sábado, 15 de maio de 2010

O PEQUENO CHIFRE

Iremos ver, passo a passo, algumas características deste poder para que possamos, minimamente conhecer quem, na realidade, representa.

a) A sua origem

Qual é, na verdade, a sua origem? O chifre pequeno sai de um dos quatro chifres sucessores da grande ponta (chifre) ou avança ele a partir de um dos pontos cardeais, isto é, um dos quatro ventos dos céus? A tradução clássica bíblica refere que, quando a ponta grande foi quebrada “subiram no seu lugar quatro (chifres) também notáveis, para os quatro ventos do céu. E de uma delas (chifres) saiu uma ponta (chifre)” – v. 8,9a (segundo versão tradicional).
A maior parte das traduções bíblicas, neste preciso trecho, tal como podemos ler, dá a entender que o chifre pequeno sai de um dos quatro chifres que sucederam à ponta grande que foi quebrada. No entanto, num exame mais atento à sua construção gramatical, este mostra algo de diferente, ou seja, indica que o chifre pequeno, ou o poder por ela representado, sai, não “das quatro pontas/chifres” que sucedem à “ponta grande”, mas sim de um dos “ventos do céu”!
Assim sendo, o chifre pequeno, contrariamente ao que a tradução tradicional dá a entender, surge de um dos quatro ventos, ou seja, oriundo da direcção de um dos pontos cardeais. Este pormenor é bastante importante para uma possível identificação deste poder que, desde sempre, tanta controvérsia tem gerado entre os intérpretes do texto bíblico que, vêem nele a personagem histórica, oriunda destes chifres – Antíoco Epifânio IV.

b) A sua natureza

Lendo o v. 9a com mais profundidade, é-nos revelado mais um pormenor que nos dá a conhecer que este poder, ao surgir, é “(…) mui pequeno”.
À luz do texto original, este poder tem um começo muito débil, pequeno; mas, apesar desta origem ele desenvolver-se-á em diversas direcções, adquirindo desta forma um considerável poder. Comparativamente, a linguagem aqui empregue é diferente da que se encontra no capítulo anterior – Daniel 7.8 – quando descreve o pequeno chifre saído de entre os chifres do 4º animal.

c) A sua expansão geográfica

O crescimento, em poderio, deste poder far-se-á conhecer e sentir através de uma expansão horizontal. O verbo que, na primeira parte do texto do v. 9a, é traduzido pelo verbo “cresceu”, deveria de ter sido vertido com o sentido de - deslocar, avançar – o que implica uma expansão geográfica horizontal e não como poderá fazer crer, um crescimento vertical. Nas Sagradas Escrituras encontramos alguns exemplos que reforçam este ponto de vista, em que o contexto é claramente – avançar com um fim militar, de conquista – cf. Deuteronómio 20.1; I Crónicas 5.18;20.1.
O texto continua a descrever a trajectória do chifre pequeno e revela que este – “cresceu muito”. A ideia subjacente é de um crescimento em estrutura dominante, ou seja, alargando os seus tentáculos. A direcção desta expansão vai no sentido de incrementar o prestígio do chifre pequeno. Este cresceria, expandir-se-ia para “o meio-dia (Sul - Egipto), o oriente (Este - Síria) e para a terra formosa (Norte - Palestina)” – cf. Ezequiel 20.6.

d) A sua actividade

- v. 10 – “se engrandeceu até ao exército do céu; e a alguns do exército e das estrelas, deitou por terra e as pisou”.

Ao longo das Sagradas Escrituras encontramos esta mesma expressão - “exército do céu” – algumas vezes; na sua grande maioria encontramo-la num contexto de culto aos astros: - Deuteronómio 4.19; 17.3; II Reis 17.16; 21.3, etc. Noutros contextos, a mesma expressão alude a seres celestes: - I Reis 22.19; Neemias 9.6; II Crónicas 18.18; Jeremias 33.22. Assim sendo, no primeiro caso, o chifre pequeno gradualmente se irá fortificando ao se identificar com o “exército do céu”, num culto idólatra. No segundo caso, é prestado culto a estes seres celestes para deles se obter poder.
Por outro lado, este “exércitos” poderá também significar o povo de Deus sobre a terra – cf. Êxodo 7.4. Assim sendo, claramente se percebe que o poder exercido pelo chifre pequeno se abaterá sobre este povo.
O teor da segunda parte do versículo “e a alguns do exército e das estrelas, deitou por terra e as pisou” – v. 10b – encontramo-lo claramente interpretada, mais à frente, como sendo a “destruição dos fortes e do povo santo” – v. 24. Inegavelmente, em causa está – o povo de Deus - cf. Daniel 7.27.

- v. 11 - “E se engrandeceu (o chifre pequeno) até ao príncipe do exército e por ele (o chifre pequeno) foi tirado o contínuo e o lugar do seu santuário foi lançado por terra”. Vejamos este verso em várias fases:

a) Primeira parte

– “E se engrandeceu (o chifre pequeno) até ao príncipe do exército”.
Como já o referimos, certos intérpretes identificam este - chifre pequeno “que se engrandeceu” - como sendo Antíoco Epifânio. De igual modo, - o “príncipe do exército” - é apontado por estes, como sendo “o sumo sacerdote Onias III, deposto em 175 a. C e assassinado a mando de Antíoco Epifânio”.

- O termo traduzido por “príncipe” por vezes é vertido por: chefe ou maioral; esta designação por vezes é aplicada ao Sumo Sacerdote, como se poderá ver em diversos textos bíblicos: I Crónicas 15.12; 24.5; Esdras 8.24. Mas a expressão “príncipe do exército” nunca designa um ser humano. A quem se referirá, pois, esta designação? Se compararmos outro texto onde é empregue a mesma palavra – Josué 5.13-15 – notamos que a linguagem desta personagem para com Josué é a mesma que no passado foi empregue com Moisés no episódio da sarça ardente – “tira os teus sapatos de teus pés, porque o lugar onde em que tu estás é terra santa” - Êxodo 3.5. No livro de Daniel, esta palavra refere-se habitualmente a um ser celeste: Daniel 8.25;10.13,21;12.1.
Ora, neste último texto – Daniel 12.1 – este “príncipe” chama-se Miguel. Assim, para uma maior consolidação de interpretação, se consultarmos alguns textos do Novo Testamento – Judas 9; I Tessalonicenses 4.16 - então, não existem quaisquer dúvidas de que se trata do Filho de Deus, Jesus – “o Príncipe dos Exércitos do Senhor”.
Abramos aqui um parêntesis para averiguarmos a autenticidade desta interpretação profética, a saber, se o sumo sacerdote Onias III, personifica o “príncipe do exército”.
Certos comentaristas fazem duas afirmações: 1- que este sumo sacerdote, Onias III, está relacionado com a profecia das 70 semanas, visto “personificar o “Príncipe, o Ungido” – v. 26 (cf. Daniel 9.24-27)”. 2- que este “foi deposto pelo rei Antíoco Epifânio IV no ano 175 a. C..” 3– que “o período das 70 semanas começam deverão ser contadas a partir do decreto do rei Ciro, da Pérsia, ou seja, em 538 a. C., e não o de Artaxerxes, em 457 a. C.” Vejamos tudo isto em várias etapas:

- Se tivermos presente o que revela a profecia, esta diz-nos, a propósito, que: - “depois das sessenta e duas semanas será tirado o Messias” – Daniel 9.26. Como já vimos, estas semanas são proféticas. Assim estamos perante um período longo de tempo. Assim, se cada semana tem 7 dias (profeticamente falando estes correspondem a anos – cf. Números 14.33,34; Ezequiel 4.6), então teremos 434 anos (62 semanas x 7 dias).

- De acordo com a profecia, o “Ungido” deveria de ser exterminado no final deste período – 434 anos. Se, tal como foi dito, as 70 semanas têm como ponto de partida o ano 538 a. C., então veremos que esta ocorrência deveria de acontecer no ano 104 a. C. (538 – 434 a. C.). Dão-nos a conhecer que este o sumo sacerdote Onias III foi deposto em 175 a. C. e morto em 171 a. C.. Então, que faremos do ano 104 a. C., visto este não corresponder, nem ao ano da deposição, nem ao da sua morte?

- Perante o exposto, ou: 1- a data do decreto do rei Ciro, o Persa, 538 a. C., tal como dizem, não está relacionado com o período da profecia das 70 semanas – o que é altamente provável. 2- o “Ungido” da profecia não tem qualquer relação com o sumo sacerdote Onias III – o que poderá muito bem acontecer.
Portanto, desde já, podemos ver que o sumo sacerdote Onias III, não corresponde, de modo algum, ao “príncipe do exército” – tal como veremos na próxima lição.


b) Segunda parte

- “foi tirado o contínuo (perpétuo)”.
Devemos dizer que a palavra “sacrifício” introduzida no texto das diferentes versões não existe no original, pois é um acrescento feito por alguns tradutores. Segundo o texto, este poder simbolizado pelo chifre pequeno irá atentar contra o “contínuo/perpétuo/diário”, tradução da palavra hebraica – tamid – a qual aparece 103 vezes no Antigo Testamento.
Para que saibamos do que estamos a falar, precisamos de saber o que este é e o que representa, segundo as Escrituras, este tamid? “Segundo - Êxodo 29.38-42 e Números 28.2-8 -, o serviço quotidiano compreendia o holocausto de um cordeiro de manhã e outro à tarde. (…). Este serviço quotidiano é o sacrifício perpétuo – tamid”.
À luz do contexto esta apropriação tem que ver com o serviço no santuário. Mas qual? Só existem dois santuários nas Sagradas Escrituras: 1- o terrestre – Êxodo 25.8,9; 2- o celestial – Hebreus 8.1-6.
O terrestre, o qual é mencionado no Antigo Testamento foi destruído no ano 70 d.C.. Assim, o único a funcionar como “Seu santuário”, no tempo do “chifre pequeno” é, efectivamente, um outro santuário, ou seja - o celestial. Como facilmente se compreenderá, o ataque deste poder - chifre pequeno – é de cariz religioso, significando a apropriação dos méritos do ministério de Cristo por serviços substitutivos de pendor humano que tornam ineficaz o serviço perpétuo (tamid) de Cristo em favor da humanidade.

c) Terceira parte

- “o lugar do seu santuário foi lançado por terra”.
Iremos analisar este versículo um pouco mais em detalhe:
1- A palavra – lugar (makon) - na maioria das vezes, no Antigo Testamento, designa: a morada, a habitação de Deus - seja ela no Céu – I Reis 8.39,43,49; II Crónicas 6.30,33,39; Isaías 18.4, etc - ou na Terra – I Reis 8.13; II Crónicas 6.2.
2- A expressão “lugar do seu santuário” aparece no Antigo Testamento unicamente aqui; esta palavra - santuário (miqdash) – pode, de igual modo, designar o templo de Deus na Terra como no do Céu – Salmo 68.35; 78.69; Jeremias 17.12.
3- Vejamos o resto da frase: - “foi lançado por terra”
Certos intérpretes deste versículo, na tentativa de o harmonizar com a personagem Antíoco Epifânio, vão ao ponto de o traduzir de maneira a dar a entender que foi este monarca seleucida que, devido a sua acção, “profanou” , “aboliu” o santuário.
Esta expressão - “foi lançado” (hushlak) – comporta em si a noção de: atirar, lançar. E, entre as cerca de 125 vezes que aparece no Antigo Testamento, não sugere ou insinua algo que tenha a ver com “profanação” ou algo de semelhante, mas tem o sentido de um acto de destruição. Assim, esta (destruição do santuário) visará o tornar ineficaz o quanto se passa, acontece no santuário, o qual se circunscreve, uma vez mais, numa dimensão celeste.
Aqui trata-se, como facilmente se compreenderá, de um contexto não terreno, humano, mas cósmico. Este poder – o chifre pequeno – desenvolverá as suas actividades e estas direccionadas contra Deus, de maneira que fará que o santuário celeste perca todo o seu significado, onde Cristo ministra a favor do Seu povo. Esta dimensão cósmica de “lançar por terra” o santuário, enfatiza, na realidade, a acção contra o ministério celeste de Cristo devido ao estabelecimento de um sistema rival de mediação. Isto dito por outras palavras – o chifre pequeno – tudo fará para afastar a atenção do ser humano da função de mediação, intercessão exercida pelo Sumo Sacerdote – Cristo e, como corolário desta acção, privará a humanidade das bênçãos resultantes do seu ministério celestial.
Este poder aqui representado que, como veremos mais à frente, não tem qualquer relação com o rei seleucida Antíoco IV Epifânio, mas sim com a continuação da Roma pagã, isto é, a Roma papal. Esta, ao colocar o sacerdote, o padre, como substituto da intercessão de Cristo no Santuário celestial, de certa forma derruba o quanto ali se faz a favor do crente. Vejamos, a este respeito o que nos informa o Catecismo: - “(…) a confissão dos pecados perante o sacerdote é elemento essencial deste sacramento (sacramento da Confissão) (…). É chamado sacramento do Perdão, porque, pela absolvição sacramental do sacerdote, Deus concede ao penitente – o perdão e a paz”. Ou ainda – “(…) com efeito, os bispos e os presbíteros é que têm, em virtude do sacramento da Ordem, o poder de perdoar todos os pecados “em nome do pai, do Filho e do Espírito Santo”.
No confessionário, o padre perdoa pecados usando esta fórmula. No sacrifício da missa o sacerdote católico romano torna-se um outro Cristo, na medida em que sacrifica no altar como Cristo, apresentando-se para salvação dos fiéis. O lugar que, por direito, pertence exclusivamente a Cristo, está ocupado por substitutos enganadores. Através da Missa e do Confessionário muitos são afastados do contínuo ministério de Cristo exercido actualmente no Santuário celeste. Através de cerimoniais elaborados, em nome de Cristo, o verdadeiro ministério de Cristo é obscurecido e posto completamente de lado.
O perdão total que Cristo deseja conceder a todos quantos confiam na Sua perfeita e gratuita justiça, tem e continua a ser usurpada por um sistema que toma o Seu lugar. Em lugar de confiar directamente em Cristo, no que fez e faz em nosso favor, o crente, desta forma, é ensinado a depender de uma igreja que, pela sua forma de actuar, dispensa tudo o que Cristo oferece!

- v. 12 - “(…) e lançou a verdade (emeth) por terra; fez isso e prosperou”- cf. 7.25
Note-se que a palavra – emeth (verdade), também pode significar: fidelidade /lei. Esta palavra, deriva, por sua vez, de uma outra – aman – da qual deriva a palavra – Amen – que por sua vez significa: obedecer, ser fiel. As Escrituras associam o conceito Verdade/fidelidade com o de lei – cf. Malaquias 2.6; Salmo 43.3; 119.7,43. Este – Ámen - é a palavra que proferimos no final de cada oração, traduzindo um verdadeiro e fiel: - assim seja.
Este texto de Daniel foi compreendido e traduzido por comentadores judeus, no sentido de que o chifre pequeno se moveria com o propósito de rejeitar a lei – “Ele, o pequeno chifre, anulará a Lei e a observância dos mandamentos”.
No livro de Daniel encontramos algumas vezes esta palavra “emeth” e, em certos casos ela designa a autêntica revelação oriunda de Deus – Daniel 8.26; 10.1,26; 11.2
Assim, Daniel 8.12 e 7.25 não só se interligam entre si como também contêm a mesma mensagem profética – atentar, não só contra a Lei como também contra o Seu autor – Deus.

quinta-feira, 13 de maio de 2010

OS DOIS SANTOS QUE FALAM

Retomemos a interpretação do restante texto do profeta Daniel. Aqui o profeta ouve o diálogo entre dois seres celestes aos quais chama “santos”.

a) A pergunta - v. 13 - “Depois ouvi um santo que falava e disse outro santo àquele que falava: - até quando durará a visão do contínuo e da transgressão assoladora para que seja entregue o santuário e o exército, afim de serem pisados?”

a)- A questão do tempo: - A pergunta foi feita nestes termos: - “(…)até quando” mostra claramente que o contexto que a motiva é de opressão e, em resposta à mesma, faz-se eco de um juízo, julgamento, para a reposição da normalidade.
A questão em causa está ligada a um determinado tempo. Assim sendo, é inevitável que nos perguntemos acerca do início da mesma. Convém, no entanto, recordar a este propósito as palavras do anjo que informava o profeta: - “a visão se realizará no fim do tempo” – v. 17,19, ou ainda: - “a visão da tarde e da manhã é verdadeira (…) só daqui a muitos dias se cumprirá” – v. 26. Estas palavras são significativas visto que a noção “fim dos tempos” está presente ao longo deste capítulo.

b)- Vejamos a palavra traduzido por - “a visão” – Para a mesma palavra na nossa língua encontramos no original dois termos distintos, mas que são traduzidos pela mesma palavra: 1- chazon (visão); 2- mar’eh (aparição).
– chazon (visão) – aparece cerca de seis vezes ao longo deste capítulo – Daniel 8.2 (2 vezes),13,15,17,26b. O termo chazon (visão), como se encontra em Daniel 8.13, remete, segundo o contexto, para a visão do carneiro e do bode e do chifre pequeno, tal como o v. 2 claramente o indica.
- mar’eh (aparição) – aparece cerca de três vezes neste mesmo capítulo – Daniel 8.16,26a, 27. O termo mar’eh (aparição) remete de uma forma mais restritiva, efectivamente, para o aparecimento daqueles seres celestiais que estabelecem a conversação. Resumindo: - mar’eh (aparição) na qual o profeta se integra pelo quanto ouve. Enquanto que chazon (visão) corresponde à “visão do carneiro, do bode com os seus chifres e do chifre pequeno.

c) – O verso fala de “transgressão/pecado assolador/a”. A palavra pesha que é traduzida por – pecado ou transgressão – é a mais forte das existentes, a saber: 1- hatahfalhar o objectivo; 2- awonafastar-se do caminho; 3- pesharevoltar-se, rebelar-se.
Aqui no texto, para mostrar a profundidade da luta do chifre pequeno contra Deus, o profeta utilizou a palavra pesha a qual exprime a revolta daquele que a veicula. Assim, “em toda a parte onde o pecado se manifesta, ele suprime a comunhão com Deus e faz com que o homem fique entregue a si mesmo”.
Esta palavra é empregue para mostrar a força e intensidade desta revolta, deste atentar contra terceiras pessoas. Esta ideia está perfeitamente expressa quando refere: - “(…) a ver se não meteu a sua mão na fazenda do seu próximo” – Êxodo 22.8. Assim, pesha “designa sempre o atentado aos direitos de outrem”.
Este termo o encontramos no capítulo seguinte, onde se lê: - “para fazer cessar a transgressão” - Daniel 9.24. Ou seja, um tempo determinado dado em favor do povo de Israel para terminar com as transgressões da nação. De igual modo encontramos esta palavra relacionada com a festa do antigo Israel da purificação do santuário - Dia das Expiações. E, tanto em Daniel 9.24, como em Levítico 16.16,21 ela se aplica ao povo de Deus.
Voltando ao texto: - ao unirmos estes dois termos - “transgressão/pecado assolador/devastador/a”, o agente que qualifica a transgressão/pecado e que aqui é traduzido por “assolador/devastador”, por vezes a mesma palavra é vertida com o sentido de “desolação”, tal como a encontramos em – Daniel 9.27;11.31;12.11 – “abominação da desolação”.
Tendo em linha de conta o que acaba de ser dito, a expressão “transgressão assoladora” ou “pecado devastador” é o resultado decorrente da transgressão religiosa e cultual levada a efeito pelo chifre pequeno, ao estabelecer um sistema que conduz ao exercício de um ministério de mediação rival do que é praticado no santuário.

Abramos um breve parêntesis para analisarmos, ainda que brevemente, o significado da festa anual do Dia das Expiações – Levítico 16.29-34;23.26-29 - para o antigo Israel?
Esta representava para um judeu – um verdadeiro dia de juízo – o qual tinha uma calendarização e ritual próprios – “No mês sétimo, ao primeiro do mês tereis descanso (...). Mas aos dez deste mês sétimo será o dia da expiação” – Levítico 23.24,27. Por isso é dito que “os 10 dias que precedem o Yom Kippour (Dia das Expiações) muito cedo foram entendidos como sendo um tempo de probatório, no qual o judeu se preparava para o dia do juízo”. No mesmo sentido é dito que “um dia por ano, o homem esforça-se por servir a Deus, não como homem, mas como se fosse um anjo. (…). O Judeu, no Yom Kippur não come nem bebe seja o que for; observa o mais rigoroso jejum e passa todas as horas de vigília em oração. É nesse dia que encerra os 10 dias de arrependimento que é, finalmente, determinado o julgamento de cada um em vista do novo ano”.
Este dia era de tal maneira tão solene, especial e único para um judeu que, não só para realçar a intimidade que este deveria de ter com o seu Deus, como também para mostrar o como este se encontrava totalmente desligado do quanto o poderia afastar de Deus, foi dito que “o valor numérico das letras que compõem a palavra “satan” (Satanás), em hebraico – Hasatan – é 364, ou seja, o total dos dias de um ano menos um. Satan pode acusar o povo judeu e desencaminhá-lo durante todo o ano, com excepção de um dia: o Yom Kippur”. Fechando o parêntesis.

d) – A parte final do versículo diz que “o santuário e o exército serão pisados” – 13b. A expressão “pisar” encontramo-la, por exemplo em – Isaías 10.6; Miqueias 7.10 – ou seja, com o sentido de alguém que é subjugado por um inimigo. De igual modo, a ligação desta palavra ao santuário e ao exército, não comporta, em si mesma, a ideia de sujidade ou profanação, mas sim a de os destruir ou de os tornar inoperantes.

b) A resposta

- v. 14 – “E ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs e o santuário será purificado”.
Vejamos a primeira parte deste versículo sob três vertentes: 1- Pseudo interpretações; 2- factor temporal; 3- factor de precisão.

1- Pseudo interpretações

Alguns intérpretes das Escrituras afirmam que a supressão do sacrifício (tamid) durará “2.300 tardes e manhãs”, equivale a 1.150 dias completos, dizendo que é por causa “dos sacrifícios omitidos, que se deveriam oferecer um pela manhã e outro pela tarde”. O raciocínio é evidente: - se é dito que a suspensão do sacrifício prolongou-se ao longo de 2.300 tardes e manhãs, ou seja duas partes do dia, então bastará juntá-las e teremos então os tais 1.150 dias completos! Tudo isto na tentativa de fazer coincidir os dizeres do texto de Daniel com a personagem Antíoco Epifânio!
Iremos considerar algumas objecções contra esta forma de interpretar o texto em causa, pois é contrário ao claro ensino bíblico.

a) - O ritual do sacrifício (tamid) no Antigo Testamento é designado pela expressão - sacrifício contínuo – cf. Êxodo 29.38-42; Números 28.3-6 – o qual caracteriza a dupla oferta consumida pela manhã e à tarde. Assim, é a soma das partes que constituem o sacrifício contínuo e não cada uma em separado. Em consequência, a divisão para metade feita por alguns comentaristas é um atropelo grosseiro à clareza e significado do texto.

b) - A sequência “tardes-manhã”, ou seja, a tarde precede a manhã não tem qualquer relação com os sacrifícios acima mencionados, pois estes são sempre mencionados e praticados em sequência inversa, isto é, a manhã precede a tarde. Portanto, contrariamente ao que alguns pretendem, a expressão “tardes-manhãs” não está ligada aos sacrifícios (tamid), mas a uma medida de tempo.

c) - Não existe suporte, no interior do texto bíblico, para que se possa contar 2.300 tardes e manhãs para que correspondam a duas partes do dia. E, fazendo a junção de ambas equivaleria à obtenção de 1.150 dias completos.
A sequência de uma tarde e de uma manhã, como expressão de um dia inteiro, aparece pela primeira vez no relato da Criação - Génesis 1. 5,8,13,19,23,31 - reflectindo-se esta mesma linguagem em Daniel 8.14,26.

2- factor temporal

Tanto o início como o fim deste período de tempo compreendido pelas “2.300 tardes e manhãs” não nos são facultados, neste capítulo, pelo profeta. O ponto fulcral deste texto repousa mais sobre os acontecimentos que terão não tanto no início ou enquanto durar este período mas, essencialmente, no fim do mesmo – Daniel 8.13,14 - e para lá deste.
Tal noção pode ser plenamente justificada pelas palavras daquele que dava a conhecer este período de tempo, ao mostrar claramente no v. 26 dando a entender que esta visão teria mais desenvolvimentos num futuro próximo, cerca de 13 anos – tempo que separa esta visão do capítulo 8 e a do capítulo 9 - para continuar e explicar, pelo mesmo ser celeste, o que ficou incompreendido – “(…) pois não havia quem a entendesse” – v. 27.
Deste modo, podemos ver alguns pontos de contacto entre estes dois capítulos, a saber:

a) – O anjo encarregado de revelar e explicar a mesma visão é o mesmo – Gabriel – Daniel 8.16,17,19; 9.21-23

b) - Os termos usados são semelhantes. A palavra - visão – “mar’eh”, como já vimos, encontramo-la em Daniel 8.16,26,27. Estes versículos aludem à visão das 2.300 tardes e manhãs. Ora, este mesmo termo encontra-se no capítulo a seguir; o qual, no fundo, está directamente ligado ao quanto foi anteriormente revelado, muito embora tenha ficado incompreendido. Desta forma o anjo admoesta: - “(…) toma, pois, bem sentido na palavra e entende a visão (mar’eh) – Daniel 9.23.

c) – No que se refere à compreensão da visão, o anjo recebe ordens para “dar a entender a este (Daniel) a visão (mar’eh)”- Daniel 8.17 (sublinhado nosso). Mais tarde, o mesmo anjo repete o mesmo conselho ou admoestação ao profeta “(…) entende a visão (mar’eh)” – Daniel 9.23.

d) – Também o tema do santuário está presente em ambos os capítulos. Como pudemos ver – Daniel 8.13,14 – aborda claramente a problemática do santuário. No capítulo seguinte encontramos o mesmo vocabulário inerente ao serviço do santuário: “expiar a iniquidade” “ungir o santo dos santos” – Daniel 9.24-27.

e) – Nos dois capítulos – 8º e 9º -, tanto num como no outro, existe uma revelação auditiva. Na 1ª, o elemento temporal – Daniel 8.13,14 - não era conhecido do profeta – Daniel 8.26,27; na 2ª, pelo contrário, o factor tempo ocupa o primeiro plano, pois nela é dado a conhecer o início do período mencionado na primeira, como veremos na lição seguinte - Daniel 9.24-27.

3- factor de precisão

Após a menção do longo período de tempo “2.300 tardes e manhãs” que revela, de uma forma precisa e concisa, que é uma porção longa de tempo, e que está intimamente ligada a acontecimentos que colocarão um ponto final aos movimentos do poder personificado pelo chifre pequeno.
Agora iremos, por fases, debruçar-nos, nesta segunda parte deste versículo, para vermos o que deverá acontecer no final deste período, ao dar-nos a conhecer: – “e o santuário será purificado” – Daniel 8.14b.

a) Afinal, de que purificação (nisdaq) se trata? Curiosamente, esta palavra é empregue uma única vez no Antigo Testamento, e essa é precisamente aqui. É necessário compreender esta “purificação do santuário” de uma forma larga, na qual se poderá incluir a ideia de restauração, isto é, de voltar a ser o que era, sendo necessário para isso: purificá-lo e “restabelecê-lo em todos os seus direitos”.

b) Quanto ao termo santuário (qodesh) – v. 13,14. Esta é a tradução mais frequente. Esta maneira de traduzir tem que ver com a frequente utilização deste termo no Antigo Testamento em relação ao santuário, seja ele com referência ao terrestre (Levítico 4.6; I Crónicas 22.19, etc) ou ao celeste (Salmo 68.5; 102.19).
O que convém recordar e, até certo ponto, reforçar que este santuário aqui mencionado não está, de modo algum, relacionado com o santuário terrestre, visto já não existir. Assim sendo, o único santuário que existe ainda no final do tempo profético é, efectivamente, o celestial.

c) Como vimos, a palavra santuário (qodesh) aponta para uma outra direcção. A intenção do texto em causa compreender-se-á melhor se tivermos em mente, como já o referimos, uma outra ocasião solene para o povo de Deus do passado - o Dia das Expiações - no qual o santuário (qodesh) era purificado (nisdaq) - Levítico 16. 16,19,30.
Assim, um judeu habituado, desde sempre, ao ciclo ritual em que o ano religioso terminava com a purificação do santuário, ao ouvir esta expressão do profeta – santuário purificado (nisdaq qodesh) – não deixaria, de forma alguma, de a associar à do antigo Israel, a do - Dia das Expiações – visando esta, como acima foi dito: - “restabelecê-lo em todos os seus direitos” – o santuário - e, por extensão, o povo.
O santuário terrestre tinha, por isso, necessidade de ser purificado de todos os pecados ali trazidos e acumulados ao longo do ano religioso pelo povo. Assim. Esta festa solene – Dia das Expiações – convidava todo o povo a deixar de lado os afazeres para que pudesse repensar a vida. Assim, da mesma forma, o santuário celeste deveria de ser purificado de todas as faltas acumuladas durante o período que termina no final das 2.300 tardes e manhãs – Daniel 8.13,14.

terça-feira, 11 de maio de 2010

A IDENTIDADE DO CHIFRE PEQUENO

Tal como já o dissemos, muitos comentadores do passado identificaram, assim como os recentes continuam a identificar o “pequeno chifre” como sendo o rei da dinastia seleucida Antíoco IV Epifânio (175-164 a. C.), o perseguidor dos Judeus em Jerusalém e o profanador do Templo – cf. I Macabeus 1.41-64; 4.52-54. Com a identificação desta personagem com a continuação da Roma pagã, ou seja, a Roma papal, desaparecem os conflitos escriturísticos; mas se se continuar a identificar Antíoco IV Epifânio com o “chifre pequeno” alguns problemas se colocam, como por exemplo:

1- Em Daniel 7.8 o relato bíblico afirma que o “pequeno chifre” arrancará 3 chifres. No entanto, os esforços dos eruditos para encontrar três reis “arrancados” por Antíoco Epifânio têm-se demonstrado infrutíferos.

2- Segundo o texto bíblico, o “pequeno chifre” é o 11º rei, visto ele aparece após os dez primeiros chifres já existentes – Daniel 7.8,20. Assim, se este rei é, de facto, o cumprimento e realização do “pequeno chifre”, então deveria de ser, igualmente, o 11º rei da linhagem dos seleucidas. Acontece, porém que Antíoco Epifânio é o 8º rei!

3- Quanto ao elemento “tempo”: - a supremacia do “pequeno chifre” sobre os santos deveria durar, segundo o profeta Daniel, três tempos e meio – Daniel 7.25. se tomarmos esta indicação de tempo como sendo anos literais, quer dizer que Antíoco Epifânio deveria ter perseguido os judeus durante três anos e meio. Acontece que, segundo o livro de Macabeus, a perseguição e a profanação do templo durou unicamente três anos e dez dias!

4- A expressão bíblica “2.300 tardes e manhãs” – Daniel 8.14 – contrariamente ao que alguns intérpretes pretendem, esta indicação de tempo poderá ser reduzida a um período de 1.150 dias completos para assim ser aplicado à profanação do templo levada a efeito por Antíoco Epifânio que, como acima dizemos, não durou 2.300 nem 1.150 dias mas, três anos (isto é, 360 x 3= 1.080) e dez dias, ou seja: 1080 + 10= 1.090! Portanto, o chifre pequeno não se aplica, de modo algum, ao rei da dinastia seleucida.

5- Segundo as Escrituras – Daniel 7.18,27 – os santos do Altíssimo, receberiam o reino, um reino eterno. Ora, se Judas Macabeu pôs fim a Antíoco Epifânio, o poder perseguidor dos santos do Altíssimo, logicamente, este novo reino deveria corresponder ao descrito na profecia. Mas não, pois, não só o reino dos Macabeus não era, de forma alguma, o reino dos santos do Altíssimo, como também não era eterno!

6- O texto bíblico descreve a trajectória do chifre pequeno e revela que este – “cresceu muito” – Daniel 8.9. Este cresceria, expandir-se-ia, para “o meio-dia (Sul - Egipto), o oriente (Este - Síria) e para a terra formosa (Norte - Palestina)” – cf. Ezequiel 20.6. Ora, este poder expandiu-se em quase todas as direcções, pois notamos a ausência de um ponto cardeal – o Oeste!
Assim, na perspectiva de um habitante da Palestina, o poder histórico mencionado pelo profeta, não é outro a não ser Roma, que veio, curiosamente, deste mesmo ponto cardeal – o Oeste. O reino Seleucida que cobria o território da Síria e de babilónia de onde é oriunda a personagem Antíoco Epifânio, ficava a Norte!

7- Segundo a Bíblia, o “chifre pequeno” se engrandeceu até ao príncipe do exército” – Daniel 8.10a,11a,25b. À luz da coerência da interpretação bíblica, o título “príncipe do exército” nunca se aplica ao humano, mas um ser celeste - Daniel 8.25;10.13,21;12.1 – o Filho de Deus, como mostrámos acima.
Então como é que os homens vêem a profecia? Ora vejamos: - sabemos, historicamente falando, que o rei Antíoco Epifânio mandou assassinar o sumo sacerdote Onias III em 171 a. C. em Antioquia. Segundo alguns comentadores, este rei representa o chifre pequeno que se engrandece até ao “príncipe do exército”, sendo este último identificado, biblicamente falando, como um ser celeste; alguns intérpretes das Escrituras, como já o referimos, afirmam que Onias III, representa a figura bíblica do – “príncipe do exército”.
Sendo assim - como poderá o rei Antíoco Epifânio corresponder ao chifre pequeno, se ambos são duas realidades diferentes?! A primeira - está, historicamente relacionada com Onias III; a segunda – como vimos, está bíblica e profeticamente relacionada com um ser celeste - o “príncipe do exército”. Assim sendo – como poderá haver qualquer relação entre Antíoco Epifânio (homem) e o “príncipe do exército”, ser celeste? São duas realidades e de dimensões diferentes. Portanto, perante o exposto, não existe qualquer relação entre o chifre pequeno e Antíoco Epifânio, nem tão pouco de Onias III com o príncipe do exército.
À luz da informação bíblica, isso sim, é clara a relação entre o poder humano, mas de cariz espiritual – ponta pequena – e o - príncipe do exército – criatura celeste e espiritual.

8- A expressão “2.300 tardes e manhãs” - Daniel 8.14 - tal como vimos, não só significa dias plenos, completos, tal como é empregue no relato da Criação – Génesis 1.5,8,13,19,23,31 – como também aponta para a data em que o santuário será purificado.
O anjo Gabriel aponta para o cumprimento desta profecia, isto é, - o tempo do fim – cf. Daniel 8.17,19,26. Assim, o período apontado não se enquadra com acontecimentos que se concluíram, como alguns interpretam, no II século antes de Jesus – no tempo de Antíoco Epifânio!

9- Se compararmos os acontecimentos históricos de Daniel 2,7,8 notamos que os dois primeiros capítulos começam com o antigo reino de Babilónia e o último começa com o Medo-Persa, mas todos eles continuam a enumerar acontecimentos até ao fim dos tempos – o que implica, só por si, interpretar o tempo anunciado como sendo profético.


10- Como podemos ver no quadro acima, existe um paralelismo entre o julgamento - Daniel 7.26 -, o qual conduz à 2ª vinda de Cristo - e a purificação do santuário – Daniel 8.14. Assim, tanto uma acção como a outra ocorrerão antes da 2ª vinda de Cristo, apontando para tempo do fim.
Estes acontecimentos inerentes ao tempo do fim não seriam possíveis se o período de “2.300 tardes e manhãs” fossem literais. Portanto, não se enquadram, de forma alguma com o rei seleucida Antíoco Epifânio.

11- O chifre pequeno ou o poder por ela personificado é, apresentado na linguagem do profeta como um poder de natureza, essencialmente, religiosa – cf. Daniel 7.25, 8.12. Acontece que Antíoco Epifânio, apesar das suas pretensões à divindade, era um poder político, nada mais.

12- Se lermos o texto – Daniel 8.22,23 – a ponta pequena está directamente ligada com o aparecimento de um rei - o 5º rei – v. 23 – logo após os quatro do v. 22. Ora, como vimos acima, Antíoco IV Epifânio é o 8º e não o 5º!

13- A profecia refere que este poder – ponta pequena – “(…) sem mão será quebrado” – Daniel 8.25. No entanto, se como dizem, este poder é o rei Antíoco Epifânio, os livros apócrifos I e II Macabeus, apresentam-nos três causas diferentes para a sua morte, a saber: 1ª- “(…) agora, morro de tristeza (…)” – I Macabeus 6.13; 2ª- “Esmagado por uma chuva de pedras” – II Macabeus 1.16; 3ª- “(…) prostrado pela doença (…). Enfim, ferido mortalmente” – II Macabeus 9.21,28. Como se poderá ver – nenhuma delas está de acordo com as palavras proféticas!

14- O chifre pequeno, como se poderá ver no quadro comparativo acima, quer no cap. 7 como no cap. 8 aparece no mesmo momento, mais precisamente após os impérios universais – 7.2-7,15-20; 8.2-8,20-22 – ou seja, após o século III da nossa era.
Além disto e segundo o texto bíblico, a actividade do pequeno chifre prolonga-se até ao final dos tempos e para lá do período compreendido pelas “2.300 tardes e manhãs”, visto que só neste final de tempo é que o santuário seria purificado, como também num tempo mais além, este poder seria “sem mão quebrado” – Daniel 8.25.
Portanto, pelo quanto pudemos analisar, o rei seleucida Antíoco IV Epifânio está totalmente ausente do livro profético de Daniel.
Dr. Ilidio Carvalho

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O CALENDÁRIO PROFÉTICO

– (Daniel 9.1-27)
O calendário profético
Os cristãos que procuram compreender as profecias que se encontram na Palavra de Deus, neste caso concreto, as que se encontram no livro do profeta Daniel, facilmente poderão esquecer o ensino fulcral, a razão de ser das Escrituras, ou seja, a primeira e a segunda vinda de Cristo.
Jesus, certa vez disse: - “Examinais as Escrituras porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam” – João 5.39. Estas palavras aplicavam-se aos Seus contemporâneos, aqueles que construíram uma religião de pendor humano e com aparente base nas Escrituras. Mas esta não tem qualquer valor se não estiver centralizada em Cristo Jesus. Sim, a Palavra de Deus ecoa esta grande verdade sob esta fórmula: - Jesus virá – (este é o ensino de todo o Antigo Testamento) - Jesus veio – (é o testemunho de todo o Novo Testamento) - Jesus voltará – (é a gloriosa esperança encontrada em toda a Bíblia, dos Génesis ao Apocalipse).
Assim, diante de nós, neste capítulo, está, por que não dizê-lo, a jóia da coroa das profecias do Antigo Testamento, onde é indicado o aparecimento do Messias. Com base no estudo e cumprimento desta profecia, não só os Magos vieram até à Palestina para O adorarem – Mateus 2.1,2,11 – como também Simeão e Ana – Lucas 2.25-38. Debrucemo-nos, pois, no detalhe do texto bíblico.

A inquietação do profeta

Desde já e em termos comparativos constatamos que o capítulo a examinar está directamente relacionado com o anterior, por várias razões: 1- ambos mostram a trajectória do povo de Deus ao longo da História; 2- ambos revelam o ministério de Jesus na Terra e no Céu; 3- ambos revelam a razão de ser do atentado contra a Lei de Deus; 4- ambos apresentam o juízo nas suas diversas fases; 5- ambos apontam para a primeira e segunda vinda de Cristo; 6- ambos apontam para o estabelecimento final do Reino de Deus.
Para que nos possamos situar no tempo, segundo os elementos cronológicos revelados logo no início deste capítulo, “ano primeiro de Dário”, encontramo-nos em 538 a. C. Assim, se compararmos estes dados com os do capítulo anterior – Daniel 8.1 “ano terceiro de Belsazar” – isto é, 551 a.C., então 13 anos separam estes dois capítulos.
Com este elemento em mente – a noção de tempo – convém recordar as palavras finais do capítulo anterior: - “acerca da visão, não havia quem a aentendesse” – v. 27. Foi preciso aguardar todo este tempo para que o profeta pudesse ter luz sobre a visão que ficara por compreender!
O que é que, desde já, o inquietava? No seu íntimo, o profeta, anelava pela restauração do templo derribado. Devido ao que lhe fora revelado – Daniel 8.14 – este foi levado a pensar, tal como lhe fora dito, que até à purificação do santuário deveria passar 2.300 anos! Assim sendo, a desolação da cidade amada, Jerusalém, seria demasiado longa. Sim, por aqui podemos perceber a razão de ser da angústia e perplexidade de Daniel. Mas, ao consultar os escritos do profeta Jeremias, as suas dúvidas desaparecem, visto que o exílio não ultrapassará 70 anos – cf. Jeremias 25.11,12; 29.10. Desde já, numa primeira fase, o profeta pôde “compreender” - Daniel 9.2 - o que há 13 anos atrás não compreendia!
Na realidade, se tudo tinha começado em 605 a. C., ano em que Jerusalém foi conquistada por Nabocodonosor; agora, à data dos acontecimentos, o profeta está no ano 538 a.C., isto quer dizer que os 70 anos anunciados pela profecia de Jeremias estão prestes a terminar (605-70= 535), faltavam cerca de 3 anos! Mas, curiosamente, é esta descoberta que faz com que o profeta fique perplexo. Pois se por um lado, ele tinha compreendido a profecia de Jeremias, por outro, tinha dificuldade em conciliar esta mesma profecia com a visão das 2.300 tardes e manhã – Daniel 8.14 -, ou seja, seria possível que o templo teria de permanecer em ruínas durante 2.300 anos? Como conciliar os diferentes dados das profecias?
Como resolver a questão? Recorrendo ao quanto o profeta tinha dito na sua primeira oração há muitos anos atrás, no ano 603 a. C. “no segundo ano do reinado de Nabocodonosor” – Daniel 2.1. É neste capítulo que encontramos esta oração e nela, ao agradecer as bênçãos recebidas o profeta dirige-se assim a Deus: - “Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque dele é a sabedoria e a força. Ele muda os tempos (…) os reis (…) dá sabedoria aos sábios e ciência aos entendidos. Ele revela o profundo e o escondido e conhece o que está em trevas e com ele mora a luz” – Daniel 2.20-22.

A ORAÇÃO DO PROFETA DANIEL

"Então Daniel foi para casa, e fez saber o caso a Hananias, Misael e Azarias, seus companheiros, para que pedissem misericórdia ao Deus do céu sobre este mistério, a fim de que Daniel e seus companheiros não perecessem, juntamente com o resto dos sábios de Babilônia. Então foi revelado o mistério a Daniel numa visão de noite; pelo que Daniel louvou o Deus do céu. Disse Daniel: Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque são dele a sabedoria e a força. Ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; é ele quem dá a sabedoria aos sábios e o entendimento aos entendidos. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz. Ó Deus de meus pais, a ti dou graças e louvor porque me deste sabedoria e força; e agora me fizeste saber o que te pedimos; pois nos fizeste saber este assunto do rei. (Daniel 2:17-23).

É confiante neste Deus que o profeta conhece que, agora, a exemplo do passado, irá expor o seu problema ao longo da oração que se encontra registada desde o v. 4 ao v. 19 – e que oração!
Antes de mais, na sua essência, o que é, na verdade, a oração? O Espírito de Profecia dá-nos algumas definições que nos podem ajudar na sua definição e, consequentemente, numa melhor compreensão da mesma. Assim, a oração é: 1- “o abrir o coração a Deus como a um amigo. Não que seja necessário, a fim de tornar conhecido a Deus o que somos; mas sim para nos habilitar a recebê-Lo” ; 2- “é a chave nas mãos da fé para abrir o celeiro do Céu, onde se acham armazenados os ilimitados recursos da Onipotência” ; 3- “é a respiração da alma”

À luz de tais definições, o profeta irá, como sempre foi apanágio da sua pessoa, aplicá-las cada vez que orava. Assim, esta não foi uma súplica comum, mas uma oração sacrificial. O texto revela-nos que, para orar ao Senhor, o profeta jejuou e vestiu-se de saco (vestes rudimentares) e aspergiu-se com cinza – v. 3. Tal como um morto – pó e cinza – é o que, na verdade, o pobre ser humano é perante Deus.
As palavras introdutórias são: “Orei” e “confessei” – v. 4. Que teria ele para confessar? Não foi o seu pecado que fez com que o povo de Deus fosse para cativeiro, pois perante o Céu ele era “mui amado” – Daniel 9.23 – e, os seus inimigos nele não acharam “nenhum vício nem culpa” – Daniel 6.4. Assim, como um autêntico intercessor ele chama a si a transgressão de toda a nação: - “Pecámos e cometemos iniquidade (…) – v. 5; “não demos ouvidos aos teus servos, os profetas (…)” – v. 6; “a ti, ó Senhor pertence a justiça mas a nós a confusão de rosto (…)” – v. 7; “ao Senhor nosso Deus pertence a misericórdia e o perdão, pois nos revelámos contra ele” – v. 9; “e não obedecemos à voz do Senhor, nosso Deus” – v. 10; (…) por causa dos nossos pecados e por causa das iniquidades de nossos pais, tornou-se Jerusalém e o teu povo um opróbrio para todos os que estão em redor de nós” – v. 16; “agora, pois, ó Deus nosso, ouve a oração do teu servo (…) e sobre o teu santuário assolado faz resplandecer o teu rosto” – v. 17
Perante esta situação difícil, reclama as promessas de Deus, ao dizer: - “(…) guardas o concerto e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” – v. 4; Com estes pensamentos, o profeta implora para que Deus resplandeça o Seu rosto sobre o Seu santuário que, fora destruído há muitos anos atrás, mas que chegara o tempo de ser reconstruído, dizendo: - “ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e opera sem tardar; por amor de ti mesmo, ó Deus meu (…) – v. 19.
Na sua oração, Daniel cita a Bíblia, pois algumas das suas expressões são citações bíblicas, como por exemplo: - “faz resplandecer o teu rosto” – v. 17 - as encontramos em - Salmo 80.3,7,19 e Números 6.25; - “Pecámos e cometemos iniquidade (…) – v. 5 – as encontramos na oração de Salomão na dedicação do templo – I Reis 46-53. Ou ainda, quando se refere às causas do cativeiro, como sendo a desobediência de Israel: - na pessoa do filho do rei Ezequias, Manassés – Jeremias 15.4.
Nesta preciosa oração podemos destacar algumas vertentes, que fazem desta oração algo de excepcional e de admirável, a saber:

1- Ele orou com muita intensidade
2- Ele repousou sobre a justiça de Deus e não sobre a sua própria justiça
3- Ele utilizou a Bíblia
4- Ele confessou os seus próprios pecados e os do grupo ao qual pertencia
5- Ele buscou a glória de Deus e do Seu santuário
6- Ele reclamou o cumprimento das promessas divinas

Quão intenso fervor contém a oração do profeta! De igual modo, este mesmo sentimento deveria avivar o coração de todos os filhos de Deus. Perante tais factos, ousamos perguntar: - e as nossas orações? São mera formalidade, por uma questão de hábito ou plenas de fervor? Acerca do vigor desta notável oração de Daniel, o Espírito de Profecia assim se expressa: - “Que eloquência na simplicidade da sua oração, e que fervor ela expressa! (…). O Céu se curvou para ouvir a fervente súplica do profeta”. Ou ainda: - “Se nós, como povo, orássemos como Daniel e lutássemos como ele lutou, humilhando o nosso coração perante Deus, haveríamos de presenciar tão notáveis respostas às nossas petições quanto as que foram dadas a Daniel”.
As palavras que veicularam a oração ainda que sublimes, só por si mesmas nada podem fazer. É em Deus que está todo o poder e só Ele poderá tomar a decisão. Tudo, na verdade, depende de Deus. É no reconhecimento desta sublime verdade que leva o profeta a expressar no final da sua oração: - “ó Senhor, (…) opera sem tardar (…) – v. 19.

domingo, 9 de maio de 2010

A RESPOSTA DE DEUS

Daniel 8.16 – o anjo Gabriel recebe a ordem de explicar a Daniel a visão. Mas, à medida que os factos se sucediam, de repente, o profeta “caiu enfermo” – Daniel 8.27 – facto que interrompe a continuação da narrativa, para que pudesse ter sido especificado dois vectores da mesma visão, ou seja: 1- o quando; 2- o como – esta seria cumprida.
Agora, ao fim de todos estes anos, Deus irá enviar, finalmente, a explicação da visão: - “estando eu, digo, ainda falando na oração, o varão Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio voando rapidamente e tocou-me à hora do sacrifício da tarde.” – v. 21; “e me instruiu e falou comigo e disse: Daniel, agora saí para fazer-te entender o sentido” – v.22; “(…), toma pois, bem sentido na palavra e entende a visão (mar’eh)” – v. 23. (sublinhado nosso).
Quando o anjo Gabriel disse, no v. 23 “(…)entende a visão (mar’eh)”, ele não utilizou o termo visão (chazon) que se refere à visão como um todo, tal como acontece em Daniel 8.1,13;9.21. Em vez deste, ele utiliza (mar’eh), o qual é utilizado especificamente na visão dos 2.300 dias – ou seja, a única porção do texto do capítulo 8 que o profeta não consegue compreender. Anteriormente, o anjo disse ao profeta que a visão (mar’eh), dos 2.300 dias era “verdadeira” – Daniel 8.26 – mas que, apesar disso, o profeta não tinha entendido a visão (mar’eh) – v. 27, portanto a visa respeitante aos 2.300 dias.
Agora, o profeta reconhece o mensageiro de Deus como sendo aquele que tinha visto na sua “visão ao princípio”, numa clara referência à visão relatada anteriormente – cap. 8.16. Assim, as palavras do anjo dirigidas ao profeta demonstram claramente o objectivo da sua presença ali – fazer com que Daniel compreenda a visão, não uma nova, mas a continuação da que fora anunciada anteriormente. Agora é a suprema ocasião para retomar o que ficara pendente ao logo destes anos, para assim ser revelado o – quando e o como – inerentes à grande preocupação do profeta – a purificação do santuário.
A resposta à oração de Daniel, assim como às suas interrogações acerca da visão dos 2.300 dias é, efectivamente, o anúncio do Messias vindouro, ao longo de toda a profecia das 70 semanas, as quais foram concedidas à nação judaica para o cumprimento da sua missão messiânica. Este longo período de tempo é dividido em três períodos:

1- de 7 semanas (49 anos) – relativo à reconstrução de Jerusalém e à restauração do Estado judaico.
2- de 62 semanas (434 anos) – inerente à missão deste Estado judaico e à preparação para a vinda do Messias.
3- de 1 semana (sete anos) – os últimos sete anos da aliança entre Deus e o Seu povo.

Veremos, no detalhe, ao longo da exposição os factos inerentes a estas mesmas divisões desta extraordinária profecia. Na realidade, em função deste contexto, Flávio Josefo assim se expressou acerca de Daniel: - “o mais admirável que eu encontro neste grande profeta é o facto extraordinário, particular e quase incrível que ele tem sobre os outros profetas, é de ter sido, ao longo da sua vida, honrado por reis e povos e ter deixado, depois da sua morte, uma memória imortal; porque os livros que escreveu e que ainda hoje são lidos, dão-nos a conhecer que o próprio Deus lhe falou e que não somente predisse, tal como os outros profetas as coisas que deveriam de acontecer, mas ele marcou os tempos em que essas mesmas coisas ocorreriam”.

b) A explicação
- v. 24: - “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para extinguir a transgressão (pesha) ; dar fim aos pecados (hatah); para expiar a iniquidade (awon); trazer a justiça eterna; selar a visão e a profecia; para ungir o Santo dos santos” – v. 24.
Já referimos a manifesta intenção de colocar esta profecia (das 70 semanas) na continuação da revelação anterior, ou seja, a dos 2.300 tardes e manhãs que, recorde-se, ficou por compreender. A relação entre ambas é, de certa forma, reforçada, desde logo, pela utilização de um termo na primeira frase da profecia, ou seja, “Setenta semanas estão determinadas (chathak)” – v. 24. (sublinhado nosso). Aqui é a primeira e única vez, nas Escrituras, em que esta palavra aparece. No entanto, na literatura extra bíblica aparece com o significado de: cortar, determinar, decretar. É, portanto, o contexto, que permite escolher o melhor significado para a palavra. Tendo em conta estes elementos, na realidade, a tradução em causa, que melhor corresponde ao contexto em presença, não é a palavra “determinadas”, mas sim, para uma melhor consonância com o todo, os significados: – cortar, separar. Assim, claramente se compreende que as 70 semanas anunciadas apontam para: 1- que sejam cortadas de outro período de duração diferente e superior; 2- que o período das 70 semanas e os 2.300 tardes e manhãs têm o mesmo ponto de partida.
Dito isto, vejamos desde já o versículo 24. Este divide-se em três secções: 1- Relacionada com o povo - “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo”. Esta situa-se no plano do homem e fala de expiação e de salvação; 2- Relacionada com a cidade santa, Jerusalém – “sobre a tua santa cidade”. Esta situa-se no espaço e na História, pois falará de construção e de destruição ; 3- Contém seis proposições – “para extinguir a transgressão (pesha) ; dar fim aos pecados (hatah); para expiar a iniquidade (awon); trazer a justiça eterna; selar a visão e a profecia; para ungir o Santo dos santos” – as quais descrevem os resultados da vida de Cristo aqui na Terra. Passemos a analisar cada uma delas:

a)- “para extinguir a transgressão (pesha)” – a palavra empregue para - transgressão (pesha), contém a conotação de: revolta, rebelião contra Deus. No passado - Jerusalém tinha sido destruída e encontrava-se em ruínas. Daniel orou para que Deus perdoasse Judá, pois o povo, como nação, tinha-se revoltado: - contra o seu suserano temporal (Babilónia) – II Reis 24.1; contra Deus – Jeremias 14.20; contra os Seus profetas a eles enviados – II Crónicas 36.15,16.
No presente - é aplicável ao sacrifício de Jesus na cruz, Ele pôs fim à quebra de relacionamento entre Deus e a humanidade – Isaías 59.1-2 - e reabilitou-nos diante de Deus.

b)- “dar fim aos pecados (hatah)” – o termo, como já vimos, contém a noção de: falhar o objectivo – fazendo alusão às faltas, em geral. O anjo Gabriel anuncia, nestes termos, que o Messias resolveria as falhas da humanidade, pois tomaria sobre Si mesmo os seus pecados – Isaías 53.1-6,11; João 1.29 - e dar-lhes-ia fim.

c)- “para expiar a iniquidade (awon)” – este termo tem a conotação de: afastar-se do caminho. Na realidade, Jesus veio não só repor este “caminho”, pois Ele próprio disse ser este mesmo Caminho – João 14.6 – como também veio trazer, através do Seu sacrifício expiatório na cruz, a resolução do problema do pecado – II Coríntios 5.19-21.

d)- “trazer a justiça eterna” – devido à queda do ser humano, a humanidade afastou-se de Deus. O Messias, segundo Gabriel, traria da parte de Deus, uma justiça que seria eterna para todos os que dela se apropriassem, por meio da fé – Romanos 3.23,25.

e)- “selar a visão e a profecia” – o sentido de “selar” é mais o de: confirmar ou ratificar. O cabal cumprimento dos oráculos e das predições dos videntes e profetas associados à primeira vinda do Messias – Gálatas 4.4 -, dá-nos, de igual modo, a certeza de que as outras partes inerentes ao restante da profecia compreendida pelos 2.300 tardes e manhãs, também se cumprirão com a mesma exactidão.

f)- “para ungir o Santo dos santos” – vejamos esta expressão sob duas vertentes: 1- “para ungir” – os templos eram ungidos quando eram inaugurados, tendo em vista a ministério sacerdotal que nele iria ter lugar – cf. Êxodo 30.22-29; 40.9-15. Esta profecia, portanto, evoca a inauguração do ministério de Cristo no santuário celeste, logo após a Sua ascensão – cf. Hebreus 8.2; 9.21-24; 2- “Santo dos santos (qodesh qodashim)” - designa, no Antigo Testamento, uma parte do santuário israelita - Êxodo 26.33,34 – isto é, a mais sagrada das três divisões. Neste compartimento, o Sumo sacerdote entrava uma única vez no ano - no Dia das Expiações -, como já o referimos, para ali espargir sobre o Kapporet, ou seja, o Propiciatório, a tampa da Arca da Aliança, no interior da qual se encontrava as tábuas da Lei de Deus – Êxodo 40.20; Deuteronómio 10.1-5 -, o sangue de um animal imolado pelos pecados do povo. Desta forma se procedia à expiação – cf. Levítico 16.

- v. 25: - “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas; as ruas e as tranqueiras se reedificarão, mas em tempos angustiosos”. Passemos à sua análise:

a)- “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém” – o acontecimento aqui mencionado é de capital importância, pois aponta para o início das 70 semanas. Na realidade, a reconstrução de Jerusalém teve lugar devido a um decreto emanado de um monarca persa. Encontramo-nos, para já, perante dois problemas, a saber: 1- de que decreto se trata; 2- qual o monarca que o autorizou.
Vejamos o primeiro ponto: Jerusalém foi reconstruída na sequência de três decretos promulgados por: Ciro, Dário Histapes e Artaxerxes Longuímano. O 1º decreto, emitido em 538 a. C. por Ciro – II Crónicas 36.22,23; Esdras Esdras 1-6 – permite, facilita o regresso do cativeiro e a reconstrução do templo; o 2º decreto, emitido em 520 a. C. por Dário I, não faz mais do que confirmar o decreto anterior – Esdras 6.6-12. O 3º decreto, emitido em 457 a. C. por Artaxerxes, no 7º ano do seu reinado – Esdras 7.1,7,8,12-26. Neste, não somente o templo é visado, como também a nomeação de juízes, magistrados para administrarem a cidade (Esdras 7.24,25). Este decreto dá aos judeus a sua existência política.
Vejamos o segundo aspecto: - à luz do que pudemos ver, o decreto de Artaxerxes trata da reconstrução e restauração de Jerusalém e não simplesmente do templo. Segundo o relato de Esdras, Artaxerxes emitiu este decreto no 5º mês do 7º ano do seu reinado – Esdras 7.8. – isto é, no Outono do ano 457 a. C.
Portanto, aqui temos a data, o ponto de partida, da profecia em causa – 457 a. C.. A partir desta data que marca o início deste período de tempo, já será possível datar os restantes acontecimentos descritos nas diferentes divisões desta profecia.

b)- “até ao Messias (Ungido), o Príncipe, sete semanas; e sessenta e duas semanas; as ruas e as tranqueiras se reedificarão, mas em tempos angustiosos” – Vejamos alguns aspectos deste texto, do fim para o princípio.

1- A versão das Escrituras que usamos é a resultante da tradução massorética. Os copistas Massoretas, não reconhecendo o Messias prometido, pontuaram esta parte do texto - “sete semanas; e sessenta e duas semanas” - de acordo com o seu ponto de vista, colocando um ponto e vírgula (athnakh) no fim destas primeiras sete semanas, separando-as das seguintes sessenta e duas semanas. Assim sendo, os comentaristas ao seguirem este ponto de vista relacionam a primeira fatia de tempo (sete semanas), “com a aparição de um príncipe ungido - Ciro, - benfeitor e libertador dos judeus”, enquanto que “as sessenta e duas semanas seguintes estariam relacionadas com a reconstrução da cidade e do templo.” Mas por diversas razões técnicas tal não é possível. Assim, contrariamente ao que a tradução massorética deixa entender, os dois períodos deverão estar ligados constituindo uma única unidade, e não o contrário, apontando, desta forma, para o grande acontecimento incluído na mesma, ou seja, aparecimento de Jesus Cristo, o Messias.

2- Assim sendo, a tradução correcta do texto, não será a que contém o ponto e vírgula logo após a pequena frase:- “sete semanas” – em que o texto fica: - “sete semanas; e sessenta e duas semanas; as ruas e as tranqueiras se reedificarão, mas em tempos angustiosos”, mas sim, esta que apresentamos a seguir, em consonância com o original: - “sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e as tranqueiras se reedificarão, mas em tempos angustiosos”.
Assim sendo, profeticamente, esta porção de tempo que levaria “até ao Messias”, segundo a profecia, conteria o primeiro e segundo período da profecia, ou seja: 1º período – de 7 semanas (49 anos) – relativo à reconstrução de Jerusalém e à restauração do Estado judaico. Aplicando o princípio - Dia/Ano (Números 14.34 e Ezequiel 4.6) – então, este corresponderá a 49 anos, (7 semanas x 7 dias)., o que nos leva ao ano 408 a. C., ou seja, (457 a. C – 49). O ambiente que esta parte do versículo descreve, ou seja, ao longo destes 49 anos, é confirmado pelos textos de Esdras e de Neemias, revelando que Jerusalém foi reconstruída em tempos muitos tumultuosos devido à constante oposição e intrigas dos inimigos do povo de Deus – Esdras 4; Neemias 4.
2º período - de 62 semanas (434 anos) – inerente à missão deste Estado judaico e à preparação deste para a vinda do Messias. Aplicando o mesmo princípio de contagem de conversão do tempo profético, esta porção de tempo corresponde a 434 anos (62 semanas x 7 dias), o que, juntamente com o total do período anterior – 49 anos – leva-nos ao ano em que, historicamente, falando, ocorreu o baptismo de Jesus, no ano 27, ou seja, 457 a. C. – (434 + 49).

3- “até ao Messias (Ungido), o Príncipe” – Segundo Lucas 3.1 João iniciou o seu ministério no “ano quinze do império de Tibério César”, o que leva os especialistas a concluir que estes dados apontam, efectivamente, para o ano 27 d. C., a unção de Cristo. Recorde-se que, o Antigo Testamento atesta que - os profetas, os sacerdotes e os reis - eram ungidos quando entravam em funções – Êxodo 30.30; I Samuel 9.16; I Reis 19.16. Tal como vimos, no ano 27 d. C., ocorreu o baptismo de Jesus e ali foi ungido pelo Espírito Santo – cf. Lucas 3.21,22 – para que, desta maneira Jesus inaugurasse o Seu ministério, o qual muitos seguiram tal como é atestado por Flávio Josefo: - “Neste tempo Jesus que era um homem sábio (…) as suas obras eram admiráveis. Ele ensinava todos os que tinham prazer em aprender a verdade e foi seguido não somente por judeus como também por gentios”.
Atestando o cumprimento da profecia, logo após o Seu baptismo, Jesus foi para a província da Galileia para anunciar as boas novas do reino de Deus, dizendo: - “O tempo está cumprido” – Marcos 1.14,15. Que tempo era este? Nada mais do que o final das 69 semanas até ao Messias, preditas por Daniel.

- v. 26: - “E depois das sessenta e duas semanas será tirado o Messias e não será mais; e o povo do príncipe, que há-de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será como uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas assolações”.

1- “E depois das sessenta e duas semanas será tirado o Messias” - A violência inerente à morte do Messias é expressa pela expressão “será tirado, cortado”. O verbo aqui empregue – cortar (karat) - está, no contexto bíblico, ligado ao vocabulário da Aliança traduzido através dos sacrifícios – Génesis 15.7-18; Jeremias 34.13-18. Não seria uma morte natural mas provocada por alguém.

2- “e não será mais” – Esta afirmação deveria verificar-se, obviamente, a quando da morte do Messias, devido à rejeição da parte do Seu povo, onde, nas Escrituras podemos sentir certos ecos: a - no Antigo Testamento: Isaías 53.8; b- no Novo Testamento: - Mateus 26.56; Lucas 24.21; João 1.11.

3- “e o povo do príncipe, que há-de vir, destruirá a cidade e o santuário” - A menção deste príncipe é associada a alguém relacionado com o império romano, visto que este está relacionado com a destruição de Jerusalém pelas tropas romanas. Sabendo o que estava reservado para Jerusalém, revela o texto bíblico que Jesus chorou sobre ela dizendo: - “(…) porque dias virão sobre ti em que te cercarão (...) e não deixarão em ti pedra sobre pedra” – Lucas 19. 41.44. Ou ainda: - “Porque estes dias são de vingança, para se cumprir o que está escrito” – Lucas 21.22. Ou ainda a admoestação de Jesus, antevendo tempos difíceis para Jerusalém, ao ponto de ainda acrescentar: - “Mas ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias” – Mateus 24.19.
Eis o cenário previamente traçado. Na realidade, tudo o que estava escrito cumpriu-se meticulosamente. Ora vejamos:

- “Comereis a carne dos vossos filhos e comereis a carne de vossas filhas” – Levítico 26.29.

- “(…). Servirás aos teus inimigos que o Senhor enviará contra ti (…). E comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas (…). E quanto à mulher mais mimosa e delicada entre ti (…), e por causa de seus filhos que tiver; porque os comerá às escondidas pela falta de tudo, no cerco e no aperto com que o teu inimigo te apertará nas tuas portas” – Deuteronómio 28.48-57.

- “As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha do meu povo” – Lamentações 4.10.

A este propósito, vejamos o que Flávio Josefo refere: - “(…) a sua fome fazia-os juntar, para se alimentarem, o que as mais imundas bestas espezenhariam. Comiam até o couro dos sapatos e das fivelas (…). (…). Uma senhora, chamada Maria (…) assim que se viu reduzida à miséria, a fome a devorava (…). Agarrou no filho que ainda mamava, disse: - “Não será melhor que tu morras para que me sirvas de alimento? (…). Após ter falado assim, ela matou o filho, cozeu-o e comeu um bocado e guardou o resto (…)”.

4- “e o seu fim será como uma inundação e até ao fim haverá guerra; estão determinadas assolações” – Esta imagem ilustra claramente a força do inimigo sobre a sua presa. Na verdade, desde que as muralhas da cidade de Jerusalém foram tomadas, a força inimiga penetra nela como uma verdadeira “inundação”, tal como o refere as Escrituras: - Jeremias 46.7,8; 47.2.

- v. 27 – “E ele firmará um concerto com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador”.

1- “E ele firmará um concerto com muitos por uma semana” – Eis-nos chegados à última divisão da profecia das 70 semanas, o 3º período - de 1 semana (sete anos) – fase, recorde-se, relacionada com os últimos sete anos da aliança entre Deus e o Seu povo.
De que concerto, aliança se firmará ao longo desta semana? O Messias deveria confirmar a aliança entre Deus e o Seu povo, a qual começou na data do Seu baptismo e deveria de continuar ao longo desta última semana restante mencionada neste versículo, ou seja, a que falta para que as 70 semanas se completem. Na verdade, quando lemos as primeiras páginas dos evangelhos vemos claramente a ligação de Jesus com o passado, a antiga aliança, não a abolindo mas, confirmando e amplificando-a no famoso Sermão da Montanha – Mateus 5.17-48.
Que houve ruptura, em Cristo, no Sermão da Montanha, entre o cristianismo e o judaísmo? Entre o Novo e o Antigo Testamento? Entre o Deus nos céus e Jesus na terra? Alguém dirá como resposta: - “(…), contrariamente ao que dizem a este respeito, a continuidade é maior no Sermão da Montanha”.

2- “e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares” – O contexto aqui invocado é o dos sacrifícios, de uma forma geral. Em causa está, sem dúvida alguma, o sistema sacrifical. À luz deste versículo, não desapareceram os sacrifícios mas, o que aconteceu foi que nenhum sacrifício ritual judaico ou de outra natureza, possui qualquer significado para a salvação após a morte de Cristo. Todas estas cerimónias sacrificais apontavam para o Cordeiro que haveria de vir – prefiguravam o supremo sacrifício consentido por Cristo – e por esta razão, o sistema sacrifical tornou-se caduco. E quando é que este facto ocorreu? Exactamente no momento previamente anunciado pela profecia – “na metade da semana” – ou seja, cronologicamente falando, no ano 31 d. C.
Durante o ministério de Jesus, ao longo de três anos e meio, pregando, ensinando e curando Ele não fez mais, tal como dissemos, do que cumprir a aliança eterna. Sabia quanto tempo lhe restava em função do Seu programa. Muitas vezes e em diversos contextos dissera que “ainda não era a sua hora” – cf. João 2.4; 7.6. Mas, no que respeita ao final da Sua actividade, é expressivo, a este respeito, quando é dito: - “(…) e ninguém o prendeu, porque ainda não era chegada a sua hora” – João 8.20 (sublinhado nosso). Mas quando esse momento profético chegou, Jesus encarregou-se de lembrar aos que O vieram prender que: - “(…) esta é a vossa hora e o poder das trevas” – Lucas 22.53 (sublinhado nosso); João 12.27. Numa tradução mais literal, vejamos as palavras do apóstolo Paulo, acerca do momento da morte de Jesus: - “Estando nós ainda fracos, Cristo, no tempo marcado, foi morto pelos ímpios”, ou ainda “Com efeito, quando estávamos sem força, Cristo morreu pelos pecadores no tempo fixado por Deus” – Romanos 5.6 (sublinhado nosso).
Nada disto era estranho ou desconhecido para Jesus, pois Ele marcava o próprio tempo em que tudo deveria de ocorrer. Até mesmo no momento da sua estranha morte, pois ocorrera, inesperadamente, antes da calendarização humana e, devido a esta, repetimos, estranha ocorrência – “não lhe partiram as pernas” – João 19.32,33. Estranha, porquê? Por duas razões de peso: - 1ª – para que, tal como refere o evangelho, “se cumprisse a Escritura” - João 19.36. Na verdade, o evangelista associa Cristo ao quanto fora dito e escrito, no passado, acerca do Cordeiro Pascal “(…) nem dela quebrareis osso” – Êxodo 12.46; 2ª – a altura, o momento da Sua morte estava em consonância com o calendário divino, pois no preciso momento daquele momento trágico, Ele disse: - “Está consumado” – João 19.30. Nada foi deixado ao acaso, pois tudo aconteceu como estava programado – cf. Salmo 22.1,16,18; 69.20,21 etc.
Curiosamente, logo após, algo de extraordinário aconteceu no templo de Jerusalém, tal como é relatado pelas escrituras: - “Eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo (…)” – Mateus 27.51. Qual o seu real significado? A este propósito podemos ver os seguintes comentários: - “Mão de homem nele não tocou. Este véu que separava o lugar santo do lugar santíssimo (onde estava a Arca do Concerto) e onde somente o sumo sacerdote entrava uma vez por ano para oferecer o sacrifício, no dia da expiação, aspergindo sobre a Arca do Concerto, o Propiciatório (que era a tampa que cobria a Arca) o sangue do sacrifício – Levítico 16.12,15; Hebreus 9.7. (…). Era a hora nona, isto é, 15 horas da tarde, exactamente a hora em que Jesus expirou. O sacerdote estava queimando o incenso odorífero no lugar santo, em frente ao véu, e o povo, mais atrás, naquele momento, adorando e adorando. Inesperadamente, rasga-se o véu diante dos seus olhos! (…). Podemos imaginar o espanto que se apoderou da multidão ao contemplar, estarrecida, diante dos seus olhos, a Arca de Deus, que o povo não podia ver”. E ainda: - “Até então o santíssimo fora guardado impenetrável. Mas agora, achava-se exposto aos olhares de todos. O pesado véu de tapeçaria, feito de puro linho e belamente trabalhado em ouro, escarlate e púrpura, fora rasgado de alto a baixo. O lugar em que Jeová Se encontrava com o sumo sacerdote, para comunicar a Sua glória (…) não mais era reconhecido pelo Senhor”.
E, tal como revela a profecia, “na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares”, ou seja, como já vimos, não só o Messias seria morto no meio desta semana, isto é, no ano 31 d. C., como também esta morte faria rasgar, sem qualquer mão humana, o pesado véu do templo, simbolizando este acontecimento, a substituição dos sacrifícios repetitivos oferecidos no templo por um sacrifício único, este oferecido uma vez por todas, o que é confirmado pelas Escrituras – “(…). Tira o primeiro, para estabelecer o segundo” – Hebreus 10.9. Portanto, este sacrifício proclamou a nulidade do sistema sacrifical judaico até então praticado.
Agora restava a 2ª metade da última semana, ou seja, três anos e meio, para que se complete o ciclo das 70 semanas. Durante este tempo os discípulos pregaram com grande fervor esta pregação em Jerusalém e muitos a aceitaram – cf. Actos 6.7. No fim desta última semana profética, Estêvão foi convocado para comparecer no Sinédrio porque o que ensinava acerca de Jesus, como o Messias, incomodava a religião devidamente instalado e com grandes privilégios, pois “não podiam resistir à sabedoria e ao espírito com que falava” – Actos 6.10.
Este foi sentenciado, os seus algozes “expulsando-o da cidade o apedrejavam. (…)E pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu” – Actos 7.58-60. Estêvão foi o primeiro mártir cristão. Este trágico acontecimento é corresponde ao ano 34 d. C. Na contagem das 70 semanas a partir de 457 a. C., os últimos três anos e meio da septuagésima semana terminam, efectivamente, no ano 34 da nossa era.
Portanto, a rejeição de Cristo pelos judeus, simbolizada pelo apedrejamento de Estêvão, fez com que a proclamação do evangelho se direccionasse para o mundo não judeu – O Israel de Deus – Gálatas 6.16; 2.9; Romanos 9.25.

3- “e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador” - O livro de Daniel refere três vezes as expressões - “abominação da desolação” – Daniel 9.27; 11.31; 1.11. Acerca deste tema -“abominação da desolação” - os comentaristas, como vimos desde o início deste comentário a Daniel, consideram-no já cumprido na pessoa do rei Antíoco Epifânio. Assim, ao comentarem esta citação do profeta Daniel feita pelo Senhor Jesus – Mateus 24.15 - dizem que o Mestre - “refere-se com toda a certeza à estátua do Zeus Olimpo que Antíoco Epifânio mandou colocar no Templo de Jerusalém – cf. II Macabeus 6.29” (sublinhado nosso) - ou ainda “(…) certamente o autor do livro de Daniel se refere à devastação realizada por Antío Epifânio IV, no tempo dos Macabeus”. (sublinhado nosso). Note a forma dúbia como se expressam!
Abramos aqui um parêntesis: - como já vimos, este rei - Antíoco Epifânio IV – nada tem que ver com a profecia de Daniel. Comparemos o comentário acima com as palavras de Jesus:
Tal como o referimos, Jesus, no Seu grande discurso escatológico, dá a interpretação deste texto de Daniel - Daniel 9.27. Vejamos em que termos o Mestre responde a uma pergunta sobre a magnificência do templo de Jerusalém e acerca dos sinais precursores da Sua vinda:

a) “Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada. (…). Ora, quando virdes a abominação do assolamento, que foi predito, estar onde não deve estar (…), então os que estiverem na Judeia fujam para os montes” – Marcos 13.2,9
b) “Aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada. (…) e que sinal haverá da tua vinda (…). Quando, pois, virdes que a abominação da desolação de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo (…). Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes” - Mateus 24.1-3,15,16.
c) “E dizendo alguns a respeito do templo, que estava ornado de Formosas pedras e dádivas, disse: Quanto a estas coisas que vedes, dias virão em que se não deixará pedra sobre pedra, que não seja derribada. (…). Mas quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação” – Lucas 21.5,6,20.

Jesus não disse ou deu a entender que os acontecimentos dos quais falava se referiam ao passado e ao futuro, em relação àquele preciso momento, tal como pretendem os comentadores, recorde-se, ao dizerem que a - “abominação da desolação” – tem que ver, unicamente, com a colocação, no templo de Jerusalém, da “estátua do Zeus Olimpo” por Antíoco Epifânio, cerca do ano 175 a. C.! Aquelas palavras apontavam para acontecimentos ainda no futuro – a destruição do templo pelos Romanos, no ano 70 d. C.
Mas, se no momento em que Cristo fala e tendo estas palavras sido cumpridas no tempo de Antíoco Epifânio (175 a. C. -163 a. C.), será que a causa da abominação, ou seja, a tal estátua, ainda existiria naquele lugar a profaná-lo? Que sentido faria Jesus, referir-se a ela, dizendo: - “Quando, pois, virdes que a abominação da desolação” – Mateus 24,15 – se a causa da tal abominação, na época, já não existia, ou seja – a estátua?
Pois para estar em consonância com o que os comentaristas pretendem que tenha ocorrido, Jesus deveria ter falado com verbos conjugados no passado ou no presente, ou seja: - “o que vê a abominação da desolação de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo, (a tal estátua), então (…)”! Mas, contrariamente ao que afirmar, Jesus emprega os tempos verbais no futuro, e não no passado ou presente! Fechando o parêntesis.
No entanto, se aplicarmos a advertência de Jesus à futura invasão e destruição do templo pelo poderio militar romano, então tudo se clarifica.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A PROFECIA INTEGRAL

Já referimos até aqui a prodigiosa exactidão desta primeira fatia da profecia maior (70 semanas = 490 anos), previamente anunciada pelo profeta no capítulo anterior – Daniel 8.13,14 - referente às 2.300 tardes e manhãs. Com todos os elementos vistos até aqui podemos construir toda a profecia, a saber:
1- O ponto de partida da profecia maior, incluída na qual está a das 70 semanas é, como vimos, o ano 457 a. C.
2- Sabemos também que este período de 490 anos (70 semanas) terminou no ano 34 d. C.
3- Se subtrairmos os 490 anos ao período profético mais longo, ou seja, 2.300 anos, restarão 1.810 anos.
4- Agora para que possamos descobrir quando termina o período mais longo é muito fácil, pois basta acrescentar 1.810 anos ao ano 34, ano em que terminou a profecia menor (as 70 semanas) e assim chegaremos ao ano final da profecia maior (2.300 tardes e manhãs), ou seja, ao ano de 1844 da nossa era.
O que é que aconteceria aqui? Recorde-se o que revelou o profeta Daniel, ao dizer: - “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs, o santuário será purificado” – Daniel 8.14. Neste tempo, como vimos anteriormente, o nosso grande Sumo Sacerdote, o “Messias, o Príncipe”, iniciou a Sua obra final de intercessão, na qualidade de nosso único Mediador – I Timóteo 2.5.
Chegámos ao final do grande período previamente anunciado – o das 2.300 tardes e manhãs – ou seja, o ano em que o “santuário será purificado.” – Daniel 8.14 – o qual ocorreria no ano de 1844.
Em linguagem simbólica, nesta data, Cristo inicia o Seu ministério no Lugar Santíssimo, no céu. Resumiremos as diferentes fases do julgamento:

1- 1ª fase do juízo (julgamento antes da vinda de Jesus) – o Filho do Homem vem ao Ancião de Dias – Daniel 7.9-14, 26,27. O santuário é purificado – Daniel 8.14 – e tem lugar a abertura dos livros – investigação – Daniel 7.10 – para averiguação de quem merece ou não constar no livro da vida – Apocalipse 20.12.

2- A vinda de Cristo marcará a 2ª fase do juízo (no céu) - quando Jesus vier, sentado no trono da Sua glória, devido ao veredicto do julgamento que ocorreu previamente, então separará os que merecem e os que não merecem estar com Ele para todo o sempre – cf. Mateus 13.30; 26.31-43. Haverá a ressurreição dos justos e ida para o céu – I Tessalonicenses 4.15-17. Aqui, ao longo de mil anos, os justos assistirão, na qualidade de membros do júri, julgarão todos os que rejeitaram a Graça divina, seres humanos e anjos caídos – I Coríntios 6.2,3; Judas 6,15; Apocalipse 20.3-7.

3- A 3ª fase do juízo (após os mil anos) – dá-se a execução da sentença. Será o acto final do grande drama universal – Apocalipse 20.11-15
Assim, como nota final, recordaremos o conhecido o papel que William Miller (Guilherme Miller) teve em relação à data de 1843 / 1844, no que respeita à significação do que fora predito “Miller e os seus companheiros proclamaram que o período profético mais longo e o último apresentado na Bíblia estava a ponto de terminar, que o juízo estava próximo e que deveria ser inaugurado o reino eterno. (…). Explicando Daniel 8.14 - - Miller adoptou a opinião geralmente mantida de que a Terra é o santuário, crendo que a purificação deste representava a purificação da Terra pelo fogo, na vinda do Senhor. (…). O seu erro resultou de aceitar a opinião popular quanto ao que constitui o santuário”. Portanto, o erro não esteve directamente relacionado com os cálculos, mas sim com a troca do Santuário Celeste pela Terra, pois a purificação deveria de ser, tal como a profecia apontava, no santuário e não na Terra, isto é, o momento da gloriosa vinda de Jesus!
Digamos, desde já que de modo algum, William Miller foi pioneiro acerca da datação da profecia das 2.300 tardes e manhãs. A este propósito – marcação desta data - convém recordar que já em 1834, o distinto jurista mexicano, Dr. José Maria Gutierrez de Rozas (1769-1848), católico romano, publicou uma obra, na qual considerava que o fim do período das 2.300 tardes e manhãs, na qual estava incluída a profecia das 70 semanas, ocorreria entre 1843, 1844 ou 1847. Se compararmos as datas das diferentes publicação acerca deste assunto, vemos que “quase todos (os autores) publicaram o seu ponto de vista antes do primeiro livro de William Miller, que apareceu em 1836”; portanto, já dois anos antes de William Miller, acerca deste mesmo assunto, algo tinha sido escrito!
Assim, para uma melhor compreensão de como a profecia das 2.300 tardes e manhãs se estende ao longo do tempo, esquematicamente a apresentamos:

terça-feira, 4 de maio de 2010

CHEFES ESPIRITUAIS

(Daniel 10.1-21)
Esta parte do livro não é mais do que a introdução à mais extensa profecia das Escrituras, ou seja, compreendendo desde o tempo histórico do profeta até ao fim do tempo ou, melhor dizendo, até ao tempo do fim. Assim, a profecia, propriamente dita, iremos encontrá-la na próxima lição - o capítulo 11 – e, tal como dissemos, o capítulo 10 não é mais do que o seu prólogo, enquanto que o capítulo 12 é o seu epílogo.
Nesta visão Deus vai levantar a cortina da História para mostrar a este Seu servo algumas realidades do mundo invisível, ou seja, o conflito entre as forças do mal contra as do bem.

1- Um grande conflito
v.1 - Este capítulo abre situando o leitor num tempo histórico bem preciso, ao longo do qual se desenrola “uma guerra prolongada”. Esta revelação do alto teve lugar no “terceiro ano de Ciro” - 536/5 a. C. - ou seja, dois anos depois do quanto é relatado no capítulo 9.
Muitos anos são decorridos desde que o profeta Daniel saíra de Jerusalém para Babilónia. Agora o profeta já não tinha o mesmo vigor de outrora, pois a sua idade, nesta fase, rodava os 90 anos, o que, de certa forma era um obstáculo que o impediu de acompanhar o povo de Deus de volta a Jerusalém. A alegria anterior dava agora lugar a uma certa angústia, visto que não só aqueles que regressaram como também os que se propunham reconstruir o templo de Jerusalém, localmente encontraram uma feroz resistência dos habitantes locais, ao ponto destes últimos serem tidos como “adversários de Judá e Benjamim” – Esdras 4.1.
Tudo foi feito para entravar o propósito da reconstrução do templo, tal como o texto bíblico nos dá a conhecer: 1- “o povo da terra debilitava as mãos do povo de Judá”; 2- ao ponto de terem feito uso da corrupção - “alugaram contra eles conselheiros para frustrarem o seu plano” – Esdras 4.4,5.
Quando estas notícias chegaram ao conhecimento de Daniel uma grande tristeza invade o profeta, não por não ter podido acompanhar os seus pares, mas devido às notícias acerca dos trabalhos inerentes à reconstrução do templo, que não eram as mais animadoras.
Estas notícias pesaram muito no coração de Daniel e, em consequência, o profeta entrega-se à oração e ao jejum. Que melhor forma de resolver os assuntos humanos a não ser de joelhos perante o Senhor? Assim irá fazer este grande homem de Deus, pois ele sabia, por experiência própria que a oração não só era “a respiração da alma (…)” , como também “o abrir o coração a Deus como a um amigo”.

v. 2-4 – Ao longo destes versículos ficamos a conhecer, não só quanto tempo o profeta esteve em contacto mais íntimo com Deus, abrindo-Lhe o seu coração para partilhar com Aquele que tudo sabe e tudo vê, o quanto o preocupava; portanto - “(…) três semanas completas” – como também o final deste tempo de jejum e de oração, ou seja, - o “dia vinte e quatro do primeiro mês”.
A referência – “primeiro mês” – é bastante significativa, pois transporta-nos para o mês de Tishri e não, como se poderia pensar de imediato, para o de Nisan (primeiro mês do calendário judaico)! Razões? Não esqueçamos que Daniel, como facilmente se compreenderá, rege-se pelo calendário babilónico. Assim, estando no mês de Tishri, o tempo invocado cobriu um ciclo muito importante da vida judaica, pois neste tinha lugar três festas, a saber:

1- Rosh ha-Shanah (celebrava-se no 1º dia do ano judaico) – Lev. 23.24
2- Yom Kippur (celebrava-se no 10º dia) – Lev. 23.27
3- Sucot (celebrava-se no 15º dia) – Lev. 23.39

Portanto, o fim destes vinte e um dias, ou seja, as três semanas” de jejum e de oração do profeta, coincide com o final desta última festa que tinha a duração de sete dias. Esta época era, sob todos os aspectos, a mais alegre do ano, pois em condições normais incluía, geralmente, uma visita ao templo de Jerusalém. Esta última festa – Sucot – recordava ao povo de Israel a sua passagem pelo deserto, simbolizando, por este facto, a esperança da terra prometida – Levítico 23.43 - e do reino de Deus – Isaías 2.2-4. É neste contexto de recordações e de súplica espiritual intensa, que o profeta de Deus irá receber a visita de um ser celestial, em resposta às suas inquietações.
Perante os problemas do profeta, recorde-se, Deus sempre teve a última palavra: 1- Em Daniel cap. 2, Deus respondeu-lhe ao mostrar-lhe o conteúdo do sonho do rei Caldeu – a grande estátua; 2- Em Daniel cap. 6, Deus lhe envia um anjo para que os leões não lhe causem qualquer dano físico; 3- Em Daniel cap. 9, Deus lhe envia a mais excelsa das Suas criaturas - o anjo Gabriel ; 4- Finalmente, no capítulo que estamos a estudar, Deus enviará, desta vez, o Seu próprio Filho.
Na realidade “Deus não muda” – Malaquias 3.6; Tiago 1.17 – e, a exemplo do passado, o profeta Daniel irá receber, uma resposta à sua presente preocupação. Ora vejamo-la:

2- A visão
“E levantei os meus olhos e olhei, e vi um homem vestido de linho, e os seus lombos cingidos com ouro fino de Ufaz. E o seu corpo era como turquesa, e o seu rosto parecia um relâmpago, e os seus olhos como tochas de fogo, e os seus braços e os seus pés como cor de bronze polido; e a voz das suas palavras como a voz duma multidão” – v. 6.
A descrição mostra claramente, não somente uma cena arrebatadora, a qual apontava denunciava a presença de um ser sobrenatural. Ali estava Alguém cuja glória superava a do anjo até então enviado pelo céu – o anjo Gabriel - para esclarecer e confortar o profeta, visto que a presença deste anjo não afecta fisicamente o profeta – cf. 9.21. Os efeitos físicos da visão sobre o profeta – v. 8,16 - foram semelhantes aos que se manifestaram ao profeta Ezequiel – Ezeq. 1.28 – e a João - Apoc. 1.17. É interessante comparar o mesmo efeito com a serva do Senhor. Esta descrição da visão, o seu conteúdo, como acabámos de referir, não é exclusiva do livro de Daniel, mas também no profeta Ezequiel 1.24-28 e no livro do Apocalipse 1.13-16. Esta clara identificação deste com vestes de sumo-sacerdote. Quem era este ser celeste que ali se apresentava? Este era, efectivamente, - Jesus Cristo. O Seu traje como o de um sumo-sacerdote – Ex. 28.4; Ezeq. 9.2,11 - mostra claramente que estamos no contexto do santuário – contexto de julgamento – que serve de pano de fundo ao Yom Kippur – cf. cap. 8.
Mas de seguida, eis que surge o Anjo Gabriel para o fortalecer e esclarecer acerca das inquietações do profeta. Desde já, a significação do nome do anjo Gabriel – “Deus mostrou-se forte” é, neste contexto preciso, bastante significativa pois no horizonte próximo vislumbra-se uma guerra – v. 13. Esta é entre Deus e Babel. Nesta guerra, o anjo de Deus, Gabriel, é a garantia do início da vitória. E, por duas vezes – v. 13,21- o discurso do anjo conclui com uma referência à entrada de Miguel, o príncipe celeste, na batalha. O “filho do homem” do cap. 7.13 – o “príncipe do exército” do cap. 8.11 – é o mesmo personagem que este homem/Deus que resplandece extraordinariamente e que, tal como nos foi mostrado, deixou desfalecido o profeta. Sim, este chefe é um desafio para os adversários e o garante da certeza da vitória. Mais abaixo voltaremos a falar desta entidade celestial.

3- O anjo Gabriel e a revelação
Daniel, ouve não o som da mesma voz da visão, mas uma outra que lhe era familiar, do passado – a do anjo Gabriel – cap. 8.17-19; 9.21-23. As palavras revelam uma extrema segurança: - “Daniel, homem mui amado (…) não temas” – v. 11,12.
No verso 13 - “Mas o príncipe do reino da Pérsia se pôs defronte de mim (..) e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes veio para ajudar-me (…)”. Aqui encontramos um breve vislumbre da luta invisível entre as entidades cósmicas – entre o Bem e mal, os anjos de Deus e as hostes fiéis a Satanás – anjos contra demónios. As Escrituras dão-nos a conhecer a realidade destes agentes – “porque não temos que lutar contra o homem, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais” - Ef. 6.12.
Quem era este “príncipe das trevas” que ousou fazer face a um anjo de Deus durante todo aquele tempo descrito no versículo do livro de Daniel, ou seja, “vinte um dias”? Não era outro a não ser uma entidade celeste que se identificava com o império Persa, ou seja, um anjo mau, contrário a Deus – cf. II Ped. 2.4. Por outro lado, o próprio Jesus identificou diversas vezes Satanás como sendo “príncipe” – cf. João 12.31; 14.30; 16.11. Assim, neste contexto cósmico, este príncipe não é, textualmente, o rei do império Persa, mas sim, segundo a tradição teológica - “anjos protectores dos respectivos povos”. Pois, um deles, como é dado a conhecer representa o príncipe da Pérsia – Dan. 10.13 – enquanto que outro representa o da Grécia – v. 20. Portanto, eram anjos ao serviço de Satanás, os quais contrastavam com Miguel, que dirige e orienta o povo de Deus.
Estes seres celestes, comissionados por Satanás, visavam influenciar as mais altas autoridades Medo-Persas para que não fossem favoráveis ao povo de Deus. Mas, ao mesmo tempo, anjos de Deus trabalhavam no interesse dos exilados. Assim, longo destes “vinte um dias” Gabriel lutou contra estes poderes das trevas. E, antes que a contenda chegasse ao fim, eis que Miguel vem em auxílio do Seu anjo.

4- Miguel
Na origem da grande controvérsia celeste está o combate travado no céu e revelado em Apoc.12.7-9 – onde os anjos revoltosos contra Deus são expulsos do céu, por Miguel e os Seus anjos. Esta é uma entidade superior, divina – o arcanjo Miguel – Judas 9; II Tess. 4.16; Dan. 10.21; 12.1.
Miguel (mi-ka-el) significa :- quem é como Deus. Expressão que se aplica também ao Deus de Israel – Ex. 15.11; Salmo 35.10; 71.19; Miqueias 7.18.
Esta personagem mencionada pelo profeta Daniel que, como vimos, é identificada como sendo “um semelhante ao Filho do homem” – Apoc. 1.13 - com “olhos como chama de fogo” – Apoc. 1.14 – aquele que é “o primeiro e o último” – Apoc. 1.17; 22.13 – é o mesmo do qual se diz: - “Ora vem, Senhor Jesus” – Apoc. 22.20
Tal como dissemos, desde o início, este capítulo que agora se fecha não é mais do que a introdução ao quanto vem descrito no capítulo a seguir, mostrando os acontecimentos que se desenrolarão ao longo do tempo do fim e do fim do tempo.
Esta grande visão para lá do quanto a vista e percepção humana alcança, mostra claramente que, nesta guerra cósmica com reflexos nesta terra, Deus tem, como sempre teve, a última palavra – palavra de esperança para todo aquele que n’Ele confia.

domingo, 2 de maio de 2010

DANIEL - ESCRITOS (KETHUBHIM)

Salmos, Provérbios, Job, Cântico dos cânticos, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras/Neemias, Crónicas (I e II). 
Após esta breve mostragem o que se nos oferece dizer em relação à inserção deste livro entre os “Escritos” (Kethubhim) e não entre os livros “Proféticos” (Nebhi’im), como seria de esperar?

Resposta: - Convém não esquecer que Daniel não foi escolhido ou classificado na qualidade de profeta, pois sempre permaneceu na qualidade de funcionário do governo ao longo da sua carreira. Assim, devido a este contexto preciso, o lugar que ocupa os seus escritos, ou seja, depois de Ester e antes de Esdras e Neemias, se explica facilmente neste enquadramento. Além disto, uma forte percentagem do livro é mais histórica do que profética (do cap. 1 ao 6).
Por outro lado, Daniel não escreveu sob a forma de mensagem de Deus ao Seu povo, retransmitida pela boca do Seu porta-voz. O elemento dominante consiste é, antes de mais, visões proféticas dadas pessoalmente pelo autor e às quais os anjos lhe dão a respectiva interpretação. É por causa deste aspecto misto do livro, partilhado entre o relato histórico e a visão profética, que os escribas judeus acabaram por inseri-lo na terceira categoria do Cânone.
c)- O livro de Daniel está escrito em hebraico (cap. 1–2.4; 8–12) e em aramaico (cap. 2.4 a 7.28) e, nesta qualidade, os críticos concluem que o livro é posterior ao séc. VI a. C.
Resposta: - As diferentes fontes encontradas demonstram a não validade de tais argumentos: a partir do séc. VIII o aramaico torna-se a língua internacional do Próximo Oriente e, tendo em conta esta informação, os israelitas a aprenderam durante o exílio. Esta língua conheceu algumas modificações ao longo das épocas: O aramaico oficial, foi utilizado entre 700 e 300 a. C.; o aramaico médio, foi empregue de 300 a. C. até aos primeiros séculos da era cristã; o aramaico recente, foi empregue após estes períodos.
A razão da utilização destas duas línguas nos diferentes excertos do livro tem que ver com duas vertentes: lógica e literária. Em relação à primeira, o autor escreve em hebreu (cap. 1–2.4; 8–12) porque estes capítulos são os mais directamente relacionados com os Judeus. Quanto à segunda, em aramaico (cap. 2.4 a 7.28), quando o que o profeta tem a dizer, implica preferencialmente as nações; assim, cada um poderia ler, de uma forma particular, o que com cada um se relacionava.
d) - Se o livro de Daniel é uma falsificação, como é que penetrou no Cânone do Velho Testamento, visto que o livro apócrifo (não inspirado) de Macabeus fala dele – “Recordai-vos dos feitos dos vossos maiores (…) Daniel, na sua rectidão, foi preservado da boca dos leões” – I Macabeus 1.51-60, cf. Daniel 6.16,23?
e) - Quem foi o génio que redigiu este livro predizendo o futuro do nosso planeta e declarando o ano do início e do fim do ministério do Messias se, como dizem, o livro é uma obra de ficção datada do ano 165 a. C? Se não foi Daniel, o profeta, então quem poderá ter sido?
f) - O autor de Daniel manifesta um conhecimento preciso dos acontecimentos do séc. VI a. C., o qual não estaria ao alcance, certamente, de um escritor do séc. II a. C.! Por exemplo no cap. 8.2 declara que Susa ficava situada na província de Elão na época babilónica. Os historiadores – romanos e gregos - nos dão a conhecer que no período persa, Susa foi atribuída a uma nova província que tomou o seu nome – Susiana ; a maior província do antigo Elão ficou reduzida ao território a oeste do rio Ulai. Ora será normal que só um autor antigo possa saber que Susa, antigamente estava integrada na província do Elão.
g) - Depois, temos o testemunho indiscutível de Jesus Cristo no discurso acerca dos acontecimentos precursores do tempo do fim, pronunciado no Jardim das Oliveiras. Ali Jesus declara o seguinte: - “Quando pois virdes a abominação da desolação de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, entenda” – Mateus 24.15 (sublinhado nosso).
O livro de Daniel refere três vezes as expressões - “abominação da desolação” – Daniel 9.27; 11.31; 1.11. Se estas são as verdadeiras palavras de Cristo, quando cita o profeta, então o Senhor tinha a certeza de que, não só o Daniel histórico era, efectivamente, o seu autor incontestado, como também o conteúdo do seu escrito era profético – o que contraria os comentaristas humanos do texto bíblico! Assim sendo, Jesus ao se expressar desta maneira, considerou esta “abominação” como um texto profético, algo a acontecer ainda no futuro e não no passado, tal como os críticos pensam. E tanto é assim que, ao comentarem esta citação do profeta Daniel feita pelo Senhor, dizem que Jesus - “refere-se com toda a certeza à estátua do Zeus Olimpo que Antíoco Epifânio mandou colocar no Templo de Jerusalém – cf. II Macabeus 6.29” !
Na realidade, a quanto o ser humano recorre para denegrir a autenticidade da Palavra de Deus! Mas, para ajudar a superar qualquer resquício de cepticismo, iremos recordar o que foi escrito pelo historiador judeu Flávio Josefo, reforçando não só a autenticidade como também a antiguidade dos escritos do profeta Daniel:

a) – O profeta
Flávio Josefo assim se expressou acerca de Daniel: - “o mais admirável que eu encontro neste grande profeta é o facto extraordinário, particular e quase incrível que ele tem sobre os outros profetas, é de ter sido, ao longo da sua vida, honrado por reis e povos e ter deixado, depois da sua morte, uma memória imortal; porque os livros que escreveu e que ainda hoje são lidos, dão-nos a conhecer que o próprio Deus lhe falou e que não somente predisse, tal como os outros profetas as coisas que deveriam de acontecer, mas ele marcou os tempos em que essas mesmas coisas ocorreriam”.

b) A antiguidade dos seus escritos
- Anteriores a Artaxerxes: - “Não temos senão 22 livros que contêm os relatos do passado e que são considerados divinos (inspirados). (…) da morte de Moisés até Artaxerxes, rei dos Persa depois de Xerxes, os profetas que sucederam a Moisés, escreveram em 13 livros o que se passou no seu tempo (…)”
- Alexandre – o Grande: - “(…) Alexandre, ao chegar a Jerusalém, subiu ao Templo e ofereceu sacrifícios a Deus tal como o Sumo Sacerdote lhe dissera para fazer. Este, por sua vez, lhe mostrou o livro do profeta Daniel, no qual estava escrito que um príncipe grego destruiria o império dos Persas (…).
Portanto, todos os ataques ao profeta Daniel nada têm de novo. Já no séc. IV S. Jerónimo assim se referiu aos ataques ao livro de Daniel: - “o combate encetado contra o profeta Daniel é um testemunho da sua autenticidade”.
Para colocarmos um ponto final nesta parte do trabalho, façamo-lo da melhor forma, citando o grande conselho do apóstolo S. Paulo a Timóteo: - “Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, tendo horror aos clamores vãos e profanos e às oposições da (falsamente chamada) pseudo ciência (conhecimento), a qual, professando-a alguns, se desviaram da fé” – I Timóteo 6.20,21.
Dr. Ilidio Carvalho

Mahler Symphony nº 5