sexta-feira, 7 de maio de 2010

A PROFECIA INTEGRAL

Já referimos até aqui a prodigiosa exactidão desta primeira fatia da profecia maior (70 semanas = 490 anos), previamente anunciada pelo profeta no capítulo anterior – Daniel 8.13,14 - referente às 2.300 tardes e manhãs. Com todos os elementos vistos até aqui podemos construir toda a profecia, a saber:
1- O ponto de partida da profecia maior, incluída na qual está a das 70 semanas é, como vimos, o ano 457 a. C.
2- Sabemos também que este período de 490 anos (70 semanas) terminou no ano 34 d. C.
3- Se subtrairmos os 490 anos ao período profético mais longo, ou seja, 2.300 anos, restarão 1.810 anos.
4- Agora para que possamos descobrir quando termina o período mais longo é muito fácil, pois basta acrescentar 1.810 anos ao ano 34, ano em que terminou a profecia menor (as 70 semanas) e assim chegaremos ao ano final da profecia maior (2.300 tardes e manhãs), ou seja, ao ano de 1844 da nossa era.
O que é que aconteceria aqui? Recorde-se o que revelou o profeta Daniel, ao dizer: - “Até duas mil e trezentas tardes e manhãs, o santuário será purificado” – Daniel 8.14. Neste tempo, como vimos anteriormente, o nosso grande Sumo Sacerdote, o “Messias, o Príncipe”, iniciou a Sua obra final de intercessão, na qualidade de nosso único Mediador – I Timóteo 2.5.
Chegámos ao final do grande período previamente anunciado – o das 2.300 tardes e manhãs – ou seja, o ano em que o “santuário será purificado.” – Daniel 8.14 – o qual ocorreria no ano de 1844.
Em linguagem simbólica, nesta data, Cristo inicia o Seu ministério no Lugar Santíssimo, no céu. Resumiremos as diferentes fases do julgamento:

1- 1ª fase do juízo (julgamento antes da vinda de Jesus) – o Filho do Homem vem ao Ancião de Dias – Daniel 7.9-14, 26,27. O santuário é purificado – Daniel 8.14 – e tem lugar a abertura dos livros – investigação – Daniel 7.10 – para averiguação de quem merece ou não constar no livro da vida – Apocalipse 20.12.

2- A vinda de Cristo marcará a 2ª fase do juízo (no céu) - quando Jesus vier, sentado no trono da Sua glória, devido ao veredicto do julgamento que ocorreu previamente, então separará os que merecem e os que não merecem estar com Ele para todo o sempre – cf. Mateus 13.30; 26.31-43. Haverá a ressurreição dos justos e ida para o céu – I Tessalonicenses 4.15-17. Aqui, ao longo de mil anos, os justos assistirão, na qualidade de membros do júri, julgarão todos os que rejeitaram a Graça divina, seres humanos e anjos caídos – I Coríntios 6.2,3; Judas 6,15; Apocalipse 20.3-7.

3- A 3ª fase do juízo (após os mil anos) – dá-se a execução da sentença. Será o acto final do grande drama universal – Apocalipse 20.11-15
Assim, como nota final, recordaremos o conhecido o papel que William Miller (Guilherme Miller) teve em relação à data de 1843 / 1844, no que respeita à significação do que fora predito “Miller e os seus companheiros proclamaram que o período profético mais longo e o último apresentado na Bíblia estava a ponto de terminar, que o juízo estava próximo e que deveria ser inaugurado o reino eterno. (…). Explicando Daniel 8.14 - - Miller adoptou a opinião geralmente mantida de que a Terra é o santuário, crendo que a purificação deste representava a purificação da Terra pelo fogo, na vinda do Senhor. (…). O seu erro resultou de aceitar a opinião popular quanto ao que constitui o santuário”. Portanto, o erro não esteve directamente relacionado com os cálculos, mas sim com a troca do Santuário Celeste pela Terra, pois a purificação deveria de ser, tal como a profecia apontava, no santuário e não na Terra, isto é, o momento da gloriosa vinda de Jesus!
Digamos, desde já que de modo algum, William Miller foi pioneiro acerca da datação da profecia das 2.300 tardes e manhãs. A este propósito – marcação desta data - convém recordar que já em 1834, o distinto jurista mexicano, Dr. José Maria Gutierrez de Rozas (1769-1848), católico romano, publicou uma obra, na qual considerava que o fim do período das 2.300 tardes e manhãs, na qual estava incluída a profecia das 70 semanas, ocorreria entre 1843, 1844 ou 1847. Se compararmos as datas das diferentes publicação acerca deste assunto, vemos que “quase todos (os autores) publicaram o seu ponto de vista antes do primeiro livro de William Miller, que apareceu em 1836”; portanto, já dois anos antes de William Miller, acerca deste mesmo assunto, algo tinha sido escrito!
Assim, para uma melhor compreensão de como a profecia das 2.300 tardes e manhãs se estende ao longo do tempo, esquematicamente a apresentamos:

terça-feira, 4 de maio de 2010

CHEFES ESPIRITUAIS

(Daniel 10.1-21)
Esta parte do livro não é mais do que a introdução à mais extensa profecia das Escrituras, ou seja, compreendendo desde o tempo histórico do profeta até ao fim do tempo ou, melhor dizendo, até ao tempo do fim. Assim, a profecia, propriamente dita, iremos encontrá-la na próxima lição - o capítulo 11 – e, tal como dissemos, o capítulo 10 não é mais do que o seu prólogo, enquanto que o capítulo 12 é o seu epílogo.
Nesta visão Deus vai levantar a cortina da História para mostrar a este Seu servo algumas realidades do mundo invisível, ou seja, o conflito entre as forças do mal contra as do bem.

1- Um grande conflito
v.1 - Este capítulo abre situando o leitor num tempo histórico bem preciso, ao longo do qual se desenrola “uma guerra prolongada”. Esta revelação do alto teve lugar no “terceiro ano de Ciro” - 536/5 a. C. - ou seja, dois anos depois do quanto é relatado no capítulo 9.
Muitos anos são decorridos desde que o profeta Daniel saíra de Jerusalém para Babilónia. Agora o profeta já não tinha o mesmo vigor de outrora, pois a sua idade, nesta fase, rodava os 90 anos, o que, de certa forma era um obstáculo que o impediu de acompanhar o povo de Deus de volta a Jerusalém. A alegria anterior dava agora lugar a uma certa angústia, visto que não só aqueles que regressaram como também os que se propunham reconstruir o templo de Jerusalém, localmente encontraram uma feroz resistência dos habitantes locais, ao ponto destes últimos serem tidos como “adversários de Judá e Benjamim” – Esdras 4.1.
Tudo foi feito para entravar o propósito da reconstrução do templo, tal como o texto bíblico nos dá a conhecer: 1- “o povo da terra debilitava as mãos do povo de Judá”; 2- ao ponto de terem feito uso da corrupção - “alugaram contra eles conselheiros para frustrarem o seu plano” – Esdras 4.4,5.
Quando estas notícias chegaram ao conhecimento de Daniel uma grande tristeza invade o profeta, não por não ter podido acompanhar os seus pares, mas devido às notícias acerca dos trabalhos inerentes à reconstrução do templo, que não eram as mais animadoras.
Estas notícias pesaram muito no coração de Daniel e, em consequência, o profeta entrega-se à oração e ao jejum. Que melhor forma de resolver os assuntos humanos a não ser de joelhos perante o Senhor? Assim irá fazer este grande homem de Deus, pois ele sabia, por experiência própria que a oração não só era “a respiração da alma (…)” , como também “o abrir o coração a Deus como a um amigo”.

v. 2-4 – Ao longo destes versículos ficamos a conhecer, não só quanto tempo o profeta esteve em contacto mais íntimo com Deus, abrindo-Lhe o seu coração para partilhar com Aquele que tudo sabe e tudo vê, o quanto o preocupava; portanto - “(…) três semanas completas” – como também o final deste tempo de jejum e de oração, ou seja, - o “dia vinte e quatro do primeiro mês”.
A referência – “primeiro mês” – é bastante significativa, pois transporta-nos para o mês de Tishri e não, como se poderia pensar de imediato, para o de Nisan (primeiro mês do calendário judaico)! Razões? Não esqueçamos que Daniel, como facilmente se compreenderá, rege-se pelo calendário babilónico. Assim, estando no mês de Tishri, o tempo invocado cobriu um ciclo muito importante da vida judaica, pois neste tinha lugar três festas, a saber:

1- Rosh ha-Shanah (celebrava-se no 1º dia do ano judaico) – Lev. 23.24
2- Yom Kippur (celebrava-se no 10º dia) – Lev. 23.27
3- Sucot (celebrava-se no 15º dia) – Lev. 23.39

Portanto, o fim destes vinte e um dias, ou seja, as três semanas” de jejum e de oração do profeta, coincide com o final desta última festa que tinha a duração de sete dias. Esta época era, sob todos os aspectos, a mais alegre do ano, pois em condições normais incluía, geralmente, uma visita ao templo de Jerusalém. Esta última festa – Sucot – recordava ao povo de Israel a sua passagem pelo deserto, simbolizando, por este facto, a esperança da terra prometida – Levítico 23.43 - e do reino de Deus – Isaías 2.2-4. É neste contexto de recordações e de súplica espiritual intensa, que o profeta de Deus irá receber a visita de um ser celestial, em resposta às suas inquietações.
Perante os problemas do profeta, recorde-se, Deus sempre teve a última palavra: 1- Em Daniel cap. 2, Deus respondeu-lhe ao mostrar-lhe o conteúdo do sonho do rei Caldeu – a grande estátua; 2- Em Daniel cap. 6, Deus lhe envia um anjo para que os leões não lhe causem qualquer dano físico; 3- Em Daniel cap. 9, Deus lhe envia a mais excelsa das Suas criaturas - o anjo Gabriel ; 4- Finalmente, no capítulo que estamos a estudar, Deus enviará, desta vez, o Seu próprio Filho.
Na realidade “Deus não muda” – Malaquias 3.6; Tiago 1.17 – e, a exemplo do passado, o profeta Daniel irá receber, uma resposta à sua presente preocupação. Ora vejamo-la:

2- A visão
“E levantei os meus olhos e olhei, e vi um homem vestido de linho, e os seus lombos cingidos com ouro fino de Ufaz. E o seu corpo era como turquesa, e o seu rosto parecia um relâmpago, e os seus olhos como tochas de fogo, e os seus braços e os seus pés como cor de bronze polido; e a voz das suas palavras como a voz duma multidão” – v. 6.
A descrição mostra claramente, não somente uma cena arrebatadora, a qual apontava denunciava a presença de um ser sobrenatural. Ali estava Alguém cuja glória superava a do anjo até então enviado pelo céu – o anjo Gabriel - para esclarecer e confortar o profeta, visto que a presença deste anjo não afecta fisicamente o profeta – cf. 9.21. Os efeitos físicos da visão sobre o profeta – v. 8,16 - foram semelhantes aos que se manifestaram ao profeta Ezequiel – Ezeq. 1.28 – e a João - Apoc. 1.17. É interessante comparar o mesmo efeito com a serva do Senhor. Esta descrição da visão, o seu conteúdo, como acabámos de referir, não é exclusiva do livro de Daniel, mas também no profeta Ezequiel 1.24-28 e no livro do Apocalipse 1.13-16. Esta clara identificação deste com vestes de sumo-sacerdote. Quem era este ser celeste que ali se apresentava? Este era, efectivamente, - Jesus Cristo. O Seu traje como o de um sumo-sacerdote – Ex. 28.4; Ezeq. 9.2,11 - mostra claramente que estamos no contexto do santuário – contexto de julgamento – que serve de pano de fundo ao Yom Kippur – cf. cap. 8.
Mas de seguida, eis que surge o Anjo Gabriel para o fortalecer e esclarecer acerca das inquietações do profeta. Desde já, a significação do nome do anjo Gabriel – “Deus mostrou-se forte” é, neste contexto preciso, bastante significativa pois no horizonte próximo vislumbra-se uma guerra – v. 13. Esta é entre Deus e Babel. Nesta guerra, o anjo de Deus, Gabriel, é a garantia do início da vitória. E, por duas vezes – v. 13,21- o discurso do anjo conclui com uma referência à entrada de Miguel, o príncipe celeste, na batalha. O “filho do homem” do cap. 7.13 – o “príncipe do exército” do cap. 8.11 – é o mesmo personagem que este homem/Deus que resplandece extraordinariamente e que, tal como nos foi mostrado, deixou desfalecido o profeta. Sim, este chefe é um desafio para os adversários e o garante da certeza da vitória. Mais abaixo voltaremos a falar desta entidade celestial.

3- O anjo Gabriel e a revelação
Daniel, ouve não o som da mesma voz da visão, mas uma outra que lhe era familiar, do passado – a do anjo Gabriel – cap. 8.17-19; 9.21-23. As palavras revelam uma extrema segurança: - “Daniel, homem mui amado (…) não temas” – v. 11,12.
No verso 13 - “Mas o príncipe do reino da Pérsia se pôs defronte de mim (..) e eis que Miguel, um dos primeiros príncipes veio para ajudar-me (…)”. Aqui encontramos um breve vislumbre da luta invisível entre as entidades cósmicas – entre o Bem e mal, os anjos de Deus e as hostes fiéis a Satanás – anjos contra demónios. As Escrituras dão-nos a conhecer a realidade destes agentes – “porque não temos que lutar contra o homem, mas sim contra os principados, contra as potestades, contra os príncipes das trevas, contra as hostes espirituais da maldade nos lugares celestiais” - Ef. 6.12.
Quem era este “príncipe das trevas” que ousou fazer face a um anjo de Deus durante todo aquele tempo descrito no versículo do livro de Daniel, ou seja, “vinte um dias”? Não era outro a não ser uma entidade celeste que se identificava com o império Persa, ou seja, um anjo mau, contrário a Deus – cf. II Ped. 2.4. Por outro lado, o próprio Jesus identificou diversas vezes Satanás como sendo “príncipe” – cf. João 12.31; 14.30; 16.11. Assim, neste contexto cósmico, este príncipe não é, textualmente, o rei do império Persa, mas sim, segundo a tradição teológica - “anjos protectores dos respectivos povos”. Pois, um deles, como é dado a conhecer representa o príncipe da Pérsia – Dan. 10.13 – enquanto que outro representa o da Grécia – v. 20. Portanto, eram anjos ao serviço de Satanás, os quais contrastavam com Miguel, que dirige e orienta o povo de Deus.
Estes seres celestes, comissionados por Satanás, visavam influenciar as mais altas autoridades Medo-Persas para que não fossem favoráveis ao povo de Deus. Mas, ao mesmo tempo, anjos de Deus trabalhavam no interesse dos exilados. Assim, longo destes “vinte um dias” Gabriel lutou contra estes poderes das trevas. E, antes que a contenda chegasse ao fim, eis que Miguel vem em auxílio do Seu anjo.

4- Miguel
Na origem da grande controvérsia celeste está o combate travado no céu e revelado em Apoc.12.7-9 – onde os anjos revoltosos contra Deus são expulsos do céu, por Miguel e os Seus anjos. Esta é uma entidade superior, divina – o arcanjo Miguel – Judas 9; II Tess. 4.16; Dan. 10.21; 12.1.
Miguel (mi-ka-el) significa :- quem é como Deus. Expressão que se aplica também ao Deus de Israel – Ex. 15.11; Salmo 35.10; 71.19; Miqueias 7.18.
Esta personagem mencionada pelo profeta Daniel que, como vimos, é identificada como sendo “um semelhante ao Filho do homem” – Apoc. 1.13 - com “olhos como chama de fogo” – Apoc. 1.14 – aquele que é “o primeiro e o último” – Apoc. 1.17; 22.13 – é o mesmo do qual se diz: - “Ora vem, Senhor Jesus” – Apoc. 22.20
Tal como dissemos, desde o início, este capítulo que agora se fecha não é mais do que a introdução ao quanto vem descrito no capítulo a seguir, mostrando os acontecimentos que se desenrolarão ao longo do tempo do fim e do fim do tempo.
Esta grande visão para lá do quanto a vista e percepção humana alcança, mostra claramente que, nesta guerra cósmica com reflexos nesta terra, Deus tem, como sempre teve, a última palavra – palavra de esperança para todo aquele que n’Ele confia.

domingo, 2 de maio de 2010

DANIEL - ESCRITOS (KETHUBHIM)

Salmos, Provérbios, Job, Cântico dos cânticos, Eclesiastes, Ester, Daniel, Esdras/Neemias, Crónicas (I e II). 
Após esta breve mostragem o que se nos oferece dizer em relação à inserção deste livro entre os “Escritos” (Kethubhim) e não entre os livros “Proféticos” (Nebhi’im), como seria de esperar?

Resposta: - Convém não esquecer que Daniel não foi escolhido ou classificado na qualidade de profeta, pois sempre permaneceu na qualidade de funcionário do governo ao longo da sua carreira. Assim, devido a este contexto preciso, o lugar que ocupa os seus escritos, ou seja, depois de Ester e antes de Esdras e Neemias, se explica facilmente neste enquadramento. Além disto, uma forte percentagem do livro é mais histórica do que profética (do cap. 1 ao 6).
Por outro lado, Daniel não escreveu sob a forma de mensagem de Deus ao Seu povo, retransmitida pela boca do Seu porta-voz. O elemento dominante consiste é, antes de mais, visões proféticas dadas pessoalmente pelo autor e às quais os anjos lhe dão a respectiva interpretação. É por causa deste aspecto misto do livro, partilhado entre o relato histórico e a visão profética, que os escribas judeus acabaram por inseri-lo na terceira categoria do Cânone.
c)- O livro de Daniel está escrito em hebraico (cap. 1–2.4; 8–12) e em aramaico (cap. 2.4 a 7.28) e, nesta qualidade, os críticos concluem que o livro é posterior ao séc. VI a. C.
Resposta: - As diferentes fontes encontradas demonstram a não validade de tais argumentos: a partir do séc. VIII o aramaico torna-se a língua internacional do Próximo Oriente e, tendo em conta esta informação, os israelitas a aprenderam durante o exílio. Esta língua conheceu algumas modificações ao longo das épocas: O aramaico oficial, foi utilizado entre 700 e 300 a. C.; o aramaico médio, foi empregue de 300 a. C. até aos primeiros séculos da era cristã; o aramaico recente, foi empregue após estes períodos.
A razão da utilização destas duas línguas nos diferentes excertos do livro tem que ver com duas vertentes: lógica e literária. Em relação à primeira, o autor escreve em hebreu (cap. 1–2.4; 8–12) porque estes capítulos são os mais directamente relacionados com os Judeus. Quanto à segunda, em aramaico (cap. 2.4 a 7.28), quando o que o profeta tem a dizer, implica preferencialmente as nações; assim, cada um poderia ler, de uma forma particular, o que com cada um se relacionava.
d) - Se o livro de Daniel é uma falsificação, como é que penetrou no Cânone do Velho Testamento, visto que o livro apócrifo (não inspirado) de Macabeus fala dele – “Recordai-vos dos feitos dos vossos maiores (…) Daniel, na sua rectidão, foi preservado da boca dos leões” – I Macabeus 1.51-60, cf. Daniel 6.16,23?
e) - Quem foi o génio que redigiu este livro predizendo o futuro do nosso planeta e declarando o ano do início e do fim do ministério do Messias se, como dizem, o livro é uma obra de ficção datada do ano 165 a. C? Se não foi Daniel, o profeta, então quem poderá ter sido?
f) - O autor de Daniel manifesta um conhecimento preciso dos acontecimentos do séc. VI a. C., o qual não estaria ao alcance, certamente, de um escritor do séc. II a. C.! Por exemplo no cap. 8.2 declara que Susa ficava situada na província de Elão na época babilónica. Os historiadores – romanos e gregos - nos dão a conhecer que no período persa, Susa foi atribuída a uma nova província que tomou o seu nome – Susiana ; a maior província do antigo Elão ficou reduzida ao território a oeste do rio Ulai. Ora será normal que só um autor antigo possa saber que Susa, antigamente estava integrada na província do Elão.
g) - Depois, temos o testemunho indiscutível de Jesus Cristo no discurso acerca dos acontecimentos precursores do tempo do fim, pronunciado no Jardim das Oliveiras. Ali Jesus declara o seguinte: - “Quando pois virdes a abominação da desolação de que falou o profeta Daniel, está no lugar santo; quem lê, entenda” – Mateus 24.15 (sublinhado nosso).
O livro de Daniel refere três vezes as expressões - “abominação da desolação” – Daniel 9.27; 11.31; 1.11. Se estas são as verdadeiras palavras de Cristo, quando cita o profeta, então o Senhor tinha a certeza de que, não só o Daniel histórico era, efectivamente, o seu autor incontestado, como também o conteúdo do seu escrito era profético – o que contraria os comentaristas humanos do texto bíblico! Assim sendo, Jesus ao se expressar desta maneira, considerou esta “abominação” como um texto profético, algo a acontecer ainda no futuro e não no passado, tal como os críticos pensam. E tanto é assim que, ao comentarem esta citação do profeta Daniel feita pelo Senhor, dizem que Jesus - “refere-se com toda a certeza à estátua do Zeus Olimpo que Antíoco Epifânio mandou colocar no Templo de Jerusalém – cf. II Macabeus 6.29” !
Na realidade, a quanto o ser humano recorre para denegrir a autenticidade da Palavra de Deus! Mas, para ajudar a superar qualquer resquício de cepticismo, iremos recordar o que foi escrito pelo historiador judeu Flávio Josefo, reforçando não só a autenticidade como também a antiguidade dos escritos do profeta Daniel:

a) – O profeta
Flávio Josefo assim se expressou acerca de Daniel: - “o mais admirável que eu encontro neste grande profeta é o facto extraordinário, particular e quase incrível que ele tem sobre os outros profetas, é de ter sido, ao longo da sua vida, honrado por reis e povos e ter deixado, depois da sua morte, uma memória imortal; porque os livros que escreveu e que ainda hoje são lidos, dão-nos a conhecer que o próprio Deus lhe falou e que não somente predisse, tal como os outros profetas as coisas que deveriam de acontecer, mas ele marcou os tempos em que essas mesmas coisas ocorreriam”.

b) A antiguidade dos seus escritos
- Anteriores a Artaxerxes: - “Não temos senão 22 livros que contêm os relatos do passado e que são considerados divinos (inspirados). (…) da morte de Moisés até Artaxerxes, rei dos Persa depois de Xerxes, os profetas que sucederam a Moisés, escreveram em 13 livros o que se passou no seu tempo (…)”
- Alexandre – o Grande: - “(…) Alexandre, ao chegar a Jerusalém, subiu ao Templo e ofereceu sacrifícios a Deus tal como o Sumo Sacerdote lhe dissera para fazer. Este, por sua vez, lhe mostrou o livro do profeta Daniel, no qual estava escrito que um príncipe grego destruiria o império dos Persas (…).
Portanto, todos os ataques ao profeta Daniel nada têm de novo. Já no séc. IV S. Jerónimo assim se referiu aos ataques ao livro de Daniel: - “o combate encetado contra o profeta Daniel é um testemunho da sua autenticidade”.
Para colocarmos um ponto final nesta parte do trabalho, façamo-lo da melhor forma, citando o grande conselho do apóstolo S. Paulo a Timóteo: - “Ó Timóteo, guarda o depósito que te foi confiado, tendo horror aos clamores vãos e profanos e às oposições da (falsamente chamada) pseudo ciência (conhecimento), a qual, professando-a alguns, se desviaram da fé” – I Timóteo 6.20,21.
Dr. Ilidio Carvalho

Mahler Symphony nº 5

quinta-feira, 29 de abril de 2010

A REUNIÃO DE ISRAEL

O moderno Estado de Israel tem as suas raízes históricas e religiosas na bíblica Terra de Israel (Eretz Israel), um conceito central para o judaísmo desde os tempos antigos, e no coração dos antigos reinos de Israel e Judá. Após o nascimento do sionismo político, em 1897, e da Declaração de Balfour, a Liga das Nações concedeu ao Reino Unido o Mandato Britânico da Palestina após a Primeira Guerra Mundial, com a responsabilidade para o estabelecimento de "…tais condições políticas, administrativas e económicas para garantir o estabelecimento do lar nacional judaico, tal como previsto no preâmbulo e no desenvolvimento de instituições autónomas, e também para a salvaguarda dos direitos civis e religiosos de todos os habitantes da Palestina, sem distinção de raça e de religião… ".
Em novembro de 1947, as Nações Unidas recomendaram a partição da Palestina  num Estado judeu.
A Bíblia afirma que em consequência da desobediência à lei do Senhor o povo de Israel andaria errante: “E vos farei andar errantes por todos os reinos da Terra.” Jeremias 34:17 (ver Jeremias 25:8-11).
1. Há na Bíblia alguma profecia que anuncie a volta do cativeiro?
R: “Pois eu bem sei os planos que estou projetando para vós, diz o Senhor; planos de paz, e não de mal, para vos dar um futuro e uma esperança. Então me invocareis, e ireis e orareis a mim, e eu vos ouvirei. Buscar-me-eis, e me achareis, quando me buscardes de todo o vosso coração. E serei achado de vós, diz o Senhor, e farei voltar os vossos cativos, e congregarvos-ei de todas as nações, e de todos os lugares para onde vos lancei, diz o Senhor; e tornarei a trazer-vos ao lugar de onde vos transportei.” Jeremias 29:11-14 (ver também Jer. 23:3).
Nota: A primeira dispersão dos judeus ocorreu em 606-588 A.C., sob o reinado de Nabucodonosor, rei de Babilónia. Em 457 A.C., sob Artaxerxes, o rei persa, grande número de judeus voltou para a Palestina, sua terra natal.
2. O que disse Moisés sob a dispersão do povo israelita em consequência da rejeição de Jesus como o Messias?
O Senhor levantará contra ti de longe, da extremidade da terra,...e te sitiará em todas as tuas portas, até que em toda a tua terra venham a cair os teus altos e fortes muros, em que confiavas; ...E o Senhor vos espalhará entre todos os povos desde uma extremidade da terra até a outra; e ali servireis a outros deuses que não conhecestes, nem vós nem vossos pais, deuses de pau e de pedra.” Deuteronómio 28:49-64.
Nota: Esta calamidade e dispersão ocorreu em 70 A.D., sob Tito, o general romano. Diz a Popular and Critical Bible encyclopaedia, Vol. 2, artigo “Jerusalém,” pag. 932: “Jerusalém parece haver atingido essa grandeza como se fosse para tornar maior a miséria de sua subversão. Logo que os judeus selaram a sua formal rejeição de Cristo, condenando-O à morte, e invocando a responsabilidade de Seu sangue sobre a sua cabeça e de seus filhos (Mateus 27:25), a sorte da cidade estava lançada. Tito, jovem, bravo e competente general romano, com um exército de sessenta mil guerreiros aguerridos e vitoriosos, apareceu diante da cidade em Abril de 70 da nossa era, começando então o mais desastroso cerco relatado na História.”
3. Sob que símbolo preciso foi tudo isto predito?
R: “Assim disse o Senhor: Vai, e compra uma botija de oleiro, e ...quebrarás a botija ...e lhes dirás: Assim diz o Senhor dos exércitos: Deste modo quebrarei eu a este povo, e a esta cidade, como se quebra o vaso do oleiro, de sorte que não pode mais refazer-se.”  Jeremias 19:1-11.
Nota: “Nenhuma cidade sobre a Terra sofreu mais com guerras e cercos, do que Jerusalém...Tempestuosas legiões, aríetes e catapultas arrasaram-na muitas vezes. Mas mesmo assim o plano geral da cidade foi sempre conservado. Sião e o Monte Moriá estão perfeitamente à vista do Olivete, e lá, sobre aquelas colinas, estendendo-se para o oeste, cidade após cidade tem surgido e desaparecido no passar dos séculos.” – Popular and Critical Bible Encyclopaedie, Vol. 2, artigo “Jerusalém”.
4. Por quanto tempo deveria ser pisada pelos gentios?
R: “E cairão ao fio da espada, e para todas as nações serão levados cativos; e Jerusalém será pisada pelos gentios, até que os tempos destes se completem.”
Nota: Quando Jesus, no Monte das Oliveiras, chorou sobre Jerusalém, disse: “ Eis que a vossa casa vai ficar-vos deserta.” No ano 70 ocorreu a destruição de Jerusalém pelos romanos, e a dispersão dos judeus por todo o mundo. O evangelho foi primeiro pregado em Jerusalém e na Judeia, mas no ano 34, ao ser apedrejado Estêvão, os cristãos foram dispersos, indo por toda a parte pregando o evangelho (Atos 8:4; 13:46). Crucificando o Salvador e perseguindo os Seus discípulos, os judeus como nação encheram a taça da sua iniquidade. A morte de Estêvão assinalou o fim do período de sua iniquidade. A morte de Estêvão assinalou o fim do período concedido à nação judaica, e o princípio dos tempos dos gentios.
5. Que encerrará os “tempos” concedidos aos gentios?
R: “E este evangelho do reino será pregado no mundo inteiro, em testemunho a todas as nações, e então virá o fim.” Mateus 24:14.
6. Qual a razão para o evangelho ser pregado aos gentios?
R: “Simão relatou como primeiramente Deus visitou os gentios para tomar dentre eles um povo para o seu Nome.” Atos 15:14.
7. Que promessa fez Deus a Abraão?
R: “Porque não foi pela lei que veio a Abraão, ou à sua descendência, a promessa de que havia de ser herdeiro do mundo, mas pela justiça da fé.” Romanos 4:13.
Nota: Visto como essa promessa não se cumpriu a Abraão, e seus descendentes se acham agora na dispersos entre todas as nações, assim devendo continuar até ao fim do mundo, como devemos compreender a promessa a Abraão?
R. “Ora as promessas foram feitas a Abraão e à sua posteridade. Não diz: E às posteridades, como falando de muitas, mas como de uma só; E à tua Posteridade, que é Cristo.” Gálatas 3:16.
8. Quem se achava unido a Cristo nesta promessa, como sendo semente de Abraão?
Resposta:
- E, se sois de Cristo, então sois descendência de Abraão, e herdeiros conforme a promessa.” Gálatas 3:29.
- “Porque não é judeu o que o é exteriormente, nem é circuncisão a que o é exteriormente na carne.
Mas é judeu aquele que o é interiormente, ...cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus.” Romanos 2:28,29.
-  “Não que a palavra de Deus haja falhado. Porque nem todos os que são de Israel são israelitas; nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas;... mas os filhos da promessa são contados como descendência.” Romanos 9:6-8.
Nota: Aqui, pois está a chave que abre, não apenas uma, porém muitas passagens, de outro modo misteriosas, das Sagradas Escrituras. A reunião dos filhos de Israel em seu próprio país não é uma nova reunião dos literais descendentes de Abraão na Jerusalém antiga, “em incredulidade”,” mas uma reunião na fé, da semente espiritual na Nova Jerusalém, a cidade que Abraão aguardava, “da qual o artífice e construtor é Deus.” (Ver Hebreus 11:8-10).
9. Que é especialmente prometido aos mansos, tanto do Velho como no Novo Testamento?
Resposta:
- “Mas os mansos herdarão a terra, e se deleitarão na abundância de paz.” Salmo 37:11.
- “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra.” Mateus 5:5.
10. Quando se cumprirá esta promessa feita à semente de Abraão?
R: “Quando, pois vier o Filho do homem na sua glória, ...Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo.” Mateus 25:31-34.
Esta é uma linda profecia, muitos a entendem mal, no entanto a Bíblia é bem clara, é ler e deixar o Espírito de Deus guiar à Verdade. Deus o/a abençoe. Amem.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

MARIA A MULHER

Apocalipse 12.1
Quando nos aproximamos do livro do Apocalipse parece que estamos numa espécie de ante câmara do quanto o apóstolo Pedro chamou de “outras Escrituras”, ou seja, o Antigo Testamento – II Pedro 3.16. Na verdade, dos quatrocentos e quatro versículos que compõem este livro, cerca de duzentos e setenta e oito pertencem a estas “outras Escrituras”. Tendo em conta este enraizamento, alguns comentadores precisam que “este livro do Novo Testamento é o que mais se refere ao Antigo Testamento e às instituições judaicas tradicionais. Neste contam-se, não menos de duas mil alusões ao Antigo Testamento, das quais quatrocentas alusões explícitas e noventa citações literais do Pentateuco ou dos profetas”.
Tendo em conta este contexto próximo, para podermos compreender este capítulo que nos ocupa, temos que entender um versículo que encontramos logo no princípio da Bíblia, um versículo de capital importância; diríamos até que, dentro da importância que todos os textos têm, este é um dos mais importantes, pois nele encontramos de uma forma resumida a razão de ser de toda a Escritura. O texto em causa encontramo-lo em Génesis 3.15. Aqui podemos ver um diálogo de Deus com Satanás: - “E porei inimizade entre ti e a mulher; e entre a tua semente e a sua semente; esta (este) te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar”. Aqui encontramos quatro aspectos: 1- inimizade; 2- serpente; 3- mulher; 4- 2 sementes. Irá existir uma inimizade mortal entre a serpente e a mulher; entre a semente da serpente e a da mulher. Mas, como nos podemos aperceber, a verdadeira guerra não é entre a serpente e a mulher e as respectivas sementes. Se repararmos bem para a última parte do versículo, é dito que “(…) este te ferirá a cabeça”, o que significa que esta descendência não se encontra, filologicamente, no feminino, mas no masculino. Na verdade, quem é a verdadeira semente da mulher? Sem sombra de dúvida que é Cristo A quem Satanás odeia em primeiro lugar? À Igreja ou Aquele que está na sua base? A quem esta entidade quis destruir em primeiro lugar? Claro, a Cristo. Porquê? Porque Satanás sabia, desde o Jardim do Éden que esta “semente” era um “ele” – Cristo – e não uma semente, um colectivo. Note-se, a este respeito o reforço desta verdade no interior do texto do Apoc.12.5, pois aqui é dito que “a mulher deu à luz um filho, um varão, (…)”. Do termo impreciso - “filho” -, que poderá ser entendido por ele ou ela, o texto acrescenta, reforçando de uma forma precisa que, este “filho” trata-se de um varão.
I- A análise
Este capítulo começa com uma referência ao passado, ao dizer: – “E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida de sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça” – v. 1. Esta mulher, biblicamente falando é símbolo de uma Igreja – cf. II Cor. 11.2; Ef. 5.23,25-27. Pela descrição que é feita, esta representa uma Igreja pura, que contrasta com a que é apresentada no cap. 17 do Apocalipse - uma mulher prostituída. Porquê a referência a doze estrelas? Afinal, de que fase da história da mulher/Igreja nos está a ser apresentada neste capítulo? Tudo aponta para a alusão ao Antigo Testamento. Qual a razão? Quando se vê a descrição que é feita desta mulher, que “estava grávida, e com dores de parto, e gritava com ânsia de dar à luz” – v. 2 - o que é que o vidente de Patmos nos quer mostrar? Note-se que, quando o apóstolo vê a mulher, a criança ainda não tinha nascido. Assim, esta mulher representa, efectivamente, a Igreja do Antigo Testamento, que desejava, ardentemente, a vinda do Messias há tanto tempo prometido para a libertação plena de Israel – o povo de Deus.
Em relação ao texto em lide, como ao de Génesis 3.15, far-se-ão as mais estranhas interpretações das Escrituras, a saber: 1- Gén. 3.15 – aqui a mulher, representa Maria ou Eva, ou a mulher, em geral; 2- Apoc. 12.1 – aqui está representada Maria, Israel e a Igreja. Referem, a este propósito que “primeiro: a prole ou o filho da mulher não é nem pode ser outro senão o anunciado Reparador ou Redentor, isto é, Jesus Cristo; segundo: que a mulher apresenta-se como a mãe do Redentor, e Mãe do redentor, Jesus Cristo, não há outra propriamente a não ser a Virgem Maria. (…). Partimos do pressuposto, inegável de que a mulher do Proto-evangelho (Gén. 3.15) é a mesma mulher do Apocalipse 12.1”.
Antes de mais, debrucemo-nos sobre algumas considerações tendentes a ver nesta mulher do Apocalipse, não somente a Igreja em geral, mas a figura de Maria, em particular. Iremos analisar os dogmas marianos que estas interpretações deram origem.

O 1º DOGMA - "MARIA, MÃE DE DEUS - A TODA SANTA - (panaghia)


Assim, encontramos no livro dos Actos 19.23-41 o episódio – Diana dos Efésios - passado com o apóstolo Paulo na cidade de Éfeso. Devido à pregação de S. Paulo a venda das imagens desta deusa – Diana - deixaram de dar lucro – v. 24-27. Aqui, em Éfeso existia um grande templo à deusa pois este tinha cerca de 133 metros de comprimento e 69 de largura e apoiado por cerca de 128 colunas de 19 metros cada. No seu interior a estátua da Diana., tendo nas mãos espigas de trigo e, acima da cintura, estão presos 12 seios, símbolo da fecundidade e da maternidade abençoada. Em cima da cabeça um disco, simbolizando o sol (…). Se a fé na miraculosa Artemis (Diana) de Éfeso continua a ser desacreditada, as vagas de peregrinos e de dinheiro que fluem por todos os lados terminarão muito em breve”. Eis o templo, o aspecto da deusa e a verdadeira causa dos tumultos naquela cidade. Nesta cidade os pagãos a veneravam como a deusa da virgindade e da maternidade. Ela também representava os poderes regeneradores da Natureza visto esta apresentar muitos seios. Tendo como pano de fundo todas todos estes elementos, alguns comentadores concluíram que os acontecimentos do passado relatados na Palavra de Deus – Actos 19.23-41 – estão na base da questão levantada por Nestório. Assim sendo “quando o culto a Maria se tornou doutrina oficial da Igreja Católica, no ano 431, foi precisamente no Concílio de Éfeso, na cidade da deusa pagã Diana. É óbvia a influência pagã que induziu o Concílio a tomar esta decisão”. 
- S. Lucas 2.39-51 – Aqui encontramos Jesus com 12 anos de idade e os seus pais que vão, segundo o seu costume, a Jerusalém à festa da pascoa – v. 41,42. No caminho de regresso a casa, perdem-se de Jesus e, ao voltarem a Jerusalém à sua procura, Maria e José, aflitos, vão encontrá-lo no seio dos doutores, no templo – v. 46. Agora, prestemos atenção à dinâmica do texto que se segue. Agora, ao encontrá-lo, a reacção de Maria para com Jesus foi a de uma mãe, como qualquer outra, dizendo: - “Filho, porque fizeste assim para connosco? Eis que teu pai e eu, ansiosos, te procurávamos” – v. 48. Imaginemos, por um instante que estávamos a li a observar a cena, só juntos àquele grupo – Jesus e os doutores da Lei. Este casal ao aparecer e a falar como falou, acharíamos normal, pois tratava-se de um casal à procura deste jovem que ali se encontrava. Até aqui, tudo bem.
Só que, a esta fala de Maria, acompanhada pelo seu marido, este jovem irá responder: - “Porque é que me procuráveis? Não sabeis que me convém tratar dos negócios de meu Pai?” – v. 49. Agora, nós. O que pensaríamos desta resposta, deste jovem, àquele casal que, presumiríamos que eram seus pais? Ficaríamos, certamente, confusos! Ora, se são os seus pais que ali estão, que resposta era aquela? Parece-nos que este jovem está a falar para “estranhos”, pois parece-nos, se bem entendemos as suas palavras que, em relação àquele casal, em termos de paternidade, nada tinha em comum, visto que os está a dar a conhecer da sua presença ali! Eles, dizem: - “Eis que teu pai e eu” – e este jovem, não só os esclarece acerca de quem é o seu Pai, como também ignora, com amor e carinho, qualquer vínculo paternal e maternal com aquele casal.
Afinal, que terá a Palavra de Deus a dizer a propósito desta doutrina meramente humana que nos ocupa? Recordaremos aqui um parecer do apóstolo Paulo acerca de duas comunidades - Tessalónica e Bereia - que ele visitou quando empreendeu a sua segunda viagem missionária. Eis como ele as compara: - “Ora estes (os de Bereia) foram mais nobres do que os que estavam em Tessalónica, porque de bom grado receberam a palavra, examinando cada dia nas Escrituras se estas coisas eram assim” – Actos 17.11. Na verdade, não basta ouvir falar de Deus ou da Sua Palavra, mas examinar se aquilo que se ouviu está escrito, não só na Palavra de Deus, como também se está em conformidade com a mesma Palavra. Por esta mesma razão, o apóstolo ao dirigir-se à Igreja de Corinto assim se expressou acerca do seu ministério – “Porque nós não somos, como muitos, falsificadores da palavra de Deus, antes falamos de Cristo com sinceridade, como de Deus na presença de Deus” – II Cor. 2.17. 

O 2º DOGMA - PERPÉTUA VIRGINDADE DE MARIA

Referem, a este propósito que “primeiro: a prole ou o filho da mulher não é nem pode ser outro senão o anunciado Reparador ou Redentor, isto é, Jesus Cristo; segundo: que a mulher apresenta-se como a mãe do Redentor, e Mãe do redentor, Jesus Cristo, não há outra propriamente a não ser a Virgem Maria. (…). Partimos do pressuposto, inegável de que a mulher do Proto-evangelho (Gén. 3.15) é a mesma mulher do Apocalipse 12.1”.
Assim, estes dois textos bíblicos estarão na base de duas bulas papais, ainda que separadas no tempo, visando uma maior definição dogmática da pessoa e posição de Maria em relação à Igreja, pois Maria é tida como a segunda Eva e nesta qualidade “As prerrogativas, excelências, graças e privilégios da segunda Eva distribuem-se em três ordens: 1ª- Ocupa o primeiro lugar a maternidade divina, raiz, origem e medida de todos os demais privilégios, à qual há que associar, a perpétua virgindade; 2ª- oferecem-se as disposições morais desta maternidade, isto é, a sua perfeita santificação, que compreende (…) a total imunidade de pecado actual (...)”. A este propósito, o catecismo afirma: - “O aprofundamento da fé na maternidade virginal levou a Igreja a confessar a virgindade real e perpétua de Maria, mesmo no parto do Filho de Deus feito homem”.
Se compararmos esta posição dogmática mariana com o límpido ensino da Palavra de Deus, o que é que nela, a este propósito encontramos? Claro, nada mais que a negação do mesmo dogma se, tivermos a Palavra de Deus como VERDADE, visto o Senhor Jesus ter dito acerca das Escrituras: - “Santifica-os na verdade, a tua palavra é a verdade” – João 17.17. Bastará examinar alguns textos da Palavra de Deus para nos apercebermos do quão diferente é um - “Assim está escrito” - ou de um - “Assim diz o Senhor” – acerca deste dogma. Vejamos:
1- O texto de Mateus 1.18-25 – aqui nos é mostrada a reacção de José à gravidez de Maria, assim como o que ele pensou fazer em face da ocorrência, ou seja – “abandoná-la” – v. 19. Mas, depois de elucidado, é dito que ele “recebeu a sua mulher” – v. 24. O texto não fica por aqui, pois faculta-nos uma preciosíssima informação em função do assunto em causa – acerca da sua relação de casal após parto. Assim, na continuação do encontramos esta preciosidade – “E não a conheceu até que deu à luz o seu filho (…)” – v. 25. (sublinhado nosso). Este versículo aqui está para que o leitor sinta a diferença entre o antes (v. 18) e o depois (v. 25).
No v. 23 está escrito: - ”Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho (…)”. O teor deste texto é a citação de outro do Antigo Testamento, o do profeta Isaías 7.14. A palavra hebraica Almah, foi vertida para a grega Parthenos e, por sua vez traduzida por virgem. Trata-se, portanto, de uma virgem ou de uma mulher jovem? A questão é pertinente, na medida em que, na língua hebraica, para designar uma virgem não é a palavra Almah, mas Bethulah. Neste caso, o de “Mateus, conduzido pelo Espírito, viu nele uma profecia respeitante ao nascimento virginal do Messias. Eis a razão porque ele empregou a palavra parthenos”. Mas, a própria dinâmica no texto, associada ao comportamento de José mostra-nos que, efectivamente, trata-se de uma jovem e virgem.
2- O texto de Gálatas 4.4 - “vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei”. Aqui o apóstolo Paulo, ignora totalmente a questão em causa (uma suposta virgindade); a este propósito, limita-se a dizer que Jesus “nasceu de uma mulher”, não dando nenhuma importância a quem tivesse sido a sua mãe! Será que uma figura como S. Paulo acharia irrelevante o nome de Maria, assim como a importância, o papel desta num hipotético plano de Salvação, visto a ter ignorado completamente? Este comportamento de S. Paulo é, no mínimo, inaceitável! Ou será que estará com este procedimento, simplesmente, a revelar que tal questão (a virgindade) não teve qualquer importância, pela simples razão que a mesma nunca existiu! Pensamos que esta última hipótese é a que é mais consentânea com o espírito e a letra do texto Bíblico em relação ao enquadramento do nascimento de Jesus.
 Bibliografia:
Jose M. Bover, S. I., Teologia de San Pablo, - Biblioteca de Autores Cristianos, Madrid, 4ª ed, ed. Editorial Católica, S.A., vol.16, 1967, pp. 418,419
Idem, p. 388
Catecismo, p. 122, nº 499

O 3º DOGMA - IMACULADA CONCEIÇÃO DE MARIA

Este dogma é proclamado em 08 de Dezembro de 1854 pelo papa Pio IX (1846-1878), na bula papal Ineffabilis Deus, em que na qual refere que: - “A bem-aventurada Virgem Maria foi, no primeiro instante da sua Conceição, por uma graça e favor singular de Deus omnipotente, em previsão dos méritos de Jesus Cristo, salvador do género humano, preservada intacta de toda a mancha do pecado original”.
Para que o leitor possa ter uma ideia da forte personalidade e consequente autoridade pessoal deste pontífice, em 1866, assim se expressou: “só eu sou o sucessor dos apóstolos, o Vigário de Jesus Cristo; só eu tenho a missão de conduzir e de dirigir a barca de S. Pedro; eu sou o caminho, a verdade e a vida. Aqueles que estão comigo, estão com a Igreja, aqueles que não estão comigo estão fora da Igreja, estão fora do caminho, da verdade e da vida”. Na verdade, só Jesus disse estas palavras acerca de si mesmo, nunca inerentes ao próprio homem: “Disse-lhe Jesus: «Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida»” – S. João 14:6. Que ilações tirar destas pretensões pontifícias?
Antes de tecermos alguns comentários a esta secção, recordaremos aqui o grande conselho de S. Paulo à Igreja de Corinto, ao aconselhar o seguinte: - “E eu, irmãos, apliquei estas coisas por semelhança, a mim e a Apolo (cf. Actos 18.24), por amor de vós, para que em nós aprendais a não ir além do que está escrito” – I Cor. 4.6. Por nossa parte é o que sempre temos feito. Dito isto, iremos comparar este dogma com o conteúdo das Escrituras para sabermos se esta confissão religiosa está, uma vez mais, a contrariar o sábio conselho de S. Paulo – a “ir além do que está escrito”. Ora vejamos:
1- O texto de Lucas 1.39-47 – aqui dá-nos a conhecer uma visita que Maria faz à sua prima Isabel, a qual tinha no seu ventre aquele que viria a nascer com o nome de João Baptista. A dada altura Maria exclama – “a minha alma engrandece ao Senhor. E o meu espírito se alegra em Deus meu Salvador” – v. 46,47. Como é que alguém isento de pecado poderá fazer tal afirmação, visto que, unicamente, o pecado nos faz reconhecer que precisamos, não só de um Salvador, como também de O conhecermos. Portanto, se Maria reconhece que precisa de um Salvador, a sua declaração demonstra, como facilmente se compreenderá, que ela desconhecia, em absoluto, que tinha sido agraciada com a dádiva que esta confissão religiosa lhe atribui.
2- O texto de Lucas 2.21-24 – aqui fala-nos da circuncisão de Jesus, como qualquer menino judeu. Logo a seguir dá-nos a conhecer o passo seguinte – a ida ao Templo para: 1- apresentarem a criança; 2- procederem conforme o que a lei levítica estipulava naquele caso. Ora, qual era o teor da lei em causa? Vejamo-lo – Lev. 12.3,6,7: - “No oitavo dia se circuncidará ao menino (…). E quando forem cumpridos os dias da sua purificação, por filho ou filha, trará um cordeiro de um ano por holocausto, e um pombinho ou uma rola para expiação do pecado, diante da porta da congregação, ao sacerdote. O qual o oferecerá perante o Senhor e por ela fará propiciação; e será limpa do fluxo do seu sangue. Esta é a lei da que der à luz varão ou fêmea.”. Esta era a lei para pessoas com possibilidades financeiras medianas. Havia um clausulado para quem fosse pobre, o que era o caso deste casal – José e Maria. De novo, o articulado da lei previa o seguinte: - “Mas, se a sua mão não alcançar assaz (sem posses), para um cordeiro, então tomará duas rolas, ou dois pombinhos: um, para o holocausto e o outro, para a expiação do pecado; assim, o sacerdote por ela fará propiciação e será limpa” – v. 8. E foi exactamente isto que aconteceu e assim é narrado no texto de S. Lucas. Uma vez mais, Maria e José ao agirem como quaisquer cidadãos, nestas condições, demonstram através deste acto que desconheciam totalmente que, um deles, estava isento de pecado!
3- Alguns textos de S. Paulo: - a) – Rom. 3.10 - “Não há um justo, nem um sequer” – aqui Paulo está a citar Antigo Testamento (I Reis 8.46; Salmo 14.3); b) – Rom. 3.23 – “Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus”; c) – Rom. 6.23 – “Porque o salário do pecado é a morte (…)”.
4- Alguns textos de João: - a) – I João 1.7 – “Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos e não há verdade em nós”; b) – I João 1.10 – “Se dissermos que não pecámos, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós”.
Todos estes textos desmentem, categoricamente, tal dogma. Quem terá razão? A falível palavra humana ou a infalível de Deus? O mesmo apóstolo Paulo responde: - “(…) sempre seja Deus verdadeiro, e todo o homem mentiroso”. Por outro lado, visto que esta bula papal foi emitida unicamente em 1854, como foi possível que só após dezanove séculos é que esta confissão religiosa ficou a saber que Maria tinha sido concebida sem pecado! Ficamos sem perceber não só qual a necessidade da informação como também o porquê da mesma! Cremos que, à luz do exposto, estamos claramente esclarecidos acerca deste dogma mariano.
Bibliografia:
“O termo é empregue nas Escrituras para designar as relações sexuais.” – Gerhard von Rad, La Genèse, Genève, ed. Labor et Fides, 1968, p. 100
Ver outros contextos da expressão utilizada por Mateus “até que” sob a noção de temporalidade: – Gén. 8.7; I Sam. 15.35; Mat. 5.26; 12.20; 18.30; 22.44
Georges Stéveny, op. cit., pp. 61,62; “(…) Em Isaías a tónica não é tanto na virgindade, mas sim no filho excepcional que deverá dar à luz” – Corrado Augias e Mauro Pesce, A Vida de Jesus Cristo, Lisboa, ed. Editorial Presença, 2008, p. 82
Catecismo da Igreja Católica, p. 120, nº 491
Alfredo Kuen, Je Bâtirai Mon Eglise, Vevey, Ed. Emmaus, 1967, p. 37, nota 33