terça-feira, 11 de maio de 2010

A IDENTIDADE DO CHIFRE PEQUENO

Tal como já o dissemos, muitos comentadores do passado identificaram, assim como os recentes continuam a identificar o “pequeno chifre” como sendo o rei da dinastia seleucida Antíoco IV Epifânio (175-164 a. C.), o perseguidor dos Judeus em Jerusalém e o profanador do Templo – cf. I Macabeus 1.41-64; 4.52-54. Com a identificação desta personagem com a continuação da Roma pagã, ou seja, a Roma papal, desaparecem os conflitos escriturísticos; mas se se continuar a identificar Antíoco IV Epifânio com o “chifre pequeno” alguns problemas se colocam, como por exemplo:

1- Em Daniel 7.8 o relato bíblico afirma que o “pequeno chifre” arrancará 3 chifres. No entanto, os esforços dos eruditos para encontrar três reis “arrancados” por Antíoco Epifânio têm-se demonstrado infrutíferos.

2- Segundo o texto bíblico, o “pequeno chifre” é o 11º rei, visto ele aparece após os dez primeiros chifres já existentes – Daniel 7.8,20. Assim, se este rei é, de facto, o cumprimento e realização do “pequeno chifre”, então deveria de ser, igualmente, o 11º rei da linhagem dos seleucidas. Acontece, porém que Antíoco Epifânio é o 8º rei!

3- Quanto ao elemento “tempo”: - a supremacia do “pequeno chifre” sobre os santos deveria durar, segundo o profeta Daniel, três tempos e meio – Daniel 7.25. se tomarmos esta indicação de tempo como sendo anos literais, quer dizer que Antíoco Epifânio deveria ter perseguido os judeus durante três anos e meio. Acontece que, segundo o livro de Macabeus, a perseguição e a profanação do templo durou unicamente três anos e dez dias!

4- A expressão bíblica “2.300 tardes e manhãs” – Daniel 8.14 – contrariamente ao que alguns intérpretes pretendem, esta indicação de tempo poderá ser reduzida a um período de 1.150 dias completos para assim ser aplicado à profanação do templo levada a efeito por Antíoco Epifânio que, como acima dizemos, não durou 2.300 nem 1.150 dias mas, três anos (isto é, 360 x 3= 1.080) e dez dias, ou seja: 1080 + 10= 1.090! Portanto, o chifre pequeno não se aplica, de modo algum, ao rei da dinastia seleucida.

5- Segundo as Escrituras – Daniel 7.18,27 – os santos do Altíssimo, receberiam o reino, um reino eterno. Ora, se Judas Macabeu pôs fim a Antíoco Epifânio, o poder perseguidor dos santos do Altíssimo, logicamente, este novo reino deveria corresponder ao descrito na profecia. Mas não, pois, não só o reino dos Macabeus não era, de forma alguma, o reino dos santos do Altíssimo, como também não era eterno!

6- O texto bíblico descreve a trajectória do chifre pequeno e revela que este – “cresceu muito” – Daniel 8.9. Este cresceria, expandir-se-ia, para “o meio-dia (Sul - Egipto), o oriente (Este - Síria) e para a terra formosa (Norte - Palestina)” – cf. Ezequiel 20.6. Ora, este poder expandiu-se em quase todas as direcções, pois notamos a ausência de um ponto cardeal – o Oeste!
Assim, na perspectiva de um habitante da Palestina, o poder histórico mencionado pelo profeta, não é outro a não ser Roma, que veio, curiosamente, deste mesmo ponto cardeal – o Oeste. O reino Seleucida que cobria o território da Síria e de babilónia de onde é oriunda a personagem Antíoco Epifânio, ficava a Norte!

7- Segundo a Bíblia, o “chifre pequeno” se engrandeceu até ao príncipe do exército” – Daniel 8.10a,11a,25b. À luz da coerência da interpretação bíblica, o título “príncipe do exército” nunca se aplica ao humano, mas um ser celeste - Daniel 8.25;10.13,21;12.1 – o Filho de Deus, como mostrámos acima.
Então como é que os homens vêem a profecia? Ora vejamos: - sabemos, historicamente falando, que o rei Antíoco Epifânio mandou assassinar o sumo sacerdote Onias III em 171 a. C. em Antioquia. Segundo alguns comentadores, este rei representa o chifre pequeno que se engrandece até ao “príncipe do exército”, sendo este último identificado, biblicamente falando, como um ser celeste; alguns intérpretes das Escrituras, como já o referimos, afirmam que Onias III, representa a figura bíblica do – “príncipe do exército”.
Sendo assim - como poderá o rei Antíoco Epifânio corresponder ao chifre pequeno, se ambos são duas realidades diferentes?! A primeira - está, historicamente relacionada com Onias III; a segunda – como vimos, está bíblica e profeticamente relacionada com um ser celeste - o “príncipe do exército”. Assim sendo – como poderá haver qualquer relação entre Antíoco Epifânio (homem) e o “príncipe do exército”, ser celeste? São duas realidades e de dimensões diferentes. Portanto, perante o exposto, não existe qualquer relação entre o chifre pequeno e Antíoco Epifânio, nem tão pouco de Onias III com o príncipe do exército.
À luz da informação bíblica, isso sim, é clara a relação entre o poder humano, mas de cariz espiritual – ponta pequena – e o - príncipe do exército – criatura celeste e espiritual.

8- A expressão “2.300 tardes e manhãs” - Daniel 8.14 - tal como vimos, não só significa dias plenos, completos, tal como é empregue no relato da Criação – Génesis 1.5,8,13,19,23,31 – como também aponta para a data em que o santuário será purificado.
O anjo Gabriel aponta para o cumprimento desta profecia, isto é, - o tempo do fim – cf. Daniel 8.17,19,26. Assim, o período apontado não se enquadra com acontecimentos que se concluíram, como alguns interpretam, no II século antes de Jesus – no tempo de Antíoco Epifânio!

9- Se compararmos os acontecimentos históricos de Daniel 2,7,8 notamos que os dois primeiros capítulos começam com o antigo reino de Babilónia e o último começa com o Medo-Persa, mas todos eles continuam a enumerar acontecimentos até ao fim dos tempos – o que implica, só por si, interpretar o tempo anunciado como sendo profético.


10- Como podemos ver no quadro acima, existe um paralelismo entre o julgamento - Daniel 7.26 -, o qual conduz à 2ª vinda de Cristo - e a purificação do santuário – Daniel 8.14. Assim, tanto uma acção como a outra ocorrerão antes da 2ª vinda de Cristo, apontando para tempo do fim.
Estes acontecimentos inerentes ao tempo do fim não seriam possíveis se o período de “2.300 tardes e manhãs” fossem literais. Portanto, não se enquadram, de forma alguma com o rei seleucida Antíoco Epifânio.

11- O chifre pequeno ou o poder por ela personificado é, apresentado na linguagem do profeta como um poder de natureza, essencialmente, religiosa – cf. Daniel 7.25, 8.12. Acontece que Antíoco Epifânio, apesar das suas pretensões à divindade, era um poder político, nada mais.

12- Se lermos o texto – Daniel 8.22,23 – a ponta pequena está directamente ligada com o aparecimento de um rei - o 5º rei – v. 23 – logo após os quatro do v. 22. Ora, como vimos acima, Antíoco IV Epifânio é o 8º e não o 5º!

13- A profecia refere que este poder – ponta pequena – “(…) sem mão será quebrado” – Daniel 8.25. No entanto, se como dizem, este poder é o rei Antíoco Epifânio, os livros apócrifos I e II Macabeus, apresentam-nos três causas diferentes para a sua morte, a saber: 1ª- “(…) agora, morro de tristeza (…)” – I Macabeus 6.13; 2ª- “Esmagado por uma chuva de pedras” – II Macabeus 1.16; 3ª- “(…) prostrado pela doença (…). Enfim, ferido mortalmente” – II Macabeus 9.21,28. Como se poderá ver – nenhuma delas está de acordo com as palavras proféticas!

14- O chifre pequeno, como se poderá ver no quadro comparativo acima, quer no cap. 7 como no cap. 8 aparece no mesmo momento, mais precisamente após os impérios universais – 7.2-7,15-20; 8.2-8,20-22 – ou seja, após o século III da nossa era.
Além disto e segundo o texto bíblico, a actividade do pequeno chifre prolonga-se até ao final dos tempos e para lá do período compreendido pelas “2.300 tardes e manhãs”, visto que só neste final de tempo é que o santuário seria purificado, como também num tempo mais além, este poder seria “sem mão quebrado” – Daniel 8.25.
Portanto, pelo quanto pudemos analisar, o rei seleucida Antíoco IV Epifânio está totalmente ausente do livro profético de Daniel.
Dr. Ilidio Carvalho

segunda-feira, 10 de maio de 2010

O CALENDÁRIO PROFÉTICO

– (Daniel 9.1-27)
O calendário profético
Os cristãos que procuram compreender as profecias que se encontram na Palavra de Deus, neste caso concreto, as que se encontram no livro do profeta Daniel, facilmente poderão esquecer o ensino fulcral, a razão de ser das Escrituras, ou seja, a primeira e a segunda vinda de Cristo.
Jesus, certa vez disse: - “Examinais as Escrituras porque vós cuidais ter nelas a vida eterna e são elas que de mim testificam” – João 5.39. Estas palavras aplicavam-se aos Seus contemporâneos, aqueles que construíram uma religião de pendor humano e com aparente base nas Escrituras. Mas esta não tem qualquer valor se não estiver centralizada em Cristo Jesus. Sim, a Palavra de Deus ecoa esta grande verdade sob esta fórmula: - Jesus virá – (este é o ensino de todo o Antigo Testamento) - Jesus veio – (é o testemunho de todo o Novo Testamento) - Jesus voltará – (é a gloriosa esperança encontrada em toda a Bíblia, dos Génesis ao Apocalipse).
Assim, diante de nós, neste capítulo, está, por que não dizê-lo, a jóia da coroa das profecias do Antigo Testamento, onde é indicado o aparecimento do Messias. Com base no estudo e cumprimento desta profecia, não só os Magos vieram até à Palestina para O adorarem – Mateus 2.1,2,11 – como também Simeão e Ana – Lucas 2.25-38. Debrucemo-nos, pois, no detalhe do texto bíblico.

A inquietação do profeta

Desde já e em termos comparativos constatamos que o capítulo a examinar está directamente relacionado com o anterior, por várias razões: 1- ambos mostram a trajectória do povo de Deus ao longo da História; 2- ambos revelam o ministério de Jesus na Terra e no Céu; 3- ambos revelam a razão de ser do atentado contra a Lei de Deus; 4- ambos apresentam o juízo nas suas diversas fases; 5- ambos apontam para a primeira e segunda vinda de Cristo; 6- ambos apontam para o estabelecimento final do Reino de Deus.
Para que nos possamos situar no tempo, segundo os elementos cronológicos revelados logo no início deste capítulo, “ano primeiro de Dário”, encontramo-nos em 538 a. C. Assim, se compararmos estes dados com os do capítulo anterior – Daniel 8.1 “ano terceiro de Belsazar” – isto é, 551 a.C., então 13 anos separam estes dois capítulos.
Com este elemento em mente – a noção de tempo – convém recordar as palavras finais do capítulo anterior: - “acerca da visão, não havia quem a aentendesse” – v. 27. Foi preciso aguardar todo este tempo para que o profeta pudesse ter luz sobre a visão que ficara por compreender!
O que é que, desde já, o inquietava? No seu íntimo, o profeta, anelava pela restauração do templo derribado. Devido ao que lhe fora revelado – Daniel 8.14 – este foi levado a pensar, tal como lhe fora dito, que até à purificação do santuário deveria passar 2.300 anos! Assim sendo, a desolação da cidade amada, Jerusalém, seria demasiado longa. Sim, por aqui podemos perceber a razão de ser da angústia e perplexidade de Daniel. Mas, ao consultar os escritos do profeta Jeremias, as suas dúvidas desaparecem, visto que o exílio não ultrapassará 70 anos – cf. Jeremias 25.11,12; 29.10. Desde já, numa primeira fase, o profeta pôde “compreender” - Daniel 9.2 - o que há 13 anos atrás não compreendia!
Na realidade, se tudo tinha começado em 605 a. C., ano em que Jerusalém foi conquistada por Nabocodonosor; agora, à data dos acontecimentos, o profeta está no ano 538 a.C., isto quer dizer que os 70 anos anunciados pela profecia de Jeremias estão prestes a terminar (605-70= 535), faltavam cerca de 3 anos! Mas, curiosamente, é esta descoberta que faz com que o profeta fique perplexo. Pois se por um lado, ele tinha compreendido a profecia de Jeremias, por outro, tinha dificuldade em conciliar esta mesma profecia com a visão das 2.300 tardes e manhã – Daniel 8.14 -, ou seja, seria possível que o templo teria de permanecer em ruínas durante 2.300 anos? Como conciliar os diferentes dados das profecias?
Como resolver a questão? Recorrendo ao quanto o profeta tinha dito na sua primeira oração há muitos anos atrás, no ano 603 a. C. “no segundo ano do reinado de Nabocodonosor” – Daniel 2.1. É neste capítulo que encontramos esta oração e nela, ao agradecer as bênçãos recebidas o profeta dirige-se assim a Deus: - “Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque dele é a sabedoria e a força. Ele muda os tempos (…) os reis (…) dá sabedoria aos sábios e ciência aos entendidos. Ele revela o profundo e o escondido e conhece o que está em trevas e com ele mora a luz” – Daniel 2.20-22.

A ORAÇÃO DO PROFETA DANIEL

"Então Daniel foi para casa, e fez saber o caso a Hananias, Misael e Azarias, seus companheiros, para que pedissem misericórdia ao Deus do céu sobre este mistério, a fim de que Daniel e seus companheiros não perecessem, juntamente com o resto dos sábios de Babilônia. Então foi revelado o mistério a Daniel numa visão de noite; pelo que Daniel louvou o Deus do céu. Disse Daniel: Seja bendito o nome de Deus para todo o sempre, porque são dele a sabedoria e a força. Ele muda os tempos e as estações; ele remove os reis e estabelece os reis; é ele quem dá a sabedoria aos sábios e o entendimento aos entendidos. Ele revela o profundo e o escondido; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz. Ó Deus de meus pais, a ti dou graças e louvor porque me deste sabedoria e força; e agora me fizeste saber o que te pedimos; pois nos fizeste saber este assunto do rei. (Daniel 2:17-23).

É confiante neste Deus que o profeta conhece que, agora, a exemplo do passado, irá expor o seu problema ao longo da oração que se encontra registada desde o v. 4 ao v. 19 – e que oração!
Antes de mais, na sua essência, o que é, na verdade, a oração? O Espírito de Profecia dá-nos algumas definições que nos podem ajudar na sua definição e, consequentemente, numa melhor compreensão da mesma. Assim, a oração é: 1- “o abrir o coração a Deus como a um amigo. Não que seja necessário, a fim de tornar conhecido a Deus o que somos; mas sim para nos habilitar a recebê-Lo” ; 2- “é a chave nas mãos da fé para abrir o celeiro do Céu, onde se acham armazenados os ilimitados recursos da Onipotência” ; 3- “é a respiração da alma”

À luz de tais definições, o profeta irá, como sempre foi apanágio da sua pessoa, aplicá-las cada vez que orava. Assim, esta não foi uma súplica comum, mas uma oração sacrificial. O texto revela-nos que, para orar ao Senhor, o profeta jejuou e vestiu-se de saco (vestes rudimentares) e aspergiu-se com cinza – v. 3. Tal como um morto – pó e cinza – é o que, na verdade, o pobre ser humano é perante Deus.
As palavras introdutórias são: “Orei” e “confessei” – v. 4. Que teria ele para confessar? Não foi o seu pecado que fez com que o povo de Deus fosse para cativeiro, pois perante o Céu ele era “mui amado” – Daniel 9.23 – e, os seus inimigos nele não acharam “nenhum vício nem culpa” – Daniel 6.4. Assim, como um autêntico intercessor ele chama a si a transgressão de toda a nação: - “Pecámos e cometemos iniquidade (…) – v. 5; “não demos ouvidos aos teus servos, os profetas (…)” – v. 6; “a ti, ó Senhor pertence a justiça mas a nós a confusão de rosto (…)” – v. 7; “ao Senhor nosso Deus pertence a misericórdia e o perdão, pois nos revelámos contra ele” – v. 9; “e não obedecemos à voz do Senhor, nosso Deus” – v. 10; (…) por causa dos nossos pecados e por causa das iniquidades de nossos pais, tornou-se Jerusalém e o teu povo um opróbrio para todos os que estão em redor de nós” – v. 16; “agora, pois, ó Deus nosso, ouve a oração do teu servo (…) e sobre o teu santuário assolado faz resplandecer o teu rosto” – v. 17
Perante esta situação difícil, reclama as promessas de Deus, ao dizer: - “(…) guardas o concerto e a misericórdia para com os que te amam e guardam os teus mandamentos” – v. 4; Com estes pensamentos, o profeta implora para que Deus resplandeça o Seu rosto sobre o Seu santuário que, fora destruído há muitos anos atrás, mas que chegara o tempo de ser reconstruído, dizendo: - “ó Senhor, perdoa; ó Senhor, atende-nos e opera sem tardar; por amor de ti mesmo, ó Deus meu (…) – v. 19.
Na sua oração, Daniel cita a Bíblia, pois algumas das suas expressões são citações bíblicas, como por exemplo: - “faz resplandecer o teu rosto” – v. 17 - as encontramos em - Salmo 80.3,7,19 e Números 6.25; - “Pecámos e cometemos iniquidade (…) – v. 5 – as encontramos na oração de Salomão na dedicação do templo – I Reis 46-53. Ou ainda, quando se refere às causas do cativeiro, como sendo a desobediência de Israel: - na pessoa do filho do rei Ezequias, Manassés – Jeremias 15.4.
Nesta preciosa oração podemos destacar algumas vertentes, que fazem desta oração algo de excepcional e de admirável, a saber:

1- Ele orou com muita intensidade
2- Ele repousou sobre a justiça de Deus e não sobre a sua própria justiça
3- Ele utilizou a Bíblia
4- Ele confessou os seus próprios pecados e os do grupo ao qual pertencia
5- Ele buscou a glória de Deus e do Seu santuário
6- Ele reclamou o cumprimento das promessas divinas

Quão intenso fervor contém a oração do profeta! De igual modo, este mesmo sentimento deveria avivar o coração de todos os filhos de Deus. Perante tais factos, ousamos perguntar: - e as nossas orações? São mera formalidade, por uma questão de hábito ou plenas de fervor? Acerca do vigor desta notável oração de Daniel, o Espírito de Profecia assim se expressa: - “Que eloquência na simplicidade da sua oração, e que fervor ela expressa! (…). O Céu se curvou para ouvir a fervente súplica do profeta”. Ou ainda: - “Se nós, como povo, orássemos como Daniel e lutássemos como ele lutou, humilhando o nosso coração perante Deus, haveríamos de presenciar tão notáveis respostas às nossas petições quanto as que foram dadas a Daniel”.
As palavras que veicularam a oração ainda que sublimes, só por si mesmas nada podem fazer. É em Deus que está todo o poder e só Ele poderá tomar a decisão. Tudo, na verdade, depende de Deus. É no reconhecimento desta sublime verdade que leva o profeta a expressar no final da sua oração: - “ó Senhor, (…) opera sem tardar (…) – v. 19.

domingo, 9 de maio de 2010

A RESPOSTA DE DEUS

Daniel 8.16 – o anjo Gabriel recebe a ordem de explicar a Daniel a visão. Mas, à medida que os factos se sucediam, de repente, o profeta “caiu enfermo” – Daniel 8.27 – facto que interrompe a continuação da narrativa, para que pudesse ter sido especificado dois vectores da mesma visão, ou seja: 1- o quando; 2- o como – esta seria cumprida.
Agora, ao fim de todos estes anos, Deus irá enviar, finalmente, a explicação da visão: - “estando eu, digo, ainda falando na oração, o varão Gabriel, que eu tinha visto na minha visão ao princípio, veio voando rapidamente e tocou-me à hora do sacrifício da tarde.” – v. 21; “e me instruiu e falou comigo e disse: Daniel, agora saí para fazer-te entender o sentido” – v.22; “(…), toma pois, bem sentido na palavra e entende a visão (mar’eh)” – v. 23. (sublinhado nosso).
Quando o anjo Gabriel disse, no v. 23 “(…)entende a visão (mar’eh)”, ele não utilizou o termo visão (chazon) que se refere à visão como um todo, tal como acontece em Daniel 8.1,13;9.21. Em vez deste, ele utiliza (mar’eh), o qual é utilizado especificamente na visão dos 2.300 dias – ou seja, a única porção do texto do capítulo 8 que o profeta não consegue compreender. Anteriormente, o anjo disse ao profeta que a visão (mar’eh), dos 2.300 dias era “verdadeira” – Daniel 8.26 – mas que, apesar disso, o profeta não tinha entendido a visão (mar’eh) – v. 27, portanto a visa respeitante aos 2.300 dias.
Agora, o profeta reconhece o mensageiro de Deus como sendo aquele que tinha visto na sua “visão ao princípio”, numa clara referência à visão relatada anteriormente – cap. 8.16. Assim, as palavras do anjo dirigidas ao profeta demonstram claramente o objectivo da sua presença ali – fazer com que Daniel compreenda a visão, não uma nova, mas a continuação da que fora anunciada anteriormente. Agora é a suprema ocasião para retomar o que ficara pendente ao logo destes anos, para assim ser revelado o – quando e o como – inerentes à grande preocupação do profeta – a purificação do santuário.
A resposta à oração de Daniel, assim como às suas interrogações acerca da visão dos 2.300 dias é, efectivamente, o anúncio do Messias vindouro, ao longo de toda a profecia das 70 semanas, as quais foram concedidas à nação judaica para o cumprimento da sua missão messiânica. Este longo período de tempo é dividido em três períodos:

1- de 7 semanas (49 anos) – relativo à reconstrução de Jerusalém e à restauração do Estado judaico.
2- de 62 semanas (434 anos) – inerente à missão deste Estado judaico e à preparação para a vinda do Messias.
3- de 1 semana (sete anos) – os últimos sete anos da aliança entre Deus e o Seu povo.

Veremos, no detalhe, ao longo da exposição os factos inerentes a estas mesmas divisões desta extraordinária profecia. Na realidade, em função deste contexto, Flávio Josefo assim se expressou acerca de Daniel: - “o mais admirável que eu encontro neste grande profeta é o facto extraordinário, particular e quase incrível que ele tem sobre os outros profetas, é de ter sido, ao longo da sua vida, honrado por reis e povos e ter deixado, depois da sua morte, uma memória imortal; porque os livros que escreveu e que ainda hoje são lidos, dão-nos a conhecer que o próprio Deus lhe falou e que não somente predisse, tal como os outros profetas as coisas que deveriam de acontecer, mas ele marcou os tempos em que essas mesmas coisas ocorreriam”.

b) A explicação
- v. 24: - “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo e sobre a tua santa cidade, para extinguir a transgressão (pesha) ; dar fim aos pecados (hatah); para expiar a iniquidade (awon); trazer a justiça eterna; selar a visão e a profecia; para ungir o Santo dos santos” – v. 24.
Já referimos a manifesta intenção de colocar esta profecia (das 70 semanas) na continuação da revelação anterior, ou seja, a dos 2.300 tardes e manhãs que, recorde-se, ficou por compreender. A relação entre ambas é, de certa forma, reforçada, desde logo, pela utilização de um termo na primeira frase da profecia, ou seja, “Setenta semanas estão determinadas (chathak)” – v. 24. (sublinhado nosso). Aqui é a primeira e única vez, nas Escrituras, em que esta palavra aparece. No entanto, na literatura extra bíblica aparece com o significado de: cortar, determinar, decretar. É, portanto, o contexto, que permite escolher o melhor significado para a palavra. Tendo em conta estes elementos, na realidade, a tradução em causa, que melhor corresponde ao contexto em presença, não é a palavra “determinadas”, mas sim, para uma melhor consonância com o todo, os significados: – cortar, separar. Assim, claramente se compreende que as 70 semanas anunciadas apontam para: 1- que sejam cortadas de outro período de duração diferente e superior; 2- que o período das 70 semanas e os 2.300 tardes e manhãs têm o mesmo ponto de partida.
Dito isto, vejamos desde já o versículo 24. Este divide-se em três secções: 1- Relacionada com o povo - “Setenta semanas estão determinadas sobre o teu povo”. Esta situa-se no plano do homem e fala de expiação e de salvação; 2- Relacionada com a cidade santa, Jerusalém – “sobre a tua santa cidade”. Esta situa-se no espaço e na História, pois falará de construção e de destruição ; 3- Contém seis proposições – “para extinguir a transgressão (pesha) ; dar fim aos pecados (hatah); para expiar a iniquidade (awon); trazer a justiça eterna; selar a visão e a profecia; para ungir o Santo dos santos” – as quais descrevem os resultados da vida de Cristo aqui na Terra. Passemos a analisar cada uma delas:

a)- “para extinguir a transgressão (pesha)” – a palavra empregue para - transgressão (pesha), contém a conotação de: revolta, rebelião contra Deus. No passado - Jerusalém tinha sido destruída e encontrava-se em ruínas. Daniel orou para que Deus perdoasse Judá, pois o povo, como nação, tinha-se revoltado: - contra o seu suserano temporal (Babilónia) – II Reis 24.1; contra Deus – Jeremias 14.20; contra os Seus profetas a eles enviados – II Crónicas 36.15,16.
No presente - é aplicável ao sacrifício de Jesus na cruz, Ele pôs fim à quebra de relacionamento entre Deus e a humanidade – Isaías 59.1-2 - e reabilitou-nos diante de Deus.

b)- “dar fim aos pecados (hatah)” – o termo, como já vimos, contém a noção de: falhar o objectivo – fazendo alusão às faltas, em geral. O anjo Gabriel anuncia, nestes termos, que o Messias resolveria as falhas da humanidade, pois tomaria sobre Si mesmo os seus pecados – Isaías 53.1-6,11; João 1.29 - e dar-lhes-ia fim.

c)- “para expiar a iniquidade (awon)” – este termo tem a conotação de: afastar-se do caminho. Na realidade, Jesus veio não só repor este “caminho”, pois Ele próprio disse ser este mesmo Caminho – João 14.6 – como também veio trazer, através do Seu sacrifício expiatório na cruz, a resolução do problema do pecado – II Coríntios 5.19-21.

d)- “trazer a justiça eterna” – devido à queda do ser humano, a humanidade afastou-se de Deus. O Messias, segundo Gabriel, traria da parte de Deus, uma justiça que seria eterna para todos os que dela se apropriassem, por meio da fé – Romanos 3.23,25.

e)- “selar a visão e a profecia” – o sentido de “selar” é mais o de: confirmar ou ratificar. O cabal cumprimento dos oráculos e das predições dos videntes e profetas associados à primeira vinda do Messias – Gálatas 4.4 -, dá-nos, de igual modo, a certeza de que as outras partes inerentes ao restante da profecia compreendida pelos 2.300 tardes e manhãs, também se cumprirão com a mesma exactidão.

f)- “para ungir o Santo dos santos” – vejamos esta expressão sob duas vertentes: 1- “para ungir” – os templos eram ungidos quando eram inaugurados, tendo em vista a ministério sacerdotal que nele iria ter lugar – cf. Êxodo 30.22-29; 40.9-15. Esta profecia, portanto, evoca a inauguração do ministério de Cristo no santuário celeste, logo após a Sua ascensão – cf. Hebreus 8.2; 9.21-24; 2- “Santo dos santos (qodesh qodashim)” - designa, no Antigo Testamento, uma parte do santuário israelita - Êxodo 26.33,34 – isto é, a mais sagrada das três divisões. Neste compartimento, o Sumo sacerdote entrava uma única vez no ano - no Dia das Expiações -, como já o referimos, para ali espargir sobre o Kapporet, ou seja, o Propiciatório, a tampa da Arca da Aliança, no interior da qual se encontrava as tábuas da Lei de Deus – Êxodo 40.20; Deuteronómio 10.1-5 -, o sangue de um animal imolado pelos pecados do povo. Desta forma se procedia à expiação – cf. Levítico 16.

- v. 25: - “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém, até ao Messias, o Príncipe, sete semanas e sessenta e duas semanas; as ruas e as tranqueiras se reedificarão, mas em tempos angustiosos”. Passemos à sua análise:

a)- “Sabe e entende: desde a saída da ordem para restaurar e para edificar Jerusalém” – o acontecimento aqui mencionado é de capital importância, pois aponta para o início das 70 semanas. Na realidade, a reconstrução de Jerusalém teve lugar devido a um decreto emanado de um monarca persa. Encontramo-nos, para já, perante dois problemas, a saber: 1- de que decreto se trata; 2- qual o monarca que o autorizou.
Vejamos o primeiro ponto: Jerusalém foi reconstruída na sequência de três decretos promulgados por: Ciro, Dário Histapes e Artaxerxes Longuímano. O 1º decreto, emitido em 538 a. C. por Ciro – II Crónicas 36.22,23; Esdras Esdras 1-6 – permite, facilita o regresso do cativeiro e a reconstrução do templo; o 2º decreto, emitido em 520 a. C. por Dário I, não faz mais do que confirmar o decreto anterior – Esdras 6.6-12. O 3º decreto, emitido em 457 a. C. por Artaxerxes, no 7º ano do seu reinado – Esdras 7.1,7,8,12-26. Neste, não somente o templo é visado, como também a nomeação de juízes, magistrados para administrarem a cidade (Esdras 7.24,25). Este decreto dá aos judeus a sua existência política.
Vejamos o segundo aspecto: - à luz do que pudemos ver, o decreto de Artaxerxes trata da reconstrução e restauração de Jerusalém e não simplesmente do templo. Segundo o relato de Esdras, Artaxerxes emitiu este decreto no 5º mês do 7º ano do seu reinado – Esdras 7.8. – isto é, no Outono do ano 457 a. C.
Portanto, aqui temos a data, o ponto de partida, da profecia em causa – 457 a. C.. A partir desta data que marca o início deste período de tempo, já será possível datar os restantes acontecimentos descritos nas diferentes divisões desta profecia.

b)- “até ao Messias (Ungido), o Príncipe, sete semanas; e sessenta e duas semanas; as ruas e as tranqueiras se reedificarão, mas em tempos angustiosos” – Vejamos alguns aspectos deste texto, do fim para o princípio.

1- A versão das Escrituras que usamos é a resultante da tradução massorética. Os copistas Massoretas, não reconhecendo o Messias prometido, pontuaram esta parte do texto - “sete semanas; e sessenta e duas semanas” - de acordo com o seu ponto de vista, colocando um ponto e vírgula (athnakh) no fim destas primeiras sete semanas, separando-as das seguintes sessenta e duas semanas. Assim sendo, os comentaristas ao seguirem este ponto de vista relacionam a primeira fatia de tempo (sete semanas), “com a aparição de um príncipe ungido - Ciro, - benfeitor e libertador dos judeus”, enquanto que “as sessenta e duas semanas seguintes estariam relacionadas com a reconstrução da cidade e do templo.” Mas por diversas razões técnicas tal não é possível. Assim, contrariamente ao que a tradução massorética deixa entender, os dois períodos deverão estar ligados constituindo uma única unidade, e não o contrário, apontando, desta forma, para o grande acontecimento incluído na mesma, ou seja, aparecimento de Jesus Cristo, o Messias.

2- Assim sendo, a tradução correcta do texto, não será a que contém o ponto e vírgula logo após a pequena frase:- “sete semanas” – em que o texto fica: - “sete semanas; e sessenta e duas semanas; as ruas e as tranqueiras se reedificarão, mas em tempos angustiosos”, mas sim, esta que apresentamos a seguir, em consonância com o original: - “sete semanas, e sessenta e duas semanas; as ruas e as tranqueiras se reedificarão, mas em tempos angustiosos”.
Assim sendo, profeticamente, esta porção de tempo que levaria “até ao Messias”, segundo a profecia, conteria o primeiro e segundo período da profecia, ou seja: 1º período – de 7 semanas (49 anos) – relativo à reconstrução de Jerusalém e à restauração do Estado judaico. Aplicando o princípio - Dia/Ano (Números 14.34 e Ezequiel 4.6) – então, este corresponderá a 49 anos, (7 semanas x 7 dias)., o que nos leva ao ano 408 a. C., ou seja, (457 a. C – 49). O ambiente que esta parte do versículo descreve, ou seja, ao longo destes 49 anos, é confirmado pelos textos de Esdras e de Neemias, revelando que Jerusalém foi reconstruída em tempos muitos tumultuosos devido à constante oposição e intrigas dos inimigos do povo de Deus – Esdras 4; Neemias 4.
2º período - de 62 semanas (434 anos) – inerente à missão deste Estado judaico e à preparação deste para a vinda do Messias. Aplicando o mesmo princípio de contagem de conversão do tempo profético, esta porção de tempo corresponde a 434 anos (62 semanas x 7 dias), o que, juntamente com o total do período anterior – 49 anos – leva-nos ao ano em que, historicamente, falando, ocorreu o baptismo de Jesus, no ano 27, ou seja, 457 a. C. – (434 + 49).

3- “até ao Messias (Ungido), o Príncipe” – Segundo Lucas 3.1 João iniciou o seu ministério no “ano quinze do império de Tibério César”, o que leva os especialistas a concluir que estes dados apontam, efectivamente, para o ano 27 d. C., a unção de Cristo. Recorde-se que, o Antigo Testamento atesta que - os profetas, os sacerdotes e os reis - eram ungidos quando entravam em funções – Êxodo 30.30; I Samuel 9.16; I Reis 19.16. Tal como vimos, no ano 27 d. C., ocorreu o baptismo de Jesus e ali foi ungido pelo Espírito Santo – cf. Lucas 3.21,22 – para que, desta maneira Jesus inaugurasse o Seu ministério, o qual muitos seguiram tal como é atestado por Flávio Josefo: - “Neste tempo Jesus que era um homem sábio (…) as suas obras eram admiráveis. Ele ensinava todos os que tinham prazer em aprender a verdade e foi seguido não somente por judeus como também por gentios”.
Atestando o cumprimento da profecia, logo após o Seu baptismo, Jesus foi para a província da Galileia para anunciar as boas novas do reino de Deus, dizendo: - “O tempo está cumprido” – Marcos 1.14,15. Que tempo era este? Nada mais do que o final das 69 semanas até ao Messias, preditas por Daniel.

- v. 26: - “E depois das sessenta e duas semanas será tirado o Messias e não será mais; e o povo do príncipe, que há-de vir, destruirá a cidade e o santuário, e o seu fim será como uma inundação; e até ao fim haverá guerra; estão determinadas assolações”.

1- “E depois das sessenta e duas semanas será tirado o Messias” - A violência inerente à morte do Messias é expressa pela expressão “será tirado, cortado”. O verbo aqui empregue – cortar (karat) - está, no contexto bíblico, ligado ao vocabulário da Aliança traduzido através dos sacrifícios – Génesis 15.7-18; Jeremias 34.13-18. Não seria uma morte natural mas provocada por alguém.

2- “e não será mais” – Esta afirmação deveria verificar-se, obviamente, a quando da morte do Messias, devido à rejeição da parte do Seu povo, onde, nas Escrituras podemos sentir certos ecos: a - no Antigo Testamento: Isaías 53.8; b- no Novo Testamento: - Mateus 26.56; Lucas 24.21; João 1.11.

3- “e o povo do príncipe, que há-de vir, destruirá a cidade e o santuário” - A menção deste príncipe é associada a alguém relacionado com o império romano, visto que este está relacionado com a destruição de Jerusalém pelas tropas romanas. Sabendo o que estava reservado para Jerusalém, revela o texto bíblico que Jesus chorou sobre ela dizendo: - “(…) porque dias virão sobre ti em que te cercarão (...) e não deixarão em ti pedra sobre pedra” – Lucas 19. 41.44. Ou ainda: - “Porque estes dias são de vingança, para se cumprir o que está escrito” – Lucas 21.22. Ou ainda a admoestação de Jesus, antevendo tempos difíceis para Jerusalém, ao ponto de ainda acrescentar: - “Mas ai das grávidas e das que amamentarem naqueles dias” – Mateus 24.19.
Eis o cenário previamente traçado. Na realidade, tudo o que estava escrito cumpriu-se meticulosamente. Ora vejamos:

- “Comereis a carne dos vossos filhos e comereis a carne de vossas filhas” – Levítico 26.29.

- “(…). Servirás aos teus inimigos que o Senhor enviará contra ti (…). E comerás o fruto do teu ventre, a carne de teus filhos e de tuas filhas (…). E quanto à mulher mais mimosa e delicada entre ti (…), e por causa de seus filhos que tiver; porque os comerá às escondidas pela falta de tudo, no cerco e no aperto com que o teu inimigo te apertará nas tuas portas” – Deuteronómio 28.48-57.

- “As mãos das mulheres piedosas cozeram seus próprios filhos; serviram-lhes de alimento na destruição da filha do meu povo” – Lamentações 4.10.

A este propósito, vejamos o que Flávio Josefo refere: - “(…) a sua fome fazia-os juntar, para se alimentarem, o que as mais imundas bestas espezenhariam. Comiam até o couro dos sapatos e das fivelas (…). (…). Uma senhora, chamada Maria (…) assim que se viu reduzida à miséria, a fome a devorava (…). Agarrou no filho que ainda mamava, disse: - “Não será melhor que tu morras para que me sirvas de alimento? (…). Após ter falado assim, ela matou o filho, cozeu-o e comeu um bocado e guardou o resto (…)”.

4- “e o seu fim será como uma inundação e até ao fim haverá guerra; estão determinadas assolações” – Esta imagem ilustra claramente a força do inimigo sobre a sua presa. Na verdade, desde que as muralhas da cidade de Jerusalém foram tomadas, a força inimiga penetra nela como uma verdadeira “inundação”, tal como o refere as Escrituras: - Jeremias 46.7,8; 47.2.

- v. 27 – “E ele firmará um concerto com muitos por uma semana; e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares; e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador”.

1- “E ele firmará um concerto com muitos por uma semana” – Eis-nos chegados à última divisão da profecia das 70 semanas, o 3º período - de 1 semana (sete anos) – fase, recorde-se, relacionada com os últimos sete anos da aliança entre Deus e o Seu povo.
De que concerto, aliança se firmará ao longo desta semana? O Messias deveria confirmar a aliança entre Deus e o Seu povo, a qual começou na data do Seu baptismo e deveria de continuar ao longo desta última semana restante mencionada neste versículo, ou seja, a que falta para que as 70 semanas se completem. Na verdade, quando lemos as primeiras páginas dos evangelhos vemos claramente a ligação de Jesus com o passado, a antiga aliança, não a abolindo mas, confirmando e amplificando-a no famoso Sermão da Montanha – Mateus 5.17-48.
Que houve ruptura, em Cristo, no Sermão da Montanha, entre o cristianismo e o judaísmo? Entre o Novo e o Antigo Testamento? Entre o Deus nos céus e Jesus na terra? Alguém dirá como resposta: - “(…), contrariamente ao que dizem a este respeito, a continuidade é maior no Sermão da Montanha”.

2- “e na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares” – O contexto aqui invocado é o dos sacrifícios, de uma forma geral. Em causa está, sem dúvida alguma, o sistema sacrifical. À luz deste versículo, não desapareceram os sacrifícios mas, o que aconteceu foi que nenhum sacrifício ritual judaico ou de outra natureza, possui qualquer significado para a salvação após a morte de Cristo. Todas estas cerimónias sacrificais apontavam para o Cordeiro que haveria de vir – prefiguravam o supremo sacrifício consentido por Cristo – e por esta razão, o sistema sacrifical tornou-se caduco. E quando é que este facto ocorreu? Exactamente no momento previamente anunciado pela profecia – “na metade da semana” – ou seja, cronologicamente falando, no ano 31 d. C.
Durante o ministério de Jesus, ao longo de três anos e meio, pregando, ensinando e curando Ele não fez mais, tal como dissemos, do que cumprir a aliança eterna. Sabia quanto tempo lhe restava em função do Seu programa. Muitas vezes e em diversos contextos dissera que “ainda não era a sua hora” – cf. João 2.4; 7.6. Mas, no que respeita ao final da Sua actividade, é expressivo, a este respeito, quando é dito: - “(…) e ninguém o prendeu, porque ainda não era chegada a sua hora” – João 8.20 (sublinhado nosso). Mas quando esse momento profético chegou, Jesus encarregou-se de lembrar aos que O vieram prender que: - “(…) esta é a vossa hora e o poder das trevas” – Lucas 22.53 (sublinhado nosso); João 12.27. Numa tradução mais literal, vejamos as palavras do apóstolo Paulo, acerca do momento da morte de Jesus: - “Estando nós ainda fracos, Cristo, no tempo marcado, foi morto pelos ímpios”, ou ainda “Com efeito, quando estávamos sem força, Cristo morreu pelos pecadores no tempo fixado por Deus” – Romanos 5.6 (sublinhado nosso).
Nada disto era estranho ou desconhecido para Jesus, pois Ele marcava o próprio tempo em que tudo deveria de ocorrer. Até mesmo no momento da sua estranha morte, pois ocorrera, inesperadamente, antes da calendarização humana e, devido a esta, repetimos, estranha ocorrência – “não lhe partiram as pernas” – João 19.32,33. Estranha, porquê? Por duas razões de peso: - 1ª – para que, tal como refere o evangelho, “se cumprisse a Escritura” - João 19.36. Na verdade, o evangelista associa Cristo ao quanto fora dito e escrito, no passado, acerca do Cordeiro Pascal “(…) nem dela quebrareis osso” – Êxodo 12.46; 2ª – a altura, o momento da Sua morte estava em consonância com o calendário divino, pois no preciso momento daquele momento trágico, Ele disse: - “Está consumado” – João 19.30. Nada foi deixado ao acaso, pois tudo aconteceu como estava programado – cf. Salmo 22.1,16,18; 69.20,21 etc.
Curiosamente, logo após, algo de extraordinário aconteceu no templo de Jerusalém, tal como é relatado pelas escrituras: - “Eis que o véu do templo se rasgou em dois, de alto a baixo (…)” – Mateus 27.51. Qual o seu real significado? A este propósito podemos ver os seguintes comentários: - “Mão de homem nele não tocou. Este véu que separava o lugar santo do lugar santíssimo (onde estava a Arca do Concerto) e onde somente o sumo sacerdote entrava uma vez por ano para oferecer o sacrifício, no dia da expiação, aspergindo sobre a Arca do Concerto, o Propiciatório (que era a tampa que cobria a Arca) o sangue do sacrifício – Levítico 16.12,15; Hebreus 9.7. (…). Era a hora nona, isto é, 15 horas da tarde, exactamente a hora em que Jesus expirou. O sacerdote estava queimando o incenso odorífero no lugar santo, em frente ao véu, e o povo, mais atrás, naquele momento, adorando e adorando. Inesperadamente, rasga-se o véu diante dos seus olhos! (…). Podemos imaginar o espanto que se apoderou da multidão ao contemplar, estarrecida, diante dos seus olhos, a Arca de Deus, que o povo não podia ver”. E ainda: - “Até então o santíssimo fora guardado impenetrável. Mas agora, achava-se exposto aos olhares de todos. O pesado véu de tapeçaria, feito de puro linho e belamente trabalhado em ouro, escarlate e púrpura, fora rasgado de alto a baixo. O lugar em que Jeová Se encontrava com o sumo sacerdote, para comunicar a Sua glória (…) não mais era reconhecido pelo Senhor”.
E, tal como revela a profecia, “na metade da semana fará cessar o sacrifício e a oferta de manjares”, ou seja, como já vimos, não só o Messias seria morto no meio desta semana, isto é, no ano 31 d. C., como também esta morte faria rasgar, sem qualquer mão humana, o pesado véu do templo, simbolizando este acontecimento, a substituição dos sacrifícios repetitivos oferecidos no templo por um sacrifício único, este oferecido uma vez por todas, o que é confirmado pelas Escrituras – “(…). Tira o primeiro, para estabelecer o segundo” – Hebreus 10.9. Portanto, este sacrifício proclamou a nulidade do sistema sacrifical judaico até então praticado.
Agora restava a 2ª metade da última semana, ou seja, três anos e meio, para que se complete o ciclo das 70 semanas. Durante este tempo os discípulos pregaram com grande fervor esta pregação em Jerusalém e muitos a aceitaram – cf. Actos 6.7. No fim desta última semana profética, Estêvão foi convocado para comparecer no Sinédrio porque o que ensinava acerca de Jesus, como o Messias, incomodava a religião devidamente instalado e com grandes privilégios, pois “não podiam resistir à sabedoria e ao espírito com que falava” – Actos 6.10.
Este foi sentenciado, os seus algozes “expulsando-o da cidade o apedrejavam. (…)E pondo-se de joelhos, clamou com grande voz: Senhor, não lhes imputes este pecado. E, tendo dito isto, adormeceu” – Actos 7.58-60. Estêvão foi o primeiro mártir cristão. Este trágico acontecimento é corresponde ao ano 34 d. C. Na contagem das 70 semanas a partir de 457 a. C., os últimos três anos e meio da septuagésima semana terminam, efectivamente, no ano 34 da nossa era.
Portanto, a rejeição de Cristo pelos judeus, simbolizada pelo apedrejamento de Estêvão, fez com que a proclamação do evangelho se direccionasse para o mundo não judeu – O Israel de Deus – Gálatas 6.16; 2.9; Romanos 9.25.

3- “e sobre a asa das abominações virá o assolador, e isso até à consumação; e o que está determinado será derramado sobre o assolador” - O livro de Daniel refere três vezes as expressões - “abominação da desolação” – Daniel 9.27; 11.31; 1.11. Acerca deste tema -“abominação da desolação” - os comentaristas, como vimos desde o início deste comentário a Daniel, consideram-no já cumprido na pessoa do rei Antíoco Epifânio. Assim, ao comentarem esta citação do profeta Daniel feita pelo Senhor Jesus – Mateus 24.15 - dizem que o Mestre - “refere-se com toda a certeza à estátua do Zeus Olimpo que Antíoco Epifânio mandou colocar no Templo de Jerusalém – cf. II Macabeus 6.29” (sublinhado nosso) - ou ainda “(…) certamente o autor do livro de Daniel se refere à devastação realizada por Antío Epifânio IV, no tempo dos Macabeus”. (sublinhado nosso). Note a forma dúbia como se expressam!
Abramos aqui um parêntesis: - como já vimos, este rei - Antíoco Epifânio IV – nada tem que ver com a profecia de Daniel. Comparemos o comentário acima com as palavras de Jesus:
Tal como o referimos, Jesus, no Seu grande discurso escatológico, dá a interpretação deste texto de Daniel - Daniel 9.27. Vejamos em que termos o Mestre responde a uma pergunta sobre a magnificência do templo de Jerusalém e acerca dos sinais precursores da Sua vinda:

a) “Vês estes grandes edifícios? Não ficará pedra sobre pedra que não seja derribada. (…). Ora, quando virdes a abominação do assolamento, que foi predito, estar onde não deve estar (…), então os que estiverem na Judeia fujam para os montes” – Marcos 13.2,9
b) “Aproximaram-se dele os seus discípulos para lhe mostrarem a estrutura do templo. Jesus, porém, lhes disse: Não vedes tudo isto? Em verdade vos digo que não ficará aqui pedra sobre pedra que não seja derribada. (…) e que sinal haverá da tua vinda (…). Quando, pois, virdes que a abominação da desolação de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo (…). Então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes” - Mateus 24.1-3,15,16.
c) “E dizendo alguns a respeito do templo, que estava ornado de Formosas pedras e dádivas, disse: Quanto a estas coisas que vedes, dias virão em que se não deixará pedra sobre pedra, que não seja derribada. (…). Mas quando virdes Jerusalém cercada de exércitos, sabei então que é chegada a sua desolação” – Lucas 21.5,6,20.

Jesus não disse ou deu a entender que os acontecimentos dos quais falava se referiam ao passado e ao futuro, em relação àquele preciso momento, tal como pretendem os comentadores, recorde-se, ao dizerem que a - “abominação da desolação” – tem que ver, unicamente, com a colocação, no templo de Jerusalém, da “estátua do Zeus Olimpo” por Antíoco Epifânio, cerca do ano 175 a. C.! Aquelas palavras apontavam para acontecimentos ainda no futuro – a destruição do templo pelos Romanos, no ano 70 d. C.
Mas, se no momento em que Cristo fala e tendo estas palavras sido cumpridas no tempo de Antíoco Epifânio (175 a. C. -163 a. C.), será que a causa da abominação, ou seja, a tal estátua, ainda existiria naquele lugar a profaná-lo? Que sentido faria Jesus, referir-se a ela, dizendo: - “Quando, pois, virdes que a abominação da desolação” – Mateus 24,15 – se a causa da tal abominação, na época, já não existia, ou seja – a estátua?
Pois para estar em consonância com o que os comentaristas pretendem que tenha ocorrido, Jesus deveria ter falado com verbos conjugados no passado ou no presente, ou seja: - “o que vê a abominação da desolação de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo, (a tal estátua), então (…)”! Mas, contrariamente ao que afirmar, Jesus emprega os tempos verbais no futuro, e não no passado ou presente! Fechando o parêntesis.
No entanto, se aplicarmos a advertência de Jesus à futura invasão e destruição do templo pelo poderio militar romano, então tudo se clarifica.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

A PROFECIA INTEGRAL

Já referimos até aqui a prodigiosa exactidão desta primeira fatia da profecia maior (70 semanas = 490 anos), previamente anunciada pelo profeta no capítulo anterior – Daniel 8.13,14 - referente às 2.300 tardes e manhãs. Com todos os elementos vistos até aqui podemos construir toda a profecia, a saber:
1- O ponto de partida da profecia maior, incluída na qual está a das 70 semanas é, como vimos, o ano 457 a. C.
2- Sabemos também que este período de 490 anos (70 semanas) terminou no ano 34 d. C.
3- Se subtrairmos os 490 anos ao período profético mais longo, ou seja, 2.300 anos, restarão 1.810 anos.
4- Agora para que possamos descobrir quando termina o período mais longo é muito fácil, pois basta acrescentar 1.810 anos ao ano 34, ano em que terminou a profecia menor (as 70 semanas) e assim chegaremos ao ano final da profecia maior (2.300 tardes e manhãs), ou seja, ao ano de 1844 da nossa era.
O que é que aconteceria aqui? Recorde-se o que revelou o profeta Daniel, ao dizer: - “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs, o santuário será purificado” – Daniel 8.14. Neste tempo, como vimos anteriormente, o nosso grande Sumo Sacerdote, o “Messias, o Príncipe”, iniciou a Sua obra final de intercessão, na qualidade de nosso único Mediador – I Timóteo 2.5.
Chegámos ao final do grande período previamente anunciado – o das 2.300 tardes e manhãs – ou seja, o ano em que o “santuário será purificado.” – Daniel 8.14 – o qual ocorreria no ano de 1844.
Em linguagem simbólica, nesta data, Cristo inicia o Seu ministério no Lugar Santíssimo, no céu. Resumiremos as diferentes fases do julgamento:

1- 1ª fase do juízo (julgamento antes da vinda de Jesus) – o Filho do Homem vem ao Ancião de Dias – Daniel 7.9-14, 26,27. O santuário é purificado – Daniel 8.14 – e tem lugar a abertura dos livros – investigação – Daniel 7.10 – para averiguação de quem merece ou não constar no livro da vida – Apocalipse 20.12.

2- A vinda de Cristo marcará a 2ª fase do juízo (no céu) - quando Jesus vier, sentado no trono da Sua glória, devido ao veredicto do julgamento que ocorreu previamente, então separará os que merecem e os que não merecem estar com Ele para todo o sempre – cf. Mateus 13.30; 26.31-43. Haverá a ressurreição dos justos e ida para o céu – I Tessalonicenses 4.15-17. Aqui, ao longo de mil anos, os justos assistirão, na qualidade de membros do júri, julgarão todos os que rejeitaram a Graça divina, seres humanos e anjos caídos – I Coríntios 6.2,3; Judas 6,15; Apocalipse 20.3-7.

3- A 3ª fase do juízo (após os mil anos) – dá-se a execução da sentença. Será o acto final do grande drama universal – Apocalipse 20.11-15
Assim, como nota final, recordaremos o conhecido o papel que William Miller (Guilherme Miller) teve em relação à data de 1843 / 1844, no que respeita à significação do que fora predito “Miller e os seus companheiros proclamaram que o período profético mais longo e o último apresentado na Bíblia estava a ponto de terminar, que o juízo estava próximo e que deveria ser inaugurado o reino eterno. (…). Explicando Daniel 8.14 - - Miller adoptou a opinião geralmente mantida de que a Terra é o santuário, crendo que a purificação deste representava a purificação da Terra pelo fogo, na vinda do Senhor. (…). O seu erro resultou de aceitar a opinião popular quanto ao que constitui o santuário”. Portanto, o erro não esteve directamente relacionado com os cálculos, mas sim com a troca do Santuário Celeste pela Terra, pois a purificação deveria de ser, tal como a profecia apontava, no santuário e não na Terra, isto é, o momento da gloriosa vinda de Jesus!
Digamos, desde já que de modo algum, William Miller foi pioneiro acerca da datação da profecia das 2.300 tardes e manhãs. A este propósito – marcação desta data - convém recordar que já em 1834, o distinto jurista mexicano, Dr. José Maria Gutierrez de Rozas (1769-1848), católico romano, publicou uma obra, na qual considerava que o fim do período das 2.300 tardes e manhãs, na qual estava incluída a profecia das 70 semanas, ocorreria entre 1843, 1844 ou 1847. Se compararmos as datas das diferentes publicação acerca deste assunto, vemos que “quase todos (os autores) publicaram o seu ponto de vista antes do primeiro livro de William Miller, que apareceu em 1836”; portanto, já dois anos antes de William Miller, acerca deste mesmo assunto, algo tinha sido escrito!
Assim, para uma melhor compreensão de como a profecia das 2.300 tardes e manhãs se estende ao longo do tempo, esquematicamente a apresentamos:

terça-feira, 4 de maio de 2010

CHEFES ESPIRITUAIS

(Daniel 10.1-21)
Esta parte do livro não é mais do que a introdução à mais extensa profecia das Escrituras, ou seja, compreendendo desde o tempo histórico do profeta até ao fim do tempo ou, melhor dizendo, até ao tempo do fim. Assim, a profecia, propriamente dita, iremos encontrá-la na próxima lição - o capítulo 11 – e, tal como dissemos, o capítulo 10 não é mais do que o seu prólogo, enquanto que o capítulo 12 é o seu epílogo.
Nesta visão Deus vai levantar a cortina da História para mostrar a este Seu servo algumas realidades do mundo invisível, ou seja, o conflito entre as forças do mal contra as do bem.

1- Um grande conflito
v.1 - Este capítulo abre situando o leitor num tempo histórico bem preciso, ao longo do qual se desenrola “uma guerra prolongada”. Esta revelação do alto teve lugar no “terceiro ano de Ciro” - 536/5 a. C. - ou seja, dois anos depois do quanto é relatado no capítulo 9.
Muitos anos são decorridos desde que o profeta Daniel saíra de Jerusalém para Babilónia. Agora o profeta já não tinha o mesmo vigor de outrora, pois a sua idade, nesta fase, rodava os 90 anos, o que, de certa forma era um obstáculo que o impediu de acompanhar o povo de Deus de volta a Jerusalém. A alegria anterior dava agora lugar a uma certa angústia, visto que não só aqueles que regressaram como também os que se propunham reconstruir o templo de Jerusalém, localmente encontraram uma feroz resistência dos habitantes locais, ao ponto destes últimos serem tidos como “adversários de Judá e Benjamim” – Esdras 4.1.
Tudo foi feito para entravar o propósito da reconstrução do templo, tal como o texto bíblico nos dá a conhecer: 1- “o povo da terra debilitava as mãos do povo de Judá”; 2- ao ponto de terem feito uso da corrupção - “alugaram contra eles conselheiros para frustrarem o seu plano” – Esdras 4.4,5.
Quando estas notícias chegaram ao conhecimento de Daniel uma grande tristeza invade o profeta, não por não ter podido acompanhar os seus pares, mas devido às notícias acerca dos trabalhos inerentes à reconstrução do templo, que não eram as mais animadoras.
Estas notícias pesaram muito no coração de Daniel e, em consequência, o profeta entrega-se à oração e ao jejum. Que melhor forma de resolver os assuntos humanos a não ser de joelhos perante o Senhor? Assim irá fazer este grande homem de Deus, pois ele sabia, por experiência própria que a oração não só era “a respiração da alma (…)” , como também “o abrir o coração a Deus como a um amigo”.

v. 2-4 – Ao longo destes versículos ficamos a conhecer, não só quanto tempo o profeta esteve em contacto mais íntimo com Deus, abrindo-Lhe o seu coração para partilhar com Aquele que tudo sabe e tudo vê, o quanto o preocupava; portanto - “(…) três semanas completas” – como também o final deste tempo de jejum e de oração, ou seja, - o “dia vinte e quatro do primeiro mês”.
A referência – “primeiro mês” – é bastante significativa, pois transporta-nos para o mês de Tishri e não, como se poderia pensar de imediato, para o de Nisan (primeiro mês do calendário judaico)! Razões? Não esqueçamos que Daniel, como facilmente se compreenderá, rege-se pelo calendário babilónico. Assim, estando no mês de Tishri, o tempo invocado cobriu um ciclo muito importante da vida judaica, pois neste tinha lugar três festas, a saber:

1- Rosh ha-Shanah (celebrava-se no 1º dia do ano judaico) – Lev. 23.24
2- Yom Kippur (celebrava-se no 10º dia) – Lev. 23.27
3- Sucot (celebrava-se no 15º dia) – Lev. 23.39

Portanto, o fim destes vinte e um dias, ou seja, as três semanas” de jejum e de oração do profeta, coincide com o final desta última festa que tinha a duração de sete dias. Esta época era, sob todos os aspectos, a mais alegre do ano, pois em condições normais incluía, geralmente, uma visita ao templo de Jerusalém. Esta última festa – Sucot – recordava ao povo de Israel a sua passagem pelo deserto, simbolizando, por este facto, a esperança da terra prometida – Levítico 23.43 - e do reino de Deus – Isaías 2.2-4. É neste contexto de recordações e de súplica espiritual intensa, que o profeta de Deus irá receber a visita de um ser celestial, em resposta às suas inquietações.
Perante os problemas do profeta, recorde-se, Deus sempre teve a última palavra: 1- Em Daniel cap. 2, Deus respondeu-lhe ao mostrar-lhe o conteúdo do sonho do rei Caldeu – a grande estátua; 2- Em Daniel cap. 6, Deus lhe envia um anjo para que os leões não lhe causem qualquer dano físico; 3- Em Daniel cap. 9, Deus lhe envia a mais excelsa das Suas criaturas - o anjo Gabriel ; 4- Finalmente, no capítulo que estamos a estudar, Deus enviará, desta vez, o Seu próprio Filho.
Na realidade “Deus não muda” – Malaquias 3.6; Tiago 1.17 – e, a exemplo do passado, o profeta Daniel irá receber, uma resposta à sua presente preocupação. Ora vejamo-la:

2- A visão
“E levantei os meus olhos e olhei, e vi um homem vestido de linho, e os seus lombos cingidos com ouro fino de Ufaz. E o seu corpo era como turquesa, e o seu rosto parecia um relâmpago, e os seus olhos como tochas de fogo, e os seus braços e os seus pés como cor de bronze polido; e a voz das suas palavras como a voz duma multidão” – v. 6.
A descrição mostra claramente, não somente uma cena arrebatadora, a qual apontava denunciava a presença de um ser sobrenatural. Ali estava Alguém cuja glória superava a do anjo até então enviado pelo céu – o anjo Gabriel - para esclarecer e confortar o profeta, visto que a presença deste anjo não afecta fisicamente o profeta – cf. 9.21. Os efeitos físicos da visão sobre o profeta – v. 8,16 - foram semelhantes aos que se manifestaram ao profeta Ezequiel – Ezeq. 1.28 – e a João - Apoc. 1.17. É interessante comparar o mesmo efeito com a serva do Senhor. Esta descrição da visão, o seu conteúdo, como acabámos de referir, não é exclusiva do livro de Daniel, mas também no profeta Ezequiel 1.24-28 e no livro do Apocalipse 1.13-16. Esta clara identificação deste com vestes de sumo-sacerdote. Quem era este ser celeste que ali se apresentava? Este era, efectivamente, - Jesus Cristo. O Seu traje como o de um sumo-sacerdote – Ex. 28.4; Ezeq. 9.2,11 - mostra claramente que estamos no contexto do santuário – contexto de julgamento – que serve de pano de fundo ao Yom Kippur – cf. cap. 8.
Mas de seguida, eis que surge o Anjo Gabriel para o fortalecer e esclarecer acerca das inquietações do profeta. Desde já, a significação do nome do anjo Gabriel – “Deus mostrou-se forte” é, neste contexto preciso, bastante significativa pois no horizonte próximo vislumbra-se uma guerra – v. 13. Esta é entre Deus e Babel. Nesta guerra, o anjo de Deus, Gabriel, é a garantia do início da vitória. E, por duas vezes – v. 13,21- o discurso do anjo conclui com uma referência à entrada de Miguel, o príncipe celeste, na batalha. O “filho do homem” do cap. 7.13 – o “príncipe do exército” do cap. 8.11 – é o mesmo personagem que este homem/Deus que resplandece extraordinariamente e que, tal como nos foi mostrado, deixou desfalecido o profeta. Sim, este chefe é um desafio para os adversários e o garante da certeza da vitória. Mais abaixo voltaremos a falar desta entidade celestial.

3- O anjo Gabriel e a revelação
Daniel, ouve não o som da mesma voz da visão, mas uma outra que lhe era familiar, do passado – a do anjo Gabriel – cap. 8.17-19; 9.21-23. As palavras revelam uma extrema segurança: - “Daniel, homem mui amado (…) não temas” – v. 11,12.
No verso 13 - “Mas o príncipe do reino da Pérsia se pôs defronte de mim (..) e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes veio para ajudar-me (…)”. Aqui encontramos um breve vislumbre da luta invisível entre as entidades cósmicas – entre o Bem e mal, os anjos de Deus e as hostes fiéis a Satanás – anjos contra demónios. As Escrituras dão-nos a conhecer a realidade destes agentes – “porque não temos que lutar contra o homem, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais” - Ef. 6.12.
Quem era este “príncipe das trevas” que ousou fazer face a um anjo de Deus durante todo aquele tempo descrito no versículo do livro de Daniel, ou seja, “vinte um dias”? Não era outro a não ser uma entidade celeste que se identificava com o império Persa, ou seja, um anjo mau, contrário a Deus – cf. II Ped. 2.4. Por outro lado, o próprio Jesus identificou diversas vezes Satanás como sendo “príncipe” – cf. João 12.31; 14.30; 16.11. Assim, neste contexto cósmico, este príncipe não é, textualmente, o rei do império Persa, mas sim, segundo a tradição teológica - “anjos protectores dos respectivos povos”. Pois, um deles, como é dado a conhecer representa o príncipe da Pérsia – Dan. 10.13 – enquanto que outro representa o da Grécia – v. 20. Portanto, eram anjos ao serviço de Satanás, os quais contrastavam com Miguel, que dirige e orienta o povo de Deus.
Estes seres celestes, comissionados por Satanás, visavam influenciar as mais altas autoridades Medo-Persas para que não fossem favoráveis ao povo de Deus. Mas, ao mesmo tempo, anjos de Deus trabalhavam no interesse dos exilados. Assim, longo destes “vinte um dias” Gabriel lutou contra estes poderes das trevas. E, antes que a contenda chegasse ao fim, eis que Miguel vem em auxílio do Seu anjo.

4- Miguel
Na origem da grande controvérsia celeste está o combate travado no céu e revelado em Apoc.12.7-9 – onde os anjos revoltosos contra Deus são expulsos do céu, por Miguel e os Seus anjos. Esta é uma entidade superior, divina – o arcanjo Miguel – Judas 9; II Tess. 4.16; Dan. 10.21; 12.1.
Miguel (mi-ka-el) significa :- quem é como Deus. Expressão que se aplica também ao Deus de Israel – Ex. 15.11; Salmo 35.10; 71.19; Miqueias 7.18.
Esta personagem mencionada pelo profeta Daniel que, como vimos, é identificada como sendo “um semelhante ao Filho do homem” – Apoc. 1.13 - com “olhos como chama de fogo” – Apoc. 1.14 – aquele que é “o primeiro e o último” – Apoc. 1.17; 22.13 – é o mesmo do qual se diz: - “Ora vem, Senhor Jesus” – Apoc. 22.20
Tal como dissemos, desde o início, este capítulo que agora se fecha não é mais do que a introdução ao quanto vem descrito no capítulo a seguir, mostrando os acontecimentos que se desenrolarão ao longo do tempo do fim e do fim do tempo.
Esta grande visão para lá do quanto a vista e percepção humana alcança, mostra claramente que, nesta guerra cósmica com reflexos nesta terra, Deus tem, como sempre teve, a última palavra – palavra de esperança para todo aquele que n’Ele confia.

domingo, 2 de maio de 2010

DANIEL - ESCRITOS (KETHUBHIM)

Salmos, Provérbios, Job, Cântico dos cânticos, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras/Neemias, Crónicas (I e II). 
Após esta breve mostragem o que se nos oferece dizer em relação à inserção deste livro entre os “Escritos” (Kethubhim) e não entre os livros “Proféticos” (Nebhi’im), como seria de esperar?

Resposta: - Convém não esquecer que Daniel não foi escolhido ou classificado na qualidade de profeta, pois sempre permaneceu na qualidade de funcionário do governo ao longo da sua carreira. Assim, devido a este contexto preciso, o lugar que ocupa os seus escritos, ou seja, depois de Ester e antes de Esdras e Neemias, se explica facilmente neste enquadramento. Além disto, uma forte percentagem do livro é mais histórica do que profética (do cap. 1 ao 6).
Por outro lado, Daniel não escreveu sob a forma de mensagem de Deus ao Seu povo, retransmitida pela boca do Seu porta-voz. O elemento dominante consiste é, antes de mais, visões proféticas dadas pessoalmente pelo autor e às quais os anjos lhe dão a respectiva interpretação. É por causa deste aspecto misto do livro, partilhado entre o relato histórico e a visão profética, que os escribas judeus acabaram por inseri-lo na terceira categoria do Cânone.
c)- O livro de Daniel está escrito em hebraico (cap. 1–2.4; 8–12) e em aramaico (cap. 2.4 a 7.28) e, nesta qualidade, os críticos concluem que o livro é posterior ao séc. VI a. C.
Resposta: - As diferentes fontes encontradas demonstram a não validade de tais argumentos: a partir do séc. VIII o aramaico torna-se a língua internacional do Próximo Oriente e, tendo em conta esta informação, os israelitas a aprenderam durante o exílio. Esta língua conheceu algumas modificações ao longo das épocas: O aramaico oficial, foi utilizado entre 700 e 300 a. C.; o aramaico médio, foi empregue de 300 a. C. até aos primeiros séculos da era cristã; o aramaico recente, foi empregue após estes períodos.
A razão da utilização destas duas línguas nos diferentes excertos do livro tem que ver com duas vertentes: lógica e literária. Em relação à primeira, o autor escreve em hebreu (cap. 1–2.4; 8–12) porque estes capítulos são os mais directamente relacionados com os Judeus. Quanto à segunda, em aramaico (cap. 2.4 a 7.28), quando o que o profeta tem a dizer, implica preferencialmente as nações; assim, cada um poderia ler, de uma forma particular, o que com cada um se relacionava.
d) - Se o livro de Daniel é uma falsificação, como é que penetrou no Cânone do Velho Testamento, visto que o livro apócrifo (não inspirado) de Macabeus fala dele – “Recordai-vos dos feitos dos vossos maiores (…) Daniel, na sua rectidão, foi preservado da boca dos leões” – I Macabeus 1.51-60, cf. Daniel 6.16,23?
e) - Quem foi o génio que redigiu este livro predizendo o futuro do nosso planeta e declarando o ano do início e do fim do ministério do Messias se, como dizem, o livro é uma obra de ficção datada do ano 165 a. C? Se não foi Daniel, o profeta, então quem poderá ter sido?
f) - O autor de Daniel manifesta um conhecimento preciso dos acontecimentos do séc. VI a. C., o qual não estaria ao alcance, certamente, de um escritor do séc. II a. C.! Por exemplo no cap. 8.2 declara que Susa ficava situada na província de Elão na época babilónica. Os historiadores – romanos e gregos - nos dão a conhecer que no período persa, Susa foi atribuída a uma nova província que tomou o seu nome – Susiana ; a maior província do antigo Elão ficou reduzida ao território a oeste do rio Ulai. Ora será normal que só um autor antigo possa saber que Susa, antigamente estava integrada na província do Elão.
g) - Depois, temos o testemunho indiscutível de Jesus Cristo no discurso acerca dos acontecimentos precursores do tempo do fim, pronunciado no Jardim das Oliveiras. Ali Jesus declara o seguinte: - “Quando pois virdes a abominação da desolação de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, entenda” – Mateus 24.15 (sublinhado nosso).
O livro de Daniel refere três vezes as expressões - “abominação da desolação” – Daniel 9.27; 11.31; 1.11. Se estas são as verdadeiras palavras de Cristo, quando cita o profeta, então o Senhor tinha a certeza de que, não só o Daniel histórico era, efectivamente, o seu autor incontestado, como também o conteúdo do seu escrito era profético – o que contraria os comentaristas humanos do texto bíblico! Assim sendo, Jesus ao se expressar desta maneira, considerou esta “abominação” como um texto profético, algo a acontecer ainda no futuro e não no passado, tal como os críticos pensam. E tanto é assim que, ao comentarem esta citação do profeta Daniel feita pelo Senhor, dizem que Jesus - “refere-se com toda a certeza à estátua do Zeus Olimpo que Antíoco Epifânio mandou colocar no Templo de Jerusalém – cf. II Macabeus 6.29” !
Na realidade, a quanto o ser humano recorre para denegrir a autenticidade da Palavra de Deus! Mas, para ajudar a superar qualquer resquício de cepticismo, iremos recordar o que foi escrito pelo historiador judeu Flávio Josefo, reforçando não só a autenticidade como também a antiguidade dos escritos do profeta Daniel:

a) – O profeta
Flávio Josefo assim se expressou acerca de Daniel: - “o mais admirável que eu encontro neste grande profeta é o facto extraordinário, particular e quase incrível que ele tem sobre os outros profetas, é de ter sido, ao longo da sua vida, honrado por reis e povos e ter deixado, depois da sua morte, uma memória imortal; porque os livros que escreveu e que ainda hoje são lidos, dão-nos a conhecer que o próprio Deus lhe falou e que não somente predisse, tal como os outros profetas as coisas que deveriam de acontecer, mas ele marcou os tempos em que essas mesmas coisas ocorreriam”.

b) A antiguidade dos seus escritos
- Anteriores a Artaxerxes: - “Não temos senão 22 livros que contêm os relatos do passado e que são considerados divinos (inspirados). (…) da morte de Moisés até Artaxerxes, rei dos Persa depois de Xerxes, os profetas que sucederam a Moisés, escreveram em 13 livros o que se passou no seu tempo (…)”
- Alexandre – o Grande: - “(…) Alexandre, ao chegar a Jerusalém, subiu ao Templo e ofereceu sacrifícios a Deus tal como o Sumo Sacerdote lhe dissera para fazer. Este, por sua vez, lhe mostrou o livro do profeta Daniel, no qual estava escrito que um príncipe grego destruiria o império dos Persas (…).
Portanto, todos os ataques ao profeta Daniel nada têm de novo. Já no séc. IV S. Jerónimo assim se referiu aos ataques ao livro de Daniel: - “o combate encetado contra o profeta Daniel é um testemunho da sua autenticidade”.
Para colocarmos um ponto final nesta parte do trabalho, façamo-lo da melhor forma, citando o grande conselho do apóstolo S. Paulo a Timóteo: - “Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, tendo horror aos clamores vãos e profanos e às oposições da (falsamente chamada) pseudo ciência (conhecimento), a qual, professando-a alguns, se desviaram da fé” – I Timóteo 6.20,21.
Dr. Ilidio Carvalho

Mahler Symphony nº 5

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A REUNIÃO DE ISRAEL

O moderno Estado de Israel tem as suas raízes históricas e religiosas na bíblica Terra de Israel (Eretz Israel), um conceito central para o judaísmo desde os tempos antigos, e no coração dos antigos reinos de Israel e Judá. Após o nascimento do sionismo político, em 1897, e da Declaração de Balfour, a Liga das Nações concedeu ao Reino Unido o Mandato Britânico da Palestina após a Primeira Guerra Mundial, com a responsabilidade para o estabelecimento de "…tais condições políticas, administrativas e económicas para garantir o estabelecimento do lar nacional judaico, tal como previsto no preâmbulo e no desenvolvimento de instituições autónomas, e também para a salvaguarda dos direitos civis e religiosos de todos os habitantes da Palestina, sem distinção de raça e de religião… ".
Em novembro de 1947, as Nações Unidas recomendaram a partição da Palestina  num Estado judeu.
A Bíblia afirma que em consequência da desobediência à lei do Senhor o povo de Israel andaria errante: “E vos farei andar errantes por todos os reinos da Terra.” Jeremias 34:17 (ver Jeremias 25:8-11).
1. Há na Bíblia alguma profecia que anuncie a volta do cativeiro?
R: “Pois eu bem sei os planos que estou projetando para vós, diz o Senhor; planos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança. Então me invocareis, e ireis e orareis a mim, e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração. E serei achado de vós, diz o Senhor, e farei voltar os vossos cativos, e congregarvos-ei de todas as nações, e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o Senhor; e tornarei a trazer-vos ao lugar de onde vos transportei.” Jeremias 29:11-14 (ver também Jer. 23:3).
Nota: A primeira dispersão dos judeus ocorreu em 606-588 A.C., sob o reinado de Nabucodonosor, rei de Babilónia. Em 457 A.C., sob Artaxerxes, o rei persa, grande número de judeus voltou para a Palestina, sua terra natal.
2. O que disse Moisés sob a dispersão do povo israelita em consequência da rejeição de Jesus como o Messias?
O Senhor levantará contra ti de longe, da extremidade da terra,...e te sitiará em todas as tuas portas, até que em toda a tua terra venham a cair os teus altos e fortes muros, em que confiavas; ...E o Senhor vos espalhará entre todos os povos desde uma extremidade da terra até a outra; e ali servireis a outros deuses que não conhecestes, nem vós nem vossos pais, deuses de pau e de pedra.” Deuteronómio 28:49-64.
Nota: Esta calamidade e dispersão ocorreu em 70 A.D., sob Tito, o general romano. Diz a Popular and Critical Bible encyclopaedia, Vol. 2, artigo “Jerusalém,” pag. 932: “Jerusalém parece haver atingido essa grandeza como se fosse para tornar maior a miséria de sua subversão. Logo que os judeus selaram a sua formal rejeição de Cristo, condenando-O à morte, e invocando a responsabilidade de Seu sangue sobre a sua cabeça e de seus filhos (Mateus 27:25), a sorte da cidade estava lançada. Tito, jovem, bravo e competente general romano, com um exército de sessenta mil guerreiros aguerridos e vitoriosos, apareceu diante da cidade em Abril de 70 da nossa era, começando então o mais desastroso cerco relatado na História.”
3. Sob que símbolo preciso foi tudo isto predito?
R: “Assim disse o Senhor: Vai, e compra uma botija de oleiro, e ...quebrarás a botija ...e lhes dirás: Assim diz o Senhor dos exércitos: Deste modo quebrarei eu a este povo, e a esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro, de sorte que não pode mais refazer-se.”  Jeremias 19:1-11.
Nota: “Nenhuma cidade sobre a Terra sofreu mais com guerras e cercos, do que Jerusalém...Tempestuosas legiões, aríetes e catapultas arrasaram-na muitas vezes. Mas mesmo assim o plano geral da cidade foi sempre conservado. Sião e o Monte Moriá estão perfeitamente à vista do Olivete, e lá, sobre aquelas colinas, estendendo-se para o oeste, cidade após cidade tem surgido e desaparecido no passar dos séculos.” – Popular and Critical Bible Encyclopaedie, Vol. 2, artigo “Jerusalém”.
4. Por quanto tempo deveria ser pisada pelos gentios?
R: “E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos destes se completem.”
Nota: Quando Jesus, no Monte das Oliveiras, chorou sobre Jerusalém, disse: “ Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta.” No ano 70 ocorreu a destruição de Jerusalém pelos romanos, e a dispersão dos judeus por todo o mundo. O evangelho foi primeiro pregado em Jerusalém e na Judeia, mas no ano 34, ao ser apedrejado Estêvão, os cristãos foram dispersos, indo por toda a parte pregando o evangelho (Atos 8:4; 13:46). Crucificando o Salvador e perseguindo os Seus discípulos, os judeus como nação encheram a taça da sua iniquidade. A morte de Estêvão assinalou o fim do período de sua iniquidade. A morte de Estêvão assinalou o fim do período concedido à nação judaica, e o princípio dos tempos dos gentios.
5. Que encerrará os “tempos” concedidos aos gentios?
R: “E este evangelho do reino será pregado no mundo inteiro, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim.” Mateus 24:14.
6. Qual a razão para o evangelho ser pregado aos gentios?
R: “Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios para tomar dentre eles um povo para o seu Nome.” Atos 15:14.
7. Que promessa fez Deus a Abraão?
R: “Porque não foi pela lei que veio a Abraão, ou à sua descendência, a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo, mas pela justiça da fé.” Romanos 4:13.
Nota: Visto como essa promessa não se cumpriu a Abraão, e seus descendentes se acham agora na dispersos entre todas as nações, assim devendo continuar até ao fim do mundo, como devemos compreender a promessa a Abraão?
R. “Ora as promessas foram feitas a Abraão e à sua posteridade. Não diz: E às posteridades, como falando de muitas, mas como de uma só; E à tua Posteridade, que é Cristo.” Gálatas 3:16.
8. Quem se achava unido a Cristo nesta promessa, como sendo semente de Abraão?
Resposta:
- E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.” Gálatas 3:29.
- “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne.
Mas é judeu aquele que o é interiormente, ...cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.” Romanos 2:28,29.
-  “Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas;... mas os filhos da promessa são contados como descendência.” Romanos 9:6-8.
Nota: Aqui, pois está a chave que abre, não apenas uma, porém muitas passagens, de outro modo misteriosas, das Sagradas Escrituras. A reunião dos filhos de Israel em seu próprio país não é uma nova reunião dos literais descendentes de Abraão na Jerusalém antiga, “em incredulidade”,” mas uma reunião na fé, da semente espiritual na Nova Jerusalém, a cidade que Abraão aguardava, “da qual o artífice e construtor é Deus.” (Ver Hebreus 11:8-10).
9. Que é especialmente prometido aos mansos, tanto do Velho como no Novo Testamento?
Resposta:
- “Mas os mansos herdarão a terra, e se deleitarão na abundância de paz.” Salmo 37:11.
- “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.” Mateus 5:5.
10. Quando se cumprirá esta promessa feita à semente de Abraão?
R: “Quando, pois vier o Filho do homem na sua glória, ...Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.” Mateus 25:31-34.
Esta é uma linda profecia, muitos a entendem mal, no entanto a Bíblia é bem clara, é ler e deixar o Espírito de Deus guiar à Verdade. Deus o/a abençoe. Amem.