quarta-feira, 1 de julho de 2009

EM QUE SENTIDO SÃO AS 70 SEMANAS UM PERÍODO DE GRAÇA CONCEDIDO AO POVO JUDEU?

Em certa ocasião, sendo interrogado por Pedro sobre até quantas vezes se deveria perdoar a um irmão, Jesus declarou: “Não te digo que até sete vezes, mas até setenta vezes sete.” Mateus 18:21 e 22. É possível que as palavras de Cristo estivessem fizessem referência a Daniel 9:24, pois neste texto se estabelece um período de 70 semanas (70 x 7 = 490) “sobre o teu povo (Israel) e sobre a tua santa cidade (Jerusalém)”. Dessa forma, as 70 semanas são na verdade um período de graça destinado à raça eleita para que ela pudesse atender à voz de Deus. Segundo as Escrituras, após o término desse período (no ano 34 A.D.), o povo judeu foi rejeitado como o agente pelo qual Deus desejava comunicar o Evangelho da Sua graça ao mundo. As evidências escriturísticas para isso estão enumeradas abaixo:
1) Na semana de Sua crucifixão, Jesus narrou uma parábola, segundo a qual um homem plantou uma vinha, arrendou-a a uns lavradores e ausentou-se do país. Depois, esse senhor enviou os seus servos para receber a sua parte, mas os lavradores maltrataram alguns desses servos, e a outros mataram e não entregaram a porção devida ao dono da vinha. Então o senhor enviou mais outros servos, os quais foram tratados da mesma forma. Por fim, o senhor enviou o seu próprio filho na esperança de que fosse respeitado, mas, em vez disso, também esse foi morto. Após contar essa parábola, Jesus perguntou aos líderes judeus que com Ele debatiam: “Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores?” Mateus 21:40. A resposta irrefletida dos Seus interlocutores foi: “Fará perecer horrivelmente a estes malvados e arrendará a vinha a outros lavradores que lhe remetam os frutos nos seus devidos tempos.” Mateus 21:41. Jesus, então, confirmando a acertada resposta dos sacerdotes e fariseus, sentenciou: “Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que produza os respectivos frutos.” Mateus 21:43.
O sentido dessa parábola é por demais evidente para ser olvidado. A vinha representa Israel (Salmos 80:8 e Isaías 5:7); o seu dono é Deus; os lavradores representam os judeus; os servos, os profetas; e o filho é Jesus. A lição é clara: visto que os judeus rejeitaram a mensagem dos profetas e de Cristo, o reino de Deus lhes seria tirado e entregue a um outro povo, que produzisse frutos de obediência, uma alusão à Igreja Cristã.
O mesmo relato é encontrado em Marcos 12:1-12 e Lucas 20:9-18.
2) O apóstolo Paulo, escrevendo aos cristãos tessalonicenses, disse-lhes que se tinham tornado “imitadores das igrejas de Deus existentes na Judéia em Cristo Jesus”, pois estavam suportando pacientemente da sua gente “as mesmas coisas que eles, por sua vez, sofreram dos judeus, os quais não somente mataram o Senhor Jesus e os profetas, como também nos perseguiram, e não agradam a Deus, e são adversários de todos os homens, a ponto de nos impedirem de falar aos gentios para que estes sejam salvos, a fim de irem enchendo sempre a medida dos seus pecados. A ira, porém, sobreveio contra eles, definitivamente.” 1 Tessalonicenses 2:14-16. Esta idéia é confirmada por Paulo em Romanos 11:15, em que se diz que os judeus foram rejeitados como o agente de Deus para a divulgação das boas novas. Além disso, nesse mesmo capítulo (Romanos 11), a rejeição de Israel é ilustrada pela figura de uma oliveira, cujos ramos naturais são cortados(versos 17, 19, 20 e 21) e novos ramos são enxertados (os gentios).
3) Certa vez, quando Jesus enviou os Seus 12 discípulos a pregar o Evangelho, deu-lhes a seguinte recomendação: “Não tomeis rumo aos gentios, nem entreis em cidade de samaritanos; mas, de preferência, procurai as ovelhas perdidas da casa de Israel.” Mateus 10:5 e 6. Essa preferência pela raça eleita também foi ilustrada através das parábolas das bodas (Mateus 22:1-14) e da grande ceia (Lucas 14:15-24). Em certa ocasião, quando uma mulher cananéia rogou ao Mestre que expulsasse o demónio da sua filha, Ele lhe respondeu: “Não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel” e “Não é bom tomar o pão dos filhos e lançá-lo aos cachorrinhos”. Mateus 15:21-28 e Marcos 7:24-30. Porém, após a morte de Cristo (em 31 A.D.), o apedrejamento de Estevão (em 34 A.D.), e a subsequente perseguição à Igreja (no mesmo ano), Paulo, percebendo a dureza de coração de seus concidadãos, anunciou: “Cumpria que a vós outros, em primeiro lugar, fosse pregada a palavra de Deus; mas, posto que a rejeitais e a vós mesmos vos julgais indignos da vida eterna, eis aí que nos volvemos para os gentios.” Actos 13:46. Essa sentença, motivada pelo Espírito Santo de Deus, demonstra que a nação eleita, em razão dos seus pecados e da sua completa rejeição ao Santo Evangelho, perdeu o privilégio de ser o arauto da mensagem de Cristo às nações dos 4 cantos da terra.

O SACRIFÍCIO E A OFERTA DE MANJARES

O “sacrifício e a oferta de manjares” seriam tirados durante a metade da última semana ou no meio dela?
A palavra hebraica traduzida por “metade” (heb.: - chetsi) pela Versão Almeida Revista e Atualizada também poderia ter sido vertida para o Português como “meio”. Os tradutores que vêem em Daniel 9:27 uma referência a Antíoco Epifânio ou a um futuro Anticristo preferem a tradução “metade de uma semana”. Por outro lado, os que defendem que a referência é ao Messias optam pela tradução “meio da semana”. Uma discussão mais detalhada sobre a verdadeira identidade do “Ele” em Daniel 9:27 pode ser encontrada na resposta à pergunta 10.
Embora um grande número de versões modernas adopte a tradução “metade de uma semana”, essa escolha não é a mais acertada, pois quando “chetsi” está em “status constructus” com um período de tempo, significa sempre “meio” e nunca “metade”. É o que ocorre em todas as seguintes passagens: Êxodo 12:29; Josué 10:13; Juízes 16:13; Rute 3:8; e Jeremias 17:11. A percepção desse detalhe assegura que o acto de “fazer cessar o sacrifício e a oferta de manjares” deveria ocorrer no meio da septuagésima semana da profecia de Daniel, o que se cumpriu perfeitamente por ocasião da morte de Jesus.

Bibliografia:
DOUKHAN, Jacques, “The Seventy Weeks of Daniel 9: An Exegetical Study”, The Sanctuary and the Atonement – Biblical, Historical and Theological Studies, preparado pelo Biblical Research Committee of the General Conference of the Seventh-day Adventists. Editores: Arnold V. Wallenkampf e W. Richard Lesher. Washington, D.C.: The Review and Herald Publishing Association.

QUAIS SÃO AS EVIDÊNCIAS QUE NO MEIO DA ÚLTIMA DAS SETENTA SEMANAS JESUS SERIA MORTO?

É de suma importância, para o devido entendimento da profecia de Daniel 9, a identificação do evento a ocorrer no meio da septuagésima semana. A informação fornecida pelo verso 27 é referente à cessação do “sacrifício” e da “oferta de manjares”. Assevera-se que isso está associado à morte de Jesus. Qual é o fundamento bíblico para tal posicionamento? Em primeiro lugar, deve-se atentar para o facto de que o verso 26 apresenta uma inequívoca referência à morte do Messias, o que já demonstra que tal evento é abordado pela profecia. Mas, é nas cartas aos Efésios e aos Hebreus que são encontradas as declarações bíblicas que vinculam a morte de Jesus ao meio da última semana:
“E andai em amor, como também Cristo nos amou e Se entregou a Si mesmo por nós, como oferta e sacrifício a Deus, em aroma suave.” Efésios 5:2.
“Por isso, ao entrar no mundo, diz: Sacrifício e oferta não quiseste; antes, um corpo Me formaste; não Te deleitaste com holocaustos e ofertas pelo pecado. Então, Eu disse: Eis aqui estou (no rolo do livro está escrito a Meu respeito), para fazer, ó Deus, a Tua vontade. Depois de dizer, como acima: Sacrifícios e ofertas não quiseste, nem holocaustos e oblações pelo pecado, nem com isto Te deleitaste (coisas que se oferecem segundo a lei), então, acrescentou: Eis aqui estou para fazer, ó Deus, a Tua vontade. Remove o primeiro para estabelecer o segundo. Nessa vontade é que temos sido santificados, mediante a oferta do corpo de Jesus Cristo, uma vez por todas.” Hebreus 10:5-10.
Estes textos ecoam os dizeres de Daniel 9:27, pois neles se diz que Cristo Se entregou “como oferta e sacrifício a Deus em aroma suave” (Efésios 5:2); que ao entrar no mundo, Jesus Se dirige ao Pai, dizendo: “sacrifícios e ofertas não quiseste; antes, um corpo Me formaste” (Hebreus 10:5); que Ele vem para fazer a vontade de Deus (Hebreus 10:7), a qual é identificada com Sua morte (Hebreus 10:10); e que Seu sacrifício resulta na remoção do antigo sistema e no estabelecimento do novo (Hebreus 10:9).
A razão da substituição do sistema de sacrifícios do Antigo Testamento pelo sacrifício de Cristo no Novo Testamento está no facto de que o objectivo daquele era apontar para este último. Por isso é que Isaías diz que o Servo Sofredor “como cordeiro foi levado ao matadouro” para dar “a Sua alma como oferta pelo pecado” Isaías 53:7 e 10. Todos os sacrifícios do Velho Concerto tipificavam a morte de Jesus e os que deles se serviram só seriam de facto beneficiados se o Salvador vertesse o Seu “precioso sangue, como de cordeiro sem defeito e sem mácula” sobre o madeiro (1 Pedro 1:19), pois “é impossível que o sangue de touros e de bodes remova pecados” (Hebreus 10:4). João Baptista estava a par desse simbolismo quando contemplou a Jesus, que vinha ao seu encontro, no Jordão, o que o motivou a exclamar: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” João 1:29 e 36. Como a razão de ser do sistema cerimonial era apenas o de prefigurar o vindouro sacrifício de Jesus, quando este se efectuou, aquele chegou ao fim. Isso explica porque o “o véu do santuário se rasgou em duas partes de alto a baixo” (Mateus 27:51; Marcos 15:38; e Lucas 23:45). Diante dessas considerações, não restam dúvidas de que o evento predito para o meio da septuagésima semana era a morte de Jesus.

O APEDREJAMENTO DE ESTEVÃO E O FIM DAS 70 SEMANAS

Embora a profecia não faça menção à morte de Estevão como um marco do encerramento do período especialmente concedido ao povo de Israel, algumas informações encontradas no livro dos Actos dos Apóstolos conferem plausibilidade a essa conclusão.
Antes do apedrejamento de Estevão, relatado no capítulo 7 de Actos, não se faz menção à conversão de samaritanos ou de gentios. Em Actos 2, que trata dos maravilhosos acontecimentos do Dia de Pentecostes, só se faz referência a prosélitos, que não obstante serem gentios de nascimento, já eram membros reconhecidos da comunidade judaica.
No mesmo dia em que Estevão foi martirizado, “levantou-se grande perseguição contra a igreja em Jerusalém; e todos, excepto os apóstolos, foram dispersos pelas regiões da Judéia e Samaria.” Actos 8:1. Em decorrência dessa terrível perseguição, os seguidores de Cristo foram espalhados para outras regiões, nas quais puderam pregar o Evangelho aos não-judeus (Actos 8:4). “Filipe, descendo à cidade de Samaria, anunciava-lhes a Cristo.” Atos 8:5. Filipe pregou ainda a um etíope que voltava de Jerusalém para sua terra (Actos 8:26-40). Depois disso, Saulo, perseguidor da Igreja, passou pela gloriosa experiência do caminho de Damasco, em que foi chamado para ser “um instrumento escolhido” para pregar o Evangelho “perante os gentios e reis, bem como perante os filhos de Israel” Actos 9:17. Por fim, Pedro foi conduzido pelo Espírito Santo até ao centurião romano, de nome Cornélio, a quem anunciou as boas novas da salvação. Ver Actos 10.
Em Actos 11, uma importante sequência de informações também destaca a morte de Estevão como o ponto a partir do qual a mensagem de Cristo se estendeu aos gentios. Sendo indagado sobre sua recente visita à residência de um gentio, Pedro fez um relato do progresso da obra do Evangelho entre os estes. Então, “ouvindo eles estas coisas”, alegraram-se muito “e glorificaram a Deus, dizendo: Logo, também aos gentios foi por Deus concedido o arrependimento para vida.” Actos 11:18. Dando prosseguimento ao relato, o autor de Actos explica que “os que foram dispersos por causa da tribulação que sobreveio a Estêvão se espalharam até à Fenícia, Chipre e Antioquia, não anunciando a ninguém a palavra, senão somente aos judeus.” Actos 11:19. Como muitos deles não estavam certos ainda da importância de se pregar a mensagem de Cristo aos gentios, restringiram-se a falar somente aos judeus residentes nesses lugares, mas “alguns deles, porém, que eram de Chipre e de Cirene e que foram até Antioquia, falavam também aos gregos, anunciando-lhes o evangelho do Senhor Jesus.” Actos 11:20. Dessa forma, torna-se evidente que os Actos dos Apóstolos vinculam o término do período separado especialmente para os judeus com o lapidação de Estevão e com a primeira perseguição aos cristãos.

O SERVIÇO REALIZADO NO DIA DA EXPIAÇÃO E O SEU SIGNIFICADO

O Antigo Santuário Israelita era uma estrutura bipartida, sendo o primeiro compartimento denominado de Lugar Santo e o compartimento mais interior de Lugar Santo dos Santos (ou Santíssimo). Do lado de fora do Santuário, havia uma área separada para os serviços sagrados denominada de Átrio (ou Pátio). Nela, diariamente entravam as pessoas que vinham trazer suas ofertas ao Santuário. No Lugar Santo, o acesso também era diário, mas destinado somente aos sacerdotes (classe de pessoas designadas para oficiar como mediadores do povo). No Lugar Santo dos Santos, o acesso era bem mais restrito: somente o sumo sacerdote (o líder dos sacerdotes) podia nele ingressar e apenas uma vez ao ano, no Dia da Expiação (o décimo dia do sétimo mês judaico). Ver Hebreus 9:1-7.
A entrada do sumo sacerdote no Lugar mais sagrado do Santuário tinha um objetivo especial: purificá-lo de todos os pecados dos filhos de Israel. Durante todo um ano, os israelitas, com o fim de terem seus pecados perdoados, traziam suas ofertas ao Santuário. Era a chamada “oferta pelo pecado”, na qual o pecador arrependido colocava suas mãos sobre a cabeça da vítima, transferindo para ela suas iniqüidades, e a sacrificava. Depois, o sacerdote comia a carne ou levava um pouco do sangue do sacrifício para dentro do Santuário. De um jeito ou de outro, o pecador era perdoado, mas seus pecados não estavam ainda extintos; eram transferidos para o sacerdote, e por meio dele ao Santuário, ou, eram transferidos diretamente, através do sangue, para aquele lugar sagrado. Assim, o Santuário ficava poluído com os pecados da nação israelita. No Dia da Expiação, a função do sumo sacerdote era limpar o Santuário de sua contaminação. Por isso, depois de efetuar a escolha de 2 bodes, um para o Senhor e outro para Azazel, sacrificava o primeiro e entrava com seu sangue até o interior do Lugar Santíssimo, onde depositava um pouco do sangue sobre a arca da aliança. Com isso, tomava sobre si os pecados, saía do Santuário e os colocava sobre a cabeça do bode por Azazel; esse bode não era sacrificado, mas era solto no deserto, no qual vivia até perecer. Por meio desse ritual, o Santuário era purificado de todos os pecados que para ele haviam sido transferidos. Maiores detalhes acerca dessas cerimônias podem ser encontradas em Levítico 4 e 16.
O ministério dos sacerdotes no primeiro compartimento representava o ofício intercessório que Jesus, Sumo Sacerdote do Céu, deveria cumprir no Lugar Santo do Santuário Celestial. E assim como, no Dia da Expiação, o sumo sacerdote judeu entrava no Lugar Santo dos Santos, ao final dos 2.300 dias-anos de Daniel 8:14, isto é, em 1.844 A.D., Jesus entrou no recinto mais interior do Santuário do Céu, com o fim de purificá-lo. Dessa forma, do ano 31 A.D., quando ascendeu à alturas, até 1.844 A.D., Jesus Cristo esteve intercedendo pela raça pecadora no primeiro compartimento do Santuário; mas, depois disso, houve uma mudança em Seu ministério e, hoje, Ele está no Santo dos Santos do Céu, empenhado na última parte de Sua obra em prol dos seres humanos. Findando esse trabalho, Ele voltará para resgatar Seus escolhidos e levá-los para as mansões celestiais.

ABORDAGEM À PROFECIA DE DANIEL 9


As Escrituras revelam que os antigos profetas não somente se preocuparam em anunciar eventos futuros, como também em indicar o tempo de seu cumprimento. Os 120 anos de graça destinados ao mundo antediluviano (Génesis 6:3), os 7 dias que precederiam o início da chuva, a qual deveria cair por 40 dias ininterruptos (Génesis 7:4), os 400 anos de peregrinação da descendência de Abraão (Génesis 15:13 e Atos 7:6), os 3 dias para o copeiro e para o padeiro de Faraó (Génesis 40:12, 13, 18 e 19), os 7 anos de fartura e os outros 7 de fome sobre a terra do Egito (Génesis 41:26, 27, 29 e 30), os 40 anos de jornada no deserto (Números 14:33 e 34), os 3 anos e meio de seca no reinado de Acabe (1 Reis 17:1 e Lucas 4:25), o cativeiro de 70 anos (Jeremias 25:11 e 12; 29:10 e Daniel 9:2) e os 7 tempos de loucura de Nabucodonosor (Daniel 4:16, 23, 25 e 32) foram períodos que delimitaram a realização dos acontecimentos preditos.
Não poderiam os profetas ter antecipado também a época do advento do Redentor? A lógica sugere que sim, o que é confirmado pelo apóstolo Pedro, segundo o qual “os profetas que profetizaram da graça que vos foi dada” “inquiriram e trataram diligentemente” da salvação, “indagando que tempo ou que ocasião de tempo o Espírito de Cristo, que estava neles, indicava, anteriormente testificando os sofrimentos que a Cristo haviam de vir e a glória que se lhes havia de seguir.” 1 Pedro 1:10 e 11.
Os dados cronológicos concernentes à primeira vinda de Cristo podem ser encontrados em Daniel 9, em que já estavam preditos, com inigualável precisão, os anos exatos do início e do fim do ministério do Salvador. Contudo, visto que Daniel 9 constitui um complemento ao capítulo 8, imperioso se torna o estudo concatenado de ambos.

ABORDADEM À PROFECIA DE DANIEL 8:14


O capítulo 8 descreve uma fascinante visão recebida pelo profeta Daniel, na qual ele contemplou um carneiro, um bode e uma ponta pequena. Esse último elemento lhe atraiu particular interesse, em virtude de seu ataque ao exército do Céu, ao Príncipe dos príncipes e ao Santuário Celestial. Enquanto observava a blasfema atuação da ponta pequena, Daniel ouviu um santo anjo a indagar: “Até quando durará esta visão?”. A solene resposta é encontrada em Daniel 8:14: “Ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado.”.
Daniel 8:14 faz referência a um longo período profético, findo o qual o Santuário seria purificado. Esse período possui especial importância por estar intimamente associado às 70 semanas de Daniel 9, cujo principal objetivo é localizar o tempo do ministério de Jesus. Daí, a necessidade de uma investigação mais detalhada das 2.300 tardes e manhãs.

JESUS, OS APÓSTOLOS E AS PROFECIAS

As profecias bíblicas exercem um papel proeminente na mensagem cristã. Os primeiros discípulos delas se serviram para proclamar ao mundo que Jesus era “o Cristo, o Filho do Deus vivo” Mateus 16:16. O apóstolo Pedro, por exemplo, afirmou que, pela ignorância das autoridades judaicas, ao conduzirem Jesus à morte, “Deus assim cumpriu o que dantes anunciara por boca de todos os profetas que o Seu Cristo havia de padecer.” “E todos os profetas, a começar com Samuel, assim como todos quantos depois falaram, também anunciaram estes dias.”Actos 3:18 e 24. Paulo, o “apóstolo dos gentios”, pregando numa sinagoga de Antioquia, também fez menção das profecias messiânicas para anunciar Jesus, declarando que “os que habitavam em Jerusalém e as suas autoridades, não conhecendo Jesus nem os ensinos dos profetas que se lêem todos os sábados, quando O condenaram, cumpriram as profecias... Depois de cumprirem tudo o que a respeito dEle estava escrito... puseram-nO em um túmulo. Mas Deus O ressuscitou dentre os mortos.”Actos 13:26-31. Outro exemplo do uso das profecias como prova convincente da messianidade de Jesus se observa em “Apolo, homem eloqüente e poderoso nas Escrituras... porque, com grande poder, convencia publicamente os judeus, provando, por meio das Escrituras, que o Cristo é Jesus.” Actos 18:24 e 28. Assim, torna-se evidente que as profecias referentes ao Salvador ocupavam uma posição de grande destaque nas primitivas pregações cristãs. Ver também Actos 10:43; 17:2, 3 e 11; 26:22 e 23; e 28:23.
O próprio Jesus lançou mão das profecias para revelar mais claramente a natureza de Seu ministério. Falando aos desalentados discípulos no caminho de Emaús, disse o Mestre galileu: “Ó néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na Sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a Seu respeito constava em todas as Escrituras.” Lucas 24:25-27. Mais tarde, estando com aqueles que durante 3 anos e meio não conseguiram discernir a verdadeira essência de Sua missão, disse Jesus: “São estas as palavras que Eu vos falei, estando ainda convosco: importava se cumprisse tudo o que de Mim está escrito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos.” Diz o relato inspirado que “então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em Seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém.” Lucas 24:44-47.

A IMPORTÂNCIA DA CRONOLOGIA PROFÉTICA

A Importância da Cronologia Profética.
As páginas do Antigo Testamento estão repletas de referências proféticas ao Redentor do mundo, descrevendo Sua derrota aparente e Seu triunfo final. No entanto, sem uma indicação clara quanto ao tempo de Sua manifestação, a identificação do Messias estaria profundamente comprometida. Um leitor de Isaías 53, por exemplo, ficaria a se indagar “a quem se refere o profeta. Fala de si mesmo ou de algum outro?” Actos 8:34. Tal dúvida seria pertinente, visto que o próprio Isaías fora martirizado; e, além dele, muitos outros já haviam sofrido injustamente. Para não dar margem a tais incertezas, Deus revelou certos períodos de tempo que atingissem a própria época do Messias, delimitando o início de Sua obra terrestre bem como o seu encerramento. Tais períodos são claramente delineados em Daniel 9, na célebre profecia das 70 semanas.
Agostinho, bispo de Hipona e um dos maiores expoentes da fé católica de todos os tempos, fez alusão a essa impressionante profecia, declarando que “Daniel determinou até o número de anos que passariam antes do advento e paixão de Cristo. O cômputo seria longo reproduzi-lo aqui, além de que outros já o fizeram antes de mim” (SANTO AGOSTINHO, A Cidade de Deus, tomo 2, capítulo XXXIV, n.º 1). Realmente, antes dele, muitos eminentes escritores cristãos já haviam tratado do tema, dentre os quais podem ser citados Tertuliano (terceiro século), Clemente de Alexandria (terceiro século), Hipólito (terceiro século), Júlio Africano (terceiro século) e Eusébio de Cesaréia (quarto século), que, embora apresentem inúmeros equívocos exegéticos em suas obras, ao menos demonstraram interesse pelos cômputos proféticos.
É óbvio que o Senhor Jesus também tinha ciência dessa profecia, sendo, em realidade, Seu legítimo Autor. Em Mateus 24:15, fazendo referência ao texto das 70 semanas e conectando-o ao evento da destruição de Jerusalém a se verificar no ano 70 da Era Cristã, advertiu Jesus: “Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê entenda).” Ver Daniel 9:27. Depreende-se desse texto que Jesus não somente reconhecia a importância da profecia de Daniel, aplicando-a ao Seu tempo, mas ainda recomendava o seu estudo e correta compreensão.

O SANTUÁRIO E AS PROFECIAS DE DANIEL

INTRODUÇÃO

Não é o objetivo deste trabalho estudar em detalhes as profecias do livro de Daniel, porém não é possível realizar um estudo satisfatório do santuário sem se referir à obra de Cristo tal como ela é descrita nos livros de Daniel e Apocalipse. Neste apêndice serão abordadas algumas idéias que mostram esta conexão santuário-profecias e ao mesmo tempo mostram a Cristo como o centro destas duas revelações bíblicas.
Comumente, as profecias de Daniel são estudadas na ordem sequencial dos capítulos (isto é, se estudam os capítulos 2,7,8 e 9, nesta ordem). Mas para os nossos objetivos, será conveviente começar analisando o capítulo 9.
Daniel 9: o Santuário e o Sacrifício
O capítulo começa com uma fervorosa oração. Daniel estava preocupado com a restauração de Israel e principalmente com o estado no qual se encontrava o Templo em Jerusalém (ver, por exemplo, o verso 17). Daniel tinha percebido que os 70 anos de cativeirio previstos por Jeremias estavam a chegar ao seu fim e perguntava-se se acaso as profecias de tempo dos capítulos anteriores significavam um adiamento da restauração de Israel. Isto preocupava o profeta, pois o exílio do povo, o estado de destruição de Jerusalém e principalmente o facto do Templo estar em ruinas, significava desonra para Deus. Portanto, repetimos mais uma vez, Daniel estava preocupado com a restauração do Santuário em Jerusalém.
Mas o anjo Gabriel foi enviado para dar explicações a Daniel. O anjo explicou-lhe que não era o Templo de Jerusalém que devia ser o centro da suas preocupações(de facto o Santuário Terrestre acabaria por ser definitivamente destruido, Dan.9:26) e o anjo elevou-lhe o olhar para o Santuário Celestial do qual nos fala o livro de Hebreus (ver Heb. 8:1-2). É com o Santuário Celestial que a verdadeira obra de restauração está relacionada. Como veremos, as profecias de Daniel 9,8 e 7 (e grande parte das profecias de Apocalipse) são na verdade revelações acerca do Santuário Celestial.
Como já fora explicado, o versículo 24 faz referência à inauguração do Santuário Celestial ("...e para ungir o Santíssimo'', diz o verso). Isto significa que a profecia das setenta semanas indica o tempo em que entraria em funções o Santuário Celestial. Mas o aspecto mais importante deste capítulo é mostrar o Messias como o verdadeiro sacrifício em nosso favor, que acabaria com todos cerimoniais do Santuário Terrestre (versos 25 a 27).
Do estudo feito neste trabalho, podemos ver que as festas bíblicas agrupam-se em dois polos. Primeiro temos as festas associadas à Páscoa: Pães Ázimos, Primicias e Pentecostes (pois a data de realização da festa de Pentecostes depende da realização da Páscoa. Em segundo lugar temos as festas associadas ao Dia da Expiação: Festa das Trombetas e Festa dos Tabernáculos. Como vemos, o capítulo 9 de Daniel se relaciona com a inauguração do Santuário e com as festas associadas à Pascoa.
Mas, poderiamos pensar, haverá alguma profecia, no livro de Daniel, referente às festas associadas ao Dia da Expiação ? A resposta é Sim. Estas profecias estão nos capítulos 7 e 8 de Daniel.
Daniel 7 e 8: Juizo Pré-Advento
A referência mais evidente ao Santuário se encontra em Daniel 8:14: ''E ele me disse: Até duas mil e trezentas tardes e manhãs; e o santuário será purificado''. De acordo com o dito nos parágrafos anteriores, a referência deve ser ao Santuário Celestial. É necessário, porém, que entendamos que significa a purificação do santuário.
No contexto de Daniel 8 a purificação do Santuário aparece como a reação divina frente aos ataques do poder opressor representado pelo chifre pequeno (ver Daniel 8:9-14). No capítulo 7, vemos novamente a ação de um poder perseguidor do povo de Deus e a resposta divina, mas desta vez a reação de Deus contra os Seus inimigos é representada por um juizo que culmina com a destruição dos inimigos de Deus e, por contraste, a final vindicação do povo de Deus ao receberem o Reino (ver Daniel 7:7-10 e 21-26). Devemos notar também que o Dia da Expiação apontava justamente a ação divina que culminaria com a destruição final do pecado e os ímpios. Fundamentados no princípio de paralelismo das profecias de Daniel e respaldados pelo contexto discutido nas linhas anteriores, podemos concluir que a purificação do Santuário, o juizo mencionado em Daniel 7 e o Dia da Expiação descrevem o mesmo acontecimento e portanto são equivalentes. Este obra de juizo tem sido tradicionalmente chamada de Juizo Investigativo ou melhor, Juizo Pre-Advento, pois ele acontece antes da Volta de Jesus.
Sumário e Comentários Finais
Temos visto que Daniel 9 está intimamente relacionado com as festas associadas à Pascoa e que Daniel 7 e 8 relacionan-se às festas associadas ao Dia da Expiação. Podemos dizer que estes três capítulos não são mais do que um profecia acerca do Santuário Celestial ou, equivalentemente, sobre a obra de Cristo primeiro como o sacrifício substitutivo e logo como Sumo Sacerdote. É, em última instância, esta profunda relação entre estes capítulos que nos permitem afirmar que os períodos proféticos de Daniel 8 e 9 devem ter início na mesma data, a saber, 457 A.C. com a promulgação do decreto de Artaxerxes (ver Esdras 7:1-26).
Para finalizar, notemos que os capítulos 4 e 5 de Apocalipse não são mais do que uma versão mais detalhada da visão de Daniel 7:9-14. Assim, a relação entre Apocalipse e o Santuário se torna ainda mais intensa e viva o que nos dá maior e mais forte motivação para o estudo dos assuntos realcionados aos serviços nos Santuário, tanto o terrestre como o celestial.