segunda-feira, 9 de agosto de 2010

O PURGATÓRIO

Existe, dizem, um determinado lugar onde se reúnem os Espíritos de todos os que morrem. Esta doutrina contraria frontalmente o claro ensino das Escrituras. Este local tem um nome – Purgatório! Aqui a Alma de tal pessoa purgará os seus pecados antes de possuir a eternidade!

1- As Origens
Analisemos, sumariamente, onde tudo isto começou, para que possamos sentir que esta ambiência nada tem com Deus. Os sábios da Grécia recusavam-se admitir que um ser como o homem pudesse, unicamente, estar confinado a um lugar na terra! Era necessário, que os seus feitos, a sua fama, fossem transportados para lá da memória. Assim “nesta favorável disposição recorriam à ajuda da ciência, ou melhor, à linguagem da metafísica. Não tardaram a descobrir que, dado nenhuma das propriedades da matéria se aplicar às operações da mente, a alma humana devia consequentemente ser uma substância distinta do corpo, pura, simples e espiritual, incapaz de dissolução e susceptível de um grau muito elevado de virtude e felicidade, após a saída da sua prisão corpórea”.

a) Concepção pagã de purificação após a morte

Esta noção de purificação está ligada ao filósofo grego Platão, que viveu no século IV a. C. Deste, chegou até nós uma obra em forma de diálogo que se chama Fédon. Vejamos alguns excertos:
1) A alma é exterior ao corpo - “E esta libertação e separação da alma em relação ao corpo não será aquilo a que se chama a morte? É exactamente isso”.
2) Definição do local para onde as almas vão - “O Aqueronte, para onde se dirigem as almas da maior parte dos mortos. Depois, de aí permanecerem um tempo marcado pelo destino, umas mais tempo, outras menos, são de novo mandadas para renascer no meio dos vivos”.
3) Os que tiveram um porte mediano de comportamento - “Aí ficam a residir enquanto se purificam. Se cometeram injustiças, pagam a respectiva pena e são absolvidos; se praticaram boas acções, obtêm a recompensa, cada um segundo o próprio mérito”.
4) Os que são considerados como incuráveis - “Devido à enormidade dos seus crimes, por haverem cometido múltiplos e graves sacrilégios, inúmeros homicídios contra a justiça e a lei ou qualquer outro delito do mesmo género, a esses cabe a sorte de serem precipitados no Tártaro, de onde não voltarão mais a sair”.

Um pouco mais à frente é dito que “defender que tais coisas sejam como eu as descrevi não é próprio de pessoa sensata; todavia, parece-me que assim, ou mais ou menos assim, deva ser no que se refere às nossas almas e às suas moradas, pois que aceitámos ser a alma imortal. Não é presunção defender tal coisa e, acreditando nela, vale a pena correr tal risco, um risco que é belo” (sublinhado nosso).
Para quê, prezado leitor, “correr tal risco” se a certeza, a VERDADE, está tão claramente demonstrada na Palavra de Deus?! É sobre esta forma de actuar que a Bíblia aconselha a toda a confissão religiosa, o seguinte: “Nada acrescentes às suas palavras, para que não te repreenda e sejas achado mentiroso” – Provérbios 30:6.
Vemos assim que, entre os pagãos, ao introduzir-se o cristianismo no mundo greco-romano, se acreditava na possibilidade de uma purificação após a morte. Quanto à Patrística e respectiva Igreja de Roma, não fizeram mais do que dar continuidade a esta crença que floresceu nesta sopa em que se tornou o cristianismo!

2- Os Apócrifos
Nada condizia nem condiz com nada e cada um ensinava, cria e praticava como era seu desejo, visto que a Norma, o Cânone, era, agora, após Trento, um todo confuso e contraditório! Enfim, um Cânone que se limitava-se a possuir unicamente o nome, nada mais! Assim, graças aos Apócrifos, se encontram, finalmente, justificadas as seguintes doutrinas, muito embora as Sagradas Escrituras as condenem claramente! Vejamos:
a) Oração em favor dos defuntos e sacrifício expiatório – “Porque, se não esperasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles. (…). Era este um pensamento santo e piedosos. Por isso, pediu um sacrifício expiatório para que os mortos fossem livres das suas faltas” – II Macabeus 12:44,46.
b) Oferta que expia os pecados e livra da morte - “Em verdade, a esmola liberta da morte e não permite que a alma desça para as trevas” – Tobias 4:10. “Pois a esmola livra da morte e limpa de todo o pecado” – Tobias 12:9.
c) Invocação e intercessão dos santos - “Onias que tinha sido sumo sacerdote (já falecido) (…) com as mãos levantadas orava por todo o povo judeu” – II Macabeus 15:12. “Senhor, Todo-Poderoso, Deus de Israel, ouvi a oração dos mortos de Israel (…)” – Baruc 3:4.

3- A Doutrina
Historicamente falando, o verdadeiro pai da ideia de um Purgatório foi o bispo de Hipona, St. Agostinho (354-430).
Recordamos que a Igreja Romana para poder fundamentar as suas doutrinas, teve que recorrer, seja à Tradição seja aos livros Apócrifos. A homologação da Tradição e dos Apócrifos ao nível das Escrituras, irá ser decretada nos Concílios. Assim, esta confissão religiosa define-o assim: “(…). Há um Purgatório e as almas, ali detidas, são socorridas pelas orações dos fiéis e especialmente pelo aceitável sacrifício do Altar”. Depois, o Catecismo, refere que a formulação doutrinária inerente foi elaborada no Concílio de Florença (1439) e no de Trento (1545-1563). O apoio escriturístico da doutrina, isto é, - a prática da oração em favor dos mortos - encontra-se, dizem: - “na Sagrada Escritura”! Perguntamos: Mas, em que Escrituras? E quando vamos procurar nas ditas Escrituras encontramos unicamente a menção do lote dos – Livros Apócrifos! Livros que este sistema religioso sabe perfeitamente, assim como toda a cristandade restante que estes não pertencem ao Cânone Sagrado!
No entanto, para provarem as suas doutrinas, meramente humanas, vão ao ponto de reafirmar que estes livros têm autoridade! Qual a base de apoio a tal postulado? A inspiração divina? Eis a resposta que não deixa margem para dúvidas: “Estes livros, porém, têm precisamente a mesma autoridade que tem o Evangelho de S. Mateus, ou qualquer outra parte da Bíblia; porque a canonicidade das Sagradas Escrituras baseia-se unicamente na autoridade da Igreja Católica, que as proclamou inspiradas”. Respondido assim com tal prepotência, quanto a nós, ficámos esclarecidos!
O Papa João Paulo II, após lhe ter sido perguntado se realmente existia o Paraíso, o Purgatório e o Inferno, respondeu assim acerca do Purgatório: “Um argumento muito convincente acerca do purgatório foi-me oferecido, para além da bula de Bento XII, no século XIV, pelas obras místicas de S. João da Cruz. A chama viva de amor, de que fala, é antes de mais uma chama purificadora. As noites místicas, descritas por este grande doutor da Igreja a partir da sua própria experiência são, em certo sentido, aquilo que corresponde ao purgatório” (sublinhado nosso). Perguntamos: onde está, uma vez mais a base escriturística para tal doutrina? Uma vez mais, unicamente nos pensamentos e palavras humanas!
Cremos ter toda a razão de ser, invocar aqui a parábola do Rico e do pobre Lázaro. Sem entrarmos na profundidade das lições que encerra e para trazer um pouco de luz à temática que estamos a abordar, destacaremos um pormenor tremendamente importante e elucidativo. Qual o contexto? A parábola refere que “morreu o mendigo e foi levado para o seio de Abraão; morreu o rico e foi sepultado” – v. 22. Depois, este de onde estava “no inferno e viu Lázaro no seio de Abraão” – v. 23. A seguir solicita a Abraão para que tenha misericórdia dele e que mande Lázaro para o aliviar dos seus tormentos – cf. v. 24. Depois, Abraão recorda-lhe que isso não pode acontecer, pois está um em cada lado – cf. v. 25,26.
Finalmente chegamos ao interessante v. 26 que diz: “Além disso, entre nós e vós foi estabelecido um grande abismo, de modo que, se alguém pretendesse passar daqui para junto de vós, não poderia fazê-lo, nem tão pouco vir daí para junto de nós” – S. Lucas 16:26 (sublinhado nosso). Este interessante texto suscita-nos uma pergunta: por que é que não existe aqui o tal lugar intermediário como o ensina esta confissão religiosa? O prezado leitor saberá responder? Quanto a nós, também reconhecemos a nossa ignorância! O que sabemos, à luz do texto, é que de um lado para o outro não há qualquer ponte de acesso! Por outro lado, Jesus mostra-nos que não conhece nem reconhece qualquer doutrina que se assemelhe à do purgatório! Tão simples, não é verdade? Quanto a nós cremos que sim!

Conta-se que certa vez, um sacerdote sem grande experiência e acabado de chegar à sua nova paróquia, viu-se confrontado com algumas perguntas embaraçosas sobre este assunto. As pessoas perguntavam para onde iam os mortos, se ali eram felizes ou não! Em caso contrário, quando saiam de lá para outro local mais agradável? Mas a pergunta mais difícil de responder era a seguinte: «Quantas missas eram necessárias para sufragar uma alma»?
O jovem sacerdote, embaraçado com estas questões, resolveu apresentá-las ao seu superior hierárquico, visto que não sabia quantas missas eram necessárias para que uma alma transitasse do purgatório para o céu? Com todo o ar paternalista, este velho homem experiente, disse-lhe:
- Meu filho, tu não sabes quantas missas são necessárias para sufragar uma alma?
O jovem olhou para o seu superior e respondeu candidamente:
- Não sei – foi a resposta!
De seguida, o seu interlocutor disse:
- Bem… as missas necessárias para sufragar uma alma, para que esta possa transitar do purgatório para o céu, meu filho, são tantas quantas as bolas de neve necessárias para acender uma fogueira!

O prezado leitor já experimentou, no Inverno, acender a sua lareira na sala com a ajuda de bolas de neve? Quantas serão necessárias? Pensamos que será muito difícil, para não dizer, impossível, com elas acender seja o que for! Muito menos uma fogueira!
Os mortos, segundo as Escrituras, aguardam na sepultura a ressurreição para a vida eterna, pelo poder da voz de Deus. Recordemos a morte e ressurgimento de Lázaro - o amigo de Jesus - aquele que morava em Betânia. O texto diz que, só quatro dias, após a sua morte é que Jesus chegou junto da família enlutada! Depois, acompanhado das irmãs do falecido, dirigiu-se ao túmulo onde Lázaro fora sepultado. Ali, Jesus fala para dentro do túmulo. Repare nas palavras de Jesus: bradou em alta voz, dizendo: “Lázaro, sai para fora. E o defunto saiu (…)” - S. João 11:43,44. Ora, o que é que aconteceu ali, quais os factos, após Lázaro ter saído do túmulo? Vejamos:

1- Total inconsciência do ressuscitado – desde a altura que ali foi colocado, até que saiu!
2- Jesus não ordenou: “Espírito, desce”! mas - “Lázaro, sai”!

Como podemos ver, uma vez mais, se o espírito se encontrasse em algures e consciente, então por que é que o Senhor não ordenou: “Espírito, desce”? Realmente, prezado leitor, já reparou que, quando nos afastamos da clareza dos ensinos da Palavra de Deus, não sabemos como responder! Já prevendo situações embaraçosas, S. Paulo nos deixou escrita esta tão preciosa informação: “Não queremos, irmãos que ignoreis coisa alguma a respeito dos mortos, para não vos entristecerdes como os outros que não têm esperança (…). Por ocasião da vinda do Senhor, nós, os que estivermos vivos, não precederemos os mortos. Quando for dado o sinal, à voz do arcanjo e ao som da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do Céu e os que morreram em Cristo ressurgirão primeiro. Depois, nós, os vivos, os que ficarmos, seremos arrebatados juntamente com eles sobre nuvens; iremos ao encontro do Senhor nos ares e assim estaremos para sempre com o Senhor. Consolai-vos, portanto uns aos outros com estas palavras”- I Tessalonicenses 4:13-18.
Que palavras! Que esperança! Que consolo! Graças a Deus que não nos deixou na ignorância acerca dos que já dormem (morreram). É esta, prezado amigo, a bendita esperança de todo o cristão, de todo aquele que interioriza o ensino da Sagrada Escritura.
Como já acima abordámos, para as duas mulheres (Igrejas), Deus tem um “resto” – a Igreja, aquela que observa e guarda a Palavra, a Verdade – para o nosso tempo. Resta-nos uma suprema certeza: A Palavra de Deus não mente acerca de qualquer assunto. Na carta de Tiago, a este propósito é-nos dito que: “na esperança da vida eterna prometida desde os mais antigos tempos pelo Deus que não mente” - Tito 1:2
A doutrina bíblica, ela, prezado leitor, é justa, porque os vivos determinam o seu próprio destino. Recorde-se do que já referimos atrás – as indulgências! Estas serviram, no passado, para explorar escandalosamente os crentes vivos, pobres e ricos, sob o pretexto de ajudar os mortos a saírem o mais rapidamente possível de um purgatório imaginário que a Bíblia, como vimos, ignora totalmente.
Martinho Lutero, como vimos, indignou-se com esta forma de extorsão de dinheiro ao pobre crente, quando ele sabia que “a Igreja do Castelo de Vitemberg continha relíquias capazes de assegurar aos devotos cerca de cento e trinta mil anos de indulgências”! Relíquias, e coisas afins! A salvação à mercê de coisas feitas e existentes à imagem e semelhança humanas – para os crentes! E quanto à Igreja que as inventava? “ As relíquias dos santos valiam mais do que o ouro ou as pedras preciosas; estas incitaram o clero a multiplicar os tesouros da Igreja. Sem muita atenção à verdade ou à probalidade, os padres inventaram nomes para esqueletos e acções para nomes”.
Prezado amigo, não se ganha o céu num hipotético e imaginário purgatório ou noutra forma de existência qualquer! É aqui e agora que tudo se joga – durante a nossa vida. Quanto ao mais, tudo não passa de ideias, de comentários meramente humanos!

BIBLIOGRAFIA:
Edward Gibbon, op. cit, Vol. I, pp. 180,181
Pierre Ducassé, As Grandes Correntes da Filosofia, 5ª ed., Lisboa, Ed. Europa-América, 1970, p. 30
Platão, Diálogos III – Apologia de Sócrates Críton, Fédon, 2ª ed. Lisboa, Ed. Europa-América, sd., Fédon, cap. XII, p. 98
Idem, cap. LXI, p. 159
Idem, cap. LXII, p. 160
Ibidem
Idem, cap. LXIII, p. 161
Na nota 14 de rodapé, da Bíblia dos Capuchinhos, esclarece-nos: “A passagem diz-nos como é eficaz a oração dos santos (mortos) perante Deus”.
Cf. Jacques Le Goff, O Nascimento do Purgatório, 2ª ed., Lisboa, Ed. Estampa, 1983, pp. 84-86
Cardeal Gbbons, op. cit., p. 209; Cf. Catecismo, p. 232, nº 1031
Catecismo, Idem
Idem, p. 233, nº 1032
Cardeal Gbbons, op. cit., p. 210
João Paulo II, Atravessar o Limiar da Esperança, pp. 165,172
J. Jeremias, As Parábolas de Jesus, p. 186

Nota: O nosso sincero agradecimento ao Dr. Ilídio Carvalho, mais um tema fascinante que nos oferece, claro e de palavra inteira, eis como ele trata o tema do Purgatório.

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

SIMÃO BARJONAS

Se quisermos ser correctos, como, em sã consciência, poderemos explicar a primazia desta confissão religiosa, sobre uma outra qualquer sua congénere? Porquê a de Roma e não a de Antioquia, Constantinopla ou outra? A explicação que circula não é espiritual ou escriturística, mas só porque esta cidade era a capital do império – Roma!
Antes de abordarmos a nossa visão dos factos, passaremos a tecer breves comentários sobre o capítulo que tem por título - O Papa, o Anticristo do Apocalipse – que, na ocorrência, é o último do livro do autor. Aqui, para demonstrar o seu ponto de vista, na qualidade de sacerdote, o autor comenta o que um Pastor de outra confissão religiosa refuta da Primazia de Pedro. Vejamos:
1- Magistério: Direito ou Usurpação?
O autor declara que os Novos Movimentos religiosos “classificam o Papa como o Anticristo do Apocalipse”. Depois, diz que esta classificação é, nem mais nem menos, resultante da maneira “como é que se lê a Bíblia e se lê a própria história”. Tanto quanto nós saibamos, só existe uma única maneira de ler a Bíblia e a História! Sabe qual é, prezado leitor? É muito simples! O método é infalível! Isto é, ler realmente o que lá está – o documento - sem submeter o relatado às nossas convicções pessoais e ideias pré concebidas!
É assim que se faz em História: ler o documento, analisar o que lá se encontra e confirmar se o que sempre ensinámos, até ali, está conforme ao documento encontrado e lido! Só porque o conteúdo deste contradiz o nosso ensino, vamos rejeitá-lo ou adaptá-lo à nossa maneira de viver e de ensinar?! Isto é o que, infelizmente, se faz com demasiada vulgaridade! Só que esta atitude, nenhum ser vivente tem autoridade para praticá-la! Eis o método! E, por estranho que possa parecer, este método não é o que segue a confissão religiosa que ousa chamar a si o direito de catalogar tudo e todos! Claro, não à luz do que está escrito no tal livro, que, na ocorrência, é a Bíblia – a Norma. E porquê? Porque esta confissão religiosa, como temos vindo a ver até aqui, diremos que, para não sermos radicais, a quase globalidade das suas doutrinas, não tem base escriturística!
Portanto esta confissão religiosa está na mesma situação, ou pior, que as que cataloga e condena! Quem diria!
O autor denuncia um, entre outros tipos de interpretação – o Concordista. Mas, não é, por exemplo, este o método por excelência para o conhecimento e compreensão das Escrituras? Para que saibamos se a nossa interpretação está correcta, teremos, forçosamente, que a comparar com outros textos para que saibamos se determinada interpretação não contradiz o ensino dos demais profetas? Esta forma de proceder, repetimos, é praticamente desconhecida na confissão religiosa em causa! No entanto, prezado leitor, o conselho das Sagradas Escrituras é este mesmo! Ora veja: “Caríssimos, não deis fé a qualquer espírito, mas examinai se os espíritos são de Deus, porque muitos falsos profetas se levantaram no mundo” – I S. João 4:1.
O conselho é sempre o mesmo! Aconselha, manda EXAMINAR. Mas onde? Será a Tradição? O Magistério da Igreja? Unicamente as Escrituras! Como avaliar pseudo profetas a não ser pelas Escrituras? Que outro método haverá? Só nesta confissão religiosa é diferente! E porquê? Porque, tal como o dissemos, ela pensa que é, ela própria, o Método!
Mais adiante e sempre a condenar os pressupostos utilizados pelo referido Pastor e não concordando com a forma, segundo ele “historicista”, “concordista” de ver a Palavra de Deus, diz que o seu interlocutor “é pródigo em misturar alhos com bugalhos. A última vez que um Papa falou ex cathedra foi Pio XII sobre a doutrina da Assumpção de Nossa Senhora”.
Portanto, o nosso autor ataca um pretenso erro de interpretação com um outro ainda maior – com a doutrina da Assunção de Maria ao céu – já por nós analisada! Este é um dos casos em que se aplica o adágio popular: “Na casa onde não há pão, todos ralham e ninguém tem razão”!
Logo a seguir e voltando a agitar o fantasma do Concordismo – o qual, como acima já o referimos, o nosso autor não gosta, (pois só os que usa é que são os correctos), condena-o uma vez mais! De seguida, refutando e tentando anular o comentário e respectiva interpretação que aquele Pastor faz do texto - S. Mateus 16:18 - acrescenta este pensamento impregnado de erudição interpretativa, semelhante à que temos vindo a destacar ao longo deste trabalho, a saber: “Não foi o Jesus histórico que pronunciou aquelas palavras sobre Simão, filho de Jonas, mas a Igreja de Mateus que as colocou na boca de Jesus (…)” (sublinhado nosso).
Só por este rasgo clarividente de interpretação das Sagradas Escrituras, facilmente deixa adivinhar que nunca se chegará a lado algum, em termos ecuménicos! Seremos só nós que não concordamos com tais afirmações gratuitas? Veja-se, a este propósito, o que outros afirmam, não nós, pobres historiadores! Somos informados que: “a palavra de Mateus 16:17 e seguinte é autêntica, ela foi pronunciada por Jesus (…)”. Ou este autor também é duvidoso? Nunca se sabe!
Que nos seja permitido abrir aqui um pequeno parêntesis: A este propósito realçaremos a maneira como o nosso autor interpreta as Escrituras. A este propósito e para mostrarmos, uma vez mais, a teimosia do autor em querer torcer as Escrituras, num dos seus escritos, para provar que o evangelho de S. Mateus foi escrito tardiamente, pega num relato deste evangelho que diz: “(…) a fim de que sobre vós caia todo o sangue do justo Abel, ao sangue de Zacarias, filho de Baraquias, que matastes entre o santuário e o altar.” – S. Mateus 23:35 (sublinhado nosso).
O texto de S. Mateus unicamente transcreve um outro do Antigo Testamento, que é: “O Senhor enviou-lhes profetas para que eles se convertessem (…). Então o espírito de Deus desceu sobre Zacarias, filho do sacerdote Jojada (…). Mas eles revoltaram-se contra ele e apedrejaram-no por ordem do rei no átrio do templo do Senhor (…)” – II Crónicas 24:19-21. (sublinhado nosso).
Ora, os dois textos apresentam um nome diferente para o pai de Zacarias! Assim, o nosso autor chega à brilhante (!) conclusão, aliás, semelhante às que já nos habituou, dizendo: “O mais natural é que se refira ao martírio de Zacarias perpetrado pelos Zelotas no ano 68 (…) o redactor-autor do evangelho refere com toda a certeza o mártir Zacarias do ano 68. Desta feita, as maldições de Jesus contra os fariseus de Mateus 23 não foram pronunciadas por Jesus, mas postas na boca de Jesus pela comunidade cristã de Mateus (…)”. (sublinhado nosso). É caso para perguntar: Como será possível chegar-se a tais afirmações? Já reparou na força, na convicção do nosso autor?! Apesar das meias certezas, sempre vai tirando as suas conclusões!
Façamos um quadro comparativo para vermos com mais realce as diferenças:
Fizemos algumas consultas para tentar saber a que Zacarias é que Jesus se refere, tendo em conta, como já o referimos que, segundo os textos, o pai deste aparece com nomes diferentes!
Como resultado das nossas consultas, apercebemo-nos que a questão nada tem de nova! Aliás, porventura haverá alguma coisa nova debaixo dos céus? Outros comentadores já pensaram na solução milagrosa apresentada pelo nosso autor, portanto, - em nada inédito! Mas, curiosamente, esta foi abandonada por várias razões:

1- O nome do pai, no texto de Flávio Josefo, não é o mesmo daquele que aqui é tratado.
2- O texto de S. Mateus, não contém a menor alusão a acontecimentos futuros, mas no passado, como por exemplo: “(…) que matastes”.
3- Jesus, ao citar o acontecimento, unicamente, apontava para todos os crimes perpetrados e mencionados desde o primeiro livro do Cânone do Seu tempo - (Génesis), até aos mencionados no último livro deste mesmo Cânone - (II Crónicas). Nota: (Noção de amplitude e conteúdo do Cânone já, por nós, abordada anteriormente).

Várias soluções são propostas para uma plausível explicação. Vejamos uma entre outras: “(…) algum copista a tenha inserido, por confusão, ou substituído o nome de Jojada por aquele que se lê logo no começo do livro do profeta Zacarias, crendo assim dar-lhe mais autoridade moral ou literária: “(…) Zacarias, filho de Baraquias (…)” – Zacarias 1:1
Portanto, quem poderá ter razão? Será, como já vem sendo hábito, que serão as conclusões apressadas e sem o mínimo de fundamento do autor! Este conclui, curiosamente, sem hesitação: “O mais natural é que se refira ao martírio de Zacarias perpetrado pelos Zelotas no ano 68 (…) o redactor-autor do evangelho refere com toda a certeza o mártir Zacarias do ano 68. Desta feita, as maldições de Jesus contra os fariseus de Mateus 23 não foram pronunciadas por Jesus, mas postas na boca de Jesus pela comunidade cristã de Mateus (…)”. Que o prezado leitor, em plena liberdade e sã consciência, possa também ter uma opinião sobre tais conclusões. Ora recordemos os postulados do nosso autor:

1- “O mais natural é que se refira “;
2- “refere com toda a certeza”;
3- “as maldições de Jesus (…) não foram pronunciadas por Jesus, mas postas na boca de Jesus pela comunidade cristã de Mateus”

Estas conclusões, repetimos, academicamente falando, são muito estranhas de perceber, de tão deficientes que são!
Sabe, prezado leitor, estas palavras do nosso autor avivam-nos a memória para uma pequena história que se conta acerca de uma personagem da historiografia portuguesa da segunda metade do Século XIX – Oliveira Martins.
Este homem muito dinâmico e versátil, conviveu com nomes bem sonantes da nossa praça das letras, integrando um famoso grupo conhecido por – Os Vencidos da Vida – nome, aliás, por ele dado! Este integrava nomes como: Ramalho Ortigão, Eça de Queirós, Guerra Junqueiro, entre outros!
Conta-se que Oliveira Martins quando escrevia a sua - História de Portugal – ia submetendo os diferentes manuscritos para apreciação, à pessoa de Éça de Queirós. Certa vez, ao escrever acerca do Fontismo, e em particular sobre aquele que deu origem a este slogan – Fontes Pereira de Melo (1818-1887), aconteceu algo de interessante!
A dada altura, o escritor, começa a descrever uma cena, hipoteticamente passada no gabinete do visado - Fontes Pereira de Melo. E, para lhe dar mais realismo, acrescentou: “Fontes Pereira de Melo, sentado na sua cadeira de cabedal, recostado para trás e, tirando um charuto, cortando a ponta do mesmo, acendeu um fósforo e começou a fumar; saboreava o charuto, lançando o fumo para o ar, calmamente (…)!
Conta-se, repetimos, que Eça, ao ler o referido manuscrito e, em particular o teor que acabámos de transcrever, parece que lhe escreveu, dizendo: “Mas, tu, Oliveira Martins, estavas lá a ver o que descreves? Estavas?!” Ouvimos, numa aula de literatura, repetimos, este episódio. Corresponde à verdade dos factos? Para aqui é o que menos importa! O que interessa é que, quanto a nós ilustra perfeitamente a citação referida pelo nosso autor!
Tal como Eça de Queirós perguntou a Oliveira Martins, de igual modo também o perguntamos ao nosso autor: Como é que sabe que “não foi Jesus que pronunciou aquelas palavras sobre Simão, mas sim a Igreja de Mateus, que as colocou na boca de Jesus”? O nosso autor esteve lá? A mesma pergunta se estenderá às fontes das quais o autor, eventualmente, se tenha recorrido para suporte de tais afirmações! Diríamos, com mais acerto, conclusões!
Para o nosso autor, repetimos, nada conta, em termos de métodos interpretativos, tais como: Historicismo, Literalismo, Concordismo; o que ele diz, isso sim, corresponde, infalivelmente, aos acontecimentos relatados na Palavra de Deus, como se tivesse sido, quiçá, testemunha ocular! O nosso autor é, pois, a última palavra! Compreendemos, contudo, e em certa medida o nosso autor, este não faz mais do que ser o reflexo do sistema religioso em que está inserido!
Não é assim que esta confissão religiosa faz? Como qualificar o método – ex cathedra? Assim somos informados: “Desta infalibilidade goza o pontífice romano(…) quando proclama, por um acto definitivo, um ponto de doutrina respeitante à fé ou aos costumes (...) deve-se aderir na obediência na fé a tais definições". Portanto este procedimento é aplicável unicamente ao pontífice romano, não ao nosso autor, por enquanto! Assim, as suas afirmações, tal como esta doutrina da infalibilidade, não é para levar a sério, pela simples razão que partem de postulados meramente humanos!
Portanto, se fosse verdade o que o autor refere acerca dos textos das Escrituras, perguntamos: Quem saberá quem disse o quê? Tudo se põe, dispõe e compõe a nosso belo prazer! Assim, como é que se chamará esta forma de interpretar as Escrituras? Certamente que isto não é INTREPRETAÇÃO mas sim MUTILAÇÃO do texto! Mas, quem somos nós para julgar!
Um outro exemplo é o que o autor refere acerca do famoso texto de S. Mateus: “Tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a Minha Igreja (…).” S. Mateus 16:18 Mas, uma vez mais, sendo o autor a última palavra, esclarece: “Não foi o Jesus histórico que pronunciou aquelas palavras sobre Simão filho de Jonas, mas a Igreja de Mateus que as colocou na boca de Jesus”. Afinal, o que ele (Jesus) disse, não foi Ele que disse! Segundo este, tal como acabámos de ler, foi a Igreja quem as proferiu e as pôs na boca d’Ele! Em matéria interpretativa, estamos mais do que esclarecidos! Realmente, quem faria melhor!
Graças a Deus que o autor declara que: “A riqueza da Bíblia está nesta maneira multifacetada de abordarmos o mistério de Deus”. Isto porque diz, e muito bem, a nosso ver, que cada autor dos evangelhos vê, à sua maneira, os acontecimentos que envolveram Jesus. Assim, como resultado destas diferentes perspectivas, temos várias vertentes da vida do nosso Salvador. Um evangelho realça mais um aspecto; outro, o vê diferentemente, acrescentando este ou aquele pormenor, etc, etc. Para exemplificarmos o que queremos dizer, vejamos, o evangelho de S. Lucas. Este, por exemplo, é o único a relatar que, quando Jesus ao ser baptizado sai da água, ora e o céu se abre; ouve-se, logo de seguida, uma voz de aprovação do acto – cf. S. Lucas 3:21; é também o único a inserir a genealogia de Jesus (3:23) entre o Seu baptismo (3:21) e a tentação (4:1), enfatizando assim uma teologia tipicamente Paulina!
Dizemos isto para mostrar que, na diversidade, é que reside a complementaridade e também, em consequência, haverá muito mais luz sobre este ou aquele pormenor que um outro evangelista só relata muito ao de leve, sem detalhe! Vejamos outro exemplo bastante elucidativo. O evangelho de S. Mateus refere que Jesus, um pouco antes da Sua prisão, que o levaria ao Calvário, foi para o Getsêmani orar; enquanto que o de S. Lucas contém detalhes suplementares. Iremos mostrá-los através de um quadro comparativo e assim realçar as diferenças entre estes dois evangelhos:

Se virmos bem, acerca do que se passou, entre o tempo que Jesus os deixou um pouco à parte, e quando voltou, o evangelho de S. Mateus é omisso! Enquanto que o de S. Lucas sobre a mesma cena, já nos revela o que é que aconteceu naquele pequeno espaço de tempo entre as duas situações:

1- Precisa a distância a que Jesus se afastou;
2- O aparecimento de um anjo;
3- A agonia com que orava e o suor como sangue.

Portanto, repetimos, são estes pormenores que demonstram a riqueza dos evangelhos, que, neste caso, diz respeito a um aspecto do ministério de Jesus. Mas o mesmo se poderá dizer e fazer para qualquer ponto doutrinário, até porque é altamente temerário e perigoso elaborar um ponto de doutrina, unicamente, alicerçado num único texto das Escrituras! Portanto, quer queiramos, quer não, sempre, contrariamente ao que refere o nosso autor, nós temos o direito e o dever de proceder à comparação dos textos para que possamos realçar o seu todo harmónico!
Voltando ao nosso autor: Este termina o seu comentário ao dito Pastor acerca dos textos que, segundo os quais, demonstra que S. Pedro nada tem que ver com Roma e, muito menos, com o absurdo da titulatura de Papa – S. Mateus 16:16; 18:18; S. João 21:15-17. Pobre, dizemos nós, Simão Barjonas! Mal imaginaria ele que, um dia, iria estar na base de um reino temporal, algo que o seu Mestre nunca tolerou aos Seus contemporâneos ao tentarem entronizá-Lo como rei dos Judeus (político e espiritual) - S. João 6:15!
Finalmente, conclui que: “foi a partir deste texto de João 21:15-17 e Mateus 16:19 que o Concílio Vaticano I (1870) concluiu que Jesus deu autoridade própria a Pedro em relação aos outros Apóstolos com a respectiva sucessão deste primado no decurso da história”. (sublinhado nosso). Não queremos ser tidos como detractores ou demolidores do nosso autor; certos autores, mais inteligentes do que nós, a este respeito, nos dizem que: “nem a Escritura, nem a história da Igreja antiga não permitem fazer do primado romano um direito divino (…) nem justificam um tal princípio de sucessão”. Assim, para o nosso autor, o Concílio decidiu – está decidido – nem mais!
Ainda como nota final, acerca dos textos em questão, afirma: “que são redaccionais, isto é, não foram proclamados directamente pelo Jesus histórico, mas pelo Jesus apostólico que se confunde com a própria Igreja”. (sublinhado nosso). Poderíamos perguntar: 1- Em que é que o autor se apoia para fazer esta dicotomia em Cristo Jesus? 2- “Confunde-se com a própria Igreja”; mas qual Igreja? A confissão religiosa que o representa e conhece, ou a anónima, dita – Igreja primitiva – cândida e pura até, grosso modo, ao IV século d.C.?
Enfim, este conjunto de homens e mulheres “(…) que guardam os mandamentos de Deus e têm o testemunho de Jesus” – Apocalipse 12:17. Uma vez mais, prezado leitor, a abordagem é desigual, isto é, o que o Pastor disse ao interpretar sob este ou aquele método as Escrituras, seja qual for o resultado obtido, estará sempre incorrecto aos olhos do nosso autor, pois este é todo poderoso! Coitado de quem ouse refutar ou ter uma interpretação diferente, mesmo que apoiada nas Escrituras!
Queremos dizer com isto que continuamos a não saber por que é que os textos são puramente “redaccionais”; assim como não conseguimos adivinhar por que é que o autor, à luz de que pressupostos, diz ou escreve, com toda a convicção de que estes ditos não “foram proclamados directamente pelo Jesus histórico, mas pelo Jesus apostólico (…)”! (sublinhado nosso). Reiteramos o que acima dissemos: o autor estava lá para saber? Viu ou perguntou a alguém coevo?
Uma vez mais reiteramos a nossa total ignorância acerca deste malabarismo de palavras, deste manusear a gosto pessoal! Perguntamos: a que disciplina pertencerá? Histórica? Não certamente, porque o autor lhe tem horror! Concordista? Muito menos, porque vai ao sabor daquele que o usa! Liberalista? Também não, porque não se pode ser escravo do texto e, dever-se-á evitar a todo o custo, ser chamado de “literalista psicologizante”. Fundamentalista? Nem pensar, porque isso cheira ao mais baixo e redutor Protestantismo!
Então, qual é o método do autor? Diríamos que é o mesmo de sempre – o do sistema romano! Esta confissão religiosa, apesar de ser tida como qualquer outra, chama a si, inexplicavelmente, a primazia em matéria espiritual, de fé! Aliás como vem consagrado no Catecismo desta confissão, acerca da definição de Magistério: “O encargo de interpretar autenticamente a Palavra de Deus (…) foi confiado só ao Magistério vivo da Igreja, cuja autoridade é exercida em nome de Jesus Cristo, isto é, aos bispos em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma”. (sublinhado nosso). Quer, o prezado leitor, algo mais estreito, chamar-lhe-emos de: teologia de funil! Pois é tacanha e redutora tal afirmação!
O nosso autor, à luz do teor do Catecismo e na qualidade de sacerdote desta confissão religiosa, está totalmente autorizado a interpretar as Escrituras como quiser e bem entender, visto estar “em comunhão com o sucessor de Pedro, o bispo de Roma”! Aliás, não foi sempre assim que fez, ao longo da sua triste história, a confissão religiosa que representa? Enquanto que este Pastor, quem é?! Segundo o Catecismo, este não está em consonância com o pretenso “sucessor de Pedro”, logo, sem qualquer autoridade para interpretar seja o que for e, muito menos, as Escrituras!
Como, prezado leitor, o dito poder de julgar os outros é tão efémero e subjectivo! Queira Deus que o nosso autor nunca tenha de exercer o seu ministério num país muçulmano; ali, em minoria, curiosamente, deixa de ser a – Norma - e, como tal, perde o direito de catalogar quem é seita e quem não é!
Já reparou, prezado amigo que, num país deste género, esta confissão religiosa, a ser tolerada não passa, agora neste preciso contexto, de uma seita como outra qualquer! Compreende agora melhor o que dissemos acerca das duas mulheres (Igrejas)? Deus fala, repetimos, de um remanescente, isto é, todo e qualquer que O aceitar como seu Salvador.

Bibliografia:
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 267 (Doutorado em Teologia, sacerdote e professor da Igreja Católica em Portugal)
Ibidem
Idem, p. 269
Idem, p. 273
Idem, p. 274
Oscar Cullmann, Saint Pierre, Disciple-Apôtre-Martyr, Neuchatel, Ed. Delachaux & Niestlé, 1952, p. 191
Joaquim Carreira das Neves, OFM, Jesus Cristo História e Fé, Braga, Editorial Franciscana, 1989, pp. 46,47
Flávius Josèphe, op. cit., 2ª parte, Livro IV, XIX, p. 813
Para pormenores da questão – cf. Manuel de Tuya O. P., op. cit., pp. 376,377
António Pinto Ravana, “OLIVEIRA MARTINS, Joaquim Pedro de” in Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Lisboa, Publicações Alfa, 1990, Vol. II, p. 56
Cf. Jorge Miguel Pedreira, “FONTES PEREIRA DE MELO, António Maria de”, in Dicionário Enciclopédico da História de Portugal, Vol. I, pp. 263-265
Catecismo, pp. 206,207, nº 891
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 274
Idem, p. 276
A expressão “tiro de pedra” equivale mais ou menos a uns 30 metros. Cf. Manuel de Tuya, O.P., op. cit., p. 425
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 285
Oscar Cullmann, Saint Pierre, Disciple-Apôtre-Martyr, p. 213
Joaquim Carreira das Neves, OFM, op. cit., p. 285
Cf. Idem, pp. 275,276
Catecismo, p. 36, nº 85

sexta-feira, 30 de julho de 2010

SIMÃO: PEDRA OU ROCHA

Quanta tinta, como se costuma dizer, esta personagem bíblica já fez correr para justificação de tão diferentes interesses! Esta confissão religiosa afirma ter nela as suas raízes, nomeadamente, o sistema papal. A Igreja Ortodoxa crê que o seu patrono é o apóstolo S. João! Jesus morreu, Simão Barjonas também. Então não será lógico que S. João, sendo o último a morrer dos doze, ele possa ser, de pleno direito, o sucessor de Cristo? Até porque, quando Jesus se isolava, com Ele estava sempre – Simão Barjonas, Tiago e João – cf. Mateus 26:37; II Pedro 1:17,18; I João 1:1-5.
O problema do primado de Simão Barjonas repousa sobre dois textos das Escrituras, a saber: 1- S. João 1:42; 2- Mateus 16:18. Iremos abordar, à luz da Bíblia e da história da Igreja estes dois textos e as suas implicações, tentando compreender sem qualquer partidarismo religioso, os textos em causa. De igual modo, tentar mostrar que, o sistema papal, a exemplo das demais doutrinas anteriormente analisadas, não tem qualquer fundamento bíblico!

Simão, o Homem
Este homem seria, provavelmente, mais velho que Jesus. Ele tinha um irmão que se chamava André – cf. S. João 1:40. Como profissão, tinha ofício de pescador – cf. S. Mateus 4:18 – e chamava-se Simão Barjonas (Simão, filho de Jonas) – cf. S. Mateus 16:17. Simão era casado – cf. S. Mateus 8:14; morava em Betsaida – cf. S. João 1:44. Eis aqui o perfil de um homem do povo, de natureza rude e sem nenhuma instrução escolar.
Quando analisamos a sua personalidade tal qual está descrita nos evangelhos encontramos alguns traços de carácter que definem admiravelmente este homem:

1- Impulsivo
2- Pronto a crer como a duvidar
3- Temerário e, ao mesmo tempo, tímido
4- Fervoroso e, em simultâneo, cobarde

Enfim, qualidades e defeitos que existem em qualquer um de nós - humanos como ele - nem mais nem menos, não é verdade?!

quarta-feira, 28 de julho de 2010

SIMÃO, NO EVANGELHO DE S. JOÃO

Recordemos o texto em lide: “E levou-o a Jesus. Fitando-o, Jesus disse-lhe: «Tu és Simão, filho de Jonas; chamar-te-ás Cefas» (que quer dizer Pedra)” – S. João 1:42. Portanto desde agora, este homem, crismado por Jesus, chamar-se-á – Cefas (o Pedra). Invariavelmente será chamado de: 1- Simão Barjonas; 2- Simão Cefas; 3- Simão, Petros (palavra grega, não traduzida, visto aparecer muitas vezes assim ao lado da palavra Simão).
O contexto indica-nos que foi o seu irmão André que o levou até à presença do Mestre. E é na Sua presença que o evangelista S. João nos dá a conhecer o que acabámos de transcrever. Quanto a nós, para já, passou-se algo de muito estranho logo ao primeiro encontro - Jesus muda-lhe o nome!
Vejamos um pouco o texto: Jesus recorda o seu nome de nascimento – Simão, filho de Jonas – e, de seguida, como vimos, dá-lhe um outro nome – Cefas, que traduzido é: Pedra! Quanto a nós, ficamos sem saber o porquê de tal mudança, e questionamo-nos, claro está, acerca do aparentemente estranho procedimento de Jesus em relação a este homem! Como acabámos de ver acima, quando descrevemos o - homem Simão – pudemos ver algumas das suas características que englobavam defeitos e virtudes! Seria por causa desta variedade de características que Jesus achou por bem mudar-lhe o nome?
Que significado tem o nome para um israelita? Segundo somos informados “a essência de uma pessoa concentra-se no seu nome. Um homem sem nome é desprovido não só de significado, como também de existência. O nome contém uma dinâmica, um poder que exerce uma acção constrangedora sobre aquele que o usa”. Como acabámos de ver, o nome tem uma relação directa com o carácter da pessoa. Por outro lado, subjacente a esta noção de nome, está, não só, esta primeira ideia de – carácter, personalidade – como também, a de um novo nascimento!
Na realidade, o texto e contexto que nos ocupa vão exactamente nesta direcção! O que aqui está a acontecer é exactamente o mesmo que sucedeu no diálogo de Jesus com o doutor da Lei – Nicodemos – cf. S. João 3:1-10. O processo não é novo, pois nas Escrituras, um rei guerreiro ao declarar guerra a um outro e, caso o vencesse, o que é que acontecia ao vencido? Nada mais do que: 1- Morto; 2- Escravo e levado pelo seu senhor; 3- Na melhor das hipóteses, ficava a governar, como antes! Só que o vencedor, imediatamente, lhe mudava o nome.
A este propósito, vejamos alguns exemplos bíblicos:

• Faraó – O rei do Egipto destronou-o em Jerusalém e impôs ao país uma contribuição (tributo) de cem talentos de prata e um talento de ouro. Em seu lugar, pôs no trono de Jerusalém a Eliaquim, irmão de Joacaz, a quem mudou o nome para Joaquim (…) – II Crónicas 36:3,4.

• Nabucodonosor – “(…) o rei de Babilónia levou-os cativos para Babilónia. Em lugar de Joiaquim, o rei de Babilónia proclamou rei seu tio Matatias cujo nome mudou para Sedecias” – II Reis 24:16,17

Estes relatos falam-nos de monarcas vencidos e tornados vassalos dos vencedores. Mas não acontecia somente a este nível! Aconteceu também com certos nobres da corte. E para ficarmos entre nomes conhecidos, lembremo-nos do profeta Daniel e dos seus amigos!
Recordemos o texto que relata a sua deportação para Babilónia: “O rei deu ordem a Aspenaz, chefe dos criados, que lhe trouxesse jovens israelitas, descendentes de raça real ou família nobre (…). Entre estes Daniel, Hananias, Misael e Azarias (…). O chefe dos criados impôs-lhes novos nomes: a Daniel, o de Baltasar, a Ananias, o de Sidrac, a Misael, o de Misac e a Azarias, o de Abed-Nego” – Daniel 1:3-7.
Portanto, dentro deste preciso contexto, é como se se operasse um novo nascimento! Aliás, comparemos esta forma de proceder com o que nos é relatado no livro do Génesis, quando ali é dito que Deus fez passar perante Adão todos os animais. E para quê? Para que este lhes desse um nome! Vejamos o texto em questão: “Então, o Senhor Deus (…) conduziu-os até junto do homem, afim de verificar como ele os chamaria (…)” – Génesis 2:19. Assim, em termos teológicos, de certa maneira, este também participou na Criação, visto que “os animais e as plantas começam a existir realmente a partir do momento em que se lhes dá o nome”.
Ainda para realçar a importância do nome, recordemos um outro episódio do Antigo Testamento: O futuro rei de Israel, David, foge da presença do rei Saúl para os montes. Certo dia, cheio de fome, tal como os que o acompanhavam, desce ao povoado e solicita víveres a um fazendeiro abastado, cujo nome era – Nabal. Este recusa ajudar David. Este, furioso, reúne os seus homens e prepara-se para arrasar com tudo o que pertença ao fazendeiro. Só que, entretanto, a mulher deste ao saber da intenção de David e dos seus, apressa-se a vir interceder pelo marido – I Samuel 25:1-24.
Como é que ela o irá fazer, quais foram os seus argumentos? O texto claramente nos dá a conhecer a forma como esta se dirige a David: “Que o meu senhor não faça caso desse perverso Nabal, porque é um néscio e um insensato como o seu nome o indica (…)” – I Samuel 25:25. (sublinhado nosso). Portanto, a palavra Nabal, cujo significado é – loucura – estava a condizer com o carácter daquele que o possuía. Possuir era, simultaneamente, ser possuído por este!
Assim, era necessário qualificar a personalidade de Simão Barjonas – tal nome, tal carácter! Só que, no caso de Simão Barjonas, passava-se exactamente o contrário! Neste caso, o nome não correspondia, de modo algum, à personalidade da pessoa em causa! O seu nome era Simão! Qual o seu significado? Este quer dizer: Deus ouviu! Será, prezado leitor, que este Simão era, na realidade, um homem que sabia ouvir, tendo em conta o que dissemos, tal qual os evangelhos nos relatam? Que dizer, por exemplo, da sua inconstância? Vejamos, por exemplo, como certa vez, Simão Barjonas se confessou a favor do Mestre: “Mesmo que tenha de morrer Contigo, não Te negarei (…)” – S. Mateus 26:35. Um pouco mais tarde, acerca deste mesmo Mestre, ao qual tinha prometido fidelidade, dirá: “(…) não conheço este homem” – S. Mateus 26:72!
Saber ouvir é, por inerência, saber escutar e, saber escutar, significa obedecer! A este propósito, recordemos o que nos diz a carta aos Romanos quando caracteriza a entrada do pecado no mundo: “Porque como pela desobediência de um só, muitos se tornaram pecadores, assim também, pela obediência de um só, muitos se tornaram justos” – Romanos 5:19. Aqui encontramos duas acções expressas por um mesmo verbo: OBEDECER.
No grego, o verbo – peitharcheô – significa: obedecer, seguir o conselho de. Este verbo encontramo-lo nalguns textos, nomeadamente em: 1- Actos 5:29,31,32 - “Pedro e os demais apóstolos responderam: «Importa mais obedecer a Deus do que aos homens» (…) A fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão dos pecados (…) que Deus tem concedido àqueles que Lhe obedecem”; 2- Tito 3:1 - “Aconselha-os a que se sujeitem aos magistrados e às autoridades, que lhes obedeçam (…)”.
Ou em formas verbais a esta ligadas – peithô - com a mesma significação: 1- Gálatas 5:7 – “(…) Quem vos impediu de obedecer à verdade?”; 2- Hebreus 13:17 – “Sede submissos e obedecei aos que vos guiam (…)”; 3- Tiago 3:3 – “Quando pomos o freio na boca do cavalo, para que nos obedeça, dirigimos todo o seu corpo”.
O curioso em tudo isto, é que, por exemplo, no texto de Romanos, apesar de encontrarmos este verbo, na tradução em português, não o encontramos no original grego! A expressão que S. Paulo usou e que foi traduzida por – Obediência - é: UPAKOUÔ (a favor da voz de, ceder); para – Desobediência – é a palavra: PARAKOUÔ (ao lado da voz).
Até aqui, tudo bem. Mas que relação tem o que acabámos de ver com o nome de Simão Barjonas? Sabia que a palavra que S. Paulo usou, traduzida por – obediência - tem como base o verbo - Ouvir? Pois é, prezado leitor, esta palavra – UPAKOUÔ (obediência) - compõe-se do prefixo – UPER (a favor de) + o radical – AKOUÔ (ouvir). A palavra – PARAKOUÔ (desobedecer) - compõe-se do prefixo – PARA (ao lado de) + o mesmo radical. Assim, todo aquele que é favorável a ouvir, logo, esse é obediente; por outro lado, todo aquele que permanece ao lado de ouvir, então torna-se, devido à sua atitude, desobediente!
Então, se tivermos isto em consideração como contexto de avaliação, o homem Simão, cujo nome significa – Deus ouviu – tinha um nome que não se ajustava, de modo algum, à sua personalidade! Devido à sua inconstância, Simão demonstrou, muitas vezes, que - permanecia ao lado do ouvir !
Vejamos a segunda parte do versículo: “chamar-te-ás Cefas” – S. João 1:42. A palavra Cefas vem do aramaico – Kephas – e que é traduzido para a língua grega por: PETROS (Pedra, dureza, insensibilidade). Sob esta panorâmica das coisas, pensamos estar em condições para interpretar o pensamento de Jesus e compreender o novo nome que dá a Simão Barjonas. Assim, parafraseando o texto de S. João 1:42, é como se Jesus tivesse dito: “O teu nome é, com efeito, Simão, isto é, aquele que sabe ouvir! Mas como a tua personalidade nada tem que ver com tal nome, então dar-te-ei um que esteja mais em consonância com a tua personalidade, ou seja – Cefas (Pedra, seixo rolante)” - indício de inconstância!
Experimente, prezado leitor! Tente colocar um seixo em pé e veja se o consegue! Devido ao seu equilíbrio instável, em breves segundos, se o largamos, estará totalmente deitado no chão! Assim era Simão: ora em pé, ora caído! Eis a característica da sua personalidade! Eis o nome, segundo Jesus, que mais condizia com a personalidade daquele que se passaria a chamar: Cefas (Pedra, seixo rolante)!
Autores, ao comentarem esta vertente, dizem: “Kephas não era um nome próprio, mas a designação de uma realidade (…)” (sublinhado nosso). Isto quer dizer que, no contexto em que foi aplicado, a palavra – Pedro – não existe e, muito menos, aplicada ao irmão de André, até porque a palavra Pedro não é, de modo algum, a tradução de: Kephas!
Assim, para este evangelho, o verdadeiro nome deste homem, segundo Jesus, é – Simão, Cefas (o Pedra), ou Simão Petros (o Pedra) – nada mais!

BIBLIOGRAFIA:
Edmond Jacob, op. cit., p. 33; cf. Gerhard Von Rad, Théologie de l’Ancien Testament, 3ª ed., Genève, Ed. Labor & Fides, 1971, Vol. I, p. 161
O peso de um talento sofre pequenas oscilações entre os diferentes autores. Aqui apresentamos um destes que nos informa que um talento pesa cerca de 34,272 kg. Cf. André Chouraqui, op. cit., p. 155
Mircea Eliade, op. cit., p. 177, nota 5
A.. Van Den Born, “Simeão”, in Diccionário Enciclopédico da Biblia, col. 1439
Isidro Pereira, S.J., op. cit., p. 458
Oscar Cullmann, “Pedro” in Gerhard Kittel, A Igreja no Novo Testamento, S. Paulo, Ed. ASTE, 1965, p. 298
Oscar Cullmann, Saint Pierre, Disciple-Apôtre-Martyr, p. 16
Isidro Pereira, S.J., op. cit., p. 443
F. Wilbur Gingrich e Frederick W. Danker, Léxico do Novo Testamento Grego / Português, S. Paulo, Edições Vida Nova, 1984, p. 162
Isidro Pereira, S.J., op. cit, p. 588; 2ª parte, p. 205
Introdução ao Estudo do Novo Testamento Grego, 8ª ed., Brail, Ed. Juerp, 1986, p.192, nota 529
Idem, p. 232

quarta-feira, 21 de julho de 2010

SIMÃO, NO EVANGELHO DE S. MATEUS

Neste evangelho, encontramos o seguinte texto: “Também Eu te digo: Tu és PETROS (Pedra) e sobre esta PETRA (Rocha) edificarei a Minha Igreja (…)” – S. Mateus 16:18 (sublinhado nosso). No evangelho de S. João, como vimos, este propõe-nos o termo aramaico Kephas e a sua respectiva tradução. Neste, foi conservada a matriz grega de duas palavras: PETROS e PETRA, só que, sem tradução proposta pelo próprio evangelho!
Que significarão estas duas palavras tão parecidas – PETROS e PETRA? Acompanhemos a leitura do seguinte comentário explicativo: “O substantivo feminino Petra designa no grego profano preferentemente uma “rocha” grande e firme (…). O substantivo masculino Petros é aplicado geralmente a blocos rochosos e isolados, bem como a pedras pequenas, tais como a pederneira e a pedra de arremessar”. Portanto, para já, parecem claros os respectivos significados das palavras propostas pelo evangelho:
 PETROS = Pedra pequena de arremessar;
 PETRA = Rocha grande e firme.
À luz desta preciosa informação, façamos uma pequena pesquisa bíblica. Esta palavra: PETRA (Rocha) – aparece apenas cinco vezes no Novo Testamento: 1- Mateus 16:18; 2- Romanos 9:33; 3- I Coríntios 10:4; 4- I Pedro 2:8; 5- Apocalipse 6:15. A nível da tradução encontramos algumas variantes sobre a mesma palavra, o que não deixa de ser bastante significativo e, ao que parece, demonstra certa intenção dos tradutores da versão por nós seguida! Vejamos o quadro comparativo:
Aqui encontramos a palavra – PETRA – ora traduzida por: “Rocha, rochedo”, ora por “Pedra”! No texto de S. Mateus 16:18, a mesma palavra foi traduzida por “Pedra” , para estar em maior consonância com a palavra aramaica – Kephas (pedra de arremessar) dada no evangelho de S. João, aplicada a Simão Barjonas!
Ora, se no texto de S. Mateus, se trata da mesma pessoa, então será mais do que natural que a tradução assim seja, para que a acção recaia sobre a mesma pessoa – Simão Barjonas!
Pelo quanto pudemos ver até aqui, traduziríamos o texto de S. Mateus da seguinte maneira: “(…) Tu és PETROS (pedra, seixo de arremessar), e sobre esta PETRA (Rocha grande e firme) edificarei a minha Igreja (…)”.
Quão bom é que nos abeiremos dos textos, respeitando o que eles dizem, e não fazendo dizer o que queremos que digam! É devido a exemplos destes, traduções tendenciosas e afins que, infelizmente, assistimos ao nascimento de todo o tipo de Movimentos religiosos.
Assim, repetimos, o que o Senhor disse a Simão Barjonas: que este se chamaria Simão PETROS (pedra, seixo de arremessar), um nome que correspondesse com a sua conhecida instabilidade emocional, e nunca Simão PEDRO, tal como vulgarmente o conhecemos, visto que este nome – PEDRO - e nunca é demais repetir, não significa coisa alguma!
E depois, prezado leitor, por um instante, imaginemos que Jesus quisesse chamá-lo pelo nome próprio de Pedro! O que quereria Jesus dizer com este novo nome, repetimos, caso fosse, como querem fazer crer, um nome próprio? Jesus estava a caracterizar quem e o quê? Confessemos que não compreenderíamos esta atitude de Jesus – dar um nome por dar, sem que este tivesse qualquer significado! A palavra Pedro, tal como a conhecemos, significa o quê? Caso cheguemos a alguma conclusão, define o quê? E se o compararmos com o contexto até aqui desenvolvido, que sentido terá este nome próprio – Pedro - para que este substituísse o de Simão?
Para colocarmos ainda mais em destaque este raciocínio façamos uma simples comparação com outro caso paradigmático, embora em contexto diferente:

Ora, por que é que estes foram assim chamados?
1- Quanto a Simão – tal como já o vimos, este sobrenome tinha a única finalidade de fazer jus aquilo que Simão era - “(…) um homem inconstante”;
2- Quanto a Tiago e a João – somos, de novo esclarecidos sempre no mesmo propósito, pois este sobrenome era para “(…) qualificar o seu ímpeto”. (sublinhado nosso). Nada mais!
Para que não tenhamos qualquer dúvida acerca do seu carácter e impulsividade, leiamos um episódio, passado com estes dois irmãos, para nos apercebermos a que ponto estes tinham os nervos à flor da pele, como se costuma dizer. As Escrituras assim o revelam: “Vendo isto, os discípulos Tiago e João disseram: «Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?» Mas Ele, voltando-Se repreendeu-os” – S. Lucas 9:54,55.
Portanto, caríssimo leitor, uma vez mais reiteramos que: as palavras – PEDRO e BOANERGES; estas não são - NOMES PRÓPRIOS - mas qualificativos de uma personalidade - uma qualidade de carácter! Se fossem nomes próprios, como vulgarmente se aplica a Simão, então porquê só à pessoa deste e não a estes dois irmãos – Tiago e João? No mínimo é INJUSTO! E depois, se Jesus não quisesse dizer isto mesmo, isto é, qualificá-los, para que lhes iria acrescentar um nome próprio ao anterior? Só para mudar por mudar? Só, para que, tal como vimos acima, acerca da problemática do nome, isto é, quando alguém dá o nome a outrém tem, de imediato, direitos acrescidos sobre eles? Claro que não!
Não creia o prezado leitor que estamos sozinhos nesta conclusão! Ora veja: “(…) o propósito não era mudar-lhes o nome, em sinal de domínio sobre eles”. Será possível ainda continuar a chamar-lhe – Pedro - quando o seu verdadeiro nome é SIMÃO BARJONAS?! Geralmente, é com esta designação que é referenciado nas Escrituras: Simão PETROS (o pedra), - para melhor definir o seu carácter inconstante! E assim ficará conhecido na história bíblica!
Por outro lado, perguntamos: Se, ao nos referirmos a Simão, chamamos-lhe sempre – PETROS (traduzido erroneamente por PEDRO, como vimos); então por que é que, ao citarmos estes dois irmãos – Tiago e João – nunca os chamamos e conhecemos pelos seus respectivos apelidos (alcunhas) de: BOANERGES (Filhos do trovão)? Quando queremos citar S. João e S. Tiago nas Escrituras – citamos os seus nomes, não a sua alcunha, característica que apontava para os seus defeitos de carácter - Boanerges (Filhos do trovão). Mas, quando queremos citar Simão Barjonas, as suas epístolas, não o citamos pelo seu verdadeiro nome, mas pela alcunha - CEFAS (PETROS = Pedra) – PORQUÊ? Não só o tratamento é desigual, como também se Simão Barjonas ressuscitasse ficaria triste por lhe chamarem por um nome que nunca conheceu! Porquê? Pela simples razão que nunca o teve! E ninguém gosta de ser chamado pelo nome de outro não é verdade?!
Não deixa de ser curioso quando comparamos alguns textos, para vermos realçado o recurso aos diferentes nomes desta personagem. Vejamos:

O que é que salta aos nossos olhos deste quadro comparativo? Ora veja:
1- Coluna do Apelido: - Agindo assim, cremos que o Senhor coloca em destaque a personalidade inconstante desta personagem! Em todas as promessas; em tudo o que se relaciona com o seu comportamento dúbio, está sempre associado o seu apelido.

2- Coluna do Nome de nascimento: - Vemos que no texto que antecede a famosa declaração – S. Mateus 16:18, Jesus elogia a mesma personagem! E como a trata? Simplesmente pelo seu nome de nascimento: “Simão Barjonas” – S. Mateus 16:16.
Depois, a maneira como Jesus fala com ele, para o reabilitar, visto que O negou três vezes! Como é que Jesus faz? Uma vez mais, recorre ao seu nome de nascimento e não ao apelido! Porque aqui Jesus chama-o, reabilita-o, igualmente, por três vezes! Era necessário passar de PETROS (pedra, seixo instável) para, Simão (o que obedece, o que sabe ouvir)!
Certa vez andaram à procura deste discípulo de Jesus e, como é que perguntaram por ele? Vejamos: “Envia, pois, emissários a Jope e manda chamar Simão, cujo sobrenome é… (Petros – o pedra) ” – Actos 10:32. Como sempre, o seu verdadeiro nome, em primeiro lugar, depois, o apelido, a alcunha, pela qual também era conhecido!
Estaremos a ser radicais, prezado leitor? Pensamos que os textos nos revelam exactamente esta vertente – basta querer vê-la! No entanto, caso estejamos enganados, seremos os primeiros a reconhecer, após análise das respectivas provas documentais!
Um caso parecido com este é o do filho de Abraão – Isaac! Este sim, é um nome próprio! Mas, qual a sua origem? A Palavra de Deus nos esclarece. Uma promessa tinha sido feita a Abraão e Sara, sua mulher; estes iriam ter um filho! Só que, pela sua avançada idade, após este anúncio, ambos se riram!
Vejamos: “(…) Sara, tua mulher, terá um filho (…)” – Génesis 18:10; “Sara riu-se (…)” – v. 12; “(…) a quem chamarás Isaac (…)” – 17:19; “Ao filho que lhe nascera, deu Abraão o nome de Isaac” – 21:3. Porquê este nome e não outro qualquer? A razão é muito simples! Só porque riram da promessa, pois bem, esta falha estaria para sempre diante de si, na pessoa do seu filho! Este nome “Isaac (Yishak’el) tem como raiz o verbo (Sahak = rir)”.
Assim, prezado leitor, “o filho da promessa está, pelo seu nome, associado ao rir de Abraão e de Sara (…)”. Portanto, cada vez que pronunciassem aquele nome recordar-se-iam da sua falha de carácter. Cada vez que o chamassem, na nossa língua diziam: “Ó risota, vem cá”; ou ainda “Ó risota, vai ali comprar ou fazer isto ou aquilo”, etc, etc. Neste caso, é um NOME PRÓPRIO. Não uma “alcunha” ou apelido como o termo “PETROS”!
Se ainda restassem quaisquer dúvidas, bastaria perguntar: Como é possível, à luz do texto de S. Mateus, a mesma personagem – Simão – ser, em simultâneo PETROS (pedra pequena, tal como a pederneira e a pedra de arremessar) e PETRA (rocha grande e firme)? Só mesmo querendo fazer dizer aquilo que o texto não diz! Ou a Jesus, o que nunca pensou ou disse! A nós, de tirarmos as ilações que se impõem!
b) A opinião dos Pais da Igreja
Os Pais da Igreja afirmam que a Pedra de fundação da Igreja é a confissão que Simão tinha acabado de fazer, isto é, que Jesus era o Cristo, o Filho do Deus vivo. Antes de mais, bastaria recordar o texto citado acima, de S. Paulo ao afirmar peremptoriamente que “(…) todos bebiam de um (PETRA) rochedo espiritual que era Cristo” – I Coríntios 10:4; e também o próprio Simão que, ao citar o Antigo Testamento – Isaías 28:16 - declara, no texto supra, que Cristo, ele e só ele, é a “(…) (PETRA) pedra, de escândalo” – I Pedro 2:8. (Aqui traduziríamos, para estar em consonância com as restantes traduções e também com o original, a palavra PETRA, por rocha, rochedo). Dúvidas, quem as terá? Só com muito má vontade em não querer aceitar a evidência da clareza textual! Vejamos alguns testemunhos dos Pais da Igreja:
 S. Hilário de Poitiers (316-367) – “Ele, a nossa única e inamovível fundação, a nossa bendita e única rocha da fé, é a confissão feita pela boca de Pedro”.
 S. João Crisóstomo (354-407) – a) “Ele é que construiu a Sua Igreja sobre a confissão de Pedro (…)”. b) “Sobre esta confissão (de Pedro) Eu edificarei a Igreja (…)”.
 S. Agostinho (354-430) – Sobre esta rocha, disse Ele, que tu confessaste, Eu edificarei a minha Igreja. Com efeito, Cristo era a rocha”.
 S. Gregório Magno, (590-604), Papa – “(…) mas persiste na fé verdadeira e a tua vida sobre a rocha da Igreja; isto é, sobre a confissão do bem-aventurado Pedro”. 
Bibliografia:

Manuel de Tuya, O. P., op. cit., p. 508
Ibidem
Alcunha” - Nome dado a alguém e geralmente derivado de certa particularidade física ou moral – cf. J. Almeida Costa e A. Sampaio e Melo, op. cit., p. 59
Gerhard Von Rad, La Genèse, p. 234
Frank Michaeli, Le Livre de La Genèse, Chap. 12 à 50, Genève, Ed. Delachaux et Niestlé, 1960, p. 57
Jacques Le Goff “História” in Enciclopédia Einaudi - Memória-História, p. 219
A. Van Der Born “Cláudio” in  A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 277
Gunther Bornkamm, Paul, Apôtre de Jésus-Christ, Genève, Ed. Labor et Fides, 1971, p. 139
Introdução ao Tratado sobre a Trindade, Livro 2.23
Homilias do Evangelho S. Mateus, Homilia 82.3 (S. Mateus 26:26-28)
Homilias do Evangelho S. João, Homilia 21.1 (S. João 1:49,50)
Comentário ao Evangelho de S. João, Tratado 124.5 (S. João 21:19-25)
Epístolas, Livro IV, Epístola 38
Vidas de Homens Ilustres, cap. 1
B. Hemelsoet “Pedro”  in  A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 1172
J. A. Thompson, op. cit., p. 276

domingo, 18 de julho de 2010

SIMÃO EM ROMA

Não somente a época da chegada de Pedro a Roma é controversa, como também se põe em dúvida a sua presença na capital do Império. Será que poderemos saber em que altura é que o apóstolo foi para Roma? Vejamos:

a) S. Jerónimo (374-420)
Este, fazendo eco de uma tradição que circulava, declarou que Simão Barjonas foi para Roma “(…) no segundo ano do imperador Cláudio e que ali esteve vinte e cinco anos até ao seu martírio no reinado de Nero”.
Ora se se aceita que a morte de Simão Petros ocorreu no ano 67 e se subtrairmos a esta data os tais 25 anos de pontificado, então quer dizer que encontramos a data da chegada do apóstolo a Roma, isto é, por volta do ano 42!

b) Tumultos em Roma
Recordaremos os acontecimentos graves e dolorosos passados em Roma. Sob o reinado de Cláudio os judeus foram alvo de uma violenta perseguição por causa de uns motins “instigados por um tal Crestus (…)”. As consequências destes acontecimentos são relatadas no livro dos Actos dos Apóstolos, desta maneira: “Paulo foi para Corinto e ali encontrou um judeu chamado Áquila (…) recentemente chegado de Itália com Priscila, sua mulher, porque um édito de Cláudio ordenara que todos os judeus se afastassem de Roma” – Actos 18:1,2.
O apóstolo S. Paulo ao escrever a epístola aos Romanos, estava bastante bem informado acerca dos crentes de Roma e, certamente, que este casal foi a sua grande fonte de informação. Este édito imperial foi “promulgado, provavelmente, no ano 49”; portanto, segundo os Pais da Igreja, Simão Petros já lá se encontrava no exercício do seu dito pontificado, desde o ano 42!
Uma vez mais, prezado leitor, o nome dos crentes Áquila e Priscila, são mencionados, mas… e o do Simão Petros? Qual o motivo desta lacuna em não se mencionar o seu nome, e logo de um pontífice!? Aconteceu, das duas uma. 1- Ou Simão Petros nunca lá esteve, pelo menos nesta altura; 2- Ou fugiu, cobardemente – o que nos recusamos a acreditar! Assim, sendo, como facilmente se compreenderá, nos enclinamos para a 1ª hipótese. Portanto, neste ano de 42 não existe qualquer vestígio de um pontificado em Roma exercido por Simão Petros!

c) A Epístola aos Romanos
Esta epístola foi escrita no ano 55/56. Assim, se tivermos em conta a data proposta pela Tradição, então Simão Petros, há cerca de 14 anos que já se encontrava em Roma, visto que, ali se encontraria desde o ano 42 na capital do Império a exercer o seu ministério à frente da Igreja existente ali!
Perguntamos: que se diria de um bispo ou arcebispo, que escrevesse directamente uma carta aos fiéis de uma Igreja de outra diocese e que, nesta, ignorasse a existência do seu condutor espiritual local? Se isto acontecesse com o prezado leitor, certamente que ficaria sentido e triste, não é verdade? Até porque… quem gosta de ser ignorado? No entanto, a ser verdade a data de 42, parece ter sido isto mesmo o que aconteceu a Simão Petros, caso ele ali tivesse estado a exercer o seu ministério, em Roma!
Este cenário, prezado leitor, é o que podemos imaginar quando lemos a dedicatória do primeiro capítulo da carta de S. Paulo aos crentes de Roma! Vejamos o texto: “Na verdade, desejo-vos ver, para vos comunicar alguma graça espiritual, a fim de vos fortalecer (…). Daí o empenho que há em mim de vos anunciar também o Evangelho, a vós que estais em Roma” – Romanos 1:11-15.
Perante esta dedicatória, a resposta que esta deveria merecer da parte dos crentes da Igreja de Roma, só deveria de ser UMA! Numa possível troca de correspondência, S. Paulo deveria ser recordado que, no mínimo foi INDELICADO! Esquecer-se de um princípio básico de ética, ou seja, ter negligenciado mencionar o nome do colega de ministério, ali residente! Ou ainda, hipoteticamente, esta surpresa dos crentes de Roma poderia ser expressa assim: - Mas Paulo, esqueces que o evangelho já nos foi anunciado no passado recente e, ainda por cima, pelo não menos famoso Simão Petros?
E quanto aos dons “espirituais capazes de nos fortalecer”, como tu dizes Paulo, quem está melhor colocado para o fazer do que o representante de Jesus na terra? Ignoras, porventura, este alto privilégio de o termos connosco desde há cerca de 14 anos a esta parte à frente da nossa Igreja, assim como, daqui liderando as demais à volta do mundo? Claro que estamos a imaginar esta resposta dos crentes de Roma à carta de S. Paulo! Mas, a ser verdade como quem a todo o custo quer que o seja, poderia, porventura, tudo acontecer muito diferente do quanto dissemos até aqui? Continuamos a pensar que não!
Mas, recordando o texto acima citado, nos apercebemos que, aqueles a quem Paulo se dirige têm necessidade urgente, não somente em adquirir um conhecimento espiritual mais aprofundado, como também em ser esclarecidos nas verdades, as mais elementares da fé cristã. O conteúdo desta epístola o prova, visto que nela o apóstolo Paulo envia avisos, conselhos, exortações de ordem prática. Todas estas coisas demonstram a evidência de que a Igreja de Roma ainda estava privada de certas directivas, que lhe faltava luz e instrução que só um apóstolo a poderia dar!
Como se isto ainda não fosse suficiente para demonstrar que Simão Petros ali não se encontrava ali, tal como é dito, desde o ano 42, vejamos ainda algo de mais estranho! Esta epístola contém, caso único no género, quase um capítulo inteiro só de saudações! Um após outro, todos os missionários vindos a Roma plantar em pleno coração do paganismo a bandeira do evangelho e, até, alguns dos convertidos, ali são mencionados. Ao todo são vinte e quatro mais ou menos conhecidos. Com palavras de extrema cortesia e de afecto, o apóstolo admiravelmente informado, talvez, como dissemos, por Áquila e Priscila; embora não conhecesse a maior parte, mesmo assim dirige a cada um uma homenagem fraternal.
Já viu, prezado leitor, o capítulo 16 desta epístola, contém 27 versículos e, entre tantos nomes só um nome não é mencionado… o do apóstolo Simão Petros! Que falta de consideração pela coluna da Igreja de Deus, que falta de respeito! Será, amigo leitor, que estamos a ser parciais ou tratar com certa leviandade e ligeireza os textos apresentados? Será que estamos a ser duros ao dizer que Simão Petros não esteve em Roma em 49 – data do édito de Cláudio - e que, à data da epístola, em 55/56, também não estava lá, tendo em conta a omissão do seu nome nas respectivas saudações, como vimos!
Não dizemos que Simão Petros nunca esteve em Roma, em termos de pontificado, mas afirmamos que, pelo menos, nas datas propostas esteve ausente de Roma! Choca-o, prezado leitor, a realidade e a dureza dos factos históricos? Sabe, isto acontece sempre, cada vez que confrontamos teorias humanas que queremos que colem com a realidade histórica, neste caso, bíblica!
Queremos recordar aqui, uma vez mais, que é na qualidade de historiadores que estamos a escrever este livro. Assim, para o historiador “A sua única habilidade consiste em tirar dos documentos tudo o que eles contêm e nada acrescentar ao que neles não esteja contido. O melhor historiador é o que se mantém mais perto dos textos, que os interpreta com mais correcção, que só escreve e pensa segundo eles”. Por esta razão é que queremos ser o mais fiéis possível ao texto, ao documento, às provas. Não podemos inventar!
Reconhecemos que, por vezes, para que tudo aconteça como desejávamos que tivesse acontecido, alguns dão uma certa “mãozinha” aos factos ou aos escritos do passado! Só que este procedimento não é correcto nem académico! É para estes que a Palavra admoesta “(…) não procedemos com astúcia, nem adulteramos a palavra de Deus” – II Coríntios 4:2 Quanto a nós, prezado e amigo leitor, queremos permanecer ao lado da pura verdade e não das meras suposições, enfim, “numa palavra, as causas, em história como de resto em qualquer outro domínio, não se postulam. Investigam-se”! Que solene verdade, que tremenda e pesada responsabilidade!
Bibliografia:
Introdução ao Tratado sobre a Trindade, Livro 2.23
Homilias do Evangelho S. Mateus, Homilia 82.3 (S. Mateus 26:26-28)
Homilias do Evangelho S. João, Homilia 21.1 (S. João 1:49,50)
Comentário ao Evangelho de S. João, Tratado 124.5 (S. João 21:19-25)
Epístolas, Livro IV, Epístola 38
Vidas de Homens Ilustres, cap. 1
B. Hemelsoet “Pedro” in A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 1172
J. A. Thompson, op. cit., p. 276
A. Van Der Born “Cláudio” in A. Van Den Born, Dicionário Enciclopédico da Bíblia, Col. 277
Gunther Bornkamm, Paul, Apôtre de Jésus-Christ, Genève, Ed. Labor et Fides, 1971, p. 139
Jacques Le Goff “História” in Enciclopédia Einaudi - Memória-História, p. 219

quarta-feira, 14 de julho de 2010

ROMA OU BABILÓNIA

No final da primeira carta de Simão Petros, encontramos a seguinte saudação “A Igreja que está em Babilónia, eleita como vós, saúda-vos (…)” – I Pedro 5:13. Segundo esta informação, alguns comentadores dizem que Simão Petros residiu em Roma porque “na apocalíptica judaica do século I a Babilónia é uma figura de Roma, e Babilónia tem provavelmente este significado. Assim, o local de redacção da epístola é, presumivelmente, Roma, já que a ideia de que Pedro residiu em Roma durante algum tempo é confirmada a partir do século I”. Ou ainda, “Babilónia era o nome que os Judeus daquela época e os primeiros cristãos utilizavam quando queriam referir-se veladamente a Roma (…). Pedro, na sua primeira carta, faz uso deste pseudónimo”.
Esta saudação revela-nos, dizem, que o apóstolo habitou na cidade de Babilónia e que aí exerceu a sua actividade, mais que não fosse, de uma forma temporária. Mas, é preciso nos entendermos! Vejamos: no tempo de Simão Petros, a antiga Babilónia, no Eufrates, não tinha o mesmo brilho de outrora, mas existia. No entanto, para a Igreja de Roma, assim como para o nosso autor esta Babilónia significa: Roma. Babilónia é o nome místico de Roma, segundo as Escrituras - nada temos contra!
Mas atenção! Esta afirmação é perigosa! Vejamos: se se identificar Babilónia, neste caso, com Roma pontifical para ali justificar a presença de Simão Petros, então, tudo o que as Escrituras revelam acerca de Babilónia mística, se deverá aplicar, por uma questão de método e coerência, a esta mesma Roma pontifical, visto que o tal pontífice a habita! Assim, cremos estar a agir com elementar justeza! Eis como o Apocalipse se expressa: “A mulher, na sua fronte, tinha escrito um nome misterioso: Babilónia, a grande, a mãe das prostitutas e das abominações da Terra (…). As sete cabeças são sete colinas, sobre as quais a mulher está sentada” – Apocalipse 17:4,5,9.
Anteriormente já abordámos esta problemática quando falámos nas - duas mulheres do Apocalipse – as quais personificam duas Igrejas e, consequentemente, dois tipos de crentes. Continuemos: “Vi que a mulher estava embriagada com o sangue dos mártires de Jesus; e esta visão encheu-me de espanto” – Apocalipse 17:6. Este quadro sobre Babilónia, acrescentemos a seguinte exclamação apocalíptica: “Ai! Ai! Ó grande cidade, Babilónia, cidade poderosa! Uma só hora bastou para a tua condenação! (…). Então um anjo vigoroso levantou uma pedra, semelhante a uma grande mó, e lançou-a ao mar, dizendo: “«Assim, de uma só vez, será precipitada Babilónia a grande cidade, e não mais voltará a ser vista” – Apocalipse 18:10,21.
Ora, perante o exposto teremos que fazer a nossa opção: 1- Ou a Babilónia da epístola é a Babilónia que desapareceu, na Mesopotâmia, o que não faz qualquer sentido! 2- Ou esta Babilónia é Roma, com um retrato pouco animador e com uma promessa ainda não realizada! Logo, nada tendo a ver com Roma Imperial! Com qual ficar?
Claro que, se o nosso autor, porventura, chegar a ler estas linhas que acabámos de escrever, irá proclamar com todas as forças do seu ser que nós estamos a ressuscitar o cadáver do Concordismo!
Aqui, prezado leitor, Babilónia, ou é ela mesma ou é Roma! Se é esta última, então Simão Petros escreveu a sua carta de Roma, como facilmente se compreenderá! Mas se assim é, então que fazer quanto à Babilónia descrita nos textos do Apocalipse acima mencionados? Já não será a mesma Roma? Ou só é quando convém? Poderemos, teremos o direito de aplicar esta dualidade de critérios de interpretação? Se não é, como corolário do que vimos até aqui - Roma imperial - pois pertence ao passado longínquo, então será, obviamente - a Roma pós Império - a papal!
E se o é, então estamos em muito maus lençóis! Se o não é, então como se lerá ou interpretará a Bíblia? Quantos artifícios o ser humano, ou uma confissão religiosa, seja ela qual for, tem que engendrar para contornar, caso o consiga, o que é, francamente, incómodo!? Uma vez mais, nós preferimos ficar ao lado do texto, da coerência das Escrituras, isto é, no contexto do Apocalipse 17, ou seja, aqui, neste texto, Babilónia representa o que ela sempre foi o símbolo, biblicamente falando – confusão!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

A BESTA DO APOCALIPSE: IRONIAS

a) Actos 8:14
Como conciliar a ideia de um pontificado, ou de uma autoridade soberana na Igreja de Jesus Cristo, na pessoa de Simão Petros? Por exemplo, quando o evangelho começou a espalhar-se e o cristianismo a crescer, o livro dos Actos diz: ” quando os apóstolos que estavam em Jerusalém tiveram conhecimento de que Samaria recebera a palavra de Deus, enviaram para lá Pedro e João” – Actos 8:14.
À luz deste texto perguntamos: Desde quando é que um Papa ou alguém detentor de uma autoridade e carisma outorgados pelo Senhor, receber ordens dos seus – inferiores hierárquicos? E, ainda por cima, ser mandado pelos de Jerusalém para lá em missão!?
Convenhamos que é um bocadinho forte e… um abuso de confiança, caso esta autoridade, como se quer fazer crer, alguma vez tivesse existido!

b) Lista papal
Segundo esta lista cronológica papal, o sucessor de Simão Petros, diz a Tradição, foi S. Lino (67-76); depois S. Anacleto (76-88), e depois sucedeu-lhe S. Clemente (88-97). Ora, perante todas estas sucessões gostaríamos de lembrar que, entre o ano 90-95 ainda vivia o apóstolo S. João. Sendo assim gostaríamos de perguntar: Não seria mais normal, pelo menos, que o último dos apóstolos, logo após a morte de Simão Petros, tendo em conta que o seu exílio é posterior, devesse tomar essa tal primazia sobre todos os outros bispos, ao ser colocado na posição do seu colega, visto que ambos, foram os mais íntimos junto do Mestre? Caso o lugar existisse, quem, melhor e com mais direito do que ele, deveria ocupar, a existir, o tal lugar, deixado vago?
Não será esta uma prova, muito simples, mas bastante eloquente, a acrescentar às demais, para nos mostrar que o pontificado de Simão Petros nunca existiu! Pelo menos no tempo da Igreja primitiva e, certamente, até à morte do último dos sobreviventes dos apóstolos de Jesus. Só posteriormente, como assinalámos, é que a história - o documento - atesta os movimentos do bispo de Roma para ser o Bispo dos bispos, não antes!

c) As cartas do Apocalipse
Tanto quanto sabemos, existem sete Igrejas mencionadas no livro do Apocalipse – as Igrejas da Ásia: capítulos 2 e 3. Que encíclicas sagradas e solenes foram escritas como as dirigidas às sete Igrejas? Não são elas emanadas do Senhor? Não fazem elas parte integrante das últimas revelações feitas à Sua Igreja, após a Sua ressurreição? A quem, por intermédio de S. João, são endereçadas as cartas? O texto bíblico não nos deixa na ignorância. Ele esclarece-nos sem quaisquer rodeios desta forma directa: “Ao anjo que está em…” – Apocalipse 2:1,8,12,18;3:1,7,14.
Este anjo, como facilmente se compreenderá – se é que não estamos a ser “literalistas e psicologizantes” – é um termo para designar o condutor espiritual das Igrejas às quais estas foram endereçadas. Assim, estamos de novo colocados perante um dilema, a saber: 1- Ou o Espírito Santo ignora a existência da suprema autoridade terrestre da Igreja, (pois seria inconcebível proceder assim caso esta autoridade tivesse sido real, como se quer fazer crer)! 2- Ou então, o Senhor, anula, por uma palavra, o que Ele instituiu através de Pedro - ao transmitir, directamente aos líderes locais das sete Igrejas, as revelações divinas? Curiosamente, o mesmo procedimento fê-lo S. Paulo, como vimos, quando escreveu aos crentes de Roma! Questionamos: Deus e S. Paulo – omitiram, esqueceram – tal outorga de autoridade e poderes! Ou será porque esta transmissão de poderes NUNCA EXISTIU?! Sendo assim, o relato bíblico é, por conseguinte, um todo harmónico, neste preciso contexto.
Cada carta termina com estas palavras de advertência: “Quem tem ouvidos oiça o que o espírito diz às Igrejas” – Apocalipse 2:7,11,17,29;3:6,13,22. Convenhamos que, a ser verdade o que a Tradição refere, tudo é muito confuso e nada condiz com nada, convenhamos! Pensamos ter abordado neste périplo o quanto esta confissão religiosa não consegue provar, quer pelas Escrituras, quer pela história, por exemplo:

1- Que a rocha é Simão Petros.
2- Que pela Sua palavra, Cristo assegurou-lhe a primazia espiritual na Sua Igreja.
3- Que esta primazia era transmissível.
4- Que Simão Petros veio para Roma.
5- Que Simão Petros ali tenha sido bispo.
6- Que este tenha transmitido o seu pontificado aos seus sucessores.

A este propósito, tendo em conta a personagem de Simão Barjonas – Petros (pedra, seixo rolante, de arremesso), recordaremos aqui a resposta de João Paulo II ao ter sido interrogado sobre a figura do papa, quando disse: “(…) Pedro é aquele que não apenas não voltou a renegar Cristo, como não repetiu o seu infausto: Não conheço esse homem, mas perseverou na fé até ao fim: Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo. Deste modo tornou-se a rocha, mesmo se, talvez, como homem não fosse mais que areia movediça. O próprio Cristo é a rocha e Cristo edifica a Sua Igreja sobre Pedro. Sobre Pedro, Paulo e os apóstolos. A Igreja é apostólica em virtude de Cristo”.
Que melhores palavras para terminar este livro que o prezado leitor teve a paciência de ler até aqui! Para o dito sucessor de Simão Barjonas, o Petros “não é mais do que areia movediça”! E é verdade, tal como o pudemos ver, pois assim era a sua personalidade e, como tal, a justificação do seu sobrenome sob o qual ficou conhecido na história bíblica!
Como compreender, prezado leitor, as palavras de João Paulo II? Quem, sensato, faria tal coisa? Como é que sendo Jesus “a rocha (…) edifica a Sua Igreja sobre Pedro, areia movediça”?! Quem construiria assim a sua casa – sobre areia movediça? Quem trocaria, mesmo nos nossos dias, a rocha como alicerce, por seixos rolantes ou, pior ainda, areia movediça? Até o próprio Jesus se contradizia a si mesmo? Seria isto possível?
Vejamos as suas clarividentes palavras: “Quem escuta as Minhas palavras e as põe em prática é como o homem prudente que edificou a sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos mas não caiu, porque estava fundada na rocha. Aquele, porém, que ouve as Minhas palavras e não as põe em prática, é semelhante ao néscio que edificou a sua casa sobre a areia. Caiu a chuva, engrossaram os rios, sopraram os ventos contra aquela casa, e ela desmoronou-se; grande foi a sua ruína” – S. Mateus 7:24-27. (sublinhado nosso)
Ora, de igual modo, se qualquer confissão religiosa tenta alicerçar as suas doutrinas em mandamentos e teorias humanas – areia movediça – certamente que estará sempre em contradição com os claros ensinos das Escrituras, estes firmados sobre a rocha – Cristo Jesus! Que diferença! Cremos ter sido coerentes conseguindo demonstrar, ao longo destas páginas, demonstrado que esta, como outras confissões religiosas têm, no seu seio, doutrinas fundadas sobre a areia, não sobre a rocha – as Escrituras!
Portanto, repetimos uma vez mais, se realmente for traduzida com seriedade a palavra grega Petros, pelo seu real sentido: pedra, seixo rolante, não só o nome próprio, dos nossos dias, desaparece, porque não existe no original com tal significação, como também fica anulada toda a confusão a que deu lugar esta confissão religiosa com sede em Roma!
Quanto a nós, damos graças a Deus que, a única ordem que Jesus deu a Simão Barjonas, a S. Paulo e a todos os outros foi: que espalhassem a Verdade, que dessem a conhecer aos outros o que conheciam e tinham recebido. Fiel a este mandato, Simão Barjonas, mais conhecido por “Petros”, diz: “Quanto a nós, não podemos deixar de afirmar publicamente o que vimos e ouvimos” – Actos 4:20.
Esta, prezado leitor amigo e amante da Verdade, foi a comissão que Jesus deixou à Sua Igreja – a missionação! Quanto ao resto, são meras suposições, teorias e doutrinas humanas fundadas unicamente pelos seres humanos – areias movediças – nada mais! Que ao Seu eterno e excelso nome seja dada toda a honra, glória e louvor para todo o sempre, Amén.