa o Baptismo para a remissão dos pecados, mesmo às crianças que não cometeram qualquer pecado pessoal”.
Como é que se poderá entender tal procedimento? Que necessidade de baptismo terá alguém que não cometeu qualquer acto pecaminoso (por pensamentos ou por obras)!? Pensamos que não faz qualquer sentido tal afirmação, ensino e consequente prática!
b) Afirma que, apesar das crianças não terem cometido pecado, este está nelas porque possuem “um pecado «contraído» e não «cometido»; um estado, não um acto”. Assim: “O Baptismo, ao conferir a vida da graça de Cristo, apaga o pecado original e reorienta o homem para Deus, mas as consequências para a natureza, enfraquecida e inclinada para o mal, persistem no homem e convidam-no ao combate espiritual”. (sublinhado nosso)
Ora, “o baptismo apaga o pecado original”! Como pode este apagar o que nenhuma a criança tem! (Visto esta ter, como qualquer ser humano, à nascença, isso sim, tendência, inclinação natural ao pecado), o que é bastante diferente! Se após o baptismo, o ser humano, a criança, continua “inclinada para o mal (…)”, então, para que servirá o tal baptismo? 1- Esta nada tem de que se arrependa! 2- Ela continuará a possuir em si mesma, como os demais seres humanos, a idêntica tendência com que veio ao mundo – inclinação para o mal?
Ora, se após o baptismo continuamos inclinados ao pecado (actos pecaminosos), a permanência neste estado reforça, uma vez mais, a verdade que, apesar de pecadores, agora, pela fé em Cristo Jesus, podemos ser vencedores! N’Ele e por Ele podemos contornar esta mesma inclinação para o mal. Mas, para que tal aconteça, como facilmente se compreenderá, o catecúmeno, deverá em primeiro lugar arrepender-se, exercer fé e então passar à fase seguinte – o baptismo – para que, tal como diz S. Paulo, o catecúmeno “Pelo baptismo sepultámo-nos juntamente com Ele, para que, assim como Cristo ressuscitou dos mortos, mediante a glória do Pai, assim caminhemos nós também numa nova vida” – Romanos 6:4.
Para quê complicar o que só por si é simples? Bastaria somente aceitar e praticar o quanto, a este respeito, diz a Palavra de Deus, e TUDO se simplificaria!

2- Toda esta doutrina e prática, estranha às Escrituras, está apoiada no que esta
confissão religiosa entende do texto bíblico acima citado – Romanos 5:18,19. Mas, finalmente, o que é que S. Paulo ali ensina? Vejamos o seu contexto:
No capítulo 3 da Epístola, S. Paulo coloca uma grande questão: Como é que Deus que é justo poderá permanecer assim e considerar como tais, os pecadores injustos? A resposta, ele mesmo a dá: é graças a Jesus Cristo!
Muito bem! Mas o que é que há em comum entre o Filho de Deus e nós, pecadores? De novo o apóstolo irá dar: esta encontramo-la precisamente nos textos em questão – no capítulo 5! Como vimos, no capítulo 6, S. Paulo explica que se passa , simbolicamente, em Cristo, do estado de injusto ao de justo através do baptismo.
Voltemos ao texto de Romanos 5:19, para que saibamos verdadeiramente do que é que o apóstolo estava a falar, quando escreveu: “Porque pela desobediência de um só, todos foram condenados, assim também, pela obediência, de um só, muitos se tornaram justos.” (sublinhado nosso). S. Paulo fala de alguém que desobedeceu (Adão) e de um outro que obedeceu (Cristo, o 2º Adão – cf. I Coríntios 15:45).
Iremos fazer uma breve análise dos termos empregues pelo apóstolo e da maneira como foram traduzidos, para nos apercebermos que, o que trazemos connosco - desde o nosso nascimento - nada tem que ver com a estranha doutrina do – Pecado Original – em Adão!
No grego, língua em que nos aparece a referida epístola, o verbo – peitharcheô – significa: obedecer, seguir o conselho de. Este verbo encontramo-lo nalguns textos, nomeadamente em: 1- Actos 5:29,31,32 - “Pedro e os demais apóstolos responderam: «Importa mais obedecer a Deus do que aos homens» (…) A fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados (…) que Deus tem concedido àqueles que Lhe obedecem”; 2- Tito 3:1 - “Aconselha-os a que se sujeitem aos magistrados e às autoridades, que lhes obedeçam (…)”.
Acontece que, no texto que nos ocupa – Romanos 5:19 – não encontramos este verbo, por estranho que possa parecer à primeira vista! Neste texto estão as palavras – parakoês e upakoês! A primeira, foi traduzida por (desobediência); a segunda por (obediência)! Aqui encontramos uma curiosidade interessante! Estas palavras têm como raiz um verbo! Só que não aquele que estaríamos à espera, como acima o referimos! Aqui, encontramos, curiosamente, o verbo Akouô (ouvir) - o que, a nosso ver, é bastante significativo para este preciso contexto!
Portanto, a acção – obedecer - assim como o seu contrário, repousa num - ouvir ou fazer orelhas surdas - aos conselhos de Deus! Isto quer dizer:
1- Que o (1º Adão), pela sua conduta e vivência deixou de ouvir o que Deus mandou para que fosse obedecido, por isso, este desobedeceu!
2- Quanto a Cristo (2º Adão), este nunca deixou de ouvir tudo quanto Deus Pai disse e, por isso, sempre obedeceu.

Portanto, prezado leitor, que ilações retirar da simplicidade e intenção do texto? Fica perfeitamente claro, a nosso ver, que a expressão: “Porque pela desobediência de um só, todos foram condenados (…)”, assim como “pela obediência, de um só muitos se tornaram justos” está relacionada unicamente com o saber estar atento à voz de Deus e não com a noção humana de – pecado original – estranha às Escrituras!
Por outras palavras: todo aquele que tem prazer em ouvi-Lo, naturalmente, obedece; caso contrário, desobedece! Isto quer dizer que não somos – obrigados – a permanecer pecadores! Continuamos a ter, é verdade, a tal tendência inata ao pecado, mas em Cristo podemos ser vencedores.
Assim:
1- O tal – estado – no qual nascemos e permanecemos, nada tem que ver com a letra e o espírito do texto em questão! E porquê? Pela simples razão de que, devido à idade do catecúmeno, à tal falta de consciência, este – estado (ou inclinação) – existe, mas é totalmente inoperante! 2- Depois, e só depois de alguns anos, é que este – estado (tendência ou inclinação) – desperta e revela que o baptismo anteriormente ministrado, de nada serviu!
E porquê?
Vejamos: 1- Não só porque esta acção – aspersão – como vimos, não tem qualquer significado ( baptismo é igual a imersão); 2- Porque esta acção foi também, de igual modo, praticada num período de vida isento de qualquer mancha de pecado, isto é, total inconsciência! Assim, poderemos concluir que:

• Não houve purificação, porque o mesmo estado permaneceu (inconsciência);

• b)Não existiu regeneração pela simples razão, de não ter existido pecado, ou noção deste, para limpar!

• A aplicação do baptismo só faz sentido se for para proceder, simbolicamente, à passagem em Cristo Jesus, de pecadores a justificados em Cristo.

• Por palavras ainda mais simples: não deixámos de ter tendência para o mal, ela permanece! Mas Deus olha-nos - não como nós somos - mas nos méritos de Cristo, ou seja, (como justos). É aqui que reside toda a diferença! E esta metamorfose, uma vez mais, não se aplica às crianças: 1- Pela sua inconsciência; 2- Pela sua inocência!
• Perguntamos: Qual é a origem desta prática ritual? A resposta, como não podia deixar de ser, encontra-se no HOMEM! O Catecismo assim o esclarece: “A doutrina da Igreja sobre a transmissão do pecado original foi definida sobretudo no século V sob o impulso da reflexão de S. Agostinho (…) e, no século XVI, por oposição à Reforma protestante. (…). A Igreja pronunciou-se (…) quanto ao pecado original, no 2º Concílio de Orange em 529 e no Concílio de Trento em 1546”, tendo sido instituído, mais precisamente, “o decreto sobre o pecado original a 07 de Janeiro de 1547”.

Portanto, uma vez mais é a Palavra de Deus contra a palavra dos homens proferida e decretada nos diferentes Concílios! Uma vez mais, a última palavra é nossa: aceitar ou rejeitar! Servir a Deus ou aos homens! Quanto a nós, só aceitaremos princípios, ditos religiosos, se estiverem de acordo como espírito e a letra das Escrituras. Assim, preferimos seguir o magno conselho do, segundo dizem, primeiro Papa - Simão Barjonas – quando disse: “mais importa obedecer a Deus do que aos homens” – Actos 5:29. E você, prezado leitor?

c) Crianças com necessidade de um novo nascimento
Pelo que acabámos de examinar, este – novo nascimento – não tem qualquer sentido e razão de ser! Se assim fosse, Jesus contradizer-se-ia nas Suas palavras e actos. Recordemos um episódio bíblico: o de Nicodemos.
Certa noite, um doutor da lei chamado Nicodemos foi ao encontro do Mestre, para saber mais coisas a Seu respeito. A certa altura, Jesus diz-lhe: “ «Em verdade, em verdade te digo: Quem não nascer de novo, não pode ver o Reino de Deus»” – S. João 3:3. Isto dito por outras palavras: o ser humano para poder ser salvo terá que ser objecto de “uma nova criação”. Perguntamos: poderia ser, prezado leitor, o raciocínio de Jesus diferente? Acaso poderiam ter outra coloração as Suas palavras? Claro que não! E porquê? Porque pensamos que, se Jesus fala assim é porque se trata de um adulto, com uma existência de vida acompanhada de muitos actos pecaminosos!
Mas, que dizer das crianças? Precisarão estas, tal como refere o Catecismo, de um “novo nascimento”? Leiamos uma vez mais as palavras de Jesus acerca das crianças: “Vendo isto, Jesus indignou-Se e disse-lhes: «Deixai vir a Mim as criancinhas, não as afasteis, pois a elas pertence o reino de Deus” – S. Marcos 10:14. Que dizer destas palavras? Quanto a nós não podemos fazer mais do que reconhecer que “o acolhimento que Jesus reservou às crianças prova, ao contrário, que elas não têm necessidade de baptismo. O baptismo não é para aqueles que não têm necessidade de arrependimento”.
Como conclusão reiteramos o que acima dissemos: que este ritual que se pratica no seio desta confissão religiosa contraria a ordem dada por Jesus, assim como também o apelo feito por Simão Barjonas, quando apelou ao povo para que: 1- Se convertesse; 2- Se arrependesse; 3- Se baptizasse (Actos 2:38; 3:19)
Qual o detergente branqueador? Ei-lo: o nome, o sangue de Jesus – cf. I S. Pedro 1: 18,19. Tudo isto, prezado leitor, reiteramos: não pode, pelas razões acima analisadas, acontecer a uma criança! Assim, uma vez mais, estamos perante uma doutrina de cariz HUMANO, não divino! Portanto, a evitar!

Bibliografia:
A melhor definição de pecado encontramo-la em I S. João 3:4-6, que diz: “(…) porque o pecado é transgressão da lei. (…)Todo aquele que permanece n’Ele não peca; e todo aquele que peca, não O viu nem O conheceu”. Assim, pecar é, segundo o texto: 1- Não O ter visto; 2- Não O ter conhecido. O que vem depois são as acções resultantes destes dois aspectos, isto é, os actos pecaminosos nas suas mais variadas facetas!
Catecismo, p. 102, nº 406
Jean-Louis Schonberg, op. cit., p. 227
Roberto Badenas, Encontros, Lisboa, Ed. P. A. 1992, p. 35
Franz J. Leenhardt, op. cit., p. 116
Isidro Pereira, S.J., op. cit., p. 443
Fritz Rieneker e Cleon Rogers, op. cit., p. 265
Isidro Pereira, S.J., op. cit., p. 22
Consciência: a função pela qual conhecemos a nossa vida interior, isto é, os fenómenos psíquicos que a todo o momento se passam em nós” – António José Escarameia, Lições de Psicologia, 8ª ed., Porto, Livraria Figueirinhas, 1971, p.19
Catecismo, p. 101, nº 402
Ibidem, nº 403
Ibidem, nº 404
Henry Feyerabend, Tantas Religiões! Porquê?, Lisboa, Ed. P. A., pp. 114,115
Catecismo, p. 279, nº 1214
Idem, p. 282, nº 1226
Idem, p. 286, nº 1250

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

IGREJA OU CRENTES?

Gostaríamos de introduzir este tema através de uma breve ilustração; esta é muito simples e encerra algumas verdades para cada um de nós. Vejamos o seu conteúdo:
Certo dia, alguém perdeu uma moeda; este tem a ideia de que foi ali que a perdeu! Mas, só que não sabe exactamente onde! No entanto, estava a procurá-la sob a luz do candeeiro público, do outro lado da rua.
Entretanto chega um amigo e, ao vê-lo assim, pergunta:
- O que é que perdeste que merece assim tanto cuidado?
O amigo, ao dar-lhe atenção, respondeu:
- Perdi uma moeda rara, de colecção!
O amigo, admirado, voltou a perguntar:
- Mas olha lá, já estás aí há muito tempo e não a encontras! Tens a certeza que foi realmente aqui, junto ao candeeiro, que a perdeste?
A resposta do outro não se fez esperar:
- Não, não foi propriamente aqui… mas ali, apontando para o outro lado da rua!
O outro, bastante admirado, perguntou:
- Então! Se não a perdeste junto ao candeeiro, porque é que a procuras aqui?
A resposta foi pronta e objectiva:
- Sabes porquê? Porque aqui há luz!

Não será exactamente o mesmo que se passará com a cristandade em geral? Todos estamos ansiosos para encontrar uma resposta cabal a todas as nossas ansiedades causadas pela nossa existência. De igual modo, desejamos encontrar a Verdade Bíblica! Tentamos, desesperadamente, achá-la e, nesta incansável procura, pensamos que esta estará, possivelmente, na confissão religiosa maioritária, no nosso País!
Esta confissão religiosa, aparentemente, tudo tem para possuir a Verdade, humanamente falando! Procuramos uma espécie de Verdade! Uma que melhor se adapte aos nossos interesses! A que queremos ouvir, e não a que se encontra, independentemente da nossa vontade e interesses de índole vária, unicamente nas Escrituras!

Contradição ou Aparência?
Ilustraremos tudo isto, por comparação, com certas palavras de Jesus, para que sintamos quanta verdade esta ilustração, acima descrita, encerra. Recordemos as palavras contidas no evangelho de S. Mateus e vejamos se têm qualquer paralelo com o que acabámos de dizer: “Todo aquele que se declarar por Mim diante dos homens, também Me declararei por ele diante do Meu Pai que está nos céus. Não penseis que vim trazer a paz, mas a espada à terra; não vim trazer a paz mas a espada. Porque vim separar o filho do pai, a filha da sua mãe e a nora da sogra; de tal modo que os inimigos do homem serão os seus familiares. Quem amar o pai ou mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem amar o filho ou filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não tomar a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim.” – S. Mateus 10:32-38; cf. S. Lucas 12:51-53
Agora, um outro texto: “(…). Então avançaram, deitaram as mãos a Jesus e prenderam-no. Um dos doze que estavam com Jesus levou a mão à espada, desembainhou-a, feriu um servo do sumo sacerdote, cortando-lhe uma orelha. Jesus disse-lhe: «Mete a tua espada na bainha, pois todos quantos se servirem da espada, à espada morrerão (…)»” – S. Mateus 26:50-52. (sublinhado nosso)
Esperamos não ser igualmente acusados de “literalistas psicologizantes fundamentalistas” por assim procedermos! Que quererão os textos significar? Será que Cristo apela à violência? Será esta a lição? Vejamos: “(…) não procuremos nele um teórico da não violência. Foi dia após dia, numa sucessão de decisões e por uma série de actos redentores, que Jesus triunfou da violência”; ou ainda “Não é que negue a defesa armada justa, mas porque ali, naquele preciso contexto, era imprudente ante a desproporção de forças e, principalmente, perante a inutilidade, pois tinha chegado «a sua hora»”.
Se olharmos os textos sob este ponto de vista, com uma ligeira conotação de violência, não será que estamos, francamente, a passar ao lado do real sentido dos textos, da sua coesão e coerência internas? Será normal Jesus, tal como acima foi explicado, ter estes sentimentos tão humanos que nós tão bem compreendemos? claro, que sim!
Como humanos que somos também temos os mesmos sentimentos! De igual modo, interpretaríamos assim os textos, tal como os acabámos de transcrever, nem mais nem menos! Mas esta é, repetimos, uma reacção tipicamente humana! Mas, insistimos, não devemos negligenciar a dinâmica do texto! Será que o seu pensamento era de cariz nacionalista, tendo em conta um hipotético bem-estar dos Seus seguidores contemporâneos ou futuros ou, antes pelo contrário, apresenta uma visão mais dilatada, ou seja a aceitação ou não do Seu ensino pelos homens? Ora vejamos: Quanto ao primeiro texto: “Jesus não deseja, de modo algum, criar barreiras e divisões familiares; mas constata que o efeito da Sua vinda ao mundo e a pregação da Sua palavra é a divisão! Ele exige que se tome posição: por ou contra.” Ou ainda: “Jesus talhou na dura rocha das realidades humanas um caminho novo, pelo qual ele passou por primeiro carregando sobre os seus ombros todas as exigências do reino de Deus: justiça social, transformação de instituições, tomada de posição pela verdade, regeneração individual. Eis os materiais que encontrou em volta dele entre os homens. Eis as pedras, a madeira e a areia com os quais construiu o Reino de Deus, sobre a terra (…)”.
Pensamos que os textos bíblicos apresentados não são contraditórios; pela simples razão que não têm como primeira preocupação a violência ou a não-violência! Mas comportam as consequências do ensino de Jesus que, por ele só, causa divisões a todos os níveis! E não será assim? Como compreender o tremendo ódio dos judeus acerca de Jesus? Faltou Jesus, porventura, alguma vez ao respeito a qualquer dirigente religioso da Sua época? Acaso foi menos cortês nalguma forma de tratamento? Se não foi, então porque se movimentaram sempre com o único propósito de O silenciar? Concorrência?
Como meros humanos, somos levados a pensar que sim! Mas, o que é que as Escrituras nos revelam? Leiamos, uma outra aparente contradição em Jesus: 1- “O mundo não pode odiar-vos, mas odeia-Me a Mim, porque faço ver que as suas obras são más” – S. João 7:7 (sublinhado nosso) ; 2- “Se o mundo vos aborrece, sabei que, primeiro do que a vós, Me aborreceu a Mim” – S. João 15:18
Que nos diz o prezado leitor? Parecem contraditórios os textos, não é verdade? Mas não são, se os entendermos bem! Quanto ao primeiro texto o Senhor revela-nos duas verdades essenciais: 1-“ O mundo não pode odiar-vos (…)”! Claro! porque ainda não O conheciam, ainda não se identificavam com ele; ainda agiam e pensavam como os demais concidadãos; 2- “(…) porque faço ver que as suas obras são más” – eis a razão, a única, do seu titânico ódio por Jesus! Quanto ao segundo texto: a aparente contradição: “Se o mundo vos aborrece (…)”. Agora, parece que dá o dito pelo não dito! Mas o que Jesus está a dizer é muito simples: Neste momento da vossa evangelização, viveis no mundo, é verdade, mas já não sois dele! Já não pensais como ele, sois diferentes, conheceis novas directrizes – a plena vontade de Deus, o Pai – algo que os vossos concidadãos não querem conhecer! Agora, tal como Eu, ireis sentir na vossa vida o mesmo ódio, vós que tendes o meu nome – Cristãos! E, assim como eu faço, vocês também o deverão fazer, isto é, dizer que as suas obras são más!
Não será este o sentido das palavras de Jesus, quando disse: “Dei-lhes a Tua palavra, e o mundo aborrece-os porque não são do mundo, assim como Eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os livres do mal. Eles não são do mundo como Eu não sou do mundo” – S. João 17:14-16? Claro!
Portanto, se quisermos seguir realmente a Sua Palavra, tal como está exarada nas Escrituras, certamente que iremos encontrar os problemas que Jesus referiu, porque os seus ensinos são diferentes dos que a sociedade e costumes humanos impõem! A ser assim, então estamos perante um dilema: 1- Ou estas não são palavras de Jesus, e como tal, deverão ser rejeitadas! 2- Ou a confissão religiosa que tradicionalmente seguimos, nada tem que ver com a Palavra de Deus! E porquê?
Em que é que eu tenho problemas por pertencer, por nascimento, a esta confissão religiosa professada pela maioria? De emprego, de amigos, de hábitos perniciosos a diversos níveis sociais e morais? Nada nem ninguém me diz nada! Antes pelo contrário! Se assim é, portanto, que revolução é que Cristo veio fazer; que espada, que dissensões veio trazer? Se nada de especial comigo se passa: Ou Jesus, afinal, nada veio trazer; ou não estou a seguir o que realmente Ele preconizou como modo de vida e condutas cristãs para todo aquele ou aquela confissão religiosa que se disser ser a Sua continuidade!
Se alguém começar a estudar as Escrituras e a interiorizar que deve amar e respeitar a vontade do amado – Cristo –, então quando começar a praticar o que aprendeu para agradar ao novo Senhor da Sua vida, Aquele que lhe deu o nome que usa – cristão –, então verá que o cristianismo, o ser verdadeiramente cristão, nada tem a ver com o que tinha feito, em termos de vivência! E o que é que passará a acontecer? Os amigos que até ali o acompanhavam, começam a não ter prazer na sua companhia! Eventualmente, não fuma, já não bebe bebidas alcoólicas, já não frequenta lugares menos recomendáveis, já não é companhia para sítios e vícios menos próprios! E porquê? Porque quer manter uma boa saúde e ser, em plenitude, cristão!!
Procedendo assim, já reparou, prezado leitor, a quantidade de perigos e derivados que o professo cristão evitaria? Quase que, estamos tentados a dizer que: se não fosse por mais, só por estas razões, já merece a pena ser CRISTÃO, não acha?! Portanto, o que é isto a não ser o reflexo, o genuíno cumprimento das palavras “(…) Não penseis que vim trazer a paz, mas a espada à terra; não vim trazer a paz mas a espada. Porque vim separar (…)”! Está a pregar a violência? Claro que não! Mas unicamente a apontar para o resultado a que chegará todo aquele que Lhe quiser ser fiel!
Em síntese, o cristão, se deseja sê-lo, deverá ser DIFERENTE! Vejamos: 1- “A dignidade da vida cristã, levada até à intransigência e à santidade, chocou profundamente os pagãos. A conversão exige uma mudança de vida e fornece os meios para a concretização dessa exigência”; 2- “Tertuliano pintou ao vivo o embaraço do cristão, solidário da vida da cidade, com as suas celebrações e as suas alegrias, que lhe ferem o senso moral e as convicções religiosas (…). Poderia um cristão frequentar ou aplaudir um espectáculo que ultrajava a moral e fazia corar o próprio pagão? Como recusá-lo sem atrair a atenção dos outros?” ; 3- “«É um bom homem, o Gaius Seius. Que pena que seja cristão!»”. Se assim foi no passado, prezado leitor, deverá ser diferente no presente?
Eis o repto diante de cada um de nós. O que é que iremos escolher?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

AS DUAS MULHERES OU AS DUAS IGREJAS

Dr. Ilídio Carvalho
No livro do Apocalipse aparecem com clareza duas mulheres que passaremos a examinar um pouco mais de perto. Iremos compará-las para melhor as compreendermos.
“(…) vi uma mulher sentada sobre uma besta de cor de escarlata, coberta de nomes blasfematórios, com sete cabeças e dez chifres. A mulher estava vestida de púrpura e de escarlata (…); tinha na mão uma taça de ouro cheia das abominações e das imundícies da sua prostituição. Na sua fronte estava escrito um nome misterioso: Babilónia, a grande, a mãe das prostitutas e das abominações da Terra. Vi que a mulher estava embriagada com o sangue dos santos e com o sangue dos mártires de Jesus; e esta visão encheu-me de espanto”.
“Furioso contra a Mulher, o Dragão foi fazer guerra ao resto dos seus filhos, os quais guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus”.

Perante estes dois textos do Apocalipse, uma pergunta baila na nossa mente: de quem fala o profeta? Quem poderão ser ou representar estas mulheres com diferentes matizes?
Quer um texto quer o outro, ambos fazem referência à mulher, só que em diferentes cenários. A mulher descrita no capítulo 12 deste livro, para os comentadores, de uma forma geral, representa uma entidade – a Igreja cristã – “(…) A única interpretação incontestável é a que diz respeito à Igreja”. Quanto à mulher do capítulo 17, as opiniões começam a ser divergentes, oscilando entre: Igreja e Roma.
Quanto a nós, pensamos que a mulher do capítulo 17, mais que não fosse, por uma questão de ritmo e coerência do todo, como veremos, indica uma Igreja com características diferentes da do capítulo 12! Quando a Bíblia fala de Israel para dar a conhecer a sua infidelidade em relação a Deus, este é sempre apresentado como uma mulher que tem duas vertentes: fiel e prostituta.
O Antigo Testamento contém muitas referências a ambas as vertentes. Repare, prezado leitor, por exemplo, neste contexto, na forma poética que o profeta Jeremias utiliza para descrever a relação entre Deus e Israel: “(…) lembro-me da tua fidelidade no tempo da tua mocidade; do amor dos teus desponsórios, quando Me seguias no deserto, naquela terra que se não semeia. Era então Israel propriedade sagrada do Senhor” – Jeremias 2:2,3. O mesmo profeta descreve, logo a seguir, o caso contrário – infidelidade – quando reforça a metáfora conjugal: “Tu, pois, que te tens prostituído a inúmeros amantes, poderás voltar para Mim?” – Jeremias 3:1
Desde já, pensamos, poderemos, em plena consciência, afirmar que a mulher do capítulo 12, representa uma característica da Igreja! Assim é, pelo menos, o que também pensa o nosso autor, quando afirma que: “(…) a mulher (…) só pode ser a Igreja cristã”. Se assim é, então porque é que, de repente, o mesmo símbolo, para certos autores, significará outra realidade diferente, a saber: “(…) Roma imperial da época, que se tornou o símbolo da perversão política, cultural, religiosa”?
Já reparou, prezado leitor, num interessante pormenor que o profeta Jeremias nos mostra - uma dualidade de cenários: o deserto e o habitado. No dizer do profeta, ao recordar o passado, o bom tempo passado juntos, no deserto, (Deus - o esposo e Israel - a esposa), assim se expressa: “(…) Israel era propriedade sagrada do Senhor” – Jeremias 2:3. Depois, devido ao contacto com os outros povos e respectivas influências, o resultado não se fez esperar; aconteceu o pior, espiritualmente falando: a prostituição - “Que injustiça encontraram em Mim para se afastarem de Mim? (…)” – Jeremias 2:5; ou ainda “(…) o Meu povo abandonou-Me (…)” – Jeremias 2:13 ; ou ainda “(…) amo os estrangeiros e quero segui-los” – Jeremias 2:25.
Sob este pano de fundo - Deus o esposo fiel e Israel, a esposa nem sempre fiel - podemos facilmente situar Israel (a Igreja) nos diferentes cenários: Apocalipse 12 e 17! Vejamos alguns detalhes destes dois símbolos para que nos apercebamos dos contrastes existentes:
Perante esta comparação de contrários, a primeira imagem que salta aos olhos é que, não somente ambas são identificáveis com a mesma realidade (Igreja), como também evidenciam a fidelidade e o seu contrário! Que conclusão poderemos tirar como corolário desta grelha de dados? Quanto a nós subscrevemos totalmente, não só o esquema que nos é proposto, como também a conclusão de que a “identidade da prostituta do Apocalipse não é uma potência pagã nem um poder político. Na linha das imagens da Bíblia, a prostituta do Apocalipse simboliza a infidelidade do povo de Deus; na perspectiva do Novo Testamento, é a Igreja que se desviou e se comprometeu com os amantes da terra”.
Esta mulher que também representa uma Igreja corrompida! Ela está prostituída! O que é curioso neste capítulo 17 do Apocalipse é que aqui a ênfase recai totalmente sobre a mulher! Esta, apesar de representar uma Igreja, está totalmente identificada com o Dragão, que é Satanás (Apocalipse12:9).
Mas esta Igreja prostituída ainda mantém a aparência e a forma religiosa! Já reparou bem? Ela tem na mão uma “taça” um cálice! Este não contém, “(…) a nova aliança no Meu sangue (…)” – S. Lucas 22:20, por estranho que possa parecer! Mas está cheio de “abominações e imundícies” – Apocalipse 17:4! Se recordarmos o que é dito do v. 1-6, e tendo em conta este cenário, poderemos elaborar algumas considerações, a saber:

1- Como Igreja, perdeu a sua razão de ser;
2- Deixou de ter comunhão com Deus;
3- Afastou-se da comunidade que lhe deu origem, para instituir-se com estrutura de poder;
4- Utiliza a opressão política e institucional para atingir os seus fins. Estes últimos são blasfemos, visto que a Igreja instituída deixou de ouvir a voz de Deus.

Esta deixou de falar através da comunidade dos fiéis, para falar em nome próprio, com a pretensão de ser, ela mesma, a voz de Deus! Deixou de representar o povo de Deus porque esta não ouve nem obedece à voz da verdade – a Deus!
Quanto à outra, a mulher fiel, o texto de – Apocalipse 12:17 - revela-nos que o Dragão atacará, impulsionado pela fúria, a todos quantos estão abrangidos pela letra e espírito do texto apocalíptico, a saber: 1- Ao resto dos filhos da mulher (Igreja); 2- Aqueles que: a) Guardam os Mandamentos de Deus; b) Que têm o Testemunho de Jesus.
Estes, que são designados como sendo o “resto” da mulher, quem poderão ser? Confessamos a nossa ignorância: NÃO SABEMOS! Mas uma coisa sabemos - exactamente o que o texto nos esclarece – as características que definirão este “resto”, este “remanescente”! Estas estão expressas, não é preciso adivinhar!
Quais são? Recordamos: a) Guardam os Mandamentos de Deus; b) Que têm o Testemunho de Jesus. Quem, eventualmente poderá ser? À luz do esclarecimento bíblico, quem estará à altura de preencher estes requisitos? Os judeus, porque guardam os Mandamentos de Deus? Se bem entendemos os textos, tal não deve ser, “(…) visto, porém que a repelis (a Palavra de Deus) (…) voltamo-nos para os pagãos” – Actos 13:46!
Se estes, como povo, não são, perguntamos: quem poderá ser? Cremos encontrar uma possível resposta em S. Paulo “(…) Paz e misericórdia ao Israel de Deus” – Gálatas 6:16; cf. Romanos 9:6; 11:25-27. Quanto a nós, embora não haja uma unanimidade de interpretação, opinamos pelo “Israel de Deus, em distinção do Israel segundo a carne”. Mas, para o propósito em causa, pouco importa visto que o texto em lide não faz distinção entre povo e povo, ou confissões religiosas!
A Bíblia unicamente faz a distinção entre os que guardam, observam os Mandamentos de Deus e os que o não fazem! Isto, por outras palavras, quer dizer que o tal “resto” será conhecido e reconhecido por Deus, não porque - desde o seu nascimento pertence a este ou aquele povo, a esta ou àquela confissão religiosa - mas porque se mantém fiel aos ensinos da Palavra de Deus. Portanto, trata-se de um todo que terá algo em comum: os Mandamentos de Deus, e não serão conhecidos, repetimos, por uma formal aderência a uma Igreja, quem quer que ela seja!
É evidente que, como facilmente se compreenderá, existindo pessoas que tenham algo em comum, tendencialmente, se unirão! Estas têm a mesma fé, partilham a mesma esperança e princípios. Porque ser cristão, prezado leitor, não é, segundo Jesus, frequentar um culto, seja ele qual for, por este ser muito antigo, ou ainda porque a ele assiste a maioria, uma elite, socialmente falando! Mas, unicamente, quando a nossa vida e ensinos estiver de acordo com o que nos revelam as Escrituras, a saber: “Nem todo o que Me diz: Senhor, Senhor entrará no reino dos céus, mas sim aquele que faz a vontade de Meu Pai que está nos céus” – S. Mateus 7:21 (sublinhado nosso)
Ainda a propósito do texto do Apocalipse 12:17, gostaríamos de abrir um pequeno parêntesis para fazermos um brevíssimo reparo à tradução e comentário que o nosso autor faz ao texto em lide. Efectivamente, não compreendemos o porquê da referida tradução! Apesar de conhecermos as nossas limitações linguísticas, a tradução apresentada, na última parte do versículo, não tem grande coisa a ver com o original! Passaremos a apresentar, para comparação, a tradução proposta e o texto original.
Perguntamos, prezado leitor: que relação tem a tradução proposta com o original? Será só para ser diferente?
Depois, ao comentar o texto assim vertido, o autor acrescenta que estes “ estão em oposição aos cristãos que não resistiram às perseguições”! Para o autor em questão, “o Dragão e a Serpente só pode ser o Império Romano” – e, sendo assim, já facilmente se compreenderá a tradução apresentada, para fazer realçar, sob a perseguição imperial, a diferença entre os que permaneceram fiéis a Jesus e os que o não conseguiram!
Só que, tal interpretação do Dragão é abusiva e contradiz frontalmente o que, o texto claramente esclarece! Um pouco mais à frente, é-nos dito que: “O grande Dragão, a antiga Serpente, o Diabo, ou Satanás (…)” – v. 9. Então, como facilmente se compreenderá, por exclusão de partes: se a tradução apresentada não tem qualquer sentido, em relação ao original - de igual modo o seu comentário também o não tem! E bastará ler o versículo com atenção para que o leitor se aperceba que não se trata, de modo algum, de mostrar vencedores, mas unicamente revelar a todo aquele que lê - quem será o alvo – da ira do Dragão!
A Igreja verdadeira deixou um resto com características que o identificariam como tal! Como já dissemos, não existe, como – resto – uma Igreja, mas unicamente pessoas que aderirão a este selo, esta marca identificadora de possuírem a Verdade! O Dragão ou Satanás, tal como o define as Escrituras, tem ao seu dispor, nos nossos dias muitas confissões religiosas, guarnecidas por verdadeiras multidões espalhadas pelo globo! Mas o profeta revela que, o “resto” que incomoda o Dragão, porque segue o seu evangelho, a sua vontade ou doutrina, será alvo de uma “guerra”!
“O Dragão foi fazer guerra”! Porquê? Já pensou, prezado leitor, na razão desta declaração de guerra? Já notou que ninguém o magoou fisicamente ou até lhe faltou ao respeito? Estas, em termos humanos, seriam causas maiores que justificariam, talvez, uma agressão da parte ofendida em legítima defesa da honra e do bom nome, não é verdade? Mas não! Por estranho que pareça, a ira, o ódio só têm uma única razão: esta criatura quer ser adorada como Deus, mas só os que conhecem as Escrituras é que estarão habilitados a responder negativamente a tal pretensão! Porquê? Porque só a Bíblia e não outra fonte qualquer, é que nos esclarece quem é, realmente, quem! Por outras palavras mais simples: só estes é que estarão à altura de DESMASCARAR os seus subtis ardis, não outros!
Estes, prezado amigo, incomodam o Dragão porque podem demonstrar pelas Escrituras o não fundamento de certos ensinos pseudo-bíblicos; estes são, tal como a profecia aponta “os que guardam os Mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus”. E quanto à restante cristandade, por inerência, confissões religiosas? Nunca o incomodaram, sempre estiveram ao seu lado – na pseudo-verdade – por isso, não existe ira ou guerra da parte do Dragão, como facilmente se compreenderá!

Bibliografia:
André Feuillet, L’Apocalypse, Paris, Ed. Desclée de Brouwer, 1962, p. 96 ; Cf. Leonhard Goppelt, Teologia do Novo Testamento, 2ª ed., Brasil, Ed. Vozes, 1983, Vol. I e II, p. 453
Idem, p.454; Cf. Charles Brutsch, op. cit., pp. 277,278
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 124
Charles Brutsch, op. cit., p. 278, nota 4
Jacques Doukhan, Le Cri du Ciel, pp. 223,224
F. J. Leenhardt, Epístola aos Romanos, S. Pulo, Ed. ASTE, 1969, p. 304, nota 33; Cf. Frédéric Godet, Commentaire sur l’Epître aux Romains, 3ª ed., Genève, Ed. Labor & Fides,1968, pp. 402-406
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 124
Ibidem