quinta-feira, 12 de agosto de 2010

A IMORTALIDADE DA ALMA

Por exclusão de partes, Deus reconhece como seus, todos os que, com sinceridade, O desejam conhecer e os que praticam a Sua vontade. Isto quer dizer que este “remanescente” ensinará a verdade e só a verdade contida nas Escrituras. É esta Verdade que o Dragão não gosta que se divulgue para que o ser humano não possa conhecer qual a vontade de Deus nem o desmascarar. Esta verdade não é outra, segundo Jesus: as Escrituras!
Abramos aqui um pequeno parêntesis: Convém não esquecer que hoje, em termos da ciência moderna e até certas confissões religiosas (!) o ensinam: Satanás, o Diabo, não existe! Saiba que esta realidade lhe dá muito prazer! E sabe porquê? Recorda-se da imagem medieval que a Igreja tradicional inventou acerca da sua pessoa? Isto é: um ser com cornos, pés de cabra, um rabo e um grande aguilhão na mão! Se falarmos em Satanás, esta é a única imagem que se forma na mente de qualquer pessoa, não é verdade?
Biblicamente, nada corresponde a nada. Como já vimos, simbolicamente, o que é dito em relação ao rei de Tiro! Essa é a descrição desta sublime entidade, tal qual ela é! Por isso é que, como vimos e agora poderemos compreender um pouco melhor, a razão pela qual os milagres e afins são realizados em nome de Deus, com todo o poder; mas de Deus só tem o nome, nada mais!
Assim, quando ele aparecer, disfarçado de Deus em poder, o qual, nenhum de nós, mortais, presenciou até ao momento! Ao vermos tanto esplendor, a quem o atribuiremos? Claro, a Deus! E porquê? Porque a maioria, acerca dele só tem a tal imagem medieval e não aquela que corresponde à realidade; e também porque desconhece o que as Escrituras falam a seu respeito! Nestas, este aparece como um ser sublime, belo, majestoso; a tal ponto que, “se possível fora até enganaria os próprios escolhidos” – S. Mateus 24:24!
O convite para escutar, para ler e conhecer a vontade de Deus é universal, como o próprio Deus o é. Não basta aderir a esta ou aquela confissão religiosa e respectivas doutrinas. Não aderir só por aderir e continuar a fazer a nossa vontade, porque assim não ganharemos nada com isso! De cristãos, unicamente teremos a etiqueta, cujos dizeres nada terão a ver com aqueles que a usam!
Quanto a nós, encontramos esta situação nas Escrituras, nomeadamente na – parábola das bodas – cf. S. Mateus 22:1-14, “este esboço da história da salvação tenciona fundamentar a passagem da missão aos pagãos: Israel não o quis”. Passaremos a tecer uns brevíssimos comentários a propósito. O texto articula-se, quanto a nós, em três tempos:

1- Fala-nos de um primeiro convite ao Israel, como povo. Este rejeitou o convite: 1- “Mandou os servos chamar os convidados (…) mas não quiseram comparecer” – v. 3; 2- “De novo mandou outros servos (…). Dizei: (…) vinde às bodas. Mas eles sem se importarem foram um para o seu campo, outro para o seu negócio” – v. 4,5; 3- “Os restantes, apoderando-se dos servos, maltrataram-nos” – v.6.
Eis o convite para as bodas (ceia), que foi rejeitado, e esta “é a ceia do tempo da salvação”.

2- Devido à rejeição de Israel, o convite passa para a gentilidade, todos aqueles que, fisicamente, não pertenciam ao povo da aliança. Agora, procede-se a um convite global: “Disse depois aos servos: «O banquete está pronto, mas os convidados não eram dignos. Ide, pois, às saídas dos caminhos e convidai para as bodas todos quantos encontrardes». – v. 8,9 (sublinhado nosso).
Vemos aqui, neste segundo momento do texto, o convite universal – a todos – sem qualquer excepção!

3- Agora estamos perante o que achamos de mais curioso e estranho da narrativa! Esta revela-nos que: “(…) e a sala do banquete encheu-se de convidados” – v. 10. Mas, quando o rei chega “ para ver os convidados”, reparou que alguém se tinha apresentado “sem traje nupcial” – v. 11! Depois, aproximou-se deste convidado e perguntou: “Amigo, como entraste aqui sem o traje nupcial? O outro emudeceu.” – v. 12. Esta observação ou pergunta parece muito estranha!
Porquê, perguntará? Pela simples razão que não encontramos nada no texto que nos diga que, para esta festa, se deveria “trajar” desta ou daquela maneira! É verdade que era uma boda! Mas, será que a indumentária seria assim tão importante? Até porque, segundo o texto, o convite fora feito a pessoas de muito baixa condição social! Portanto, o que está em causa, não é a qualidade da roupa, mas o tipo da mesma!

Qual a lição que o texto apresenta? O que é que Deus nos quer revelar? O facto de termos acesso ao convite, quer dizer que depende unicamente da graça de Deus através do noivo – Cristo! Assim “é por isso que ninguém poderá ser admitido revestido do velho vestido que era o seu e que é incapaz, por isso, de cobrir, aos olhos do rei, a miséria e a nudez naturais”.
Como resolver tudo isto? Uma vez mais as Escrituras nos dão a resposta. Leiamos o que ela diz a este respeito. O livro do Apocalipse tem, quanto a nós, a solução para esta estranha exigência do Pai do noivo! Eis o que anjo diz ao exilado de Patmos - uma das sete Bem-aventuranças (Apocalipse 1:3; 14:13; 16:15; 19:9; 20:6; 22:7,14), que diz: “Felizes os que foram convidados para o banquete de núpcias do Cordeiro” – 19:9.
Portanto aqui, dá-nos a conhecer que os convidados são pessoas de eleição, ou seja, não para umas bodas quaisquer! Depois, o mesmo livro, através de uma outra Bem-aventurança, dá-nos a conhecer o tipo e, ao mesmo tempo o porquê da observação feita pelo Pai do noivo. Eis o texto: “Felizes os que lavam as suas vestes, para terem direito à Árvore da Vida e poderem entrar, pelas portas, na cidade” – 22:14.
O conselho, como dissemos, não é ter um fato novo e de grande qualidade, mas sim o “lavar as vestes para terem direito”! Mas, lavar onde? No profeta Isaías encontramos um vislumbre de resposta: “(…) e o meu coração exulta no meu Deus, porque me revestiu com a roupagem da salvação e me cobriu com o manto da justiça (…)” – Isaías 61:10; no Novo Testamento: “Todos os que fostes baptizados em Cristo, vos revestistes de Cristo” – Gálatas 3:27, ou ainda “revestir-vos do homem novo, criado em conformidade com Deus” – Efésios 4:24.
Eis os ingredientes necessários: lavado, revestido - um homem novo em Cristo Jesus. O passado morreu e com ele as vestes antigas; todos nós teremos que ser novas criaturas em Cristo e não permanecer no faz de conta! Resumindo: O convite é feito a todos, mas atenção! Apesar deste ser livre, assim como deverá ser a nossa resposta ao mesmo, mesmo assim, não nos poderemos apresentar perante Deus… não importa como! Não de qualquer maneira, mas unicamente em Cristo.
Assim, a nossa conduta, tudo na nossa vida, deverá ser pautado pelas Sagradas Escrituras. E em relação a certas doutrinas? Não deverão estas, de igual modo estar em verdadeira consonância com as Sagradas Letras? Continuamos a pensar que sim. Analisemos, como de costume, mais um postulado desta confissão religiosa.

1- Preliminares
A Palavra de Deus é, contrariamente ao que muitos afirmam e, particularmente, o nosso autor, o seu próprio intérprete, isto é, ela explica-se a si mesma! Podemos não a conhecer e, por isso, não saber onde se encontra a resposta para esta ou aquela questão, nossa contemporânea, mas ela está lá.
O que é que queremos dizer com tudo isto? É muito simples: que as Sagradas Letras nos alertam para certos desvios à Verdade e para as suas perniciosas consequências! Eis-nos perante um primeiro exemplo: “Porque virá o tempo em que os homens já não suportarão a sã doutrina. Desejosos de ouvir novidades, escolherão para si uma multidão de mestres, ao sabor das suas paixões, e hão-de afastar os ouvidos da verdade, aplicando-os às fábulas” – II Timóteo 4:3,4.
Tal como acima temos referido, o nosso autor não nos deixa de surpreender aqui e ali! Em todo o seu livro, nota-se, vá lá perceber-se porquê, um receio atroz dos métodos ditos “historicistas”, “concordistas” ou até, como gosta de chamar: “fundamentalistas”! Enfim, quase que nos leva a crer que só o seu método é que é o verdadeiro, genuíno e, consequentemente, eficaz! Sabemos, segundo o Catecismo, à luz da definição de Magistério que, por não estarmos ligados a Roma, estamos arredados de um juízo e interpretação capazes acerca das Escrituras! Podiam ter sido menos contundentes, convenhamos!
Assim, estes – historicistas, concordistas e fundamentalistas – sem direito ou autoridade a qualquer interpretação, segundo o que acabámos de dizer, chamam a si e à sua maneira de ver as coisas, o sentido que estes acham que deverá ter as Escrituras! Para não sermos só do contra, por agora, iremos fazer de conta que concordamos com esta falácia e analisemos: - Que dizer dos métodos utilizados pelo autor? Vejamos um exemplo das suas inquestionáveis interpretações acerca de um episódio das Escrituras: - a ressurreição de Lázaro (S. João 11:1-44)!
Para o autor o que é que o texto descreve? Ao examinar esta problemática, este esclarece os seus leitores que: “o que aconteceu na ressurreição de Lázaro é uma parábola em acção de toda esta doutrina do Jesus Joanino, e a doutrina é: quem acreditar em Jesus já ressuscitou da morte para a vida (…)”. Ficamos perplexos em conhecer, por este erudito e autoridade em matéria escriturística, que afinal, este acontecimento tão importante no ministério de Jesus, não passa de uma “parábola em acção”?! Realmente o autor é uma verdadeira caixinha de surpresas! Por este andar, já não sabemos quem é quem ou quem diz o quê! Será que até o próprio Jesus não passará de uma “parábola”? A ler o que temos lido, acredite, prezado leitor, que já nada nos espantará!
Depois, ao falar mais especificamente da ressurreição, o autor faz mais uma declaração verdadeiramente espantosa! Conclui o seu raciocínio, dizendo que: “a Bíblia está cheia de textos, mormente o Novo Testamento, que afirmam a ressurreição dos crentes na vida eterna após a morte, e de modo algum relacionada com a ressurreição na terra quando esta for dominada pelo Reino de Deus, isto é, depois da segunda vinda de Cristo”. De facto, esta é mais uma das conclusões que não esperávamos ler de quem, repetimos, nos merece todo o respeito! Agora, confessemos em abono da verdade, que ficámos sem saber se sempre haverá um dia, sim ou não, uma ressurreição corpórea e, por conseguinte, visível?!
Mas para já, à luz do quanto acabámos de transcrever, estamos em crer que não! Além do mais, a julgar pelos epitáfios que encontramos nos cemitérios, tudo indica que não! Porquê, perguntará? Pela análise simples do conteúdo destes! O leitor há-de reparar que, na sua grande maioria, todos têm uma característica comum: “Eterna saudade de… “. Ora a ser verdade esta frase, então, nunca mais reveremos os queridos que ali sepultámos, com tanto carinho e dor! Esta separação é, segundo o que a frase deixa transparecer, – eterna! Caso contrário, tais palavras não terão qualquer sentido, porque a ressurreição serve para isso mesmo – rever e reaver os nossos queridos ali deixados naquela terra fria ou noutra situação qualquer!
A seguir, o autor diz que não existe no Novo Testamento textos que apontem para a ressurreição quando da segunda vinda de Jesus Cristo! Mas, perguntamos mansamente, em que Bíblia é que o autor lê? A não ser, pensamos, que as Escrituras que circulam não sejam as mesmas que existem na sua posse!
Se exceptuarmos os Apócrifos, pois como já acima nos referimos, estes não têm qualquer credibilidade em matéria de fé; estes, nesta vertente espiritual, contradizem frontalmente a homogeneidade do Cânone sagrado. Aliás, não deverá ser, de modo algum, por mero acaso que, para que esta confissão religiosa, repetimos, igual a tantas outras, possa defender algumas doutrinas, nomeadamente a que nos ocupa neste momento – A Imortalidade da Alma – terá que, forçosamente, recorrer aos Apócrifos! Caso contrário, onde as iria fundamentar?
Terá, nas Escrituras, sérias dificuldades para sustentar os seus pontos de vista, repetimos, meramente humanos! Esta foi uma das razões, como é sabido, para a convocação do famoso Concílio de Trento, isto é, com o fim de colocar a Tradição e os Apócrifos ao mesmo nível das Sagradas Escrituras – estas que são a única expressa vontade de Deus! Examinemos, sumariamente, uma corrente religiosa que ensina esta mesma doutrina.

2- Movimentos Espíritas
“O homem é eterno”. Foi sob este título que foi anunciada a visita a Portugal do espírita Divaldo Pereira Franco, considerado o maior conferencista deste século, nesta área! Veio a Portugal, a convite da Federação Espírita para fazer uma série de palestras sobre “o «autodescobrimento» e a eternidade do homem”.
Este homem “diz conhecer o segredo da eternidade humana. Esse segredo simples, tão simples como viver e morrer, reencarnar e viver, morrer de novo (…), expiando assim no nosso tempo os pecados cometidos noutras vidas; essa certeza fantástica e tranquilizante que é encarar a morte como um passamento para outro estado vivencial donde, num dos próximos séculos, se poderá sair para outro corpo humano, para outra vida de grandezas ou misérias no planeta Terra”.
Depois, falando da sua mediunidade, diz que a descobriu aos quatro anos e meio de idade, na sua cidade natal, a Baía. Ali, disse na entrevista: “Apareceu-me a minha avó (em espírito). Pediu-me para chamar a minha mãe, o que eu fiz. A minha mãe não a conheceu, porque esta morreu em consequência do parto. A minha mãe teve um choque. Fomos a casa de uma irmã dela que havia conhecido a mãe e eu descrevi-lhe o espírito. E então ela disse: É a minha mãe!”
Que fazer, perante tudo isto? Crer! Não crer! Que dizer? Como é que se poderá saber se um nosso semelhante está na condição e na dimensão acima descritas? Quanto a nós, pensamos, que só a Palavra de Deus nos ajudará a saber, realmente, o que se passa! E porquê? Porque só esta tem autoridade para falar e corrigir tudo o que se relaciona com a dimensão espiritual

a) A Palavra e o seu significado
Comecemos pelo princípio e perguntemos: O que é o homem? As Sagradas Letras, quer acreditemos na resposta ou não, revelam-nos o seguinte: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro de vida, e o homem transformou-se num ser vivo” – Génesis 2:7. (sublinhado nosso). A palavra traduzida por - ser vivo – é, na língua original (hebreu) – nèfèsh. Ora, o que é que significa esta palavra? Esta é traduzida no Novo Testamento, língua grega, por – psuchê (Alma) – por exemplo: “Não temais os que matam o corpo, e não podem matar a alma” – S. Mateus 10:28
Que significado tem este termo – nèfèsh? Autoridades na matéria revelam: “certamente que não é alma. Esta palavra compreende aqui, simultaneamente, a figura, a estatura total do ser humano, em particular a sua respiração; assim, o homem não tem uma – nèfèsh (Alma) – mas ele é nèfèsh (Alma), ele vive enquanto nèfèsh (Alma)”. (sublinhado nosso)
Ora, se entendemos bem, o ser humano não tem uma ALMA que lhe seja exterior ou separada dele, mas ele mesmo é uma ALMA VIVENTE! Aliás, como foi perfeitamente bem traduzido: “ser vivo”. Por esta simples razão é que encontramos nas Escrituras textos como este: “Mal deixam de respirar, voltam ao seu pó, nesse mesmo dia acabam os seus pensamentos” – Salmo 146(145):4. Se virmos bem, faltando o tal - Rouah (o sopro de vida) - o ser humano volta ao pó, de onde saiu. É como se de um boneco se tratasse… acabou-se a pilha e, de repente, fica parado, deixa de ser o que foi, nada resta, a não ser uma carcaça que o tempo se encarregará de desfazer, nada mais!
Esta é uma das razões pela qual, os ídolos, imagens de escultura, são assim caracterizados: “Então todo o homem se tem por néscio e imbecil; todo o artista tem vergonha do ídolo que concebeu, porque fundiu apenas vaidade, desprovida de vida. São apenas nada, obras ridículas (…)” – Jeremias 10:14,15 (sublinhado nosso). Aqui encontramos várias particularidades: 1- No que respeita ao homem que as faz e as adora, biblicamente falando, é tido por: néscio e imbecil! 2- Quanto às imagens de escultura. Elas são: 1- Vaidade e sem vida; 2- São apenas NADA!
Ao nível do texto original compreende-se toda a riqueza do texto expresso. Quando é dito que o ídolo é “vaidade, desprovida de (rouah) vida. São apenas (hèbèl) nada”! Teria porventura um bocado de madeira, pedra, ferro, ouro, prata, qualquer vida? Não, não é verdade! Logo, a imagem, em si mesma, não passa de vaidade, de um ser sem ser! Portanto, é o mesmo que qualquer um de nós sem o Espírito, a energia, o elemento motriz!
Assim, perante estes factos, ainda acrescentaríamos que “dentro deste emprego extremamente abundante de nèfèsh (Alma), traduzido por – vida – resta notar que a nèfèsh nunca tem o significado de uma substância vital, indestrutível distinta da vida corporal e que poderia subsistir independentemente do corpo”. Se chegássemos a compreender esta explicação, quão tudo seria diferente. Portanto, o homem nada tem de eterno ou imortal!
Na matemática, “o todo é igual à soma das partes”. O homem - alma vivente – cf. Génesis 2:7, é um todo, composto pelo corpo e este Espírito que lhe comunica o movimento. No momento da morte “e o pó volte à terra donde saiu, e o espírito volte para Deus que o deu” – Eclesiastes 12:9! Isto não é mais nem menos do que o contrário do que aconteceu no que deu existência ao ser humano: “O Senhor Deus formou o homem do pó da terra e insuflou-lhe pelas narinas o sopro da vida, e o homem transformou-se num (nèfèsh) ser vivo” – Génesis 2:7. Assim: “A nèfèsh é o resultado da basar (corpo), animado pela rouach (Espírito). (…) Não há vida sem espírito, é o que ensina claramente Génesis 2:7”.
Portanto, o que resta na morte? O corpo desaparece. O Espírito, segundo o texto bíblico, volta para Deus. É, permitam-nos a comparação, como se fôssemos um carro! O espírito é a gasolina que faz com que o carro ande durante a nossa existência, mais ou menos longa! Mas será este “Espírito” a nossa “alma”? Claro que não! Até porque, como já vimos, não temos uma Alma, mas SOMOS, no nosso TODO uma ALMA!
Assim, os malefícios feitos pelo condutor deste carro, ao longo da nossa existência, serão atribuídos à gasolina, ao tal Espírito? Claro que não! Só nós, condutores, é que seremos responsáveis, não é verdade? Já alguma vez se viu um Agente de Seguros, a polícia ou um juiz pedir responsabilidades à gasolina? É por esta razão que S. Paulo pôde escrever: “Porque todos havemos de comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba o que mereceu, conforme o bem ou o mal que tiver feito, enquanto estava no corpo” – II Coríntios 5:10. Portanto, é o corpo e não o Espírito que é o culpado! O Espírito, a exemplo da gasolina, é neutro! Logo, nada existe em nós de imortal!
Reforçando esta verdade é-nos dito que: “as palavras espírito e alma encontram-se 1700 vezes na Bíblia. Ora, jamais elas são acompanhadas do adjectivo: imortal”. Quando procuramos este adjectivo nas Escrituras, encontramo-lo, unicamente, aplicado a Deus, não ao homem: “Ao Rei dos séculos, imortal, invisível, Deus único, honra e glória pelos séculos dos séculos. Amen.” – I Timóteo 1:17

b) As Escrituras e os Médiuns
Quando falámos neste médium brasileiro e no que ele diz acerca da tal reencarnação, vimos que, biblicamente falando, o ser humano nada tem em si mesmo que possa reencarnar, seja em quem for! Mas se este diz que sim, para que evidenciemos o que queremos mostrar, por agora, digamos que estamos de acordo com tal afirmação!
Depois contou também a sua experiência ao ter-lhe aparecido a “sua avó”! Uma vez mais, continuamos a não duvidar da narração do autor! Não estamos a negar que tivesse vivido o que ele diz, ou outro qualquer o possa afirmar! O que negamos, frontalmente, é a personagem que ele diz que aparece, ou seja, um seu amigo ou familiar, neste caso, a avó! Portanto, dizemos que se tal facto existiu ou existe, também afirmamos, ao mesmo tempo, que esta personagem não é a avó que apareceu! Então quem é? É muito simples! Firmando a nossa opinião nas Sagradas Escrituras, é alguém por ela, imitando-a em tudo, na perfeição!

3- O Caso de Saúl (I Samuel 28:1-25)

a) Saúl estava em guerra com os filisteus e, em desespero de causa, queria saber o que Deus lhe tinha reservado, mas “o Senhor não lhe respondeu nem pelos sonhos, nem pelos sacerdotes, nem pelos profetas” - v. 6.
Depois, foi procurar uma médium (bruxa, feiticeira) para que o pusessem em contacto com o já falecido profeta Samuel! Sabemos, pelas Escrituras que “(…) os mortos não sabem nada (…)” – Eclesiastes 9:5. O procedimento de Saúl é ilógico! Porquê? Se Deus não lhe responde por meios lícitos (sonhos, sacerdotes, profetas), como o poderia fazer por meios por Ele condenados?

b) “Disse-lhe então a mulher: «A quem invocarei»? Respondeu-lhe Saúl: «Faz com que me apareça Samuel».” – v. 11. A consulta continuou: “E a mulher tendo visto Samuel, soltou um grande grito, e disse ao rei:«Porque me enganaste»? Disse-lhe o rei: «Não temas! Que vês»? - «Vejo, respondeu a mulher, um Deus que sobe da terra». Saúl replicou: “«Qual é o seu aspecto?» - «O de um ancião, envolto de um manto», respondeu ela. Saúl compreendeu que era Samuel e prostrou-se com o rosto em terra.” – v. 11-14. 
Saúl não viu Samuel, como seria natural caso ele aparecesse! O rei – entendeu – pensou, que se tratava verdadeiramente do profeta Samuel, segundo a descrição feita pela Pitonisa!
Por outro lado: se Samuel “sobe da terra”, então, verdadeiramente ressuscitou! Mas como é que ele sobe na terra de En-Dor, ao sul do mar da Galileia, a 10 km da cidade de Nazaré, (ver mapa) – se o verdadeiro Samuel estava sepultado em Ramá (I Samuel 25:1), ao norte do mar da Galileia, cerca de 100 km de En-Dor! E para cúmulo, este lhe aparece, por intermédio de uma feiticeira!

c) De seguida, o diálogo estabelece-se sob duas vertentes: 1- O pseudo profeta no v. 17,18 fala do passado. E para falar do passado – cf.15:1-29, cremos não ser necessário assim tanto poder! Bastará recordar, nada mais! 2- Fala do futuro imediato – v. 19. Sabendo o desespero do rei, não seria nada difícil prever o desfecho da batalha que se avizinhava!
Mas, quando fala do futuro, eis o que o pseudo profeta Samuel diz: “Amanhã, tu e teus filhos estareis comigo (…)” – v. 19. Perguntamos: O verdadeiro Samuel era justo. Se em vida se retirou de Saúl por causa da sua iniquidade, iria viver com ele na morte, no dia seguinte? Portanto, a narração é feita segundo a linguagem das aparências e não segundo a veracidade da doutrina bíblica. Mas, quanto à causa da morte de Saúl? As Escrituras não nos deixam sem resposta. Ei-las:

1- Porque Lhe foi infiel;
2- As Suas palavras não observou;
3- Por ter consultado necromantes (médiuns)
Cf. – I Crónicas 10:13.

E em que palavras é que prevaricou? Eis a ordem de Deus que ele voluntariamente esqueceu a qual contribuiu para a sua morte: “ao feiticeiro, ao espiritismo, aos sortilégios ou à invocação dos mortos. Porque o Senhor abomina aqueles que se entregam a semelhantes práticas (…)” – Deuteronómio 18:11,12. Portanto, para nós são bem claras as razões da sua morte.

d) Quem procura comunicar com os mortos comunica, na realidade com os demónios – cf. Salmo 106(105):28,37; I Coríntios 10:20. Através do quanto pudemos ver até aqui, o Senhor abomina tais práticas: “Quando vos disserem: consultai os que têm espíritos familiares e os adivinhos, que chilreiam e murmuram entre dentes; não recorrerá um povo ao seu Deus? A favor dos vivos interrogar-se-ão os mortos?” – Isaías 8:19.
Portanto, poderá Deus dizer duas coisas diferentes acerca do mesmo assunto? E a prova que não é assim – o resultado foi a morte do rei Saúl, tal como vimos! Ora: se tudo se passou como se… então quem esteve por trás de todos estes acontecimentos do passado? E, de igual modo, quem está presente nos mesmos factos do presente? Uma vez mais as Escrituras não nos deixam sem luz: “E não é de estranhar, porque o próprio Satanás se transfigurará em anjo de luz” – II Coríntios 11:14.
Repetimos: Nunca negámos que tal não é verdade, antes pelo contrário! Tudo “realmente” aconteceu! Só que, os personagens representados e, supostamente aparecidos, não são quem dizem ser! As personagens reais repousam, segundo o texto bíblico, no pó da terra, aguardando a ressurreição! Mas esta personagem, excelsa em poder, imitará com a maior das facilidades tudo o que for inerente ao falecido, pois tem poder para isso – exactamente como o denuncia, veementemente, S. Paulo, como vimos pelas Escrituras!

4- Detalhes
Foi no Concílio de Latrão, em 1513, que a teoria da imortalidade natural da alma foi adoptada como dogma eclesiástico. Mas, uma vez mais, além das precisões que acima fizemos, teceremos uma ou outra questão sobre o assunto.
Se ainda subsistir qualquer dúvida na nossa mente acerca da entidade do Espírito, isto é, se este é consciente, então perguntaremos: como compreender, por exemplo, as palavras de Cristo? Na cruz disse: “(…) Pai, nas Tuas mãos entrego o Meu espírito” – S. Lucas 23:46. Se este “espírito fosse uma parte consciente, só por si, então como entenderíamos as palavras de Jesus a Maria Madalena, pouco depois da Sua ressurreição, quando lhe disse: “Não me detenhas, porque ainda não subi para Meu Pai (…).” – S. João 20:17?
Seria bom que pudéssemos recordar o caso de Adão e de Eva. Se houve um Homem que teve ao seu alcance a imortalidade, segundo o relato bíblico, esse homem foi Adão! Mas quando o primeiro casal, deliberadamente, se afastou de Deus, o Criador não teve outra alternativa a não ser expulsá-los do Jardim do Éden: “Depois de ter expulsado o homem colocou, querubins a oriente do jardim do Éden, querubins armados de espada flamejante para guardar o caminho da árvore da vida” – Génesis 3:24. Perguntamos: se sempre foi eterno em si mesmo, então para quê barrar ao homem, o acesso à árvore da vida? Portanto, a imortalidade era constantemente adquirida! Esta lhe era comunicada pela “árvore da vida”!
Ensinam que a nossa “alma” é o “Espírito”, que por essência é imortal, claro! Ora, se a Alma e o Espírito são a mesma entidade, então, o Espírito que é uma entidade por essência - imortal – e, se na morte, a tal “alma” ou “Espírito”, tanto de maus como de bons, segundo as Escrituras “volta para Deus” – Eclesiastes 12:7. Perguntamos: então, coabitarão no mesmo sítio “almas” boas e más e, ainda por cima, imortais? E depois, se por definição estas são “imortais”, então quem as poderá aniquilar para todo o sempre?
Mas que confusão quando queremos misturar teorias humanas, pagãs, com a harmonia do ensino bíblico!
Acerca do estado do homem na morte, as Escrituras nos informam, com toda a clareza que: ”Os que estão vivos sabem que hão-de morrer, mas os mortos não sabem coisa nenhuma, nem recebem mais recompensa, porque a sua lembrança está esquecida. O amor, o ódio, a inveja pereceram juntamente com eles; não terão mais parte alguma, para o futuro, no que se faz debaixo do céu” – Eclesiastes 9:5,6. Outros ensinam que este mesmo espírito irá para o céu, para junto do Senhor, louvá-Lo! Também para estes as Escrituras têm uma palavra elucidativa: “(…) na mansão dos mortos quem vos louvará” – Salmo 6:5,6; ou ainda “a morada dos mortos não vos louvará, nem a morte vos celebrará, nem esperam na vossa fidelidade os que descem à sepultura. Os vivos são os que vos louvam como eu vos louvo agora” – Isaías 38:18,19. Portanto, cinco palavras apenas, resumem o estado do homem na morte:

1- Silêncio;
2- Esquecimento;
3- Inconsciência;
4- Sono;
5- Repouso.

Note que a Palavra de Deus caracteriza a morte como um “sono”! Exactamente como o Senhor Jesus o disse claramente no caso da morte do Seu amigo Lázaro: “Lázaro, o nosso amigo, dorme; mas vou despertá-lo (…). Então Jesus disse-lhes claramente:«Lázaro está morto» (…)” – S. João 11:11,14. É aqui, prezado leitor que reside a nossa suprema esperança. Se a morte é comparada, biblicamente, a um sono, então, graças a Deus por isto, porque a acção de dormir pressupõe um ACORDAR! Quer o leitor maior certeza?
E mais! Falámos da noção de “repouso”. Quando alguém morre, para onde é que este vai? Sim, exactamente para aí, onde está a pensar – o cemitério! Mas sabia que esta palavra – koimêtérion (cemitério) – deriva do verbo – koimizô (adormecer) ! Portanto, o cemitério é um lugar para dormir, repousar, nada mais! Um lugar de espera para um posterior acordar e não um sítio onde vamos depositar os nossos queridos para todo o sempre, como certas confissões religiosas, infelizmente, o ensinam! Que maravilhosa esperança! Que Deus espantoso!
Dr. Ilídio Carvalho

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O PURGATÓRIO

Existe, dizem, um determinado lugar onde se reúnem os Espíritos de todos os que morrem. Esta doutrina contraria frontalmente o claro ensino das Escrituras. Este local tem um nome – Purgatório! Aqui a Alma de tal pessoa purgará os seus pecados antes de possuir a eternidade!

1- As Origens
Analisemos, sumariamente, onde tudo isto começou, para que possamos sentir que esta ambiência nada tem com Deus. Os sábios da Grécia recusavam-se admitir que um ser como o homem pudesse, unicamente, estar confinado a um lugar na terra! Era necessário, que os seus feitos, a sua fama, fossem transportados para lá da memória. Assim “nesta favorável disposição recorriam à ajuda da ciência, ou melhor, à linguagem da metafísica. Não tardaram a descobrir que, dado nenhuma das propriedades da matéria se aplicar às operações da mente, a alma humana devia consequentemente ser uma substância distinta do corpo, pura, simples e espiritual, incapaz de dissolução e susceptível de um grau muito elevado de virtude e felicidade, após a saída da sua prisão corpórea”.

a) Concepção pagã de purificação após a morte

Esta noção de purificação está ligada ao filósofo grego Platão, que viveu no século IV a. C. Deste, chegou até nós uma obra em forma de diálogo que se chama Fédon. Vejamos alguns excertos:
1) A alma é exterior ao corpo - “E esta libertação e separação da alma em relação ao corpo não será aquilo a que se chama a morte? É exactamente isso”.
2) Definição do local para onde as almas vão - “O Aqueronte, para onde se dirigem as almas da maior parte dos mortos. Depois, de aí permanecerem um tempo marcado pelo destino, umas mais tempo, outras menos, são de novo mandadas para renascer no meio dos vivos”.
3) Os que tiveram um porte mediano de comportamento - “Aí ficam a residir enquanto se purificam. Se cometeram injustiças, pagam a respectiva pena e são absolvidos; se praticaram boas acções, obtêm a recompensa, cada um segundo o próprio mérito”.
4) Os que são considerados como incuráveis - “Devido à enormidade dos seus crimes, por haverem cometido múltiplos e graves sacrilégios, inúmeros homicídios contra a justiça e a lei ou qualquer outro delito do mesmo género, a esses cabe a sorte de serem precipitados no Tártaro, de onde não voltarão mais a sair”.

Um pouco mais à frente é dito que “defender que tais coisas sejam como eu as descrevi não é próprio de pessoa sensata; todavia, parece-me que assim, ou mais ou menos assim, deva ser no que se refere às nossas almas e às suas moradas, pois que aceitámos ser a alma imortal. Não é presunção defender tal coisa e, acreditando nela, vale a pena correr tal risco, um risco que é belo” (sublinhado nosso).
Para quê, prezado leitor, “correr tal risco” se a certeza, a VERDADE, está tão claramente demonstrada na Palavra de Deus?! É sobre esta forma de actuar que a Bíblia aconselha a toda a confissão religiosa, o seguinte: “Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” – Provérbios 30:6.
Vemos assim que, entre os pagãos, ao introduzir-se o cristianismo no mundo greco-romano, se acreditava na possibilidade de uma purificação após a morte. Quanto à Patrística e respectiva Igreja de Roma, não fizeram mais do que dar continuidade a esta crença que floresceu nesta sopa em que se tornou o cristianismo!

2- Os Apócrifos
Nada condizia nem condiz com nada e cada um ensinava, cria e praticava como era seu desejo, visto que a Norma, o Cânone, era, agora, após Trento, um todo confuso e contraditório! Enfim, um Cânone que se limitava-se a possuir unicamente o nome, nada mais! Assim, graças aos Apócrifos, se encontram, finalmente, justificadas as seguintes doutrinas, muito embora as Sagradas Escrituras as condenem claramente! Vejamos:
a) Oração em favor dos defuntos e sacrifício expiatório – “Porque, se não esperasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. (…). Era este um pensamento santo e piedosos. Por isso, pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres das suas faltas” – II Macabeus 12:44,46.
b) Oferta que expia os pecados e livra da morte - “Em verdade, a esmola liberta da morte e não permite que a alma desça para as trevas” – Tobias 4:10. “Pois a esmola livra da morte e limpa de todo o pecado” – Tobias 12:9.
c) Invocação e intercessão dos santos - “Onias que tinha sido sumo sacerdote (já falecido) (…) com as mãos levantadas orava por todo o povo judeu” – II Macabeus 15:12. “Senhor, Todo-Poderoso, Deus de Israel, ouvi a oração dos mortos de Israel (…)” – Baruc 3:4.

3- A Doutrina
Historicamente falando, o verdadeiro pai da ideia de um Purgatório foi o bispo de Hipona, St. Agostinho (354-430).
Recordamos que a Igreja Romana para poder fundamentar as suas doutrinas, teve que recorrer, seja à Tradição seja aos livros Apócrifos. A homologação da Tradição e dos Apócrifos ao nível das Escrituras, irá ser decretada nos Concílios. Assim, esta confissão religiosa define-o assim: “(…). Há um Purgatório e as almas, ali detidas, são socorridas pelas orações dos fiéis e especialmente pelo aceitável sacrifício do Altar”. Depois, o Catecismo, refere que a formulação doutrinária inerente foi elaborada no Concílio de Florença (1439) e no de Trento (1545-1563). O apoio escriturístico da doutrina, isto é, - a prática da oração em favor dos mortos - encontra-se, dizem: - “na Sagrada Escritura”! Perguntamos: Mas, em que Escrituras? E quando vamos procurar nas ditas Escrituras encontramos unicamente a menção do lote dos – Livros Apócrifos! Livros que este sistema religioso sabe perfeitamente, assim como toda a cristandade restante que estes não pertencem ao Cânone Sagrado!
No entanto, para provarem as suas doutrinas, meramente humanas, vão ao ponto de reafirmar que estes livros têm autoridade! Qual a base de apoio a tal postulado? A inspiração divina? Eis a resposta que não deixa margem para dúvidas: “Estes livros, porém, têm precisamente a mesma autoridade que tem o Evangelho de S. Mateus, ou qualquer outra parte da Bíblia; porque a canonicidade das Sagradas Escrituras baseia-se unicamente na autoridade da Igreja Católica, que as proclamou inspiradas”. Respondido assim com tal prepotência, quanto a nós, ficámos esclarecidos!
O Papa João Paulo II, após lhe ter sido perguntado se realmente existia o Paraíso, o Purgatório e o Inferno, respondeu assim acerca do Purgatório: “Um argumento muito convincente acerca do purgatório foi-me oferecido, para além da bula de Bento XII, no século XIV, pelas obras místicas de S. João da Cruz. A chama viva de amor, de que fala, é antes de mais uma chama purificadora. As noites místicas, descritas por este grande doutor da Igreja a partir da sua própria experiência são, em certo sentido, aquilo que corresponde ao purgatório” (sublinhado nosso). Perguntamos: onde está, uma vez mais a base escriturística para tal doutrina? Uma vez mais, unicamente nos pensamentos e palavras humanas!
Cremos ter toda a razão de ser, invocar aqui a parábola do Rico e do pobre Lázaro. Sem entrarmos na profundidade das lições que encerra e para trazer um pouco de luz à temática que estamos a abordar, destacaremos um pormenor tremendamente importante e elucidativo. Qual o contexto? A parábola refere que “morreu o mendigo e foi levado para o seio de Abraão; morreu o rico e foi sepultado” – v. 22. Depois, este de onde estava “no inferno e viu Lázaro no seio de Abraão” – v. 23. A seguir solicita a Abraão para que tenha misericórdia dele e que mande Lázaro para o aliviar dos seus tormentos – cf. v. 24. Depois, Abraão recorda-lhe que isso não pode acontecer, pois está um em cada lado – cf. v. 25,26.
Finalmente chegamos ao interessante v. 26 que diz: “Além disso, entre nós e vós foi estabelecido um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão pouco vir daí para junto de nós” – S. Lucas 16:26 (sublinhado nosso). Este interessante texto suscita-nos uma pergunta: por que é que não existe aqui o tal lugar intermediário como o ensina esta confissão religiosa? O prezado leitor saberá responder? Quanto a nós, também reconhecemos a nossa ignorância! O que sabemos, à luz do texto, é que de um lado para o outro não há qualquer ponte de acesso! Por outro lado, Jesus mostra-nos que não conhece nem reconhece qualquer doutrina que se assemelhe à do purgatório! Tão simples, não é verdade? Quanto a nós cremos que sim!

Conta-se que certa vez, um sacerdote sem grande experiência e acabado de chegar à sua nova paróquia, viu-se confrontado com algumas perguntas embaraçosas sobre este assunto. As pessoas perguntavam para onde iam os mortos, se ali eram felizes ou não! Em caso contrário, quando saiam de lá para outro local mais agradável? Mas a pergunta mais difícil de responder era a seguinte: «Quantas missas eram necessárias para sufragar uma alma»?
O jovem sacerdote, embaraçado com estas questões, resolveu apresentá-las ao seu superior hierárquico, visto que não sabia quantas missas eram necessárias para que uma alma transitasse do purgatório para o céu? Com todo o ar paternalista, este velho homem experiente, disse-lhe:
- Meu filho, tu não sabes quantas missas são necessárias para sufragar uma alma?
O jovem olhou para o seu superior e respondeu candidamente:
- Não sei – foi a resposta!
De seguida, o seu interlocutor disse:
- Bem… as missas necessárias para sufragar uma alma, para que esta possa transitar do purgatório para o céu, meu filho, são tantas quantas as bolas de neve necessárias para acender uma fogueira!

O prezado leitor já experimentou, no Inverno, acender a sua lareira na sala com a ajuda de bolas de neve? Quantas serão necessárias? Pensamos que será muito difícil, para não dizer, impossível, com elas acender seja o que for! Muito menos uma fogueira!
Os mortos, segundo as Escrituras, aguardam na sepultura a ressurreição para a vida eterna, pelo poder da voz de Deus. Recordemos a morte e ressurgimento de Lázaro - o amigo de Jesus - aquele que morava em Betânia. O texto diz que, só quatro dias, após a sua morte é que Jesus chegou junto da família enlutada! Depois, acompanhado das irmãs do falecido, dirigiu-se ao túmulo onde Lázaro fora sepultado. Ali, Jesus fala para dentro do túmulo. Repare nas palavras de Jesus: bradou em alta voz, dizendo: “Lázaro, sai para fora. E o defunto saiu (…)” - S. João 11:43,44. Ora, o que é que aconteceu ali, quais os factos, após Lázaro ter saído do túmulo? Vejamos:

1- Total inconsciência do ressuscitado – desde a altura que ali foi colocado, até que saiu!
2- Jesus não ordenou: “Espírito, desce”! mas - “Lázaro, sai”!

Como podemos ver, uma vez mais, se o espírito se encontrasse em algures e consciente, então por que é que o Senhor não ordenou: “Espírito, desce”? Realmente, prezado leitor, já reparou que, quando nos afastamos da clareza dos ensinos da Palavra de Deus, não sabemos como responder! Já prevendo situações embaraçosas, S. Paulo nos deixou escrita esta tão preciosa informação: “Não queremos, irmãos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para não vos entristecerdes como os outros que não têm esperança (…). Por ocasião da vinda do Senhor, nós, os que estivermos vivos, não precederemos os mortos. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do Céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens; iremos ao encontro do Senhor nos ares e assim estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, portanto uns aos outros com estas palavras”- I Tessalonicenses 4:13-18.
Que palavras! Que esperança! Que consolo! Graças a Deus que não nos deixou na ignorância acerca dos que já dormem (morreram). É esta, prezado amigo, a bendita esperança de todo o cristão, de todo aquele que interioriza o ensino da Sagrada Escritura.
Como já acima abordámos, para as duas mulheres (Igrejas), Deus tem um “resto” – a Igreja, aquela que observa e guarda a Palavra, a Verdade – para o nosso tempo. Resta-nos uma suprema certeza: A Palavra de Deus não mente acerca de qualquer assunto. Na carta de Tiago, a este propósito é-nos dito que: “na esperança da vida eterna prometida desde os mais antigos tempos pelo Deus que não mente” - Tito 1:2
A doutrina bíblica, ela, prezado leitor, é justa, porque os vivos determinam o seu próprio destino. Recorde-se do que já referimos atrás – as indulgências! Estas serviram, no passado, para explorar escandalosamente os crentes vivos, pobres e ricos, sob o pretexto de ajudar os mortos a saírem o mais rapidamente possível de um purgatório imaginário que a Bíblia, como vimos, ignora totalmente.
Martinho Lutero, como vimos, indignou-se com esta forma de extorsão de dinheiro ao pobre crente, quando ele sabia que “a Igreja do Castelo de Vitemberg continha relíquias capazes de assegurar aos devotos cerca de cento e trinta mil anos de indulgências”! Relíquias, e coisas afins! A salvação à mercê de coisas feitas e existentes à imagem e semelhança humanas – para os crentes! E quanto à Igreja que as inventava? “ As relíquias dos santos valiam mais do que o ouro ou as pedras preciosas; estas incitaram o clero a multiplicar os tesouros da Igreja. Sem muita atenção à verdade ou à probalidade, os padres inventaram nomes para esqueletos e acções para nomes”.
Prezado amigo, não se ganha o céu num hipotético e imaginário purgatório ou noutra forma de existência qualquer! É aqui e agora que tudo se joga – durante a nossa vida. Quanto ao mais, tudo não passa de ideias, de comentários meramente humanos!

BIBLIOGRAFIA:
Edward Gibbon, op. cit, Vol. I, pp. 180,181
Pierre Ducassé, As Grandes Correntes da Filosofia, 5ª ed., Lisboa, Ed. Europa-América, 1970, p. 30
Platão, Diálogos III – Apologia de Sócrates Críton, Fédon, 2ª ed. Lisboa, Ed. Europa-América, sd., Fédon, cap. XII, p. 98
Idem, cap. LXI, p. 159
Idem, cap. LXII, p. 160
Ibidem
Idem, cap. LXIII, p. 161
Na nota 14 de rodapé, da Bíblia dos Capuchinhos, esclarece-nos: “A passagem diz-nos como é eficaz a oração dos santos (mortos) perante Deus”.
Cf. Jacques Le Goff, O Nascimento do Purgatório, 2ª ed., Lisboa, Ed. Estampa, 1983, pp. 84-86
Cardeal Gbbons, op. cit., p. 209; Cf. Catecismo, p. 232, nº 1031
Catecismo, Idem
Idem, p. 233, nº 1032
Cardeal Gbbons, op. cit., p. 210
João Paulo II, Atravessar o Limiar da Esperança, pp. 165,172
J. Jeremias, As Parábolas de Jesus, p. 186

Nota: O nosso sincero agradecimento ao Dr. Ilídio Carvalho, mais um tema fascinante que nos oferece, claro e de palavra inteira, eis como ele trata o tema do Purgatório.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

SIMÃO BARJONAS

Se quisermos ser correctos, como, em sã consciência, poderemos explicar a primazia desta confissão religiosa, sobre uma outra qualquer sua congénere? Porquê a de Roma e não a de Antioquia, Constantinopla ou outra? A explicação que circula não é espiritual ou escriturística, mas só porque esta cidade era a capital do império – Roma!
Antes de abordarmos a nossa visão dos factos, passaremos a tecer breves comentários sobre o capítulo que tem por título - O Papa, o Anticristo do Apocalipse – que, na ocorrência, é o último do livro do autor. Aqui, para demonstrar o seu ponto de vista, na qualidade de sacerdote, o autor comenta o que um Pastor de outra confissão religiosa refuta da Primazia de Pedro. Vejamos:
1- Magistério: Direito ou Usurpação?
O autor declara que os Novos Movimentos religiosos “classificam o Papa como o Anticristo do Apocalipse”. Depois, diz que esta classificação é, nem mais nem menos, resultante da maneira “como é que se lê a Bíblia e se lê a própria história”. Tanto quanto nós saibamos, só existe uma única maneira de ler a Bíblia e a História! Sabe qual é, prezado leitor? É muito simples! O método é infalível! Isto é, ler realmente o que lá está – o documento - sem submeter o relatado às nossas convicções pessoais e ideias pré concebidas!
É assim que se faz em História: ler o documento, analisar o que lá se encontra e confirmar se o que sempre ensinámos, até ali, está conforme ao documento encontrado e lido! Só porque o conteúdo deste contradiz o nosso ensino, vamos rejeitá-lo ou adaptá-lo à nossa maneira de viver e de ensinar?! Isto é o que, infelizmente, se faz com demasiada vulgaridade! Só que esta atitude, nenhum ser vivente tem autoridade para praticá-la! Eis o método! E, por estranho que possa parecer, este método não é o que segue a confissão religiosa que ousa chamar a si o direito de catalogar tudo e todos! Claro, não à luz do que está escrito no tal livro, que, na ocorrência, é a Bíblia – a Norma. E porquê? Porque esta confissão religiosa, como temos vindo a ver até aqui, diremos que, para não sermos radicais, a quase globalidade das suas doutrinas, não tem base escriturística!
Portanto esta confissão religiosa está na mesma situação, ou pior, que as que cataloga e condena! Quem diria!
O autor denuncia um, entre outros tipos de interpretação – o Concordista. Mas, não é, por exemplo, este o método por excelência para o conhecimento e compreensão das Escrituras? Para que saibamos se a nossa interpretação está correcta, teremos, forçosamente, que a comparar com outros textos para que saibamos se determinada interpretação não contradiz o ensino dos demais profetas? Esta forma de proceder, repetimos, é praticamente desconhecida na confissão religiosa em causa! No entanto, prezado leitor, o conselho das Sagradas Escrituras é este mesmo! Ora veja: “Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se levantaram no mundo” – I S. João 4:1.
O conselho é sempre o mesmo! Aconselha, manda EXAMINAR. Mas onde? Será a Tradição? O Magistério da Igreja? Unicamente as Escrituras! Como avaliar pseudo profetas a não ser pelas Escrituras? Que outro método haverá? Só nesta confissão religiosa é diferente! E porquê? Porque, tal como o dissemos, ela pensa que é, ela própria, o Método!
Mais adiante e sempre a condenar os pressupostos utilizados pelo referido Pastor e não concordando com a forma, segundo ele “historicista”, “concordista” de ver a Palavra de Deus, diz que o seu interlocutor “é pródigo em misturar alhos com bugalhos. A última vez que um Papa falou ex cathedra foi Pio XII sobre a doutrina da Assumpção de Nossa Senhora”.
Portanto, o nosso autor ataca um pretenso erro de interpretação com um outro ainda maior – com a doutrina da Assunção de Maria ao céu – já por nós analisada! Este é um dos casos em que se aplica o adágio popular: “Na casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”!
Logo a seguir e voltando a agitar o fantasma do Concordismo – o qual, como acima já o referimos, o nosso autor não gosta, (pois só os que usa é que são os correctos), condena-o uma vez mais! De seguida, refutando e tentando anular o comentário e respectiva interpretação que aquele Pastor faz do texto - S. Mateus 16:18 - acrescenta este pensamento impregnado de erudição interpretativa, semelhante à que temos vindo a destacar ao longo deste trabalho, a saber: “Não foi o Jesus histórico que pronunciou aquelas palavras sobre Simão, filho de Jonas, mas a Igreja de Mateus que as colocou na boca de Jesus (…)” (sublinhado nosso).
Só por este rasgo clarividente de interpretação das Sagradas Escrituras, facilmente deixa adivinhar que nunca se chegará a lado algum, em termos ecuménicos! Seremos só nós que não concordamos com tais afirmações gratuitas? Veja-se, a este propósito, o que outros afirmam, não nós, pobres historiadores! Somos informados que: “a palavra de Mateus 16:17 e seguinte é autêntica, ela foi pronunciada por Jesus (…)”. Ou este autor também é duvidoso? Nunca se sabe!
Que nos seja permitido abrir aqui um pequeno parêntesis: A este propósito realçaremos a maneira como o nosso autor interpreta as Escrituras. A este propósito e para mostrarmos, uma vez mais, a teimosia do autor em querer torcer as Escrituras, num dos seus escritos, para provar que o evangelho de S. Mateus foi escrito tardiamente, pega num relato deste evangelho que diz: “(…) a fim de que sobre vós caia todo o sangue do justo Abel, ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar.” – S. Mateus 23:35 (sublinhado nosso).
O texto de S. Mateus unicamente transcreve um outro do Antigo Testamento, que é: “O Senhor enviou-lhes profetas para que eles se convertessem (…). Então o espírito de Deus desceu sobre Zacarias, filho do sacerdote Jojada (…). Mas eles revoltaram-se contra ele e apedrejaram-no por ordem do rei no átrio do templo do Senhor (…)” – II Crónicas 24:19-21. (sublinhado nosso).
Ora, os dois textos apresentam um nome diferente para o pai de Zacarias! Assim, o nosso autor chega à brilhante (!) conclusão, aliás, semelhante às que já nos habituou, dizendo: “O mais natural é que se refira ao martírio de Zacarias perpetrado pelos Zelotas no ano 68 (…) o redactor-autor do evangelho refere com toda a certeza o mártir Zacarias do ano 68. Desta feita, as maldições de Jesus contra os fariseus de Mateus 23 não foram pronunciadas por Jesus, mas postas na boca de Jesus pela comunidade cristã de Mateus (…)”. (sublinhado nosso). É caso para perguntar: Como será possível chegar-se a tais afirmações? Já reparou na força, na convicção do nosso autor?! Apesar das meias certezas, sempre vai tirando as suas conclusões!
Façamos um quadro comparativo para vermos com mais realce as diferenças:
Fizemos algumas consultas para tentar saber a que Zacarias é que Jesus se refere, tendo em conta, como já o referimos que, segundo os textos, o pai deste aparece com nomes diferentes!
Como resultado das nossas consultas, apercebemo-nos que a questão nada tem de nova! Aliás, porventura haverá alguma coisa nova debaixo dos céus? Outros comentadores já pensaram na solução milagrosa apresentada pelo nosso autor, portanto, - em nada inédito! Mas, curiosamente, esta foi abandonada por várias razões:

1- O nome do pai, no texto de Flávio Josefo, não é o mesmo daquele que aqui é tratado.
2- O texto de S. Mateus, não contém a menor alusão a acontecimentos futuros, mas no passado, como por exemplo: “(…) que matastes”.
3- Jesus, ao citar o acontecimento, unicamente, apontava para todos os crimes perpetrados e mencionados desde o primeiro livro do Cânone do Seu tempo - (Génesis), até aos mencionados no último livro deste mesmo Cânone - (II Crónicas). Nota: (Noção de amplitude e conteúdo do Cânone já, por nós, abordada anteriormente).

Várias soluções são propostas para uma plausível explicação. Vejamos uma entre outras: “(…) algum copista a tenha inserido, por confusão, ou substituído o nome de Jojada por aquele que se lê logo no começo do livro do profeta Zacarias, crendo assim dar-lhe mais autoridade moral ou literária: “(…) Zacarias, filho de Baraquias (…)” – Zacarias 1:1
Portanto, quem poderá ter razão? Será, como já vem sendo hábito, que serão as conclusões apressadas e sem o mínimo de fundamento do autor! Este conclui, curiosamente, sem hesitação: “O mais natural é que se refira ao martírio de Zacarias perpetrado pelos Zelotas no ano 68 (…) o redactor-autor do evangelho refere com toda a certeza o mártir Zacarias do ano 68. Desta feita, as maldições de Jesus contra os fariseus de Mateus 23 não foram pronunciadas por Jesus, mas postas na boca de Jesus pela comunidade cristã de Mateus (…)”. Que o prezado leitor, em plena liberdade e sã consciência, possa também ter uma opinião sobre tais conclusões. Ora recordemos os postulados do nosso autor:

1- “O mais natural é que se refira “;
2- “refere com toda a certeza”;
3- “as maldições de Jesus (…) não foram pronunciadas por Jesus, mas postas na boca de Jesus pela comunidade cristã de Mateus”

Estas conclusões, repetimos, academicamente falando, são muito estranhas de perceber, de tão deficientes que são!
Sabe, prezado leitor, estas palavras do nosso autor avivam-nos a memória para uma pequena história que se conta acerca de uma personagem da historiografia portuguesa da segunda metade do Século XIX – Oliveira Martins.
Este homem muito dinâmico e versátil, conviveu com nomes bem sonantes da nossa praça das letras, integrando um famoso grupo conhecido por – Os Vencidos da Vida – nome, aliás, por ele dado! Este integrava nomes como: Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, entre outros!
Conta-se que Oliveira Martins quando escrevia a sua - História de Portugal – ia submetendo os diferentes manuscritos para apreciação, à pessoa de Éça de Queirós. Certa vez, ao escrever acerca do Fontismo, e em particular sobre aquele que deu origem a este slogan – Fontes Pereira de Melo (1818-1887), aconteceu algo de interessante!
A dada altura, o escritor, começa a descrever uma cena, hipoteticamente passada no gabinete do visado - Fontes Pereira de Melo. E, para lhe dar mais realismo, acrescentou: “Fontes Pereira de Melo, sentado na sua cadeira de cabedal, recostado para trás e, tirando um charuto, cortando a ponta do mesmo, acendeu um fósforo e começou a fumar; saboreava o charuto, lançando o fumo para o ar, calmamente (…)!
Conta-se, repetimos, que Eça, ao ler o referido manuscrito e, em particular o teor que acabámos de transcrever, parece que lhe escreveu, dizendo: “Mas, tu, Oliveira Martins, estavas lá a ver o que descreves? Estavas?!” Ouvimos, numa aula de literatura, repetimos, este episódio. Corresponde à verdade dos factos? Para aqui é o que menos importa! O que interessa é que, quanto a nós ilustra perfeitamente a citação referida pelo nosso autor!
Tal como Eça de Queirós perguntou a Oliveira Martins, de igual modo também o perguntamos ao nosso autor: Como é que sabe que “não foi Jesus que pronunciou aquelas palavras sobre Simão, mas sim a Igreja de Mateus, que as colocou na boca de Jesus”? O nosso autor esteve lá? A mesma pergunta se estenderá às fontes das quais o autor, eventualmente, se tenha recorrido para suporte de tais afirmações! Diríamos, com mais acerto, conclusões!
Para o nosso autor, repetimos, nada conta, em termos de métodos interpretativos, tais como: Historicismo, Literalismo, Concordismo; o que ele diz, isso sim, corresponde, infalivelmente, aos acontecimentos relatados na Palavra de Deus, como se tivesse sido, quiçá, testemunha ocular! O nosso autor é, pois, a última palavra! Compreendemos, contudo, e em certa medida o nosso autor, este não faz mais do que ser o reflexo do sistema religioso em que está inserido!
Não é assim que esta confissão religiosa faz? Como qualificar o método – ex cathedra? Assim somos informados: “Desta infalibilidade goza o pontífice romano(…) quando proclama, por um acto definitivo, um ponto de doutrina respeitante à fé ou aos costumes (...) deve-se aderir na obediência na fé a tais definições". Portanto este procedimento é aplicável unicamente ao pontífice romano, não ao nosso autor, por enquanto! Assim, as suas afirmações, tal como esta doutrina da infalibilidade, não é para levar a sério, pela simples razão que partem de postulados meramente humanos!
Portanto, se fosse verdade o que o autor refere acerca dos textos das Escrituras, perguntamos: Quem saberá quem disse o quê? Tudo se põe, dispõe e compõe a nosso belo prazer! Assim, como é que se chamará esta forma de interpretar as Escrituras? Certamente que isto não é INTREPRETAÇÃO mas sim MUTILAÇÃO do texto! Mas, quem somos nós para julgar!
Um outro exemplo é o que o autor refere acerca do famoso texto de S. Mateus: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja (…).” S. Mateus 16:18 Mas, uma vez mais, sendo o autor a última palavra, esclarece: “Não foi o Jesus histórico que pronunciou aquelas palavras sobre Simão filho de Jonas, mas a Igreja de Mateus que as colocou na boca de Jesus”. Afinal, o que ele (Jesus) disse, não foi Ele que disse! Segundo este, tal como acabámos de ler, foi a Igreja quem as proferiu e as pôs na boca d’Ele! Em matéria interpretativa, estamos mais do que esclarecidos! Realmente, quem faria melhor!
Graças a Deus que o autor declara que: “A riqueza da Bíblia está nesta maneira multifacetada de abordarmos o mistério de Deus”. Isto porque diz, e muito bem, a nosso ver, que cada autor dos evangelhos vê, à sua maneira, os acontecimentos que envolveram Jesus. Assim, como resultado destas diferentes perspectivas, temos várias vertentes da vida do nosso Salvador. Um evangelho realça mais um aspecto; outro, o vê diferentemente, acrescentando este ou aquele pormenor, etc, etc. Para exemplificarmos o que queremos dizer, vejamos, o evangelho de S. Lucas. Este, por exemplo, é o único a relatar que, quando Jesus ao ser baptizado sai da água, ora e o céu se abre; ouve-se, logo de seguida, uma voz de aprovação do acto – cf. S. Lucas 3:21; é também o único a inserir a genealogia de Jesus (3:23) entre o Seu baptismo (3:21) e a tentação (4:1), enfatizando assim uma teologia tipicamente Paulina!
Dizemos isto para mostrar que, na diversidade, é que reside a complementaridade e também, em consequência, haverá muito mais luz sobre este ou aquele pormenor que um outro evangelista só relata muito ao de leve, sem detalhe! Vejamos outro exemplo bastante elucidativo. O evangelho de S. Mateus refere que Jesus, um pouco antes da Sua prisão, que o levaria ao Calvário, foi para o Getsêmani orar; enquanto que o de S. Lucas contém detalhes suplementares. Iremos mostrá-los através de um quadro comparativo e assim realçar as diferenças entre estes dois evangelhos:

Se virmos bem, acerca do que se passou, entre o tempo que Jesus os deixou um pouco à parte, e quando voltou, o evangelho de S. Mateus é omisso! Enquanto que o de S. Lucas sobre a mesma cena, já nos revela o que é que aconteceu naquele pequeno espaço de tempo entre as duas situações:

1- Precisa a distância a que Jesus se afastou;
2- O aparecimento de um anjo;
3- A agonia com que orava e o suor como sangue.

Portanto, repetimos, são estes pormenores que demonstram a riqueza dos evangelhos, que, neste caso, diz respeito a um aspecto do ministério de Jesus. Mas o mesmo se poderá dizer e fazer para qualquer ponto doutrinário, até porque é altamente temerário e perigoso elaborar um ponto de doutrina, unicamente, alicerçado num único texto das Escrituras! Portanto, quer queiramos, quer não, sempre, contrariamente ao que refere o nosso autor, nós temos o direito e o dever de proceder à comparação dos textos para que possamos realçar o seu todo harmónico!
Voltando ao nosso autor: Este termina o seu comentário ao dito Pastor acerca dos textos que, segundo os quais, demonstra que S. Pedro nada tem que ver com Roma e, muito menos, com o absurdo da titulatura de Papa – S. Mateus 16:16; 18:18; S. João 21:15-17. Pobre, dizemos nós, Simão Barjonas! Mal imaginaria ele que, um dia, iria estar na base de um reino temporal, algo que o seu Mestre nunca tolerou aos Seus contemporâneos ao tentarem entronizá-Lo como rei dos Judeus (político e espiritual) - S. João 6:15!
Finalmente, conclui que: “foi a partir deste texto de João 21:15-17 e Mateus 16:19 que o Concílio Vaticano I (1870) concluiu que Jesus deu autoridade própria a Pedro em relação aos outros Apóstolos com a respectiva sucessão deste primado no decurso da história”. (sublinhado nosso). Não queremos ser tidos como detractores ou demolidores do nosso autor; certos autores, mais inteligentes do que nós, a este respeito, nos dizem que: “nem a Escritura, nem a história da Igreja antiga não permitem fazer do primado romano um direito divino (…) nem justificam um tal princípio de sucessão”. Assim, para o nosso autor, o Concílio decidiu – está decidido – nem mais!
Ainda como nota final, acerca dos textos em questão, afirma: “que são redaccionais, isto é, não foram proclamados directamente pelo Jesus histórico, mas pelo Jesus apostólico que se confunde com a própria Igreja”. (sublinhado nosso). Poderíamos perguntar: 1- Em que é que o autor se apoia para fazer esta dicotomia em Cristo Jesus? 2- “Confunde-se com a própria Igreja”; mas qual Igreja? A confissão religiosa que o representa e conhece, ou a anónima, dita – Igreja primitiva – cândida e pura até, grosso modo, ao IV século d.C.?
Enfim, este conjunto de homens e mulheres “(…) que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” – Apocalipse 12:17. Uma vez mais, prezado leitor, a abordagem é desigual, isto é, o que o Pastor disse ao interpretar sob este ou aquele método as Escrituras, seja qual for o resultado obtido, estará sempre incorrecto aos olhos do nosso autor, pois este é todo poderoso! Coitado de quem ouse refutar ou ter uma interpretação diferente, mesmo que apoiada nas Escrituras!
Queremos dizer com isto que continuamos a não saber por que é que os textos são puramente “redaccionais”; assim como não conseguimos adivinhar por que é que o autor, à luz de que pressupostos, diz ou escreve, com toda a convicção de que estes ditos não “foram proclamados directamente pelo Jesus histórico, mas pelo Jesus apostólico (…)”! (sublinhado nosso). Reiteramos o que acima dissemos: o autor estava lá para saber? Viu ou perguntou a alguém coevo?
Uma vez mais reiteramos a nossa total ignorância acerca deste malabarismo de palavras, deste manusear a gosto pessoal! Perguntamos: a que disciplina pertencerá? Histórica? Não certamente, porque o autor lhe tem horror! Concordista? Muito menos, porque vai ao sabor daquele que o usa! Liberalista? Também não, porque não se pode ser escravo do texto e, dever-se-á evitar a todo o custo, ser chamado de “literalista psicologizante”. Fundamentalista? Nem pensar, porque isso cheira ao mais baixo e redutor Protestantismo!
Então, qual é o método do autor? Diríamos que é o mesmo de sempre – o do sistema romano! Esta confissão religiosa, apesar de ser tida como qualquer outra, chama a si, inexplicavelmente, a primazia em matéria espiritual, de fé! Aliás como vem consagrado no Catecismo desta confissão, acerca da definição de Magistério: “O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus (…) foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo, isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma”. (sublinhado nosso). Quer, o prezado leitor, algo mais estreito, chamar-lhe-emos de: teologia de funil! Pois é tacanha e redutora tal afirmação!
O nosso autor, à luz do teor do Catecismo e na qualidade de sacerdote desta confissão religiosa, está totalmente autorizado a interpretar as Escrituras como quiser e bem entender, visto estar “em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma”! Aliás, não foi sempre assim que fez, ao longo da sua triste história, a confissão religiosa que representa? Enquanto que este Pastor, quem é?! Segundo o Catecismo, este não está em consonância com o pretenso “sucessor de Pedro”, logo, sem qualquer autoridade para interpretar seja o que for e, muito menos, as Escrituras!
Como, prezado leitor, o dito poder de julgar os outros é tão efémero e subjectivo! Queira Deus que o nosso autor nunca tenha de exercer o seu ministério num país muçulmano; ali, em minoria, curiosamente, deixa de ser a – Norma - e, como tal, perde o direito de catalogar quem é seita e quem não é!
Já reparou, prezado amigo que, num país deste género, esta confissão religiosa, a ser tolerada não passa, agora neste preciso contexto, de uma seita como outra qualquer! Compreende agora melhor o que dissemos acerca das duas mulheres (Igrejas)? Deus fala, repetimos, de um remanescente, isto é, todo e qualquer que O aceitar como seu Salvador.

Bibliografia:
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 267 (Doutorado em Teologia, sacerdote e professor da Igreja Católica em Portugal)
Ibidem
Idem, p. 269
Idem, p. 273
Idem, p. 274
Oscar Cullmann, Saint Pierre, Disciple-Apôtre-Martyr, Neuchatel, Ed. Delachaux & Niestlé, 1952, p. 191
Joaquim Carreira das Neves, OFM, Jesus Cristo História e Fé, Braga, Editorial Franciscana, 1989, pp. 46,47
Flávius Josèphe, op. cit., 2ª parte, Livro IV, XIX, p. 813
Para pormenores da questão – cf. Manuel de Tuya O. P., op. cit., pp. 376,377
António Pinto Ravana, “OLIVEIRA MARTINS, Joaquim Pedro de” in Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Lisboa, Publicações Alfa, 1990, Vol. II, p. 56
Cf. Jorge Miguel Pedreira, “FONTES PEREIRA DE MELO, António Maria de”, in Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Vol. I, pp. 263-265
Catecismo, pp. 206,207, nº 891
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 274
Idem, p. 276
A expressão “tiro de pedra” equivale mais ou menos a uns 30 metros. Cf. Manuel de Tuya, O.P., op. cit., p. 425
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 285
Oscar Cullmann, Saint Pierre, Disciple-Apôtre-Martyr, p. 213
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 285
Cf. Idem, pp. 275,276
Catecismo, p. 36, nº 85

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SIMÃO: PEDRA OU ROCHA

Quanta tinta, como se costuma dizer, esta personagem bíblica já fez correr para justificação de tão diferentes interesses! Esta confissão religiosa afirma ter nela as suas raízes, nomeadamente, o sistema papal. A Igreja Ortodoxa crê que o seu patrono é o apóstolo S. João! Jesus morreu, Simão Barjonas também. Então não será lógico que S. João, sendo o último a morrer dos doze, ele possa ser, de pleno direito, o sucessor de Cristo? Até porque, quando Jesus se isolava, com Ele estava sempre – Simão Barjonas, Tiago e João – cf. Mateus 26:37; II Pedro 1:17,18; I João 1:1-5.
O problema do primado de Simão Barjonas repousa sobre dois textos das Escrituras, a saber: 1- S. João 1:42; 2- Mateus 16:18. Iremos abordar, à luz da Bíblia e da história da Igreja estes dois textos e as suas implicações, tentando compreender sem qualquer partidarismo religioso, os textos em causa. De igual modo, tentar mostrar que, o sistema papal, a exemplo das demais doutrinas anteriormente analisadas, não tem qualquer fundamento bíblico!

Simão, o Homem
Este homem seria, provavelmente, mais velho que Jesus. Ele tinha um irmão que se chamava André – cf. S. João 1:40. Como profissão, tinha ofício de pescador – cf. S. Mateus 4:18 – e chamava-se Simão Barjonas (Simão, filho de Jonas) – cf. S. Mateus 16:17. Simão era casado – cf. S. Mateus 8:14; morava em Betsaida – cf. S. João 1:44. Eis aqui o perfil de um homem do povo, de natureza rude e sem nenhuma instrução escolar.
Quando analisamos a sua personalidade tal qual está descrita nos evangelhos encontramos alguns traços de carácter que definem admiravelmente este homem:

1- Impulsivo
2- Pronto a crer como a duvidar
3- Temerário e, ao mesmo tempo, tímido
4- Fervoroso e, em simultâneo, cobarde

Enfim, qualidades e defeitos que existem em qualquer um de nós - humanos como ele - nem mais nem menos, não é verdade?!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

SIMÃO, NO EVANGELHO DE S. JOÃO

Recordemos o texto em lide: “E levou-o a Jesus. Fitando-o, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de Jonas; chamar-te-ás Cefas» (que quer dizer Pedra)” – S. João 1:42. Portanto desde agora, este homem, crismado por Jesus, chamar-se-á – Cefas (o Pedra). Invariavelmente será chamado de: 1- Simão Barjonas; 2- Simão Cefas; 3- Simão, Petros (palavra grega, não traduzida, visto aparecer muitas vezes assim ao lado da palavra Simão).
O contexto indica-nos que foi o seu irmão André que o levou até à presença do Mestre. E é na Sua presença que o evangelista S. João nos dá a conhecer o que acabámos de transcrever. Quanto a nós, para já, passou-se algo de muito estranho logo ao primeiro encontro - Jesus muda-lhe o nome!
Vejamos um pouco o texto: Jesus recorda o seu nome de nascimento – Simão, filho de Jonas – e, de seguida, como vimos, dá-lhe um outro nome – Cefas, que traduzido é: Pedra! Quanto a nós, ficamos sem saber o porquê de tal mudança, e questionamo-nos, claro está, acerca do aparentemente estranho procedimento de Jesus em relação a este homem! Como acabámos de ver acima, quando descrevemos o - homem Simão – pudemos ver algumas das suas características que englobavam defeitos e virtudes! Seria por causa desta variedade de características que Jesus achou por bem mudar-lhe o nome?
Que significado tem o nome para um israelita? Segundo somos informados “a essência de uma pessoa concentra-se no seu nome. Um homem sem nome é desprovido não só de significado, como também de existência. O nome contém uma dinâmica, um poder que exerce uma acção constrangedora sobre aquele que o usa”. Como acabámos de ver, o nome tem uma relação directa com o carácter da pessoa. Por outro lado, subjacente a esta noção de nome, está, não só, esta primeira ideia de – carácter, personalidade – como também, a de um novo nascimento!
Na realidade, o texto e contexto que nos ocupa vão exactamente nesta direcção! O que aqui está a acontecer é exactamente o mesmo que sucedeu no diálogo de Jesus com o doutor da Lei – Nicodemos – cf. S. João 3:1-10. O processo não é novo, pois nas Escrituras, um rei guerreiro ao declarar guerra a um outro e, caso o vencesse, o que é que acontecia ao vencido? Nada mais do que: 1- Morto; 2- Escravo e levado pelo seu senhor; 3- Na melhor das hipóteses, ficava a governar, como antes! Só que o vencedor, imediatamente, lhe mudava o nome.
A este propósito, vejamos alguns exemplos bíblicos:

• Faraó – O rei do Egipto destronou-o em Jerusalém e impôs ao país uma contribuição (tributo) de cem talentos de prata e um talento de ouro. Em seu lugar, pôs no trono de Jerusalém a Eliaquim, irmão de Joacaz, a quem mudou o nome para Joaquim (…) – II Crónicas 36:3,4.

• Nabucodonosor – “(…) o rei de Babilónia levou-os cativos para Babilónia. Em lugar de Joiaquim, o rei de Babilónia proclamou rei seu tio Matatias cujo nome mudou para Sedecias” – II Reis 24:16,17

Estes relatos falam-nos de monarcas vencidos e tornados vassalos dos vencedores. Mas não acontecia somente a este nível! Aconteceu também com certos nobres da corte. E para ficarmos entre nomes conhecidos, lembremo-nos do profeta Daniel e dos seus amigos!
Recordemos o texto que relata a sua deportação para Babilónia: “O rei deu ordem a Aspenaz, chefe dos criados, que lhe trouxesse jovens israelitas, descendentes de raça real ou família nobre (…). Entre estes Daniel, Hananias, Misael e Azarias (…). O chefe dos criados impôs-lhes novos nomes: a Daniel, o de Baltasar, a Ananias, o de Sidrac, a Misael, o de Misac e a Azarias, o de Abed-Nego” – Daniel 1:3-7.
Portanto, dentro deste preciso contexto, é como se se operasse um novo nascimento! Aliás, comparemos esta forma de proceder com o que nos é relatado no livro do Génesis, quando ali é dito que Deus fez passar perante Adão todos os animais. E para quê? Para que este lhes desse um nome! Vejamos o texto em questão: “Então, o Senhor Deus (…) conduziu-os até junto do homem, afim de verificar como ele os chamaria (…)” – Génesis 2:19. Assim, em termos teológicos, de certa maneira, este também participou na Criação, visto que “os animais e as plantas começam a existir realmente a partir do momento em que se lhes dá o nome”.
Ainda para realçar a importância do nome, recordemos um outro episódio do Antigo Testamento: O futuro rei de Israel, David, foge da presença do rei Saúl para os montes. Certo dia, cheio de fome, tal como os que o acompanhavam, desce ao povoado e solicita víveres a um fazendeiro abastado, cujo nome era – Nabal. Este recusa ajudar David. Este, furioso, reúne os seus homens e prepara-se para arrasar com tudo o que pertença ao fazendeiro. Só que, entretanto, a mulher deste ao saber da intenção de David e dos seus, apressa-se a vir interceder pelo marido – I Samuel 25:1-24.
Como é que ela o irá fazer, quais foram os seus argumentos? O texto claramente nos dá a conhecer a forma como esta se dirige a David: “Que o meu senhor não faça caso desse perverso Nabal, porque é um néscio e um insensato como o seu nome o indica (…)” – I Samuel 25:25. (sublinhado nosso). Portanto, a palavra Nabal, cujo significado é – loucura – estava a condizer com o carácter daquele que o possuía. Possuir era, simultaneamente, ser possuído por este!
Assim, era necessário qualificar a personalidade de Simão Barjonas – tal nome, tal carácter! Só que, no caso de Simão Barjonas, passava-se exactamente o contrário! Neste caso, o nome não correspondia, de modo algum, à personalidade da pessoa em causa! O seu nome era Simão! Qual o seu significado? Este quer dizer: Deus ouviu! Será, prezado leitor, que este Simão era, na realidade, um homem que sabia ouvir, tendo em conta o que dissemos, tal qual os evangelhos nos relatam? Que dizer, por exemplo, da sua inconstância? Vejamos, por exemplo, como certa vez, Simão Barjonas se confessou a favor do Mestre: “Mesmo que tenha de morrer Contigo, não Te negarei (…)” – S. Mateus 26:35. Um pouco mais tarde, acerca deste mesmo Mestre, ao qual tinha prometido fidelidade, dirá: “(…) não conheço este homem” – S. Mateus 26:72!
Saber ouvir é, por inerência, saber escutar e, saber escutar, significa obedecer! A este propósito, recordemos o que nos diz a carta aos Romanos quando caracteriza a entrada do pecado no mundo: “Porque como pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornaram justos” – Romanos 5:19. Aqui encontramos duas acções expressas por um mesmo verbo: OBEDECER.
No grego, o verbo – peitharcheô – significa: obedecer, seguir o conselho de. Este verbo encontramo-lo nalguns textos, nomeadamente em: 1- Actos 5:29,31,32 - “Pedro e os demais apóstolos responderam: «Importa mais obedecer a Deus do que aos homens» (…) A fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados (…) que Deus tem concedido àqueles que Lhe obedecem”; 2- Tito 3:1 - “Aconselha-os a que se sujeitem aos magistrados e às autoridades, que lhes obedeçam (…)”.
Ou em formas verbais a esta ligadas – peithô - com a mesma significação: 1- Gálatas 5:7 – “(…) Quem vos impediu de obedecer à verdade?”; 2- Hebreus 13:17 – “Sede submissos e obedecei aos que vos guiam (…)”; 3- Tiago 3:3 – “Quando pomos o freio na boca do cavalo, para que nos obedeça, dirigimos todo o seu corpo”.
O curioso em tudo isto, é que, por exemplo, no texto de Romanos, apesar de encontrarmos este verbo, na tradução em português, não o encontramos no original grego! A expressão que S. Paulo usou e que foi traduzida por – Obediência - é: UPAKOUÔ (a favor da voz de, ceder); para – Desobediência – é a palavra: PARAKOUÔ (ao lado da voz).
Até aqui, tudo bem. Mas que relação tem o que acabámos de ver com o nome de Simão Barjonas? Sabia que a palavra que S. Paulo usou, traduzida por – obediência - tem como base o verbo - Ouvir? Pois é, prezado leitor, esta palavra – UPAKOUÔ (obediência) - compõe-se do prefixo – UPER (a favor de) + o radical – AKOUÔ (ouvir). A palavra – PARAKOUÔ (desobedecer) - compõe-se do prefixo – PARA (ao lado de) + o mesmo radical. Assim, todo aquele que é favorável a ouvir, logo, esse é obediente; por outro lado, todo aquele que permanece ao lado de ouvir, então torna-se, devido à sua atitude, desobediente!
Então, se tivermos isto em consideração como contexto de avaliação, o homem Simão, cujo nome significa – Deus ouviu – tinha um nome que não se ajustava, de modo algum, à sua personalidade! Devido à sua inconstância, Simão demonstrou, muitas vezes, que - permanecia ao lado do ouvir !
Vejamos a segunda parte do versículo: “chamar-te-ás Cefas” – S. João 1:42. A palavra Cefas vem do aramaico – Kephas – e que é traduzido para a língua grega por: PETROS (Pedra, dureza, insensibilidade). Sob esta panorâmica das coisas, pensamos estar em condições para interpretar o pensamento de Jesus e compreender o novo nome que dá a Simão Barjonas. Assim, parafraseando o texto de S. João 1:42, é como se Jesus tivesse dito: “O teu nome é, com efeito, Simão, isto é, aquele que sabe ouvir! Mas como a tua personalidade nada tem que ver com tal nome, então dar-te-ei um que esteja mais em consonância com a tua personalidade, ou seja – Cefas (Pedra, seixo rolante)” - indício de inconstância!
Experimente, prezado leitor! Tente colocar um seixo em pé e veja se o consegue! Devido ao seu equilíbrio instável, em breves segundos, se o largamos, estará totalmente deitado no chão! Assim era Simão: ora em pé, ora caído! Eis a característica da sua personalidade! Eis o nome, segundo Jesus, que mais condizia com a personalidade daquele que se passaria a chamar: Cefas (Pedra, seixo rolante)!
Autores, ao comentarem esta vertente, dizem: “Kephas não era um nome próprio, mas a designação de uma realidade (…)” (sublinhado nosso). Isto quer dizer que, no contexto em que foi aplicado, a palavra – Pedro – não existe e, muito menos, aplicada ao irmão de André, até porque a palavra Pedro não é, de modo algum, a tradução de: Kephas!
Assim, para este evangelho, o verdadeiro nome deste homem, segundo Jesus, é – Simão, Cefas (o Pedra), ou Simão Petros (o Pedra) – nada mais!

BIBLIOGRAFIA:
Edmond Jacob, op. cit., p. 33; cf. Gerhard Von Rad, Théologie de l’Ancien Testament, 3ª ed., Genève, Ed. Labor & Fides, 1971, Vol. I, p. 161
O peso de um talento sofre pequenas oscilações entre os diferentes autores. Aqui apresentamos um destes que nos informa que um talento pesa cerca de 34,272 kg. Cf. André Chouraqui, op. cit., p. 155
Mircea Eliade, op. cit., p. 177, nota 5
A.. Van Den Born, “Simeão”, in Diccionário Enciclopédico da Biblia, col. 1439
Isidro Pereira, S.J., op. cit., p. 458
Oscar Cullmann, “Pedro” in Gerhard Kittel, A Igreja no Novo Testamento, S. Paulo, Ed. ASTE, 1965, p. 298
Oscar Cullmann, Saint Pierre, Disciple-Apôtre-Martyr, p. 16
Isidro Pereira, S.J., op. cit., p. 443
F. Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker, Léxico do Novo Testamento Grego / Português, S. Paulo, Edições Vida Nova, 1984, p. 162
Isidro Pereira, S.J., op. cit, p. 588; 2ª parte, p. 205
Introdução ao Estudo do Novo Testamento Grego, 8ª ed., Brail, Ed. Juerp, 1986, p.192, nota 529
Idem, p. 232

quarta-feira, 21 de julho de 2010

SIMÃO, NO EVANGELHO DE S. MATEUS

Neste evangelho, encontramos o seguinte texto: “Também Eu te digo: Tu és PETROS (Pedra) e sobre esta PETRA (Rocha) edificarei a Minha Igreja (…)” – S. Mateus 16:18 (sublinhado nosso). No evangelho de S. João, como vimos, este propõe-nos o termo aramaico Kephas e a sua respectiva tradução. Neste, foi conservada a matriz grega de duas palavras: PETROS e PETRA, só que, sem tradução proposta pelo próprio evangelho!
Que significarão estas duas palavras tão parecidas – PETROS e PETRA? Acompanhemos a leitura do seguinte comentário explicativo: “O substantivo feminino Petra designa no grego profano preferentemente uma “rocha” grande e firme (…). O substantivo masculino Petros é aplicado geralmente a blocos rochosos e isolados, bem como a pedras pequenas, tais como a pederneira e a pedra de arremessar”. Portanto, para já, parecem claros os respectivos significados das palavras propostas pelo evangelho:
 PETROS = Pedra pequena de arremessar;
 PETRA = Rocha grande e firme.
À luz desta preciosa informação, façamos uma pequena pesquisa bíblica. Esta palavra: PETRA (Rocha) – aparece apenas cinco vezes no Novo Testamento: 1- Mateus 16:18; 2- Romanos 9:33; 3- I Coríntios 10:4; 4- I Pedro 2:8; 5- Apocalipse 6:15. A nível da tradução encontramos algumas variantes sobre a mesma palavra, o que não deixa de ser bastante significativo e, ao que parece, demonstra certa intenção dos tradutores da versão por nós seguida! Vejamos o quadro comparativo:
Aqui encontramos a palavra – PETRA – ora traduzida por: “Rocha, rochedo”, ora por “Pedra”! No texto de S. Mateus 16:18, a mesma palavra foi traduzida por “Pedra” , para estar em maior consonância com a palavra aramaica – Kephas (pedra de arremessar) dada no evangelho de S. João, aplicada a Simão Barjonas!
Ora, se no texto de S. Mateus, se trata da mesma pessoa, então será mais do que natural que a tradução assim seja, para que a acção recaia sobre a mesma pessoa – Simão Barjonas!
Pelo quanto pudemos ver até aqui, traduziríamos o texto de S. Mateus da seguinte maneira: “(…) Tu és PETROS (pedra, seixo de arremessar), e sobre esta PETRA (Rocha grande e firme) edificarei a minha Igreja (…)”.
Quão bom é que nos abeiremos dos textos, respeitando o que eles dizem, e não fazendo dizer o que queremos que digam! É devido a exemplos destes, traduções tendenciosas e afins que, infelizmente, assistimos ao nascimento de todo o tipo de Movimentos religiosos.
Assim, repetimos, o que o Senhor disse a Simão Barjonas: que este se chamaria Simão PETROS (pedra, seixo de arremessar), um nome que correspondesse com a sua conhecida instabilidade emocional, e nunca Simão PEDRO, tal como vulgarmente o conhecemos, visto que este nome – PEDRO - e nunca é demais repetir, não significa coisa alguma!
E depois, prezado leitor, por um instante, imaginemos que Jesus quisesse chamá-lo pelo nome próprio de Pedro! O que quereria Jesus dizer com este novo nome, repetimos, caso fosse, como querem fazer crer, um nome próprio? Jesus estava a caracterizar quem e o quê? Confessemos que não compreenderíamos esta atitude de Jesus – dar um nome por dar, sem que este tivesse qualquer significado! A palavra Pedro, tal como a conhecemos, significa o quê? Caso cheguemos a alguma conclusão, define o quê? E se o compararmos com o contexto até aqui desenvolvido, que sentido terá este nome próprio – Pedro - para que este substituísse o de Simão?
Para colocarmos ainda mais em destaque este raciocínio façamos uma simples comparação com outro caso paradigmático, embora em contexto diferente:

Ora, por que é que estes foram assim chamados?
1- Quanto a Simão – tal como já o vimos, este sobrenome tinha a única finalidade de fazer jus aquilo que Simão era - “(…) um homem inconstante”;
2- Quanto a Tiago e a João – somos, de novo esclarecidos sempre no mesmo propósito, pois este sobrenome era para “(…) qualificar o seu ímpeto”. (sublinhado nosso). Nada mais!
Para que não tenhamos qualquer dúvida acerca do seu carácter e impulsividade, leiamos um episódio, passado com estes dois irmãos, para nos apercebermos a que ponto estes tinham os nervos à flor da pele, como se costuma dizer. As Escrituras assim o revelam: “Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-Se repreendeu-os” – S. Lucas 9:54,55.
Portanto, caríssimo leitor, uma vez mais reiteramos que: as palavras – PEDRO e BOANERGES; estas não são - NOMES PRÓPRIOS - mas qualificativos de uma personalidade - uma qualidade de carácter! Se fossem nomes próprios, como vulgarmente se aplica a Simão, então porquê só à pessoa deste e não a estes dois irmãos – Tiago e João? No mínimo é INJUSTO! E depois, se Jesus não quisesse dizer isto mesmo, isto é, qualificá-los, para que lhes iria acrescentar um nome próprio ao anterior? Só para mudar por mudar? Só, para que, tal como vimos acima, acerca da problemática do nome, isto é, quando alguém dá o nome a outrém tem, de imediato, direitos acrescidos sobre eles? Claro que não!
Não creia o prezado leitor que estamos sozinhos nesta conclusão! Ora veja: “(…) o propósito não era mudar-lhes o nome, em sinal de domínio sobre eles”. Será possível ainda continuar a chamar-lhe – Pedro - quando o seu verdadeiro nome é SIMÃO BARJONAS?! Geralmente, é com esta designação que é referenciado nas Escrituras: Simão PETROS (o pedra), - para melhor definir o seu carácter inconstante! E assim ficará conhecido na história bíblica!
Por outro lado, perguntamos: Se, ao nos referirmos a Simão, chamamos-lhe sempre – PETROS (traduzido erroneamente por PEDRO, como vimos); então por que é que, ao citarmos estes dois irmãos – Tiago e João – nunca os chamamos e conhecemos pelos seus respectivos apelidos (alcunhas) de: BOANERGES (Filhos do trovão)? Quando queremos citar S. João e S. Tiago nas Escrituras – citamos os seus nomes, não a sua alcunha, característica que apontava para os seus defeitos de carácter - Boanerges (Filhos do trovão). Mas, quando queremos citar Simão Barjonas, as suas epístolas, não o citamos pelo seu verdadeiro nome, mas pela alcunha - CEFAS (PETROS = Pedra) – PORQUÊ? Não só o tratamento é desigual, como também se Simão Barjonas ressuscitasse ficaria triste por lhe chamarem por um nome que nunca conheceu! Porquê? Pela simples razão que nunca o teve! E ninguém gosta de ser chamado pelo nome de outro não é verdade?!
Não deixa de ser curioso quando comparamos alguns textos, para vermos realçado o recurso aos diferentes nomes desta personagem. Vejamos:

O que é que salta aos nossos olhos deste quadro comparativo? Ora veja:
1- Coluna do Apelido: - Agindo assim, cremos que o Senhor coloca em destaque a personalidade inconstante desta personagem! Em todas as promessas; em tudo o que se relaciona com o seu comportamento dúbio, está sempre associado o seu apelido.

2- Coluna do Nome de nascimento: - Vemos que no texto que antecede a famosa declaração – S. Mateus 16:18, Jesus elogia a mesma personagem! E como a trata? Simplesmente pelo seu nome de nascimento: “Simão Barjonas” – S. Mateus 16:16.
Depois, a maneira como Jesus fala com ele, para o reabilitar, visto que O negou três vezes! Como é que Jesus faz? Uma vez mais, recorre ao seu nome de nascimento e não ao apelido! Porque aqui Jesus chama-o, reabilita-o, igualmente, por três vezes! Era necessário passar de PETROS (pedra, seixo instável) para, Simão (o que obedece, o que sabe ouvir)!
Certa vez andaram à procura deste discípulo de Jesus e, como é que perguntaram por ele? Vejamos: “Envia, pois, emissários a Jope e manda chamar Simão, cujo sobrenome é… (Petros – o pedra) ” – Actos 10:32. Como sempre, o seu verdadeiro nome, em primeiro lugar, depois, o apelido, a alcunha, pela qual também era conhecido!
Estaremos a ser radicais, prezado leitor? Pensamos que os textos nos revelam exactamente esta vertente – basta querer vê-la! No entanto, caso estejamos enganados, seremos os primeiros a reconhecer, após análise das respectivas provas documentais!
Um caso parecido com este é o do filho de Abraão – Isaac! Este sim, é um nome próprio! Mas, qual a sua origem? A Palavra de Deus nos esclarece. Uma promessa tinha sido feita a Abraão e Sara, sua mulher; estes iriam ter um filho! Só que, pela sua avançada idade, após este anúncio, ambos se riram!
Vejamos: “(…) Sara, tua mulher, terá um filho (…)” – Génesis 18:10; “Sara riu-se (…)” – v. 12; “(…) a quem chamarás Isaac (…)” – 17:19; “Ao filho que lhe nascera, deu Abraão o nome de Isaac” – 21:3. Porquê este nome e não outro qualquer? A razão é muito simples! Só porque riram da promessa, pois bem, esta falha estaria para sempre diante de si, na pessoa do seu filho! Este nome “Isaac (Yishak’el) tem como raiz o verbo (Sahak = rir)”.
Assim, prezado leitor, “o filho da promessa está, pelo seu nome, associado ao rir de Abraão e de Sara (…)”. Portanto, cada vez que pronunciassem aquele nome recordar-se-iam da sua falha de carácter. Cada vez que o chamassem, na nossa língua diziam: “Ó risota, vem cá”; ou ainda “Ó risota, vai ali comprar ou fazer isto ou aquilo”, etc, etc. Neste caso, é um NOME PRÓPRIO. Não uma “alcunha” ou apelido como o termo “PETROS”!
Se ainda restassem quaisquer dúvidas, bastaria perguntar: Como é possível, à luz do texto de S. Mateus, a mesma personagem – Simão – ser, em simultâneo PETROS (pedra pequena, tal como a pederneira e a pedra de arremessar) e PETRA (rocha grande e firme)? Só mesmo querendo fazer dizer aquilo que o texto não diz! Ou a Jesus, o que nunca pensou ou disse! A nós, de tirarmos as ilações que se impõem!
b) A opinião dos Pais da Igreja
Os Pais da Igreja afirmam que a Pedra de fundação da Igreja é a confissão que Simão tinha acabado de fazer, isto é, que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo. Antes de mais, bastaria recordar o texto citado acima, de S. Paulo ao afirmar peremptoriamente que “(…) todos bebiam de um (PETRA) rochedo espiritual que era Cristo” – I Coríntios 10:4; e também o próprio Simão que, ao citar o Antigo Testamento – Isaías 28:16 - declara, no texto supra, que Cristo, ele e só ele, é a “(…) (PETRA) pedra, de escândalo” – I Pedro 2:8. (Aqui traduziríamos, para estar em consonância com as restantes traduções e também com o original, a palavra PETRA, por rocha, rochedo). Dúvidas, quem as terá? Só com muito má vontade em não querer aceitar a evidência da clareza textual! Vejamos alguns testemunhos dos Pais da Igreja:
 S. Hilário de Poitiers (316-367) – “Ele, a nossa única e inamovível fundação, a nossa bendita e única rocha da fé, é a confissão feita pela boca de Pedro”.
 S. João Crisóstomo (354-407) – a) “Ele é que construiu a Sua Igreja sobre a confissão de Pedro (…)”. b) “Sobre esta confissão (de Pedro) Eu edificarei a Igreja (…)”.
 S. Agostinho (354-430) – Sobre esta rocha, disse Ele, que tu confessaste, Eu edificarei a minha Igreja. Com efeito, Cristo era a rocha”.
 S. Gregório Magno, (590-604), Papa – “(…) mas persiste na fé verdadeira e a tua vida sobre a rocha da Igreja; isto é, sobre a confissão do bem-aventurado Pedro”. 
Bibliografia:

Manuel de Tuya, O. P., op. cit., p. 508
Ibidem
Alcunha” - Nome dado a alguém e geralmente derivado de certa particularidade física ou moral – cf. J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo, op. cit., p. 59
Gerhard Von Rad, La Genèse, p. 234
Frank Michaeli, Le Livre de La Genèse, Chap. 12 à 50, Genève, Ed. Delachaux et Niestlé, 1960, p. 57
Jacques Le Goff “História” in Enciclopédia Einaudi - Memória-História, p. 219
A. Van Der Born “Cláudio” in  A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 277
Gunther Bornkamm, Paul, Apôtre de Jésus-Christ, Genève, Ed. Labor et Fides, 1971, p. 139
Introdução ao Tratado sobre a Trindade, Livro 2.23
Homilias do Evangelho S. Mateus, Homilia 82.3 (S. Mateus 26:26-28)
Homilias do Evangelho S. João, Homilia 21.1 (S. João 1:49,50)
Comentário ao Evangelho de S. João, Tratado 124.5 (S. João 21:19-25)
Epístolas, Livro IV, Epístola 38
Vidas de Homens Ilustres, cap. 1
B. Hemelsoet “Pedro”  in  A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 1172
J. A. Thompson, op. cit., p. 276

domingo, 18 de julho de 2010

SIMÃO EM ROMA

Não somente a época da chegada de Pedro a Roma é controversa, como também se põe em dúvida a sua presença na capital do Império. Será que poderemos saber em que altura é que o apóstolo foi para Roma? Vejamos:

a) S. Jerónimo (374-420)
Este, fazendo eco de uma tradição que circulava, declarou que Simão Barjonas foi para Roma “(…) no segundo ano do imperador Cláudio e que ali esteve vinte e cinco anos até ao seu martírio no reinado de Nero”.
Ora se se aceita que a morte de Simão Petros ocorreu no ano 67 e se subtrairmos a esta data os tais 25 anos de pontificado, então quer dizer que encontramos a data da chegada do apóstolo a Roma, isto é, por volta do ano 42!

b) Tumultos em Roma
Recordaremos os acontecimentos graves e dolorosos passados em Roma. Sob o reinado de Cláudio os judeus foram alvo de uma violenta perseguição por causa de uns motins “instigados por um tal Crestus (…)”. As consequências destes acontecimentos são relatadas no livro dos Actos dos Apóstolos, desta maneira: “Paulo foi para Corinto e ali encontrou um judeu chamado Áquila (…) recentemente chegado de Itália com Priscila, sua mulher, porque um édito de Cláudio ordenara que todos os judeus se afastassem de Roma” – Actos 18:1,2.
O apóstolo S. Paulo ao escrever a epístola aos Romanos, estava bastante bem informado acerca dos crentes de Roma e, certamente, que este casal foi a sua grande fonte de informação. Este édito imperial foi “promulgado, provavelmente, no ano 49”; portanto, segundo os Pais da Igreja, Simão Petros já lá se encontrava no exercício do seu dito pontificado, desde o ano 42!
Uma vez mais, prezado leitor, o nome dos crentes Áquila e Priscila, são mencionados, mas… e o do Simão Petros? Qual o motivo desta lacuna em não se mencionar o seu nome, e logo de um pontífice!? Aconteceu, das duas uma. 1- Ou Simão Petros nunca lá esteve, pelo menos nesta altura; 2- Ou fugiu, cobardemente – o que nos recusamos a acreditar! Assim, sendo, como facilmente se compreenderá, nos enclinamos para a 1ª hipótese. Portanto, neste ano de 42 não existe qualquer vestígio de um pontificado em Roma exercido por Simão Petros!

c) A Epístola aos Romanos
Esta epístola foi escrita no ano 55/56. Assim, se tivermos em conta a data proposta pela Tradição, então Simão Petros, há cerca de 14 anos que já se encontrava em Roma, visto que, ali se encontraria desde o ano 42 na capital do Império a exercer o seu ministério à frente da Igreja existente ali!
Perguntamos: que se diria de um bispo ou arcebispo, que escrevesse directamente uma carta aos fiéis de uma Igreja de outra diocese e que, nesta, ignorasse a existência do seu condutor espiritual local? Se isto acontecesse com o prezado leitor, certamente que ficaria sentido e triste, não é verdade? Até porque… quem gosta de ser ignorado? No entanto, a ser verdade a data de 42, parece ter sido isto mesmo o que aconteceu a Simão Petros, caso ele ali tivesse estado a exercer o seu ministério, em Roma!
Este cenário, prezado leitor, é o que podemos imaginar quando lemos a dedicatória do primeiro capítulo da carta de S. Paulo aos crentes de Roma! Vejamos o texto: “Na verdade, desejo-vos ver, para vos comunicar alguma graça espiritual, a fim de vos fortalecer (…). Daí o empenho que há em mim de vos anunciar também o Evangelho, a vós que estais em Roma” – Romanos 1:11-15.
Perante esta dedicatória, a resposta que esta deveria merecer da parte dos crentes da Igreja de Roma, só deveria de ser UMA! Numa possível troca de correspondência, S. Paulo deveria ser recordado que, no mínimo foi INDELICADO! Esquecer-se de um princípio básico de ética, ou seja, ter negligenciado mencionar o nome do colega de ministério, ali residente! Ou ainda, hipoteticamente, esta surpresa dos crentes de Roma poderia ser expressa assim: - Mas Paulo, esqueces que o evangelho já nos foi anunciado no passado recente e, ainda por cima, pelo não menos famoso Simão Petros?
E quanto aos dons “espirituais capazes de nos fortalecer”, como tu dizes Paulo, quem está melhor colocado para o fazer do que o representante de Jesus na terra? Ignoras, porventura, este alto privilégio de o termos connosco desde há cerca de 14 anos a esta parte à frente da nossa Igreja, assim como, daqui liderando as demais à volta do mundo? Claro que estamos a imaginar esta resposta dos crentes de Roma à carta de S. Paulo! Mas, a ser verdade como quem a todo o custo quer que o seja, poderia, porventura, tudo acontecer muito diferente do quanto dissemos até aqui? Continuamos a pensar que não!
Mas, recordando o texto acima citado, nos apercebemos que, aqueles a quem Paulo se dirige têm necessidade urgente, não somente em adquirir um conhecimento espiritual mais aprofundado, como também em ser esclarecidos nas verdades, as mais elementares da fé cristã. O conteúdo desta epístola o prova, visto que nela o apóstolo Paulo envia avisos, conselhos, exortações de ordem prática. Todas estas coisas demonstram a evidência de que a Igreja de Roma ainda estava privada de certas directivas, que lhe faltava luz e instrução que só um apóstolo a poderia dar!
Como se isto ainda não fosse suficiente para demonstrar que Simão Petros ali não se encontrava ali, tal como é dito, desde o ano 42, vejamos ainda algo de mais estranho! Esta epístola contém, caso único no género, quase um capítulo inteiro só de saudações! Um após outro, todos os missionários vindos a Roma plantar em pleno coração do paganismo a bandeira do evangelho e, até, alguns dos convertidos, ali são mencionados. Ao todo são vinte e quatro mais ou menos conhecidos. Com palavras de extrema cortesia e de afecto, o apóstolo admiravelmente informado, talvez, como dissemos, por Áquila e Priscila; embora não conhecesse a maior parte, mesmo assim dirige a cada um uma homenagem fraternal.
Já viu, prezado leitor, o capítulo 16 desta epístola, contém 27 versículos e, entre tantos nomes só um nome não é mencionado… o do apóstolo Simão Petros! Que falta de consideração pela coluna da Igreja de Deus, que falta de respeito! Será, amigo leitor, que estamos a ser parciais ou tratar com certa leviandade e ligeireza os textos apresentados? Será que estamos a ser duros ao dizer que Simão Petros não esteve em Roma em 49 – data do édito de Cláudio - e que, à data da epístola, em 55/56, também não estava lá, tendo em conta a omissão do seu nome nas respectivas saudações, como vimos!
Não dizemos que Simão Petros nunca esteve em Roma, em termos de pontificado, mas afirmamos que, pelo menos, nas datas propostas esteve ausente de Roma! Choca-o, prezado leitor, a realidade e a dureza dos factos históricos? Sabe, isto acontece sempre, cada vez que confrontamos teorias humanas que queremos que colem com a realidade histórica, neste caso, bíblica!
Queremos recordar aqui, uma vez mais, que é na qualidade de historiadores que estamos a escrever este livro. Assim, para o historiador “A sua única habilidade consiste em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e nada acrescentar ao que neles não esteja contido. O melhor historiador é o que se mantém mais perto dos textos, que os interpreta com mais correcção, que só escreve e pensa segundo eles”. Por esta razão é que queremos ser o mais fiéis possível ao texto, ao documento, às provas. Não podemos inventar!
Reconhecemos que, por vezes, para que tudo aconteça como desejávamos que tivesse acontecido, alguns dão uma certa “mãozinha” aos factos ou aos escritos do passado! Só que este procedimento não é correcto nem académico! É para estes que a Palavra admoesta “(…) não procedemos com astúcia, nem adulteramos a palavra de Deus” – II Coríntios 4:2 Quanto a nós, prezado e amigo leitor, queremos permanecer ao lado da pura verdade e não das meras suposições, enfim, “numa palavra, as causas, em história como de resto em qualquer outro domínio, não se postulam. Investigam-se”! Que solene verdade, que tremenda e pesada responsabilidade!
Bibliografia:
Introdução ao Tratado sobre a Trindade, Livro 2.23
Homilias do Evangelho S. Mateus, Homilia 82.3 (S. Mateus 26:26-28)
Homilias do Evangelho S. João, Homilia 21.1 (S. João 1:49,50)
Comentário ao Evangelho de S. João, Tratado 124.5 (S. João 21:19-25)
Epístolas, Livro IV, Epístola 38
Vidas de Homens Ilustres, cap. 1
B. Hemelsoet “Pedro” in A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 1172
J. A. Thompson, op. cit., p. 276
A. Van Der Born “Cláudio” in A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 277
Gunther Bornkamm, Paul, Apôtre de Jésus-Christ, Genève, Ed. Labor et Fides, 1971, p. 139
Jacques Le Goff “História” in Enciclopédia Einaudi - Memória-História, p. 219